quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O Companheiro – Uma edição no ano em que se comemorou o centenário do nascimento de Sidónio Muralha


A produção literária de Sidónio Muralha [Lisboa, 1920 – Curitiba, Brasil, 1982] alcança superior importância com os livros intencionalmente dirigidos ao público infantil, que tanto respeito lhe mereceu e a quem ofereceu uma obra de assinalável apuro estilístico que se distingue, no plano semântico, pela tematização da Natureza e das questões ambientais e dos valores da liberdade. Na sua escrita para crianças, os ritmos jorram com leveza e a magia resultante de jogos fonemáticos, de rimas e de trocadilhos potencia a imaginação e a formação de leitores diferenciados e aptos, capazes de quebrarem «as grades / de todas as gaiolas do mundo» – metáfora do autor retomada em diversos textos, criando uma intertextualidade homo-autoral, cujo  poema de partida («Pintassilgo») encerra, em forma de exortação, o livro O Rouxinol e a sua Namorada(1983), e que semantiza ideotematicamente estes valores:

Pintassilgo

 

O pintassilgo diz:

— nada me consola,

eu não sou feliz

nesta gaiola.

 

Do céu azul e da amplidão

eu sinto muitas saudades.

Não quero esta solidão

cada minuto e segundo.

 

Crianças, quebrem as grades

de todas as gaiolas do mundo.


Em outro lugar, referi-me a Sidónio Muralha como um escritor injustamente esquecido em Portugal, não obstante o facto de alguns dos seus livros infantis integrarem as listas de obras recomendadas nos documentos programáticos em vigor, no domínio da educação literária. Passados quase quarenta anos sobre a sua morte, e completados 100 anos sobre o seu nascimento, a sinalização do autor e da sua obra em território nacional far-me-ia recuperar o que havia dito, não fora a publicação, em hora boa, do livro O Companheiro, com sugestivas ilustrações de Irene Sá, pela Página a Página, em novembro de 2020.

 

A disponibilização de O Companheiro no mercado editorial constitui, indubitavelmente, um valor acrescentado à tematização literária da Revolução de Abril, alargando, assim, o leque de escolha dos professores do Ensino Básico para trabalho em sala de aula. 

 

Habituados que estamos às poeticidade e inventividade da escrita de Sidónio Muralha, O Companheiro não foge a esses princípios, que são também a sua originalidade. Organizada em sete pequenos capítulos – O homem bom e justo do chapéu verde, Outro homem justo mas sem chapéu, O casaco e o chapéu dos democratas, O espantalho que não sabe assustar, O amigo, Os militares e A grande festa do povo –, a narração da história da Revolução de Abril concretiza-se pela sequencialização vertical própria da poesia (lírica), gerando notações melódicas (internas) de grande beleza e desempenho semântico-pragmático. 

 

Tentarei resistir ao impulso de uma análise exaustiva desta obra, que não cabe neste espaço, sinalizando e generalizando algumas situações / processos  técnico-compositivos que conferem visilegibilidade (não tanto a dos aspetos propriamente tipográficos, de que falava Jacques Anis quando cunhou o termo, mas a que respeita à organicidade interna da própria poesia) a esta prosa que se dispõe a ser lida-vista, lembrando, com Jean-Michel Adam, que ler-ver o texto poético é condição sine qua non para nos apropriarmos dos ritmos e da significação deles decorrente. 

 

Para além da organização do discurso em estrofes (de amplitude variável – monósticos, dísticos, quintilhas, sextilhas, décimas, etc.), a poeticidade decorre de processos de repetição de palavras que colocam em evidência conceitos-imagens-chave, por exemplo, logo no primeiro capítulo, em que se destacam as palavras/expressões como «chapéu» e «chapéu verde», «todos», «homem / homens», «homem bom e justo», «crianças» e «liberdade», cuja significação é intencionalmente intensificada por via de anáforas, de epíforas e de anadiploses:

 

O dono do chapéu verde

era um homem bom e justo.

 

Todos sabem o que é um chapéu.

Todos sabem que há chapéus

de cores diferentes

e de vários tamanhos e feitios.

 

Também todos sabem

o que é um homem.

 

Mas muitos vão perguntar

o que é um homem bom e justo.

 

Muito bem.

O dono do chapéu verde

era bom e justo porque

não defendia só a sua liberdade

mas a liberdade de todos os homens.

 

Não queria livros unicamente

para as crianças ricas mas para todas

as crianças do mundo. 

 

Se atentarmos no excerto transcrito, o quantificador universal «todos» remete para um coletivo, para uma totalidade, e não para uma singularidade, contribuindo para a intensificação do sentido da mensagem que se inscreve, desde logo, na bondade e justeza deste «dono do chapéu verde» por contraponto ao «Senhor fascista», «o dono do país» que deu ordem aos PIDE para o silenciar e assim adiar o seu projeto de igualdade, de justiça e de liberdade:

 

Foi perseguido pelos Pides.

Os Pides tinham armas

mas não tinham ideias.

O homem bom e justo

tinha ideias mas não tinha armas.

 

As armas dispararam e o chapéu verde voou,

sobrevoou as montanhas e as colinas,

desceu o vale, parou entre as árvores

que o homem bom e justo defendia.

 

Se até então os leitores se questionavam sobre a razão de este «homem bom e justo» usar um «chapéu», ou antes, um «chapéu verde», as duas estrofes acima transcritas fornecem a chave do mistério e espessam a mensagem global da obra. Assim, o chapéu desta personagem é mais do que uma prerrogativa masculina ditada pela moda e ao serviço da distinção social. Trata-se, antes, de um objeto ancestral cuja função era, por um lado, a de proteção da cabeça contra este ou aquele tempo atmosférico e, por outro, a de proteção figurada das ideias do indivíduo que usa esse acessório, já que «chapéu» deriva do latim caput que significava «cabeça», «cérebro», e, por extensão, as ideias (que, segundo Horácio, Cícero e outros pensadores romanos, conferiam honra e cidadania às pessoas). No contexto histórico e cultural para que aponta o texto, o uso do chapéu associa-se à imagem das pessoas que trabalham de sol a sol, ou seja, ao povo – esse povo (mais letrado ou menos letrado) que se opôs ao regime fascista e combateu, com ideias próprias (e muitas vezes com a vida) o Estado Novo. 

