domingo, 13 de setembro de 2009

Poesia e humor sob a forma de conselhos de animais: “Dança quando chegares ao fim”, de Richard Zimler e Bernardo Carvalho

Livro de estreia de Richard Zimler, reconhecido e premiado romancista, no âmbito da literatura de potencial recepção infantil, Dança Quando Chegares ao Fim distingue-se pela eficácia comunicativa que o caracteriza, resultado de uma estreita cumplicidade estabelecida entre o texto do autor de origem norte-americana, já naturalizado português, e as imagens de Bernardo Carvalho.

O grande público, que se habituou a seguir a saga da família Zarco, desde O Último Cabalista de Lisboa (1999), passando por Meia-Noite ou O Princípio do Mundo (2003), Goa ou O Guardião da Aurora (2005) até, mais recentemente chegar ao volume A Sétima Porta (2007), ou a navegar hesitante, entre a realidade e a ficção em À Procura de Sana (2006), pode surpreender-se com esta incursão num universo tradicionalmente tido como menor ou mesmo marginal. E, contudo, o autor não só se revela extremamente hábil na mudança de registo como exprime, pela forma como manuseia a língua portuguesa e brinca com as suas sonoridades e sentidos, o encanto da descoberta da ludicidade das rimas em português, numa espécie de viagem tardia – talvez mesmo apócrifa – às memórias de infância.

Podendo incluir-se no âmbito do álbum, mesmo estando ausente a estruturação típica da narrativa, esta publicação reúne um conjunto de quase três dezenas de conselhos que, com recurso à rima e a uma estrutura próxima da poética, junta animais e humanos, apresentando os primeiros como conselheiros dos segundos. O subtítulo do livro – «bons conselhos de amigos animais» – esclarece acerca da autoria dos pareceres, ao mesmo tempo que colabora na identificação do género da obra.

Combinando a herança dos bestiários medievais com a da literatura sapiencial, patente nos livros de conselhos, contemporâneos dos primeiros, este volume que agora vem a lume funciona como uma espécie de paródia subversiva daqueles géneros literários, caracterizados pelo didactismo do seu discurso.

A presença do humor, em resultado dos jogos de linguagem, e também as associações imprevistas de animais, atenuam o carácter aparentemente moralista que define este género, identificado desde o subtítulo, sem deixarem de promover a reflexão pela mensagem que encerram. A construção do texto, seguindo a sequência de conselhos e a identificação dos respectivos autores, cria um ritmo particular, acentuado pela rima e pelos paralelismos sonoros e sintácticos. Caracterizado por uma certa hibridez genológica para a qual contribuem a combinação de características da poesia, como os efeitos sonoros e melódicos que o texto explora, como é o caso do ritmo binário que resulta da apresentação do texto em dísticos, com outras acentuadamente narrativas, permitindo identificar personagens, acções e até ambientes, o texto parece recuperar uma rotina particular e uma forma de organização do tempo – o dia-a-dia infantil –, sobretudo no final do livro, os momentos associados ao fim do dia, à noite e aos preparativos para o sono. Promovendo o reconto, possivelmente a leitura em família, o álbum associa-se a uma espécie de ritual que antecede o sono e os sonhos.

Implicitamente, a mensagem do livro aponta também no sentido de entender os animais (e a Natureza) como conselheiros e professores/educadores dos humanos, sugerindo que os primeiros vivem num estádio de perfeição e de desenvolvimento superior em relação aos segundos. Aconselhando, entre outras qualidades, prudência, ponderação, calma, curiosidade e espírito crítico, esperança e alegria, perseverança, reflexão, solidariedade e altruísmo, verdade, fidelidade aos sonhos e ideais, calma e tranquilidade, os animais seleccionados parecem oferecer a receita para uma vida feliz e descomprometida (mas intensamente vivida), capaz de conduzir a «sonhos tranquilos e felizes», como aconselham as sábias perdizes.

Particularmente diversificado e rico, o vasto bestiário aqui recriado inclui espécies conhecidas e próximas, facilmente identificáveis pelos leitores mais pequenos, a par de outras mais exóticas e mais estranhas, apelando à curiosidade e ao espírito de descoberta do público preferencial – mas não exclusivo – a que se destina. No primeiro grupo, incluem-se, entre outras, a leoa e o leão, o cão e a cadela, o lagarto, o ratinho e o gato, o ganso e a gansa ou os elefantes, enquanto, no segundo, podem contar-se o lama e o papa-figo, o pangolim e o guaxinim, o furão e o bico-agulha, ou as hienas e os chacais. Individualmente ou em pares, formando um casal da mesma espécie ou juntando rivais, os vários animais convocados desfilam pelas páginas como se se dirigissem a uma original Arca de Noé, também ela destinada a redimir os homens pelo conselho e pelo exemplo, devolvendo-os a uma espécie de paraíso perdido.

A assiduidade da temática animal no universo da literatura de potencial recepção infantil permite entendê-la como um eixo ideotemático semanticamente produtivo pelo reconhecimento imediato que permite e por todas as potencialidades simbólicas e imagéticas que evoca. Combinando e cruzando diferentes heranças – literárias, linguísticas, culturais e simbólicas – o autor reinventa a tradição, brincando com as palavras, promovendo associações invulgares e inusitadas, próximas do universo nonsensical.