 

Desta forma se compreende que este «chapéu» só poderia ser «verde», cor simbólica por natureza e que a própria natureza caracteriza. Verde é, pois, a cor do mistério da existência, revelado sazonalmente para lembrar aos homens a sua própria humanidade e afirmar a esperança num mundo renovado. E, no último capítulo, podemos ler:

 

Mas o Povo, que só tinha passado,

agora também tem futuro.

 

As crianças de hoje,

que são os homens e as mulheres

de amanhã, terão uma Pátria

sem Senhor Fascista e sem Pides.

 

Elas são livres.

Livres.


Um pouco mais sobre Sidónio Muralha:

 

Sidónio Muralha integrou, até 1950, data em que voluntariamente parte para o exílio (Congo belga), como forma de contestação do regime fascista do Estado Novo, o grupo coimbrão do Novo Cancioneiro. Até esta altura, o Escritor publica, em Portugal, os primeiros livros de poesia para adultos – Beco (1941), Passagem de nível (1942), Companheira dos homens (1950). Em 1949, Sidónio Muralha estreia-se na literatura para crianças com a publicação de Bichos, Bichinhos e Bicharocos cuja cuidada edição – reeditada em 2010 pela althum.com / Centauro – é ilustrada por Júlio Pomar e apresenta três poemas musicados – com reprodução das respetivas partituras – por Francine Benoit (musicóloga francesa que trabalhou no Jardim-Escola João de Deus e na Academia dos Amadores de Música, tendo sido amiga de Fernando Lopes-Graça). Esta obra e outras que se seguirão a partir dos finais dos anos 40, escritas por autores ligados ao movimento neorrealista contribuíram para uma mudança qualitativa na literatura portuguesa para crianças, por via do tratamento de novas temáticas (a infância camponesa, em Alves Redol; as crianças pobres de meios urbanos, em Ilse Losa e Matilde Rosa Araújo; tópicos relacionados com um olhar mais científico sobre a vida natural, em Redol, também, e em Papiniano Carlos, para não referir outros aspetos em que avulta, por exemplo, uma certa crítica a comportamentos sociais, patente, aliás, no Autor de Bichos, Bichinhos e Bicharocos).

 

Após o exílio voluntário no Congo, Sidónio Muralha viaja para São Paulo, em 1962, fixando, posteriormente, a sua residência em Curitiba. Em S. Paulo, funda, juntamente com o escritor Fernando Correia da Silva e o fotógrafo e artista gráfico Fernando Lemos, a editora Giroflé, dedicada exclusivamente à publicação de livros infantis e juvenis. Trata-se de um projeto verdadeiramente inovador que trouxe ao panorama editorial brasileiro um novo conceito de livro infantil pautado pela qualidade gráfica, pelo design moderno e colorido, pela escolha do papel Kraft e da capa dura, pela ousadia relativamente a novos formatos, nomeadamente o formato à italiana (retangular e alongado), como hoje é conhecido. A estes aspetos acrescem as boas escolhas textuais e a divulgação de nomes que enobrecem a literatura para a infância e a juventude, como é o caso de Cecília Meireles (1919-1964) com Ou Isto ou Aquilo

 

Ainda em 1962, Sidónio Muralha recebe o Prémio Internacional da II Bienal do Livro de São Paulo pelos poemas de A Televisão da Bicharada, ilustrado por Fernando Lemos e com a chancela da sua editora. Para além desta distinção, Valéria e a vida valeu ao Autor, em 1976, o Prémio Secretaria de Estado do Ambiente, que distinguia livros infantis de temática ambiental; e Helena e a cotovia, obra que seguia idêntica linha, recebeu o Prémio Portugal ’79, instituído pela Secção Portuguesa do IBBY (International Board on Books for Young People).

 

Em 1979, destaco a publicação de Catarina de todos nós, um dos raros exemplos, na literatura portuguesa para os mais novos, de um texto dedicado a um episódio marcante da resistência à ditadura salazarista: o assassinato, em 1954, de Catarina Eufémia, jovem camponesa alentejana em luta, juntamente com os seus companheiros, por melhores condições de vida, e cuja reedição, em Portugal, pela Página a Página, estará para breve.

 

Injustamente esquecido, em Portugal, país de onde disse nunca ter saído, o Brasil lembra e valoriza este poeta lusitano de forma tocante – os seus livros para a infância continuam a ser reeditados e a integrar os planos curriculares do Ensino Fundamental (Básico), juntamente com Ou isto ou aquilo (1964), de Cecília Meireles e A arca de Noé (1974), de Vinicius de Moraes – livros e autores que, no Brasil, operaram uma viragem na concepção estético-pedagógica de literatura infantil e juvenil a partir de inícios da década de sessenta, investindo na qualidade dos textos.


Registe-se, por último, que, em 2009, a editora Cosac Naify reeditou as primeiras edições da Giroflé, mantendo fidelidade aos originais e assinalando, deste modo, o significado histórico-cultural que tais livros tiveram no panorama editorial brasileiro.

 

A obra de Sidónio Muralha simultaneamente informa, diverte e coloca em ação a construção de um mundo mais justo – sem dúvida, um escritor a ser lido e relido.

 

Para ler e conhecer Sidónio Muralha: 


Bichos, bichinhos, bicharocos (1949; reeditado em Portugal em 2010 e 2012)

A televisão da bicharada (1962)

Um personagem chamado Pedrinho – vida de Monteiro Lobato contada às crianças (1970)

O companheiro (1975; reeditado em 2020)

A amizade bate à porta (1975)

Valéria e a vida (1976)

A dança dos Pica-Paus (1976)

Sete cavalos na berlinda (1977)

Todas as crianças da terra (1978)

Voa pássaro, voa (1978)

Catarina de todos nós (1979; a ser brevemente reeditado pela Página a Página)

Helena e a cotovia (1979)

Terra e mar vistos do ar (1981)

O rouxinol e a sua namorada (1983)

 A revolta dos guardas chuvas (1988)

Os três cachimbos (1999)

O trem chegou atrasado (2004)



A mais recente edição de O Companheiro pode ser adquirida aqui.



Ana Cristina Vasconcelos de Macedo

Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Quatro centenários a não esquecer: Rodari, Clarice, Sidónio e Castrim




Com o final deste terrível 2020, encerra-se um ano de quatro centenários merecedores de referência muito especial e prazerosa, para quem se interessa pela literatura em geral e pela escrita para a infância e a juventude, em particular. Pena que a imprensa cultural portuguesa, na sua obsessão presentista e no seu défice de pluralismo (para outra coisa não dizer), lhes não tenha dado a menor importância, se exceptuarmos o caso da notável escritora brasileira de que aqui também falaremos.

Comecemos pelo grande Gianni Rodari, nascido em Omegna, a 23 de Outubro de 1920 e falecido em Roma, a 14 de Abril de 1980. Prosador e poeta italiano, pedagogo e jornalista, Rodari é, sem sombra de dúvida, um dos mais relevantes autores da literatura para a infância e a juventude em todo o mundo, e a sua escrita reveste-se de importância internacional, visto ter sido, e continuar a revelar-se, extremamente influente. A circunstância de se encontrar amplamente traduzido para muitos idiomas, incluindo o Português, contribuiu certamente para tal facto e para a sua fortuna crítica.

Em Portugal foi inicialmente editado e bem traduzido pela Caminho (graças ao apuro de sensibilidade e inteligência desse editor de excepção, grande conhecedor do livro infanto-juvenil, que é José Oliveira) e também pelo Círculo de Leitores e pela Teorema. Hoje, é sobretudo a Kalandraka que tem publicado Rodari, dando preferência à edição de alguns dos poemas do autor e dos seus contos, em livros em formato de álbum, mas não só. Leia-se, por exemplo, Gelsomino no País dos Mentirosos (2020), Era Duas Vezes o Barão Lamberto (2020), Contos ao Telefone (2019), Inventando Números (2018), Baralhando Histórias (2011), O Que É Preciso (2011), todos editados pela Kalandraka, a que importa juntar algumas edições relativamente recentes, da Dinalivro, como Alice entre as Gravuras (2008) e Animais sem Jardim Zoológico (2020).

Grande pedagogo e director de suplementos de jornal dedicados ao público infantil, Rodari, que foi militante do Partido Comunista Italiano, antifascista e activíssimo defensor da paz e dos direitos da criança, tornou-se um inesquecível animador cultural do público infantil e um mestre da invenção, como comprova a sua criativa «introdução à arte de contar histórias», que dá pelo título de Gramática da Fantasia, editada primeiramente pela Caminho, em 1997 e, em 2017, pela Faktoria K de Livros. Uma obra que, além de ser uma divertidíssima e multifacetada lição de literatura e de criatividade, deve continuar a figurar em toda e qualquer bibliografia essencial da formação de educadores de infância, de professores do 1.º ciclo e de professores de Português, tanto do Básico como do Secundário. E isto para não falar em bibliotecários, em educadores sociais e em animadores e promotores da leitura.

A obra de Rodari balança entre o excelente e tocante (neo-)realismo do romance Pequenos Vagabundos(Caminho, 1986), sobre as vergastadas infâncias camponesas, operárias e marginais do pós-Segunda Guerra no norte da Itália, e o ludismo tanto verbal como de situações, a comicidade e por vezes o nonsense que é possível descobrir nos excelentes Contos ao Telefone – textos marcados pela literariedade e pela implicação intertextual, pela comunicabilidade com o potencial leitor, e pelo humor, num quadro de transbordante e divertida imaginação criadora e de um permanente espírito crítico. A escrita de Rodari – um inovador poeta e contador para a infância e um homem profundamente culto – diverte invariavelmente o leitor, e cremos poder dizer que faz de todos nós, crianças ou adultos, pessoas mais inteligentes, mais atentas ao mundo que nos rodeia e aos seus problemas (a guerra e a luta pela paz, a injustiça social, as ideias retrógradas, etc.) e certamente faz de nós seres humanos mais bem-humorados. 

Pela reconhecida qualidade e originalidade do conjunto da sua obra para a infância e a juventude, Gianni Rodari receberia, em 1970, o Prémio Hans Christian Andersen do International Board on Books for Young People – o equivalente, no livro infanto-juvenil, ao Nobel da Literatura.

Um escritor, pois, para ler em todas as estações, em todos os tempos e lugares. Tal como a grande Clarice Lispector, nascida em Chechelnyk, na Ucrânia, a 10 de Dezembro de 1920, e falecida no Rio de Janeiro, a 9 de Dezembro de 1977. Escritora de timbre inconfundível, marca, com a sua prosa cintilante de estranheza e prenhe de pequenas / grandes epifanias, a literatura para a infância e não apenas os seus magníficos romances, contos e crónicas «para adultos». É o que sucede em livros belos e interpeladores como O Mistério do Coelho Pensante (1967), A Mulher que Matou os Peixes (1968), A Vida Íntima de Laura (1974), Quase de Verdade (1978) e Como Nasceram as Estrelas (1987).

Ao Brasil de Clarice ficou também ligado para sempre o português Sidónio Muralha, nascido em Lisboa, a 29 de Julho de 1920, e falecido em Curitiba, a 8 de Dezembro de 1982. Escreveu poesia, prosa (ficção e ensaio), bem como literatura para a infância. 

Sidónio Muralha é reconhecido como um dos pioneiros do movimento neo-realista em Portugal, com a publicação de Beco, logo em 1941, na colecção Novo Cancioneiro (onde editaram poesia os jovens Namora, Carlos de Oliveira, Cochofel, Manuel da Fonseca, Joaquim Namorado e outros), tendo iniciado a sua incursão na literatura para os mais novos com o inesquecível e, à época, profundamente original e tematicamente ousado Bichos, Bichinhos e Bicharocos, de 1949 (Francine Benoît musicaria alguns destes poemas, quase todos narrativos, que Júlio Pomar ilustrou).

Muralha foi um dos presentes nos famosos Passeios do Tejo (anos 40), organizados por Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e António Dias Lourenço e onde participaram, entre outros, Alexandre Cabral, Álvaro Cunhal, Carlos de Oliveira, Carlos Pato, Fernando Lopes-Graça, Fernando Piteira Santos, Manuel da Fonseca e Mário Dionísio.