As ilustrações de Bernardo Carvalho, como é seu hábito, acrescentam elementos significantes ao texto, dialogando com ele e completando-o. Com recurso a uma técnica simples e altamente eficaz, o ilustrador não só sugere os elementos centrais da narrativa, nomeadamente as personagens humanas e animais, como conota expressivamente as imagens, transmitindo emoções e sublinhando a vertente humorística do texto. No estilo que o caracteriza, o criador explora os jogos com as formas, os volumes e as cores potenciando impressões de movimento e de dinamismo que caracterizam as ilustrações, também em resultado de uma certa sugestão de traço ágil, vigoroso e quase espontâneo, como as pequenas manchas coloridas parecem revelar. A expressividade que delas sobressai é sublinhada pelos contrastes e variações cromáticas, com especial ênfase para a valorização das tonalidades mais escuras e pelo grande impacto resultante do recurso ao sinal contorno que assegura, em alguns casos, a separação das personagens do fundo colorido. Caracterizadas pela máxima eficiência que resulta do uso de um mínimo de recursos, as imagens, muito contidas, quase sempre de página simples, com uma outra ou outra excepção que permite que se estendam à dupla página, revelam, ainda, influências dos movimentos modernistas, como fica patente nas guardas, sobrepondo elementos e jogando com perspectivas, transparências e opacidades. Assegurando a coesão do livro e a articulação dos vários segmentos textuais, nomeadamente pela representação de uma mesma figura humana (ou várias com afinidades físicas entre si, vejam-se as riscas identificativas da camisola) em diferentes situações, posições e interacções, as imagens sugerem uma certa narratividade, completando e complementando um texto assumidamente contido e plurissignificativo. Ao nível do projecto gráfico, também da responsabilidade do ilustrador, destaque-se a opção por um papel mate de elevada gramagem capaz de fixar as cores e de apelar ao manuseio.

Combinando cuidado estético – artístico e literário – com ludicidade, da qual não está ausente uma dimensão formativa, a construção deste álbum assenta na exploração dos efeitos cómicos das associações sonoras e semânticas. Tendo, como elemento coesivo, o universo animal, inova ao propor que sejam aquelas espécies a aconselhar as crianças e, em última instância, os Homens, enumerando princípios básicos de comportamento e de actuação. Sabiamente matizada, sobretudo pelos jogos linguísticos e pelo humor, a componente moralizante dilui-se num volume que traz, para o panorama literário português, ecos das associações nonsensicais que caracterizam a literatura tradicional infantil anglo-saxónica, conciliando, num mesmo livro, influências e tradições literárias distintas.

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro; membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 30 de agosto de 2009

“O Zbiriguidófilo e Outras Histórias” ou um trampolim oferecido ao espírito de quem escuta

“Les mots, les images ne s’offrent que comme trem­plins à l’esprit de celui qui écoute.

André Breton, Manifeste du Surréalisme

O entendimento da literatura para crianças como arte que revela e desnuda o homem nas diferentes fases da sua vida, e não apenas num primeiro estádio vital, a infância, através da presença do cómico, do humor e do não sentido, é o que encontramos no livro O Zibiriguidófilo e Outras Histórias, escrito por Pitum Keil do Amaral e ilustrado por Luísa Brandão (Edições ASA, 1991). Uma obra que nos propomos aqui recordar pela sua singularidade.

O livro é composto por cinco contos: “O Senhor que Lia o Jornal” (pp. 3-6), “O Zbiri­gui­dó­filo” (pp. 7-11), “O Menino e o Touro” (pp. 12-20), “Uma História de Pinguins” (pp.21-24) e “Uma História de Pira­tas...” (pp. 25-28). O título do macrotexto é dado pela segunda história, “O Zbiriguidófilo”, inaugurando a entrada do leitor em narrativas inscritas no mundo do “faz-de-conta” e, algumas vezes, às avessas, um mundo construído ao contrário, invertido e renovador de estruturas e valores narrativos instituídos. É também por isso que se inicia a leitura por aquela que será a primeira história das “outras histórias” e não por aquela que empresta o seu título à colectânea.

A inversão e o riso, tão presentes na infância, são também duas das categorias que marcam a obra. A primeira inversão dá-se na história que abre o livro, e logo a começar pelo seu título, “O Homem que Lia o Jornal”, indicando-nos, à partida, e se seguirmos as indicações dadas e definidas pela tipologia dos títulos, que a personagem principal será esse “Homem”.