Com uma lírica “para adultos” muito sensível às injustiças sociais e à pobreza, à repressão fascista, às questões da guerra e dos direitos humanos, aos anseios de liberdade e de democracia, mas também à dimensão amorosa e à condição da mulher, Sidónio Muralha tornou-se, a partir de 1949, um dos mais marcantes escritores portugueses de poesia e contos para crianças, em livros como A Televisão da Bicharada(1962), Sete Cavalos na Berlinda (1977), Voa Pássaro Voa (1978), Catarina de Todos Nós (1979) e muitos outros – vários deles publicados no Brasil, onde passou a viver a partir de inícios da década de 60. Aí fundou a Giroflé, inovadora editora de livros infantis, e o Brasil é onde existe hoje uma fundação que perpetua o nome e a obra do escritor (algum jornal cultural, alguma rádio, algum canal de televisão poderia falar disto, por favor?). Em Portugal, Sidónio foi publicado sobretudo pela Horizonte, pela Plátano, pela Caminho, pela Gailivro, pela Porto Editora e legou-nos obras não apenas originais no campo da poesia (ludismo linguístico e valorização do significante, humor, elementos de crítica social…) mas também narrativas pioneiras no tratamento das questões ambientais, como Valéria e a Vida (1976), Helena e a Cotovia (1979) e Terra e Mar Vistos do Ar (1981), algumas delas distinguidas com prémios.
O seu amor à liberdade e à democracia, e o seu posicionamento antifascista determinaram a escrita de, entre outros livros, O Companheiro (1975), reeditado em 2020 pela Página a Página, com ilustrações originais de Irene Sá – um belíssimo livro para crianças (para todos, diremos mesmo) sobre «um país sem liberdade, mas onde as ideias boas e justas e os corações generosos não desaparecem e voltam sempre para devolver o futuro ao Povo», como é afirmado em epitexto editorial. É talvez o primeiro (ou um dos primeiros) livro(s) infantil(is) sobre a temática da ditadura salazarista/marcelista e da sequente Revolução libertadora do 25 de Abril, e um dos mais conseguidos e estilisticamente «livres» textos para a infância do autor. Uma voz literária que, no futuro, não poderemos obviamente ignorar. 

E o mesmo diremos de Manuel Nunes da Fonseca (Ílhavo, 31 de Julho de 1920 – Lisboa, 15 de Outubro de 2002), jornalista, poeta, novelista, crítico de televisão e professor português, que usou o pseudónimo Mário Castrim, tendo sido igualmente pioneiro na divulgação crítica de livros para a infância na imprensa. Os poemas, crónicas, contos e artigos «para adultos» de Castrim impõem-no como um escritor de mérito, irónico mas sensível, sempre atento ao quotidiano lisboeta, a uma sociedade injusta e à luta por uma vida e um mundo melhores. Importa, por isso, regressar sempre aos seus textos. Mas os cem anos de Castrim enquanto escritor de livros para a infância e a juventude interessam-nos sobremaneira, dado ter sido uma voz à frente do seu tempo na novelística juvenil (A Caminho de Fátima, 1992; O Caso da Rua Jau, 1994, e outros títulos), com obras que se distinguem pelo humor, pelo sentido crítico e pela preocupação com a memória e com o diálogo entre gerações. Foi também uma voz inovadora nas pequenas narrativas ilustradas para pré-leitores e leitores iniciais (veja-se a série da girafa Gira-Gira, nove volumezinhos editados a partir de 2001 pela Campo das Letras). E foi-o ainda, e sobretudo, na escrita poética, tendo sido talvez o primeiro poeta concretista na área da poesia para crianças e jovens, em belos livros como Histórias com Juízo (1969, com reedições aumentadas nos anos seguintes) e principalmente Estas São As Letras (1977). O nonsenseefectivo ou apenas aparente, o humor inteligente, o gosto pelo conto breve e pelo micro-conto, o estímulo do pensamento crítico são apenas alguns dos traços que singularizam a poética de Castrim (autor que era também comunista, como Rodari, além de católico). Trata-se, pois, duma escrita que importa continuar a ler e a dar a ler aos mais novos. E, para isso, aí estão reedições recentes como a do cativante livro de versos para os mais novos, Nome de Flor (1979) – do qual emergem as preocupações sociopolíticas de Castrim, mas também uma delicada reflexão sobre as relações afectivas e familiares. É um título trazido de novo a lume pela Página a Página, em 2020, com sugestivas ilustrações originais de Patrícia Shim. Registe-se de passagem que a Plátano, a Caminho, a Campo das Letras, a Âncora, a Página a Página são algumas das editoras que deram a conhecer os livros deste importante autor.

Gianni Rodari, Clarice Lispector, Sidónio Muralha e Mário Castrim fizeram cem anos em 2020. Mas continuam, diremos nós, mais jovens do que nunca. Tenham pois o prazer de os ler e de os oferecer aos mais novos.

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Talvez, neste Natal

TALVEZ, NESTE NATAL 



Talvez este Natal nos anoiteça,

por momentos nos mergulhe

em águas fundas

e nos faça descrer do mundo que ideámos.


Mas talvez uma semente luminosa, 

chegada essa hora cor de terra, 

consiga germinar

no ileso fulgor duma lembrança.


Talvez ela dê fruto num sorriso, 

num gesto quase irmão,

num olhar de súbito sem sombra;


ou talvez se transforme em velho estábulo, 

em árvore luzente ou numa estrela

para guiar amanhã os nossos passos.



2020


Texto por João Pedro Mésseder 



A equipa da Inocência Recompensada deseja a todos os nossos leitores um Feliz e Santo Natal.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Luísa – As Histórias da Minha Vida, de Luísa Ducla Soares: uma obra bela e necessária

Neste ano de 2020, as comemorações dos 50 anos de vida literária de Luísa Ducla Soares – que se estreou nas letras, em 1970, com um belo livro de poesia para adultos, Contrato, marcado já por um discurso lírico pessoal, ligado às preocupações estéticas e sociais do grupo de Poesia 61 (Luiza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Maria Teresa Horta…) –, tais comemorações, dizia, concretizadas em novos livros, atravessaram este período de pandemia como uma pequena luz feita de graça, de talento e de devoção à escrita por parte da que é, há muito, uma grande senhora das nossas letras e um ser humano raro. 

As principais editoras que publicam as obras de Luísa Ducla Soares trouxeram a lume novos títulos, mas também reedições, chancelando-os por vezes com uma espécie de logótipo que assinala esse meio século de criação literária. Assim têm feito a Horizonte ou a Porto Editora.

Logo em Junho de 2020, esta última casa editora colocou nas livrarias Luísa – As Histórias da Minha Vida (ao que parece um desafio lançado à autora) com ilustrações bem-humoradas, em registo adequado ao tipo de obra, e que incorporam, por vezes, fotos de Luísa. Assina este trabalho Ângela Vieira. 

Em formato grande (A4), 82 páginas, trata-se de um belo livro. Direi mesmo que um dos melhores livros infanto-juvenis publicados em 2020, pela sua singularidade e qualidade estética. Mas também pela sua excelência no plano formativo e informativo. 

Escrito num estilo fluente e coloquializante, muito vivo e pontuado por comentários, apartes, apontamentos humorísticos – no fim de contas o bem reconhecível estilo de Luísa Ducla Soares, no registo de contadora de histórias que lhe é tão próprio –, o texto divide-se em seis partes, cujos títulos poderão funcionar aqui como sumário da obra: «Olá! Cheguei ao planeta Terra!» é o primeiro; seguem-se-lhe «Adeus meninice! Entrei no liceu!»; Finalmente, adulta!», «Comecei a trabalhar!», «Vida de escritora!» e «Lembranças de família!». Neste último, a autora dedica um pequeno capítulo a cada um dos membros mais próximos da sua família: o marido, os dois filhos, a filha, as duas netas e os dois netos. Termina esta parte com o segmento «Fiz 80 anos!». 

Curiosa é a presença constante da exclamação no final de cada frase/título, forma justa de assinalar o amor à vida e o conseguimento pessoal que cada etapa constituiu – num percurso (que neste caso é também um discurso) onde há sempre naturalidade, modéstia e contenção, o justo tom, sem exibição, sem excesso narcísico, apenas a alegria de viver, conviver e criar, mesmo que enfrentando tremendos escolhos, a alegria de um conseguimento pessoal que nunca esquece a relação interpessoal e os afectos.

Não pretendo resumir aqui uma obra que é rica. Pelo facto precisamente de ser rica, preenchida, fecunda e criativa a existência de quem aqui se conta. Entre, por um lado, uma infância em tempo de 2.ª Guerra Mundial, repleta de encantos, aprendizagens, revelações e choques provocados pelo crescimento e pela socialização, e, por outro lado, uma vida plena de escritora, o leitor pequeno, jovem ou adulto (porque, acreditem, os adultos gostarão muito de ler este livro) testemunha, creio que divertida e entusiasmadamente, o processo de maturação da pessoa, da cidadã e da escritora. Alguém para quem os livros lidos e escritos foram sempre um refúgio e uma aventura, uma partilha e uma transmissão de cultura e de valores, uma forma de chegar aos outros; de alguma maneira também, um modo de intervenção na sociedade. 

Corajosamente, Luísa narra aqui, por exemplo, a sua prisão política e as humilhações que lhe foram infligidas (e lembremos que o seu marido, Mário Sottomayor Cardia, personagem também desta narrativa, foi preso pela PIDE quatro vezes, tendo, na última dessas detenções, sido «barbaramente espancado», com agressões que lhe provocaram «um descolamento de retina e outros males de que nunca por completo se recomporia», como escreve Manuel Alegre na sentida evocação «Breve sumário de Sottomayor Cardia» (Público, 7-12-2006, p. 10)). Eu diria que é especialmente significativo – sobretudo nestes dias de reascenso de novas formas de fascismo na Europa e designadamente em Portugal (com o Chega) graças à benção branqueadora de partidos do sistema, como o PSD e o CDS –, é significativo, repito, que Luísa Ducla Soares dê conta, mesmo que sumariamente, como aqui faz, do que foi a sua luta pela liberdade, pela democracia e pela justiça social. Fazendo-o, acrescente-se, no tom certo e adequado. E corajosa, também, por razões mais íntimas, a forma comovente como consegue evocar a curtíssima vida do seu filho Mico, falecido com um cancro. Vida breve, é certo, mas humanamente rica em lições para o futuro de quem aqui dolorosamente a conta, e para o futuro de quem venha a ler a obra. 

Deste modo, e mesmo em outras passagens pungentes e mais duras deste livro, se observa a arte de Luísa Ducla Soares para abordar na sua escrita para os mais jovens os chamados temas difíceis. Temas indissociáveis da própria pulsão da escrita, alimentada, no livro em apreço, pela pregnância do vivido. 

Não contarei, para não quebrar o encanto da revelação, as muitas anedotas e episódios de evidente comicidade que há na obra e que despertarão certamente muitos risos e sorrisos no leitor, seja qual for a sua idade. É por isso que, além de pleno de humanidade e do sumo das vivências de quem aqui se retrata, Luísa – As Histórias da Minha Vida é essencialmente um livro divertido. Mas um livro que, além disso, e como sempre sucede em Luísa Ducla Soares, interpela e faz o leitor pensar. 

Oxalá o saibam aproveitar devidamente não apenas quem ensina Língua Portuguesa mas também quem ensina História (quer no 1.º ciclo, em que prevalece a monodocência, quer nos ciclos subsequentes, sobretudo o 2.º e o 3.º). A obra de Luísa é mais um recurso nas mãos de quem queira promover a interdisciplinaridade de uma forma didacticamente inteligente. 

Por último, assinale-se outra das singularidades do texto: o facto de ser uma narrativa autobiográfica. Num ensaio seminal sobre a escrita autobiográfica, Le Pacte Autobiographique (1975), Philippe Lejeune enunciava os princípios básicos do reconhecimento de um discurso autobiográfico: a coincidência entre nome do autor e nome do narrador e a narração de uma vida em primeira pessoa. Se nos ativermos a este ponto de vista (já que o conceito de Lejeune viria a ser mais tarde profundamente discutido, rediscutido e reelaborado pelo próprio e por outros teóricos), Luísa – As Histórias da Minha Vida é exemplo de um escrito autobiográfico, que logo deste o título propõe o seu peculiar «pacto» de leitura. Ora, existindo diversos exemplos que poderíamos apontar – como Als ich ein kleiner Junge war, 1957, de Erich Kästner, traduzido para Português por Ilse Losa, em 1977, com o título Quando Eu Era Rapaz –, é pouco comum, na literatura para a infância e a juventude, sobretudo na portuguesa, este tipo de obras, assumidamente autobiográficas. Por isso, também neste aspecto, Luísa Ducla Soares, uma vez mais, inova. 

E digo uma vez mais, pois é inegável o seu contributo para a renovação da nossa poesia para a infância, para o enriquecimento da ficção científica na narrativa infanto-juvenil portuguesa, para o conto e o poema nonsensical de recorte fortemente humorístico. Como é inegável o seu concurso para uma aproximação crítica, mas cheia de humanidade, aos chamados temas difíceis e ousados na escrita para crianças e jovens.  

Que ninguém perca, por isso, a leitura de Luísa – As Histórias da Minha Vida. Um livro imprescindível em qualquer biblioteca infantil, familiar e escolar.