Assim, “O Homem que Lia o Jornal” recria a situação, comum nas sociedades modernas, da falta de disponibilidade dos pais em relação aos filhos. Num mundo assustadoramente empreendedor, o pai desta “criança”, depois de um dia de trabalho, tudo o que deseja é chegar a casa, sentar-se e poder ler tranquilamente o jornal. No entanto, essa tranquilidade não é conseguida, pois “O senhor tinha um filho que era pequenino” (p. 3) e, persistentemente, pedia ao pai que “lhe contasse uma história” (p. 3), iniciando-se assim o drama familiar: “Ó Ilda – chamava o pai –, leva daqui esta criança, que eu não consigo ler o jornal” (p.4). Como o adulto, apesar das súplicas, não atendia ao seu pedido, a “criança” resolveu destruir o objecto da atenção do pai transformando o jornal, de uma das vezes, num chapéu, de outra vez num avião, o que enervou seriamente o pai e o levou a ir para a rua ler o jornal, longe do filho. Tão absorto estava na leitura que “(...) uma vez, ele vinha a andar, assim... e vinha um candeeiro em sentido contrário, assim... E... BOOING!” (p. 5). Da “porção de luzes a acender e a apagar” (p.5) que viu, uma iluminou-o: percebeu então que devia fazer um esforço por dar atenção ao filho e “Ficou então combinado que o pai contava todos os dias uma história ao filho, antes de ler o jornal” (p. 5). O senhor só conhecia as histórias que lia na secção desportiva do jornal, e era essas que recontava, e “o menino ouvia tudo com a maior atenção” (p. 6), e até ajudava a acabar as histórias gritando “– Go­oooo­ooooo­ooooo­olo!)” (p. 6). A mãe, Ilda, comovida com a cena familiar, “ficava também tão contente que até limpava uma lágrima de alegria no pano da loiça (o que é uma porcaria, mas enfim, uma vez por outra, não tem problema...)” (p. 6).

Tomando como exemplo esta pequena narrativa, podemos facilmente perceber que a moralidade se dirige mais aos adultos do que às crianças. Neste caso, o adulto que lê a história à criança poderá rever-se na pequena narrati­va. No plano da linguagem, encontramos um certo coloquialismo na narração e sobretudo em algumas expressões, o que estimula uma maior proximidade e participação, por parte da criança, na constru­ção dos sentidos da narrativa, pela via do entendimento. De realçar ainda dois passos do texto que constituirão, por razões diferentes, motivo de riso para a criança e que surgem de duas formas. Uma prende-se com a inversão da ordem natural das coisas: o candeeiro que vinha em sentido contrário – ou seja, não foi o pai quem chocou com o candeeiro que estava erguido e imóvel no passeio, sabendo a criança que os candeeiros não andam. A outra tem que ver com a infracção de sentenças éticas, representada pela mãe a fazer uma “porcaria”, limpando a lágrima ao pano da louça, quebrando assim uma regra de higiene que a criança à partida já aprendera – e se não aprendera, actua então aqui a máxima latina do ridendo, castigat mores.

A segunda narrativa (pp. 7-11) é marcada pelo insólito, pelo absurdo, pelo fantástico para o qual o nome “Zbiriguidófilo” remete. Não se trata aqui de fazer uso de um processo linguístico que permite amalgamar dois significantes pertencentes ou não a um mesmo campo semântico num só, mas de construir um termo cujo primeiro elemento isolado não oferece qualquer significado para além de um sentido hipoteticamente onomatopaico. Assim, em “Zbiriguidófilo”, apenas reconhecemos o segundo termo, “philos”, que etimologicamente significa “amizade, amor”. Sabe-se que o Zbiriguidófilo é um animal especial e que foi oferecido a um menino por “um tio, que viajava muito” e “lhe trouxe um dia o zbiriguidófilo, das ilhas Sandwich na Polinésia, escondido numa lata de bolachas (pois, como sabem, é proibido trazer zbiriguidófilos de lá” (p. 7). Os apartes coloquiais, por vezes parentéticos, do narrador/contador são elementos que assumem grande importância na construção desta narrativa em particular, mas que se observam em todas as outras presentes no livro, pois não só asseguram certa cumplicidade com a criança/ouvinte – conduzindo, consequentemente, a um pacto entre as duas partes, pacto esse absolutamente indispensável para a aceitação do absurdo como realidade – mas também inscrevem o texto escrito numa tradição oral, até pelo recurso complementar a suspensões, interrogações e exclamações. Prosseguindo na construção deste mundo fantástico, a criatura vinda das ilhas Sandwich (de notar também a genialidade na escolha deste nome, visto levar a criança a pensar num referente imediato e familiar, a sande, e não no primitivo nome das ilhas do Havai ou nas Ilhas Sandwich do Sul), essa criatura, dizíamos, “tinha várias cores e, quando o punham ao sol, mudava as cores dumas para as outras (de maneira que ficava sempre com as mesmas, mas trocadas – não sei se estão a perceber: onde antes era amarelo, ficava verde, e onde era verde ficava amarelo...)” (p.7). Não se está a descrever um dos possíveis processos de mimetismo, mas uma transformação que não existe e que adquire sentido apenas pela explicação dada e que será perfeitamente inteligível pela criança. Para além dessa fantástica característica, o zbiriguidófilo tinha de ser lavado “com uma mistura de sumo de tomate e pó de talco” e secado “entre as folhas do caderno de matemática, pois é isso que faz os zbiriguidófilos felizes. Os zbiriguidófilos adoram papel quadriculado” (p.8).