 

José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O Barco de Papel, de Eugénio Roda e André da Loba

O Barco de Papel (2013), livro singelo publicado com a chancela da editora aveirense Bags of Books e com o gosto especial do seu editor, Francisco Vaz da Silva, uma iniciativa apoiada pela Câmara Municipal de Aveiro e pelo Projecto Rampa, nasce do feliz encontro entre as palavras literárias de Eugénio Roda e as ilustrações de André da Loba.

Pertencentes a uma nova geração de escritores/ilustradores que tem contribuído para a renovação da literatura portuguesa de potencial recepção infanto-juvenil, importa talvez aqui deixar, antes de tudo, algumas palavras acerca dos co-autores desta obra. 

Eugénio Roda (pseudónimo) – ou Emílio Remelhe (Barcelos, 1965) – lecciona na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e na ESAD (Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos) e o seu livro O Quê Que Quem. Notas de Rodapé e de Corrimão, ilustrado por Gémeo Luís, foi distinguido com o Prémio Nacional de Ilustração em 2005. Um outro, Azul, Blue e Bleu (Edições Eterogémeas, 2009) foi nomeado pela SPA para o Prémio Autores 2010. De Eugénio Roda – ou também de ER, Estêvão Roque, Ena Romero e Elliot Rain – conhecemos, há anos, os múltiplos resultados de uma actividade criativa desenvolvida em torno das letras1, mas também à volta das imagens ou da pintura, desenho, ilustração e cenografia. Com efeito, não têm sido raras as vezes em que, palavras e imagens, umas e outras, se desafiam, se motivam e se alimentam mutuamente, 


1. quer quando são nascidas das mesmas mãos ou da sensibilidade do próprio Emílio (Eugénio), como acontece em Trapalhadas Fantásticas. O Verdadeiro Destino do Senhor Adiposino (Edições Eterogémeas, 2005);


2. quer a partir de textos da autoria de outros escritores, como João Pedro Mésseder, por exemplo, em À Noite as Estrelas Descem do Céu (Campo das Letras, 2002), ou de um conjunto distinto de poetas como Filipa Leal, Jorge Sousa Braga, Luísa Ducla Soares ou Matilde Rosa Araújo, por exemplo, na colectânea Com Quatro Pedras na Mão. O Porto Cantado por Crianças e Jovens (Deriva, 2008);  


3. quer quando das palavras do Emílio nascem imagens, como se observa nas ilustrações que Gémeo Luís e Cristina Valadas têm inventado para textos seus, como são os casos de Ssschlep (Edições Gémeo, 2006) e Irmã(o) (Edições Gémeo, 2008);


 4. quer, ainda, quando escreve tendo como motivo inspirador as ilustrações de outros artistas plásticos, como sucede, por exemplo, 


a) com a micronarrativa “Toca a Roer”, redigida a partir de um desenho de Alberto Faria e publicada no catálogo da exposição A Casa dos Sonhos (Fundação Byssaia Barreto, 2003); 

b) com As Aventuras Domiciliárias II A História do senhor Inquilino Caseiro, livro composto por desenhos de Gémeo Luís, comentados por Estêvão Roque (Eterogémeas, 2002); 

c) ou, ainda, no grande livro (grande nas suas diferentes acepções) que assinou, também precisamente, com André da Loba: Pensamientras / On Thoughts (Edições Eterogémeas, 2012). 


É, aliás, logo no início deste livro, Pensamientras / On Thougths que encontramos registada uma das expressões que, em nosso entender, melhor poderão reflectir aquilo que de especial possui a escrita de Eugénio Roda/Emílio Remelhe. Efectivamente, os textos deste autor substantivam aquilo que designa como o “pensar revira-revoltas”, aquilo que, em última instância, é uma escrita poética, da família do discurso das crianças (sempre feito de ginásticas e de acrobacias com palavras e sons), de um registo ou de uma maneira de pensar que se alegra e se dedica a olhar o mundo e os outros do lado que poucos vêem, mas que muitos ambicionam conseguir ver. 

André da Loba, natural da cidade de Aveiro, é um reconhecido artista – ilustrador, designer gráfico, escultor e animador –, com trabalho publicado/divulgado nacional e internacionalmente. Com vivacidade e uma agilidade criativa, que lhe valeram já o reconhecimento pela The Society of Illustrators NY, pela Communication Artes, pela Illustrarte ou pela Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha, entre outros, André da Loba é colaborador regular do New York Times e já ilustrou mais de uma dezena de livros infantis. Aliando a sua arte à escrita de Eugénio Roda – no já referido Pensamientras, por exemplo – ou de João Paulo Cotrim – em Querer Muito –, apenas para citar dois exemplos – André da Loba cria singularmente, num estilo com “assinatura legível e inconfundível”, que se demarca pela simplicidade das figuras, construídas a traços e contornos reduzidos ao essencial, mas raramente distantes de um impulso metafórico que provoca ou desafia o leitor, alimentando a sua curiosidade.    

A obra O Barco de Papel exemplifica, na verdade, muito do que acabámos de expor acerca da arte literária e ilustrativa dos seus co-autores.  

Ficcionalizando, com subtileza e sem imediatismos ou interpretações gratuitas, a temática da mobilidade/acessibilidade, O Barco de Papel guarda uma história na qual participam personagens anónimas, recriadas visualmente a partir de formas minimais, opção que, em certa medida, corrobora a ideia de universalização da mensagem veiculada. Num espaço-casa, cenário habitado por uma família e preenchido de “coisas” – tapetes, cortinas com rendas, portas e fechaduras, jarras com flores, estatuetas, móveis e estantes, por exemplo – coisas, dizíamos, que cingem a respiração, a vida fecha-se e o movimento livre e imprevisível de aviões de papel, nascidos de mãos infantis, frustra-se.

Mas o certo é que este pequeno herói «tentou, tentou, fartou-se de tentar. Bafejava os aviões, falava-lhes baixinho, gesticulava, rezava.» (Roda, 2013: s/p). Insiste e persiste, ganha seguidores – «Avós, tios, primos, noras, genros, sogras, filhos, irmãos, netos.» (idemibidem: s/p) e, por fim, muitos foram os que puderam esvoaçar «como pássaros recém-tirados do ninho» (idemibidem: s/p). Diz o livro que «Houve até quem inventasse acontecimentos só para voar mais alto. Nunca na casa tinha entrado tanto ar. Nunca se tinha visto tanta coisa, abaixo dos pés e acima da cabeça.» (idemibidem: s/p).

A acção arquitecta-se, assim, em momentos ou em etapas claramente diferenciados, correspondentes às sucessivas tentativas de voo dos referidos aviões e à sua impossibilidade. Tecido de gestos persistentes protagonizados por um rapaz, o enredo desenvolve-se, então, e conclui-se positivamente, apenas porque a capacidade infantil de sonhar/ambicionar e, muito especialmente, de impor a mudança “para melhorar o mundo” não tem limites. Na verdade, o voo não é aqui somente um acto físico de um leve avião de papel. É, acima de tudo e na sua essência simbólica, uma aspiração e uma libertação. E o avião, «rápido, delicado no seu mecanismo e difícil de manejar» (Chevalier e Gheerbrant, 1994: 103), meio de partida da terra/evasão do terrestre, materializa, assim, a leveza, o sonho e a aventura.     

O próprio discurso é leve, leve como convém a uma prosa que em muito é poética, uma prosa «sem arestas objectivas e utilitárias» (Pimenta, s/d: s/p), que evidencia uma cadência especial. Para esse ritmo harmonioso contribuem, de forma determinante, a construção frásica, manifestamente simples e breve, a recorrência de formas verbais actanciais, o recurso preciso e “na medida certa” ao adjectivo, por exemplo, ou, ainda, à metáfora, aqui, em concreto, neste Barco de Papel, enquanto maneira de pensar e de viver, projecção imaginativa da verdade, ou “imagination in action”. Releiam-se, por exemplo, segmentos como: «E a casa arejou com a brisa das folhas, com a frescura das histórias.»; «A mãe sempre dissera que as novidades têm asas. Ora, se cada um se concentrasse numa boa novidade, conseguiria voar com ela.» (Roda, 2013: s/p).

A componente ilustrativa, contida na cor e nas formas, recria/revisita as principais linhas ideotemáticas e os momentos actanciais mais relevantes, assumindo particular significado, logo desde a capa e das guardas iniciais e finais. Com efeito, a ilustração da capa, revestindo-se de uma importante função catafórica ou antecipatória, sugere quer o movimento/a viagem, quer os meios que a poderão proporcionar – avião/barco –, também patentes, aliás, nas guardas iniciais (avião) e nas guardas finais (barco). Além disso e em última instância, o jogo que se celebra entre este dois elementos paratextuais (guardas iniciais e guardas finais) não deixa de substantivar (simbolicamente) o incipit e o explicit deste conto ilustrado – do avião de papel ao barco de papel: «Pai, e se fizesse um barco de papel?» (idemibidem: s/p), assim termina a história.

Concluímos, pois, sublinhando apenas que O Barco de Papel, de Eugénio Roda e André da Loba, é um objecto estético muito estimulante, um livro no qual, com uma admirável distância do literal, se elogia a vontade, o impulso, a capacidade, a liberdade de voar… «sem usar as escadas ou o elevador».  


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1 Tem livros publicados, por exemplo, na Campo das Letras, Caminho, Gailivro, Edições Eterogémeas, Porto Editora, entre outras.

 

Referências bibliográficas

 

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain (1994). Dicionário dos Símbolos. Lisboa: Teorema.

PIMENTA, Alberto (s/d). «Prosa poética» in http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=399&Itemid=2(consultado no dia 21 de Fevereiro de 2014).

 

Sara Reis da Silva
Instituto de Educação – Centro de Investigação em Estudos da Criança Universidade do Minho

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A poesia de Antonio García Teijeiro e “As coisas que faz o mar”

Natural de Vigo, Antonio García Teijeiro (n. 1952) é uma conhecida voz das literaturas galega e hispânica, premiado várias vezes pelos seus livros de poesia para a infância e a juventude, autor de poesia para adultos e também de contos para a infância e de narrativas para jovens, além de regular colaborador na imprensa. É, cumpre dizer, um amigo de Portugal, inveterado melómano e um leitor, e por vezes divulgador, de poesia portuguesa. O seu Versos de agua (1996) está considerado pela Fundação Germán Sánchez Ruiperez um dos 100 livros mais importantes da literatura infantil e juvenil espanhola do século XX, e Na fogueira dos versos (1996) obteve o Prémio Merlín de Literatura Infantil 1996, o Prémio Pier Paolo Vergerio 1998 (Itália) e foi incluído na Lista de Honra do IBBY de 1998. García Teijeiro é, além do mais, um homem bom e generoso e um pedagogo de renome (publicou livros e artigos nesta área), especializado em questões como a educação poética e a promoção da leitura.

Começando por recuperar aqui trechos, reformulados, de artigos que antes publicámos, destacaremos alguns dos livros deste poeta que tem trazido a lume dezenas de títulos. García Teijeiro viu editada, em 2015, uma obra em castelhano (pois escreve no idioma galego e na língua de Castela), intitulada En la cuna del mar (Creotz, colecção de poesia ilustrada ‘Hilo de cometa’), ou seja, “no berço do mar”. Com soberbas ilustrações de um dos maiores artistas da ilustração galega, o premiado Xosé Cobas, este livro de versos para todas as idades nasce da rica e sempre revisitada constelação temática do mar e do seu movimento (ondas, lua, vento, sol, navegação, aves marinhas…) – que, pensando em Portugal, nos traz de imediato à lembrança as cantigas de amigo trovadorescas, além de Camões, Afonso Lopes Vieira, Pessoa, Álvaro Feijó, Sophia de Mello Breyner Andresen e muitos outros. Feito de sedutoras subtilezas rítmicas e grafemático-visuais (García Teijeiro tende a explorar as variadas dimensões do policódigo literário), o poemário embala o jovem leitor na sua música insinuante, apetecendo musicar e cantar algumas das composições, muito vocacionadas para a leitura em voz alta. E, como sempre acontece neste escritor, detectam-se os ecos (assumidos) de notáveis poetas da tradição hispânica, como a galega Rosalía de Castro, os andaluzes García Lorca e Alberti ou ainda desse poeta mártir do fascismo franquista, que foi Miguel Hernández (a quem, aliás, é dedicada uma das mais belas composições de En la cuna del mar). 

Antonio García Teijeiro viria ainda a ganhar a mais prestigiada distinção dedicada ao livro infantil e juvenil no estado espanhol: o Prémio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil, pelo seu livro Poemar o mar (2016), obra poética de insinuante musicalidade e diversidade compositiva, bem enraizada na cultura galega, com a qual encerra a sua trilogia de temática marítima/marinha, iniciada com Palabras do mar (Edicións Embora, 2015). As belas ilustrações de Poemar o mar são de Xan López Domínguez e a chancela é a das Edicións Xerais de Galicia, de Vigo – cidade onde o escritor vive e compõe os seus versos, marcados pela vizinhança com a ria e com o gigantesco porto pesqueiro.