Depois de algumas peripécias engraçadas, o menino leva o seu animal de estimação para a escola e, “como era de esperar, fez um sucesso” (p. 11). Num acto instru­tivo, a professora resolve então procurar a entrada no dicionário para dar a definição correcta de zbiriguidófilo, como se estivesse certa da sua existência: “– Vou ler aos meni­nos o que diz aqui sobre os zbiriguidófilos... (...) ora... zbiriguidófilo... zbirigui­dó­filo... vem na letra Z... (...) – Não, não está na Z... Ah! Claro, vem na letra S... Sebiriguidófilo, evidente­mente...” (p. 11). Só a professora não compreendera, parafraseando Breton, que há palavras que não têm compromisso com a etimologia ou com o sentido do dicionário. As crianças, essas, despreocupadas com a dimensão normativa e reguladora do código linguístico, sabiam perfeitamente o que era um zbiriguidófilo e podem, por isso, seguir o conselho do narrador: “Agora, o melhor é irem para a cama, e sonharem com o zbiriguidófilo!” (p. 11).

A capacidade de estas histórias desconstruírem os esquemas da vivência, representados por conceitos e códigos rígidos, e, a partir do não sentido, e pela exploração da capacidade criadora e imaginativa das crianças, construírem mundos dentro do mundo é o aspecto mais marcante deste que foi o único livro de literatura para a infância escrito por Pitum Keil do Amaral – filho de Francisco Keil do Amaral e de Maria Keil, arquitecto de renome, actor ocasional, ilustrador também de alguns livros para crianças 1. E, contrariando observações feitas por António Manuel Couto Viana, em 1992 2, os outros textos, “O Menino e o Touro”, “Uma História de Pinguins” e “Uma História de Piratas...”, valem tanto quanto este a que o título confere destaque. E a não conclusão da última história não faz prova da não competência do autor, mas antes denuncia o seu conhecimento da arte da fantasia: o fechamento de um texto destinado à infância pode impor-se como censura e recusa ao direito de a criança, fechado o livro, poder dialogar com o onírico. Defender, portanto, tal posição é não aceitar que as narrativas para a infância, muitas vezes, “não se oferecem senão como trampolim ao espírito de quem escuta”.

Notas

1 Como, por exemplo, Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma (Porto: Figueirinhas, s.d.), dessa grande escritora que foi Irene Lisboa.

2 A. M. Couto Viana. Recensão de “O Zbiriguidófilo e Outras Histórias”, Rol de Livros, Fundação Calouste Gulbenkian, leitur@gulbenkian, http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=14098 (20/1/2008)

Ana Vasconcelos

(NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da Escola Superior de Educação do Porto)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

No aniversário (ontem) do seu assassinato, ler Lorca, que também escreveu para crianças

Federico García Lorca (1898-1936) nasceu em Fuentevaqueros, perto de Granada, e é considerado um dos maiores poetas europeus do século XX. A sua influência fez-se sentir em muitos poetas portugueses dos anos 30, 40 e 50, nomeadamente nos neo-realistas, em Eugénio de Andrade – que o traduziu admiravelmente –, mas também em Matilde Rosa Araújo, já nos anos 60.

Na muita e variada poesia de Lorca (Canciones, 1927, Romancero Gitano, 1928, Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935, Poeta en Nueva York (1929-30), 1940, etc.), cruzam-se veios diversos: o simbolismo e os ritmos e temas tradicionais (designadamente de raiz popular e andaluza) mas também uma linguagem em que já são visíveis traços das poéticas de vanguarda das primeiras décadas do século XX (entre as quais se conta, por exemplo, o surrealismo, rótulo que todavia Lorca sempre rejeitou). Em boa verdade, a sua voz poética era verdadeiramente singular. Personalidade de grande encanto, simpatia e talento, Lorca era também músico e cantor, encenador, actor e desenhador, além de grande dramaturgo (exemplos: Bodas de Sangue; Yerma; A Casa de Bernarda Alba), tendo escrito alguns poemas para crianças como “Canção tonta”. Conheceu ou foi amigo de artistas como o realizador de cinema Luís Buñuel, o poeta chileno Pablo Neruda, o pintor Salvador Dali.

Refugiando-se em Granada para fugir ao ambiente de agitação que se vivia em Madrid, acaba por ser surpreendido pelo levantamento fascista do General Franco (início da Guerra Civil em Espanha). Os franquistas prendem-no na tarde de 16 de Agosto de 1936 e, na madrugada de 18 para 19, fuzilam-no num campo dos arredores de Granada. O seu corpo nunca foi encontrado. Esta trágica circunstância, aliada à memória da própria personalidade de Lorca, viria a contribuir para tornar este poeta uma figura mítica.

Muitos outros poetas o prantearam, em particular companheiros seus do chamado “Grupo de 27” (Alberti, Manoel Altolaguirre, Luís Cernuda, Vicente Aleixandre, etc.), alguns dos quais viriam, eles também, a ser encarcerados, a morrer precocemente ou então a exilar-se para fugir à perseguição franquista.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Para saber mais sobre o autor e ler poemas seus:

http://www.garcia-lorca.org/

http://www.terra.es/personal2/ortz74/Fgl/inicio.htm

CANÇÃO TONTA

Mamã.
Eu quero ser de prata.
.
Filho,
terás muito frio.
.
Mamã.
Eu quero ser de água.
.
Filho,
terás muito frio.
.
Mamã.
Borda-me em tua almofada.
.
Está bem!
Agora mesmo!
.

FEDERICO GARCÍA LORCA, Antologia Poética, Lisboa, Relógio d’Água, p. 37 (trad. de José Bento)

sábado, 25 de julho de 2009

Saint-Exupéry: Contra o mundo das adições

Retiro da estante a minha velha edição de O Principezinho. Não refere data de publicação. Apenas me permite saber que se trata da 6.ª edição, com chancela da extinta Editorial Aster, em tradução assinada por uma voz, injustamente esquecida, da chamada literatura para crianças: Alice Gomes, poeta, autora de ficções e textos dramáticos, unida por laços familiares a dois outros vultos da escrita: Soeiro Pereira Gomes, seu irmão, e Adolfo Casais Monteiro, o marido.

Folheio o livro já amarelecido pelos anos e abro-o numa página ao acaso, justamente na passagem em que o Principezinho exprime a sua revolta contra os homens que apenas sabem fazer adições e nunca conheceram o prazer de aspirar o perfume de uma flor (pp. 28-30). Atentando na actualidade dessas palavras (e da obra de Saint-Exupéry), não consigo deixar de associar tal meditação a uma frase sobre os personagens que, na Europa de hoje, dominam a economia e a política. Escrita por Czeslaw Milosz, descubro-a numa crónica de Eduardo Prado Coelho («O velho continente», Público, 6/7/2000): «Estes homens de negócios com olhares nulos e sorrisos atrofiados… Foi a estes vermes que veio desembocar uma tão delicada e complexa civilização?»

O autor de Vol de Nuit foi, talvez, um dos derradeiros representantes dessa civilização e O Principezinho, além de poder ser lido como crítica ao envelhecimento do espírito e ao agressivo materialismo tecnocrático, anti-ecológico, do mundo contemporâneo, é também uma exaltação, já ferida pela melancolia, do valor dos ritos e da arte de construir afectos («Só há um luxo verdadeiro: o das relações humanas» – escreveu um dia o autor). Mas O Principezinho parece ser, acima de tudo, um canto à magia da infância que subsiste em cada adulto e que os anos não deveriam esboroar.

Talvez por tudo isto, não estejamos propriamente ante um livro para crianças. A dedicatória – «A Léon Werth quando era rapazinho» – parece confirmá-lo: «Quero dedicar este livro à criança que foi outrora essa pessoa crescida» (…) porque «todas as pessoas crescidas foram primeiro crianças» (p. 7).

Essa é, aliás, a única razão que encontro para o facto de o meu livro manter três flores, que o tempo secou, entre as já citadas páginas de censura aos «homens sérios», os que nunca aspiraram o perfume de uma flor nem contemplaram uma estrela. Impulso do adolescente que fui? Derradeiros traços desse período do fim da juventude em que descobri a obra de Saint-Exupéry? Talvez. Mas, precisamente porque não me olho ainda como um homem demasiado sério e entregue ao «mundo das adições», fecho O Principezinho e conservo as flores secas guardadas entre as suas páginas.

Uma última nota, quase deslocada neste testemunho: já se terá reparado que, sem as ingénuas aguarelas do autor, o texto de Saint-Exupéry era outra coisa? Na esteira de Beatrix Potter e de alguns outros, Saint-Ex, esse terno moralista, era quase um moderno e, conquanto não tenha produzido um picture story book, prenunciava, com o seu livro, a actual gramática do género, ou seja, a de uma narrativa construída segundo um princípio de articulação e complementaridade entre palavra e imagem.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 12 de julho de 2009

O Sofá Estampado, de Lygia Bojunga Nunes

Embora tenham sido editados no nosso país, escritores brasileiros como Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Ruth Rocha ou Ziraldo não lograram ainda atrair a atenção que as suas obras inquestionavelmente merecem.

Na comunidade dos países de língua oficial portuguesa, o nome de Lygia Bojunga Nunes assume relevo especial, por se tratar do primeiro autor deste imenso espaço linguístico contemplado com a distinção internacional de maior prestígio no domínio da literatura para a infância e juventude: o Prémio Hans Christian Andersen (de 1982), atribuído pelo International Board on Books for Young People.

Após Corda Bamba (Lisboa: Caravela, 1988) e A Bolsa Amarela (Porto: Edinter, 1989), viria a lume O Sofá Estampado (Lisboa: Verbo, 1992; ilustrações de Cristina Malaquias), cujo texto, na edição portuguesa, surge fixado por Natércia Rocha – escritora, crítica e historiadora da literatura para a infância que, entre nós, desenvolveu um louvável trabalho, praticamente solitário, de divulgação da obra da escritora brasileira.

Em O Sofá Estampado, Lygia apresenta a história de Vítor, um jovem tatu tímido e inseguro, com dificuldade em impor-se num mundo que constantemente o agride e que não parece feito à sua medida. O problema agudiza-se perante Dalva, a gata angorá por quem se apaixona. Passando todo o tempo diante da televisão, Dalva vive numa desatenção exasperante em relação ao que se passa em seu redor. Em situações críticas como esta, Vítor tosse até quase sufocar e escava buracos no solo que o levam a viajar até tempos e espaços que marcaram a sua vida passada.

Este dispositivo ora permite o aparecimento de analepses explicativas, ora abre caminho rumo a outras histórias de vida, protagonizadas por personagens cujos caminhos se cruzaram, de uma forma ou de outra, com o do jovem tatu: sua Avó, Dona Popó, o Inventor, Dalva... Do contacto com as experiências de todos eles se vai nutrindo a personalidade que Vítor (o protagonista-animal-menino) a pouco e pouco constrói. À medida que cresce e aprende o mundo, socializa-se e sofre, num teatro de sentimentos e conflitos de assinalável riqueza em termos humanos (porque é da condição humana que aqui se fala, pese embora o herói ser um animal).

Da história o leitor guardará, sem dúvida, uma nota de esperança sobre a construção de uma identidade pessoal. A ela se sobrepõe, contudo, a consciência da complexidade da vida. E aí reside, enfim, o sentido educativo da obra. Recusando a simplificação e encaixando, na narração de uma via dolorosa e comovente, sequências extraordinariamente divertidas, O Sofá Estampado é bem um exemplo daquilo a que Natércia Rocha, no prefácio a Corda Bamba, chama «uma imaginação rica, colorida, com raízes no real mas não perdendo o contacto com o sonho, a reflexão interior, a aventura do viver futuro».

Ultrapassadas as primeiras páginas, o leitor percebe que não se encontra apenas perante mais uma história simplista de animais humanizados (e no entanto, as preocupações de ordem ambiental marcam presença), mas sim a ler um texto que, na sua extraordinária economia de meios, o confronta com um complexo de tópicos em que avultam a identidade e a alteridade, o isolamento e a socialização, a regressão e o crescimento, a morte e o desejo.

Se a isto se acrescentar a evidência de um estilo trabalhado com saber e minúcia, que aproxima o discurso escrito de um registo próximo do da narração oral, fácil será concluir que nos encontramos perante um livro de invulgar qualidade.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 28 de junho de 2009

As Cores dos Animais, de Michael Rosen e John Clementson

No prefácio à sua antologia de Os Melhores Contos Populares de Portugal (Rio de Janeiro, 1944), Luís da Câmara Cascudo define os «contos etiológicos» como histórias que «explicam a peculiaridade morfológica de um animal, a forma de uma árvore, o aspecto de um monte».

Lembrar-se-á o leitor mais atento de uma deliciosa colectânea de Contos do Tio Porquê, de origem africana, publicada, em 1978, pelas Edições 70? O que o livro As Cores dos Animais, de Michael Rosen (um dos mais populares poetas e autores de narrativas para crianças do Reino Unido), propõe é, justamente, uma série de nove contos etiológicos, muitos dos quais nos trazem à memória as histórias do tio Porquê. Aqui, porém, surge mais nítida a vinculação de tais narrativas a mitos ancestrais de várias regiões do mundo, explicando-se, de modo fantasioso, as razões da coloração que determinados animais apresentam.

Tomemos o sexto conto como exemplo. Aí se narram as desventuras do leopardo, que é vítima da sua arrogância perante o leão. Este envolve-se em combate com aquele arrancando-lhe bocados. Antes de ser morto pelo leão, o leopardo foge, «até que encontra um charco de lama fresca. Com as patas apanha bocados de lama e (...) mete-os nos buracos que o Leão lhe fizera (...) até não haver quaisquer vestígios. (...) Tudo ficou bem com o Leopardo, mas agora a sua pele está malhada para sempre» (p. 32).

No livro, é possível encontrar breves contos do mesmo tipo, originários de várias regiões, acerca do coiote (Estados Unidos), dos peixes voadores (Nova Guiné), da rã (Itália), do tigre (China), da brolga (Austrália), do leopardo (Libéria), do pavão (Índia), do grou (Uganda) e do jaguar, do puma e da cobra (Bolívia e Paraguai). Um útil apêndice final informa sobre as raízes míticas e históricas destes contos, cujas fontes bibliográficas são, por sua vez, referenciadas no início da obra.

Recolhidas a partir dessas fontes (essencialmente colectâneas de narrativas da tradição oral), as histórias foram recontadas pelo escritor inglês Michael Rosen e bem ilustradas por John Clementson. O arranjo gráfico é excelente e integra, de modo feliz, título, texto e ilustração.

A tradução merece, contudo, reparos, considerando a pobreza estilística de certos segmentos do texto português. Acresce que a revisão do mesmo denota, igualmente, alguma desatenção. É pena, já que um livro tão interessante, tanto pelo texto como pela ilustração, reclamava, neste aspecto, um cuidado especial.

Ficha bibliográfica

As Cores dos Animais (How the animals got their colours)

Michael Rosen (texto); John Clementson (ilustração)

Lisboa: Editorial Notícias, 1992 (sem indicação de tradutor)

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 21 de junho de 2009

O Sonhador, de Ian McEwan e Anthony Browne

O hiper-realismo fantástico de Anthony Browne, cujas imagens ambíguas nos situam quase sempre em cenários inquietantes, parece constituir o estilo de ilustração ideal para a narrativa de Ian McEwan, também ela percorrida pela consciência de uma impossibilidade: a existência de uma fronteira estável entre realidade e sonho. Bastaria ter sido esta a primeira vez que surgiram editadas, em Portugal, imagens do celebrado ilustrador inglês (prémio Hans Christian Andersen há alguns anos) para que O Sonhador (Lisboa: Gradiva, 1995; reed. 2007) merecesse destaque.

Impondo-se, no entanto, pelos seus méritos próprios, o texto revela uma história, ou antes, um conjunto de histórias vividas pela mesma personagem, cujo público não se esgota na faixa dos pré-adolescentes, para a qual, inicialmente, parece ter sido escrita. O que explica que, em França e na Itália, o livro de McEwan tenha sido editado em colecções não juvenis, constituindo porventura um exemplo daquilo a que Sandra Lee Beckett chama «crossover fiction».

Traduzida para português por Maria do Carmo Figueira, a obra afirma-se, justamente, pelo modo como consegue analisar, com notável minúcia adulta, o imaginário de Peter Fortune (um afortunado rapaz de dez anos, senhor de uma inteligência e de uma inventiva invulgares), bem como o seu modo peculiar de, através de uma vivência física e afectiva, descobrir e de (se) identificar (n)o mundo e (n)os seres que o povoam: o gato, a família, um colega de escola, um primo de poucos meses, os adultos que integram o círculo de relações dos pais e mesmo uma futura namorada.

Peter é um daydreamer (título original do livro): «na escola (...) deixava muitas vezes o corpo sentado na cadeira enquanto o espírito partia em viagem; e, em casa, o facto de sonhar acordado causava-lhe frequentemente problemas.» (p. 10 da 1.ª ed. portuguesa). Como todos os sonhos, os de Peter não são gratuitos, pois ajudam-no a compreender o real e o seu próprio lugar no mundo. A realidade, porém, é geradora de insegurança e, por vezes, difícil, penosa. E «sonhá-la» tem menos a ver com a sensação de omnipotência do sujeito que, dando livre curso aos seus devaneios, constrói um universo à medida dos seus desejos – interpretação a que uma primeira leitura de um capítulo dedicado à derrota do «rufião» da escola, a páginas 55-65, nos poderia conduzir. A questão prende-se, antes, com a possibilidade de Peter observar e viver o real com um olhar novo, ou seja, de o ver e de o integrar nos seus múltiplos matizes.

Os sonhos obrigam, pois, o herói a descentrar-se de si mesmo para conhecer o outro, assim se socializando, aprofundando a sua visão do mundo e, deste modo, alargando o seu campo de consciência. Leiam-se, a este propósito, os notáveis capítulos sobre o gato e o primo. No primeiro caso, Peter troca de corpo e de vida com o animal, selando definitivamente uma relação afectiva que o vai preparar para enfrentar a morte do companheiro de sempre; no segundo, regressa à condição de bebé, experimentando as sensações dos primeiros meses de vida e aprendendo, desse modo, a conviver com uma criança cujo comportamento inicialmente o perturbava. Estas vivências são descritas com singular intuição e, no segundo capítulo referido, com um sentido de humor contido, mas irrecusável.

«O meu objectivo é falar de corpos que se transformaram em formas de outro tipo» – escreve Ovídio no livro I das Metamorfoses. Partindo deste paratexto, McEwan constrói um extraordinário texto sobre a importância de viver o corpo, nomeadamente o nosso no outro e o do outro através do nosso, como metáfora de um processo dialéctico: o do crescimento social, afectivo e ético.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 24 de maio de 2009

Os Barrigas e os Magriços ou a história da Revolução de Abril contada aos mais pequenos

Ao escrever o conto «Os Barrigas e os Magriços», Álvaro Cunhal (1913-2005), líder histórico do Partido Comunista Português, propõe-se narrar, numa linguagem adequada aos destinatários preferenciais, a história dos antecedentes que explicam a Revolução de Abril de 1974. Socorrendo-se de uma parábola e explicitando, de forma muito clara e visual, a oposição entre os exploradores e os explorados, o autor justifica a necessidade da mudança com o cansaço de anos e anos de exploração e sofrimento das classes operárias e mais desfavorecidas. Interpela directamente o narratário motivando-o a tomar partido ao lado dos «magriços» que, cansados da opressão e da fome, resolveram tomar o poder nas mãos e criar uma sociedade mais justa e mais solidária.

É curioso como o narrador explora a polissemia do conceito de magriço, tradicionalmente associado à imagem do português leal e justo, combatente ao lado dos perseguidos e injustiçados – relembre-se o episódio das novelas de Cavalaria (que Camões também aproveita na sua epopeia para definir e exemplificar o verdadeiro cavaleiro português) onde o jovem Magriço, depois de atravessar, por terra, parte significativa dos territórios europeus, combate em defesa da honra de uma donzela inglesa ofendida por um seu conterrâneo – mas também aqui interpretado de forma literal, como associado à excessiva magreza resultante das difíceis condições de vida existentes. Esta ideia sai ainda mais reforçada perante a oposição face aos «barrigas» opressores e exploradores, bem nutridos à custa do trabalho e do sofrimento alheios. A oposição – algo simplista pelo maniqueísmo que encerra – entre estes dois grupos de personagens não deixa margem para dúvidas sobre o significado do confronto e sobre a posição do autor/narrador. Do ponto de vista linguístico, veja-se como o narrador, pela utilização de repetições e de estruturas paralelísticas na descrição dos dois grupos em confronto, clarifica a oposição estrutural que está aqui em causa. Com um discurso acessível, construído com base no diálogo, nos seus comentários esporádicos, no uso de comparações, imagens e na própria metáfora que estrutura todo o conto, o narrador alude, de forma implícita mas acessível e facilmente compreendida, às ideias de exploração, de censura, de perseguição, mas também de revolução, de igualdade, de justiça, de liberdade e até de reforma agrária…

Esta edição da Junta de Freguesia de Portimão preenche uma lacuna importante no panorama editorial português, uma vez que o texto de Álvaro Cunhal nunca tinha sido editado em formato livro. E bem o merecia! Ilustrado por crianças do pré-escolar, o texto encontra-se finalmente com os leitores a quem se destinava e é visto e recriado a partir dos seus olhares e das suas cores. Atente-se na genuína ingenuidade com que são representadas as personagens, nas fisionomias que buscam fidelidade ao texto e no cuidado arranjo visual da edição, comemorativa dos 35 anos do 25 de Abril, nomeadamente na variação cromática dos fundos das páginas.

 

 

Referência bibliográfica

 

CUNHAL, Álvaro (2009): Os Barrigas e os Magriços, Portimão: Junta de Freguesia de Portimão (ilustrações de alunos do pré-escolar das escolas do Fojo, Quinta do Amparo e Major David Neto).

Também acessível em

http://www.jf-portimao.pt/pub/os_barrigas_e_os_magri%C3%A7os.pdf

 

 

Ana Margarida Ramos (Universidade de Aveiro); membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 10 de maio de 2009

A Vida Mágica da Sementinha, de Alves Redol

Texto clássico da literatura portuguesa para a infância, esta história do trigo, da autoria de Alves Redol, constitui uma referência obrigatória pela forma como o autor, num discurso aparentemente simples e acessível, cruza uma multiplicidade de temas e apela a uma distribuição mais justa da riqueza. A pequena sementinha que protagoniza a narrativa, tal qual uma heroína de um conto de fadas, vive muitas aventuras até se transformar em planta e, novamente, em grão. Entre o espanto e o receio, são muitas as surpresas que a sua vida lhe reserva, pormenorizadamente descritas, desde que o semeador a retira da arca onde estava guardada com outras companheiras.

Mesmo antes de cair na terra, o seu destino leva-a a ser roubada por um rouxinol cantor, por quem se apaixona, e depois por um pardal faminto que a tenta devorar, quase interrompendo o ciclo de vida que a aguarda. O seu carácter especial, capaz de amadurecer antes de todas as outras sementes, impede-a de se transformar em farinha e depois em pão, como acontece com outras sementes com quem partilha da terra, e em alimento, matando a fome aos trabalhadores que, árdua e alegremente, cuidam dos campos. Em vez disso, será alvo de estudos e de experiências, num elogio da ciência e das suas capacidades que o autor reserva para o final da narrativa, manifestando nela a sua esperança do fim da fome através da abundância de farinha.

Em alguns momentos, também em resultado da proximidade temporal e ideológica dos seus autores, podem ser estabelecidas pertinentes analogias quer com A Menina Gotinha de Água (1963), quer com O Cavalo das Sete Cores (1977), ambas obras de Papiniano Carlos, não só pela sugestão enérgica que caracteriza os textos, assumidamente dinâmicos, plenos de vida a brotar de forma quase pujante, mas também pelo modo, quase ingénuo para o leitor contemporâneo, como revelam uma esperança ilimitada na ciência, espécie de panaceia universal para os males do mundo.

Combinando poesia e ciência, a obra recria o ciclo do grão de trigo, sem esquecer de narrar a sua história desde as origens mais remotas, dando conta do seu relevo na alimentação humana, mas também do seu contributo para a evolução da humanidade. Ao leitor adulto não escaparão, ainda, as alusões mais ou menos explícitas à realidade social e económica contemporânea da escrita do texto, como é o caso da menção à fome e às duras condições de vida dos trabalhadores agrícolas, dependentes de contingências climáticas.  

 

Ficha bibliográfica

 

A Vida Mágica da Sementinha

texto de Alves Redol

8ª edição, Lisboa: Caminho, 2008 (1ª edição de 1956)

ISBN: 978-972-21-0892-8

 

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro; membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)