García Teijeiro exprime-se ora em galego (idioma preferencial, pois estamos perante um galeguista convicto) ora em castelhano, e é, portanto, um poeta do mar, da música (uma das suas paixões) e da paz, e um cultor também duma ecopoética que não se exime de denunciar as ameaças que pendem sobre o ambiente e o planeta. (Aceite-se, a este propósito, um convite à escuta do grande cantautor Paco Ibañez, que musicou poemas de García Teijeiro, como “Pomba”  e “Que ocorre na Terra”. Sobre Paco Ibañez, sugere-se a leitura de um artigo publicado em A Inocência Descompensada).

Mas o poeta revela-se também como um explorador da dimensão lúdica e visual das palavras e do texto, e como um pedagogo da sensibilidade humana e artística – no sentido nobre da palavra pedagogo –, em especial nos seus livros de versos para a infância.

Assim ocorre em outros volumes, como Paseniño, paseniño (Xerais, 2018), acompanhado de um CD musical com poemas recitados pelo autor. Uma obra não apenas para os mais pequenos, mas para todos, que conquista igualmente pela qualidade poética e plástica das ilustrações de Marcos Viso. Outro exemplo é Caderno de fume (Edicións Embora, 2018), com boas ilustrações de Leandro Lamas, também para a infância, que explora poeticamente o motivo do fumo e o seu potencial em termos de alargamento do imaginário e de sensibilidade à materialidade da palavra – questões essenciais na educação poética.

Muito desafiante é também outro livro, este escrito em castelhano, para jovens adultos e adolescentes, cujo título é todo um programa: Escritos en el viento: Narraciones y poemas en torno a Dylan (Verbum, 2017). Trata-se de uma parceria com o escritor catalão Jordi Sierra I Fabra (outro melómano), na qual alternam textos narrativos breves e poemas que, de algum modo, comentam as composições do autor de “Blowin’ in the wind”, as tomam como motes e prestam tributo a Dylan. Assinale-se que já os livros infanto-juvenis Petando nas portas de Dylan (2007) e Recendos de aire sonoro (2011) se inspiravam,respectivamente, na música do compositor/intérprete de Nashville Skyline e na dos Beatles, de Beethoven e doutros vultos; e registe-se que Queda a música (2013) tem a expressão musical como elemento inspirador/propulsor. Em suma, e como se observa, García Teijeiro escreve por ciclos, sendo que cada ciclo se encontra na origem, por vezes, de mais do que um volume. É possível, assim, falar do ciclo do mar, do ciclo da música, etc. Dentro de cada ciclo, as estruturas formais são variadas, podendo ir do poema de feição estrófica e rimática tradicional à composição em verso livre, segmentada de modo peculiar, passando pelo haiku. Um exemplo desta última forma: “Num baloiço, / vaivém de notas loucas, / riem as crianças.” (As Coisas que Faz o Mar, p. 42, em tradução de João Manuel Ribeiro).

Já em Poesia cromática (Belagua, 2017), é proposto um livro singular de poesia e pintura (a de Xulio García Rivas), em princípio destinado a um público adulto: García Teijeiro escreveu poemas a partir dos quais García Rivas pintou; em seguida, a pintura desencadeou nova escrita e esta, por sua vez, nova pintura. O resultado é uma sugestiva aventura poética e visual, até por nela se integrar a caligrafia do poeta, pois cada um dos poemas surge também em forma manuscrita, nas páginas ilustradas.

Foi com base em dezassete dos livros de poemas para a infância e a juventude publicados por Antonio García Teijeiro que o escritor e editor João Manuel Ribeiro organizou As coisas que faz o mar (Trinta por Uma Linha, 2018), assinando ainda a tradução para português. A ilustração da capa é de Xan López Domínguez, a contracapa ostenta uma bela fotografia do poeta, e a selecção começa com versos mais recentes (de Poemar o mar, 2016) e termina com uma amostragem dos mais antigos (de Versos de Auga, 1989). Um curto exemplo retirado de Palabras do mar com o título “Cintilações do mar” (p. 31):

 

O mar

           não tem paredes.

Por isso agarra-se ao horizonte.

 

Cruza 

           um barco

                          em silêncio

                                             as veias

                                                          do mar.

 

A lua galopa

                      sobre o mar.

                                           Cavalo de cristal.

                                                         Invisível.

                                                                       Golfinho de luz. (…)

 

A selecção é bastante representativa das linhas de força da poética de García Teijeiro, a edição visualmente cuidada, e a tradução para português a partir do galego, por incrível que pareça (dada a aparente proximidade dos dois idiomas), nem sempre se revela fácil, como comprovam várias das soluções encontradas. Por outro lado, oxalá uma segunda edição permita à editora corrigir as incómodas gralhas patentes no texto, como as que se detectam, por exemplo, nas pp. 42, 61, 64, 69, 70, 74, 77, 84, 86. 


Em boa hora é possível ler Antonio García Teijeiro e a sua poesia em português. E em boa hora se vem juntar à plêiade de escritores com títulos de literatura galega para a infância e a juventude já publicados na nossa língua, como Manuel María, Agustín Fernandez Paz, Xabier Docampo, Manuel Rivas, Fina Casalderrey, Marilar Aleixandre, Miguel Vázquez Freire, Marina Mayoral e outros.


Vale a pena referir, por último, que García Teijeiro mantém um interessante blogue de literatura e música, escrito em língua galega, e muito recomendável: Versos e aloumiños. Este blogue foi criado pelo filho de García Teijeiro, Antón García-Fernández – professor de língua, cultura e literatura espanholas na Universidade de Tennessee Martin (USA) e outro amigo da cultura portuguesa de que é grande conhecedor. García-Fernández, melómano como o seu pai, alimenta duas paixões: o fado e o jazz clássico. 


Recomendem-se, por isso, visitas atentas e assíduas aos blogues que criou (mantidos com a sua companheira Erin García-Fernández), dos mais documentados que conhecemos, nas respectivas áreas: “Guitarras de Lisboa”, “All this is fado” e ainda “Jazz flashes”.


Em suma, Antonio García Teijeiro e Anton García-Fernandez: dois homens de cultura, dois homens do mundo que Portugal deve prezar.

 

José António Gomes

 

CIPEM | INET-md e IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto