quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

‘Ana-anA’, de Ilse Losa, com ilustrações de Manuela Bacelar: uma obra ao serviço da inteligência e da sensibilidade

    

Guardo nos meus arquivos algumas das muitas crónicas que Ilse Losa publicou em diversos jornais, como o Jornal de Notícias, o Comércio do Porto, o Diário de Notícias, o Público, para apenas citar quatro. Uma delas veio a lume no Jornal de Notícias, provavelmente na década de oitenta do século XX, mas, por esquecimento, não registei na altura a data em que saiu. (A propósito: aguarda-se a recolha e publicação em livro das crónicas da autora, dispersas por numerosas publicações periódicas. São, é um facto, muito relevantes quer para a compreensão da personalidade marcante de Ilse quer para um conhecimento aprofundado da sua escrita, da sua poética e do seu tempo). O texto a que me refiro intitula-se “Janelas abertas” e nele se pode ler: 

Não faltam pessoas com vontade de limitar a literatura infantil a esquemas determinados. Assim umas entendem que as crianças devem apenas ler histórias com um conteúdo realista ou de intervenção social; outras, por sua vez, são da opinião de que só o puro imaginário se ajusta ao mundo infantil; outras acham que as crianças devem não ser inquietadas, que lhes convém acreditar num mundo intacto, cor-de-rosa e, por isso, defendem uma literatura levezinha, sem problemas, que não entristece e, na melhor das hipóteses, provoca o riso; ainda outras indicam, como única literatura infantil válida, a didáctica que, em seu entender, abre caminho para um melhor conhecimento do mundo. E ele há também quem ache que livros para crianças são uma inutilidade. || Pergunto-me por que razão não se traçam tais esquemas rígidos quanto à literatura para adultos. Por que não se nos propõe lermos exclusivamente isto ou aquilo sem perdermos tempo com o resto…

Neste seu artigo, depois de discorrer sobre a diversidade existente no mundo dos livros para crianças, de valorizar o acesso dos mais novos quer a literatura nacional quer a literatura estrangeira, e de defender que seja salutar interessarem-se também por certas obras da literatura dita para adultos, Ilse Losa, em conformidade com o título da crónica, conclui: “Deixemos, portanto, portas e janelas abertas para que essa gente nova possa livremente ir em busca dos mundos da arte e do conhecimento.”
Esta sensata e saudável apologia da diversidade de leituras a proporcionar à criança e ao jovem, a autora de O Mundo em que Vivi aplicou-a à sua própria criação literária e, por isso, nela coexistem tanto narrativas de orientação realista, como O Senhor Pechincha (1993, inicialmente intitulado “Mosquito e o sr. Pechincha” e editado em 1966), O Quadro Roubado (1977) ou O Expositor (1983, publicado, uma década mais tarde, sob o título Miguel, o Expositor), como histórias de tipo fantástico, como Viagem com Wish (1983) ou Silka (1984). 
Ana Cristina Vasconcelos de Macedo é autora do mais aprofundado estudo publicado até ao momento sobre a escrita de Ilse Losa para a infância e a juventude, incluindo obras de crossover fiction como O Mundo em que Vivi. É certo que as do primeiro tipo que mencionámos, às quais Ana Cristina Macedo chamou (2018: 117) narrativas de contornos realistas, são talvez em maior número e foram sobretudo publicadas entre 1949 e os anos oitenta, espelhando, em particular as primeiras, certa ligação da escrita de Ilse ao movimento neo-realista. Já as do segundo tipo, segundo a mesma autora (Macedo, 2018: 231), ou seja, as narrativas de contornos fantásticos ou do imaginário, foram sendo editadas, maioritariamente, a partir de 1980.
Publicado pela primeira vez em 1986, na colecção ASA Juvenil, e reeditado em 2018, Ana-anA ou Uma Coisa nunca Vista (Afrontamento, 2018) enquadra-se pois no segundo conjunto de contos e novelas. Por outro lado, inscreve-se na categoria das histórias de temática natalícia, de tão enraizada tradição na literatura da infância (E. T. A. Hoffmann, Hans Christian Andersen, Charles Dickens, O. Henry, L. Frank Baum, Sophia de Mello Breyner Andresen…) e de tendencial bom acolhimento por parte desse público. 
Em Ana-anA existe outro traço discursivo relevante: o facto de, começando com uma fórmula de abertura – destinatário (“Mico, querido irmão:”) e data –, estar redigido como uma carta que Ana dirige ao seu irmão, no dia 20 de Dezembro, na sequência de uma longa viagem, na verdade curta – pois tudo sugere que se trata de um sonho acordado. Nessa espécie de viagem mental para um mundo outro, mágico, Ana fica a conhecer, além do professor Unapedra (com o seu computador chamado doutor Mafona) – figura de sábio que gostava de terminar o seu dia tocando violino no alto de uma árvore –, Dona Calíope, misto de “musa, fada, bruxa” (p. 32) e uma série de animais, entre o personificado e o mágico, como a girafa Greta e a zebra, ambas falantes, além doutros bichos como o cão Calef (há quase sempre cães nas histórias de Ilse), a gata Zuzu de Dona Calíope, e o macaco Félix, porteiro bem-falante da grande casa, com a sua cartola mágica, herdada de Fumanchu, mestre dos prestidigitadores. 
A viagem principia na rua do Sol (não é a única alusão portuense no livro, outra há, a dada altura, ao velho cinema Chaplin, em Leça da Palmeira, conquanto acreditemos que podem não ter passado de meras referências inspiradoras). Aquela via é “uma rua estreita” com “de cada lado, casas tão altas que o sol nunca lá chega a entrar (…) por vezes acontece com as ruas o mesmo que com as pessoas: o nome não lhes assenta. É assim nesta Terra, nem tudo bate certo.” (p. 3). Esta frase, indiciadora do assombro que se seguirá, é escrita por Ana na sua carta ao irmão, para quem procurava, nas lojas, uma “linda prenda” de Natal, “alguma coisa fora do comum” (p. 3). Essa “coisa nunca vista” (subtítulo da narrativa), essa prenda especial e fraterna acabará por ser a própria missiva – e quem resiste às lindíssimas e divertidas ilustrações-prolongadoras-da-história de Manuela Bacelar, nas páginas 2 e 45, de uma menina divertida e sonhadora (a última), e do seu irmão mais novo, leitor sôfrego da carta, ou seja da aventura vivida/imaginada por Ana, como se o prodígio desta constituísse elemento impulsionador da própria leitura. 
Existe, por conseguinte, uma estrutura triádica em Ana-anA: 1. A heroína encontra o “Pai Natal-Só-Um” (um Pai Natal a sério e não uma imitação como a da montra da loja dos brinquedos); 2. viaja com o Pai Natal até uma terra e um casarão estranhos e mágicos (cena com os animais, episódio com o sábio professor Unapedra, episódio com Calíope); 3. o Pai Natal parte de helicóptero para a sua missão e, após troca de palavras com Félix, dá-se o mágico regresso de Ana, “num fechar e abrir de olhos” (p. 46) – atente-se na ordem dos verbos – à rua do Sol e, por fim, o retorno a casa, onde a história em forma de carta é contada.
No início (e num texto que contém breves alusões intertextuais a obras igualmente associáveis ao maravilhoso como o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, a Sereiazinha, de Andersen, e as Aventuras de Pinóquio de Collodi), a cena do encontro faz lembrar Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, tal como outros elementos mais adiante no texto: Ana olha a montra da loja de brinquedos, dir-se-ia um espelho; “atordoada” com os “gestos repetidos” (p. 4) do Pai Natal de plástico, é surpreendida pela voz do verdadeiro Pai Natal. Está, pois, no limiar do mundo segundo, onde vivem as criaturas mágicas mencionadas, e passa para o outro lado. O veículo transportador, que efectua a transição definitiva do mundo primário para esse mundo segundo, é uma simpática Dona Elvira de antanho, conduzida, aos solavancos, pelo Pai Natal.
Pelo meio do texto, ou melhor, nas suas entrelinhas, várias são as críticas que podemos ler: primeiramente, a uma sociedade que, no Natal, usa e abusa dos Pais Natais de imitação, o mesmo é dizer, a uma sociedade consumista que vive de aparências. E por isso o Pai Natal amigo de Ana é o verdadeiro Pai Natal, ou seja, Nicolau: “há terras onde toda a gente assim me chama por entender que sou esse Santo Nicolau que, como eu, tem séculos de idade. Também houve Papas, Duques e Czares assim chamados. É que Nicolau é nome bonito e soa a homem inteligente.” (p. 8). Isto declara o próprio Pai Natal. Na mesma lógica, a “coisa nunca vista” que Ana procurava para o irmão não será um brinquedo especial, um objecto industrial, mas sim uma carta, escrita por si, um gesto repleto de imaginação, graça e afecto, ou seja, um verdadeiro passaporte para o sonho e para o coração da própria Ana. 
Apraz-me encontrar aqui uma segunda crítica – algo pioneira, se pensarmos que foi escrita em 1986 – ao endeusamento da tecnologia, em especial, dos computadores, que desgraçadamente tem caracterizado a sociedade pós-industrial. Recordemos o que o sábio Unapedra (que vive rodeado, não de microscópios, tecnologia, mas sim de livros) ensina à jovem Ana: “– O Doutor Mafona, o grande sabedor, não tem coração. // – Mas nós podemos amá-lo, ou não podemos?”, pergunta Ana. Responde o professor: “– E porque não? Mas só seremos correspondidos se ele for concebido com amor e para dar amor. É que o Doutor Mafona não passa de eco de quem o planeou.” (pp. 28-29).
Ana (sublinhe-se, no título, a manipulação gráfico-semântica do nome: Ana-anA) – a menina que, por ter um nome-capicua, ou seja, um nome palíndromo, como lembra Ana Cristina Macedo (2018: 287), traz sorte ao Pai Natal, é ele próprio a reconhecê-lo –, vê-se assim exposta a uma espécie de pedagogia dos afectos que não fica por aqui. Jovem e confrontada com uma observação de Nicolau, dirá: “– Sinceramente, senhor Nicolau, não me parece que a inteligência se meça pelos anos de vida.” (p. 9). A questão “A inteligência mede-se pelos anos de vida?” será pois colocada quer a Unapedra quer a Calíope. O primeiro responderá com estas palavras, na visão de Ana, “bonitas” e “atinadas”:

“(…) longos anos de vida revertem em experiência, dão ocasião para se verem muitos lugares, conhecerem-se em abundância gente, animais, plantas e obras realizadas pelos homens. Mas quem, em longos anos de vida, não aprendeu a ler nos corações dos homens, a compreender a língua dos animais e o cheiro das plantas; quem não conseguiu ouvir a música nas palavras, nas cores, no rumorejar das águas e das árvores, pouco ganhou com a longevidade, pois nada de verdadeiramente válido saberá transmitir aos outros homens.” (p. 30).

Já a “musa-fada-bruxa” Calíope (na qual ecoam naturalmente Pseudo-Apolodoro, Virgílio, Ovídio…), a que fala por invulgares provérbios, como uma maga, terá, por seu lado, o condão de fazer Ana – esforçadamente e sob tensão – exprimir o seu próprio pensamento nestes sensatos termos: 

Acho que o conselho dos velhos tem valor. Ao conhecermos as suas experiências podemos corrigir uma data de erros. É como diz o meu pai: os mestres fazem-se aprendendo ao longo de muitos anos. Mas perdoem-me, Dona Calíope e Nicolau, não creio que a inteligência se meça apenas pelos anos de vida. Conheço pessoas que ainda não são velhas, mas inteligentes. Tenho companheiros de turma inteligentes – não te envaideças agora! – o meu irmãozinho Mico também é inteligente. (pp. 37-38). 

No fim de contas, a carta de Ana não descreve apenas as “lições” aprendidas e o modo como o seu olhar sobre o mundo se alargou e aprofundou, ela configura também uma educativa e afectuosa mensagem dirigida ao irmão mais novo, para quem a heroína se revela já, de algum modo, mestra de vida.
Em Ana-anA, Ilse Losa capricha nesta ou naquela comparação, nesta ou naquela metáfora mais original, nesta ou naquela tirada humorística mais especiosa, mas é nos diálogos, vivíssimos e divertidos, nomeadamente com Nicolau, o Pai Natal, que toda a graça da narrativa, plena de humor e de jogos em torno do que é lógico ou ilógico, surpreende o leitor ou leitora, ao mesmo tempo que o/a confronta com reflexões intemporais (e, por isso mesmo, actualíssimas), como se, já numa fase final da obra, algo de significativo sobre a sua mundividência quisesse Ilse Losa deixar em herança aos vindouros. E com tudo isto e mais ainda se tece também a vivacidade da própria enunciação narrativa, assente, sobretudo, no esquema epistolar que estilisticamente a condiciona. Virtualmente dialógico, o discurso faz com que irmã conte a irmão, em registo familiar, não raro interpelador, uma história que aspira a ter também o dom de o conquistar para a leitura1.
As belíssimas ilustrações, desenhadas e pintadas, de Manuela Bacelar caracterizam-se, em Ana-anA, e em consonância com o conto, por um apurado sentido de humor, bem característico da artista, pela expressividade dos rostos e por um certo gosto pela caricatura e pela hipérbole que cativam o/a leitor/a. A estes traços se juntam o cuidado na composição de cada imagem e a sempre conseguida combinação de cores e tonalidades. Um conjunto visualmente rico, capaz de criar um mundo com vida própria, em que o cómico e o lírico coexistem de forma particularmente tocante.

Nota

1 Para uma análise pormenorizada, informada e arguta de Ana-anA, leia-se Ana Cristina Vasconcelos de Macedo (2018: 282-294).

 

Referência bibliográfica

Macedo, Ana Cristina Vasconcelos de (2018). A Escrita de Ilse Losa para a Infância e a Juventude. Porto: Tropelias & Companhia.

 

José António Gomes

Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais (IELC) do INED da Escola Superior de Educação do Porto

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Uma novela para crianças e jovens em torno da orfandade e não só

Aprecio neste belo livro (Noa, Oficina do Livro, 2021) as ilustrações de Raquel Costa, que fogem a um certo gosto dominante hoje, em Portugal, no domínio da ilustração para a infância, bem como ao uso corrente e exclusivo, um tanto fácil parece-me, de certas técnicas com pouco de artesanal. Depois cada imagem é repleta de pequenos pormenores, sugestivos, criadores de atmosfera e de narratividade, poéticos e atentos à psicologia das personagens. É justo dizer que Raquel Costa sabe ler os textos literários que ilustra.

E a narrativa de Susana Cardoso Ferreira (escritora com vários livros editados e até publicamente distinguidos)? Ponto de partida das ilustrações de Raquel Costa, possui notória qualidade de conteúdo e de expressão, e certa tonalidade lírica, mas sem lamechice, não obstante o drama exposto (a orfandade, tanto a real, traumática, como a afectiva), narrado e descrito com contida intensidade. Uma escrita com elementos de originalidade, mesmo ao nível gráfico e de estruturação textual, que me agradam sobremaneira, com a prosa a parecer composta por versos longos, lembrando a poesia de Walt Whitman. Criada por quem conhece bem a Natureza, as plantas, os animais (que neste livro se revestem de grande importância, a começar por um simpático corvo), a história, além do mais, valoriza a infância mas também o crescimento, a maturação, a capacidade de superar adversidades – ao invés dalgumas glosas requentadas do complexo de Peter Pan (e de Roald Dahl) que por aí circulam, com reaccionário êxito, inexplicável (ou talvez não). 

Diga-se, finalmente, que Noa é uma novela. Uma novela em que a palavra, o texto literário se revestem de efectivo peso e valor, assumindo todo o seu poder. Por exemplo de interpelar, de comover, de fazer sorrir. E isso para o leitor que sou é fundamental, pois vai em contracorrente. Eis um livro que, ao contrário doutros, nunca poderia (sobre)viver sem a parte verbal, que é um texto literário de qualidade. Que viva pois a palavra. E as boas histórias. Contadas com originalidade, como a do livro em apreço. 

Esta história de Noa e de Paz (uma bem moldada personagem infantil) mereceu, com justiça, o Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância 2022 e foi distinguida pela inclusão na lista selectiva White Ravens, da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique.

 

José António Gomes 

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Ana Luísa



Ana Luísa Amaral (1956-2022) não foi apenas uma poeta de alta, bela e reconhecida voz, em Portugal e no estrangeiro (a sua poesia está hoje reunida em O Olhar Diagonal das Coisas, 2022), e uma autora de livros para a infância e a juventude que devem ser lidos e apreciados: Gaspar, o Dedo Diferente e Outras Histórias, 1998; A História da Aranha Leopoldina, 2000; Auto de Mofina Mendes de Gil Vicente (adaptação), 2008; uma adaptação de A Relíquia de Eça de Queiroz, 2008; Como Tu, 2012; Lengalenga de Lena, a Hiena, 2019. Publicou ainda o romance Ara, 2013, e foi uma excepcional estudiosa de poesia (conhecedora de poetas das mais diferentes latitudes) e uma divulgadora igualmente excepcional, generosa e persistente. Deste ponto de vista, sinto uma dívida enorme em relação a’«O som que os versos fazem ao abrir», na Antena 2, e ao seu notável trabalho de investigação académica (designadamente no campo dos Estudos Feministas), importando lembrar outras intervenções radiofónicas suas, a par das muitas conferências, cursos e oficinas – era uma incansável e entusiástica trabalhadora das letras. Também como ensaísta e como tradutora (da sua paixão, Emily Dickinson, mas também de Shakespeare, de John Updike, de Louise Glück, de Margaret Atwood e de muitos outros poetas, para não falar das suas traduções de John Locke, de Virgina Woolf e de Wesker) fica o país a dever-lhe imenso. 

Mas Ana Luísa foi, além disso, uma mulher muito corajosa e livre, que ousou pôr publicamente o dedo em muitas feridas – e que, silenciosamente ou não, acabou às vezes sendo penalizada por isso, como sucede com todas as pessoas de coragem. Foi (e ainda bem) uma poeta com intervenção cidadã e política – o que hoje é cada vez mais raro. Para alguns, quase imperdoável. E isto sem nunca perder a doçura e afabilidade do olhar, da voz, da maneira de estar. 

Tive sempre com Ana Luísa um relacionamento muito cordial. Lembro-me de termos sido colegas na faculdade, em Germânicas – embora, nessa fase, apenas nos conhecêssemos de vista. Tínhamos uma amiga comum, Ana Gabriela Macedo, que foi quem primeiro me falou da sua poesia. Há muito, muito tempo. Foi membro do júri das minhas provas de doutoramento, em 2003, na Universidade Nova de Lisboa, e membro do júri das minhas provas para professor coordenador de Literatura Portuguesa, na Escola Superior de Educação do Porto, em 2006. Impecável em qualquer destas duas situações. Colega de irrepreensível trato, correcção e amabilidade. E de enorme qualidade, no plano académico. Devo acrescentar que foi boa e justa professora de ambos os meus filhos, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.


Escrevi sobre livros seus para a infância e, na minha faceta João Pedro Mésseder, reencontrámo-nos em 2005-2006, com outros escritores portugueses e galegos, no projeto Estafeta do Conto da Xunta de Galicia e da Direção Regional de Cultura do Norte (promovido por Xavier Senín Fernández e Helena Gil Coutinho), o qual deu origem à publicação de duas novelas juvenis bilingues. A de Ana Luísa: Passos de música, caminhos de água/Pasos de musica, camiños de auga (em co-autoria com Fina Casalderrey, Vergílio Alberto Vieira e Xabier Docampo – um grande escritor e amigo também já desaparecido). Tempos bons e luminosos, perdidos (ou ganhos) entre o norte de Portugal e a Galiza. 


Hoje, os leitores de poesia e o país como um todo perderam um ser humano e uma artista de excepção. Saibamos honrar a sua memória e fazer bom uso do muito que nos lega. 

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MÚSICAS, de Ana Luísa Amaral

 

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.

E deito-me a seu lado,

a cabeça em partilha de almofada.

 

Os sons dos outros lá fora em sinfonia

são violinos agudos bem tocados.

Eu é que me desfaço dos sons deles

e me trabalho noutros sons.

 

Bartók em relação ao resto.

 

A minha filha adormecida.

Subitamente sonho-a não em desencontro como eu

das coisas e dos sons, orgulhoso

e dorido Bartók.

 

Mas nunca como eles,

bem tocada

por violinos certos



6-8-2022

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais do inED da ESE do Porto

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Do Outro Lado do Cerejal, de Estela Rodrigues


Nascido da exploração do «acaso» rodariano (nunca serão suficientes os elogios ao potencial narrativo e poético da Gramática da Fantasia (1973) do popular autor de Histórias ao Telefone), o texto de Estela Rodrigues emerge de paixões e convicções. Acredita-se que uma educação pela arte é possível e que uma pedagogia da criatividade se apoia num educador ele próprio convicto dos poderes da expressão artística e munido dos objetos suscetíveis de estimular a criação: plásticos, musicais, literários, naturais ou outros. Um animador persuadido da viabilidade de partilhar com a criança esse tesouro e de a fazer crescer pela invenção, numa óptica cooperativa e de co-criação. Depois há a paixão pelas cerejas, que não é só gustativa, visual, táctil, mas que é também alimentável pela poesia, pela música, pela grande pintura moderna, inclusive pela política (lembre-se a célebre canção «Le Temps des Cerises»). De tudo isto nasce Do Outro Lado do Cerejal (Afrontamento, 2021), história encarnada que é em simultâneo um poema e uma muito bela – e muito formativa – aventura visual, partilhada por uma educadora de infância e pelas suas crianças.

E nós que andamos tão precisados de uma acção educativa fundada em convicções alicerçadas, e na crença no poder transformador da arte. Ah, e como precisamos também de concretas demonstrações de como o ofício de educar é essencialmente criativo e por isso criador. Um ofício, ouso dizer, capaz de transformar a (sobre)vida em vida intensamente vivida, como queria Vaneigem, em A Arte de Viver para as Novas Gerações (1967). Eis aqui um estimulante exemplo.

Estela Rodrigues, acrescente-se a terminar, a autora de Do Outro Lado do Cerejal, é professora e ensaísta, membro do Movimento da Escola Moderna, e foi uma das fundadoras do curso de Educação de Infância da Escola Superior de Educação do Porto, nos primórdios desta instituição, onde leccionou. Foi educadora de infância além de professora nas Universidades do Minho e de Aveiro, na sua área de especialização: a educação de infância. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e concluiu mestrado na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da mesma Universidade. A poesia experimental é outra das suas áreas de interesse e encontra-se, em parte, na origem da sua importante obra Pensar a Imagem. Olhar o Texto: Experimentos Poéticos na Educação de Infância (Afrontamento, 2019).



José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

João Paulo Cotrim (1965-2021)



Conheci-o talvez em 1998 ou 99, na Bedeteca de Lisboa. Convidara-me, por intermédio de Dora Batalim, para fazer uma sessão, creio que para professores e mediadores da leitura, em torno do meu livro infanto-juvenil Versos com Reversos (Editorial Caminho).

Já costumava ler os seus artigos e recensões, mas de imediato reconheci nele uma personalidade afável, gentil e principalmente apaixonada por aquilo que era o seu projecto de então: precisamente a Bedeteca, de que foi a ‘alma mater’. 

De longe fui acompanhando o seu percurso. Lia muitas vezes, sempre com proveito, os seus muitos textos histórico-críticos sobre banda desenhada (em Portugal, os estudos sobre BD e os próprios criadores desta área ficam a dever-lhe muito). Soube-o, mais tarde, integrado na equipa desse belíssimo projecto da Fundação Calouste Gulbenkian que deu pelo nome de Casa da Leitura, equipa da qual outras amigas faziam parte, como Cristina Taquelim, Sara Reis da Silva e Ana Margarida Ramos. Um projecto a que cheguei a dar também alguma colaboração. 

Mas João Paulo Cotrim era ainda escritor: quer como argumentista e criador de textos para álbuns de BD quer como autor de obras de qualidade (e não apenas livros infanto-juvenis). Os seus álbuns A Cor Instável(2003, com Alain Corbel), O Homem Bestial (2003, com Maria João Worm), História de Um Segredo (2003, com André Letria) e Viagem no Branco (2004, com Miguel Rocha), todos da Afrontamento, além da sua qualidade estética intrínseca, são obras de algum pioneirismo ainda, no domínio do picture storybookportuguês. Muitos outros títulos se seguiram. Além de guionista para filmes de animação, Cotrim foi também autor de crónicas, poeta e organizador de antologias. É de salientar que deixa uma obra de dimensão considerável produzida durante uma curta vida. 

O seu último grande projecto (pois era um homem de projectos – pensava-os e realizava-os) foi a editora Abysmo, a que conferiu identidade própria, juntamente com os autores que quis acolher no seu catálogo (poetas, escritores de ficções e ensaio, ilustradores, designers gráficos…) e que, sem dúvida, lhe imprimem singularidade. Recordo-me de, em 2014 talvez, ter convidado a ilustradora Ana Biscaia para, juntamente comigo, apresentarmos o nosso livro Que Luz Estarias a Ler? (Xerefé Edições), ali, à Rua da Horta Seca, em Lisboa, na bonita galeria da Abysmo. Assim o fizemos com a preciosa cumplicidade do Bruno Monteiro que fez uma introdução ao nosso trabalho.

A Abysmo foi, é, sem dúvida, um projecto editorial original e de qualidade. Graças à criatividade e energia de João Paulo. Que vai fazer muita falta à nossa cena cultural, não tenhamos dúvidas. (Ainda em Novembro de 2021, editou por exemplo Micróbios, de Henrique Manuel Bento Fialho, que, pelo humor e sentido crítico e pelas suas características ideotemáticas e formais, no domínio do conto breve e do micro-conto, considero ser um dos mais interessantes livros portugueses de 2021.)

Continuemos a ler as criações literárias e editoriais de João Paulo Cotrim e saibamos dar o devido uso aos estudos que nos deixa, em especial no campo da BD.

 

João Pedro Mésseder

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Jaqueline Conte: entre narrativa e poesia, uma nova escritora, uma escritora nova


Tivesse eu de escrever um artigo sobre a questão da morte no livro infanto-juvenil actual, em língua portuguesa, e ao corpus lá iria parar, com destaque, esta novela da escritora brasileira Jaqueline Conte: Os Jornais de Geraldine (Curitiba: Arte & Letra, 2019). O título joga desde logo com certa polissemia, quer porque de facto são referidos jornais na obra quer porque a heroína, Geraldine, pré-adolescente, redige um quase-diário (journal, em Francês) heterodoxo, pois é feito de pequenas ficções que emergem de nomes… encontrados. Mas o meu suposto artigo viria com esta advertência: há modos e modos de tratar o tema. E a forma como Jaqueline pegou na morte tem que se lhe diga: é sensível, engenhosa, divertida até, e revela desde logo a sua imaginação e o seu talento como criadora de ficções para os mais novos. Senão vejamos.

Não querendo desvelar o enredo, recorro pelo menos ao peritexto da contracapa com que o potencial leitor pode, ele próprio, vir a ser atraído para a leitura: «Geraldine tem um hábito incomum: em seu caderninho azul, coleciona nomes que considera diferentes, selecionados do obituário do jornal. || O motivo? Quer inventar histórias para esses nomes. Só não sabe como. Até que o pai lhe propõe um projeto irresistível (e supersecreto!).» 

A estrutura combina assim um narrador não participante que conta a história de outros Geraldine, o pai, a tia, a empregada… – (heterodiegético, portanto) com um narrador criado por Geraldine-escritora e que conta histórias de personagens que são crismados com os tais nomes estranhos (que bonito tributo – apetece dizer – à inventividade ficcional/literária).

Funcionário administrativo de cemitério, o pai é o primeiro leitor das páginas de Geraldine (aliás estimulou a filha a compô-las). Para ele escreve a menina ao longo de várias noites (como que um eco d’As Mil e Uma Noites?), enfiando cada novo texto por baixo da porta do quarto do seu simpático progenitor.

As histórias inventadas por Geraldine são em geral estranhas e divertidas e captam a curiosidade do leitor, desde logo devido aos próprios nomes dos protagonistas: Astolfo, Dona Ambrosia, Pulquéria…. Toda a novela assenta na alternância de vozes (o narrador heterodiegético e o narrador das histórias-retratos da menina), despertando, estou quase certo, o interesse dos potenciais destinatários. Até porque as personagens são verosímeis, credíveis, a sua «humanidade» enternece-nos, e porque o conjunto constitui, ao mesmo tempo, uma homenagem à escrita, à arte de inventar e contar histórias e ao afecto e cumplicidade entre filha e pai. Além de configurar, como já se percebeu, uma paradoxal e terna exaltação da vida.

A prosa de Jaqueline Conte marcada pela simplicidade e pela fluidez, mas estilisticamente apurada e muito atenta às pequenas vibrações expressivas do Português do Brasil (em especial no plano das opções lexicais), possui ritmo oralizante, mas não faz concessões à facilidade. 

É um prazer ler esta ficção, além do mais bem paginada e devidamente editada, com capa, ilustrações e projecto gráfico felizes de Frede Tizzot (impressão em risografia e encadernação manual). Graficamente, trata-se duma elegante edição, de capa dura.

Do mesmo ano, 2019, é Passarinho às Oito e Pouco (Curitiba: Insight Editora), um conto quase todo em diálogo, belamente ilustrado em quadricromia por Adilson Farias, bom desenhador de pássaros e figuras humanas dentro do seu registo, que alguns elementos possui de certa banda desenhada, e que é susceptível, estou seguro, de prender a atenção dos mais novos. 

Inspirado num episódio real sobre um pássaro que parecia querer entrar numa casa e que batia no vidro da janela, episódio esse que inspirou a escrita dalguns poemas que integram o corpo do texto narrativo, Passarinho às Oito e Pouco é um conto de desarmante simplicidade-e-poesia. Resumi-lo ou comentá-lo neste espaço seria macular o seu encanto, até porque tudo se joga num diálogo vivo, muito terno e pleno de sensibilidade, entre uma mãe-poetisa e o seu filho também poeta. «Esse passarinho / Me poema / Todo dia / Às oito e pouco da manhã» (p. 15) – escreve a mãe numa das suas composições poéticas. 

Não conheço muitas histórias profundas mas de aparência simples sobre o mistério da poesia, sobre as palavras e o seu enigma, escritas por quem detenha, efectivamente algum saber sobre tal mistério. Convidando também a uma certa reflexão metapo(i)ética, Passarinho às Oito e Pouco guarda um pouco dessa profundidade, além de estimular à própria escrita criativa. E isto sem abrir mão duma questão sempre imperativa em Jaqueline Conte, que é a da afectividade e da cumplicidade familiares.

Complementam esta breve mas intensa ficção poética uma informação sobre a verdadeira história do passarinho (incluindo foto), um saí-azul; um curto esclarecimento sobre três termos mais «difíceis» do texto; uma versão inglesa do conto em letra mais pequena; e ainda um código QR que permite navegar por conteúdos extra do livro1. Mas tudo se encontra organizado e formatado com bom gosto e sem excessos didactizantes. 

Já no livro de vinte e oito poemas Na Casa Amarela do Vovô, Joaninha Come Jujubas(Curitiba: Mercado Livros, 2017), para crianças mais pequenas (há mesmo poemas que podem ser introduzidos no pré-escolar), Jaqueline Conte revela-se-nos poetisa. E uma poetisa para a infância de eleição, direi. A actividade lúdica da criança, a figura humana, o bicho, os próprios poetas e a poesia bem como o mistério/fascínio das palavras são alguns dos veios temáticos do poemário – em que cada composição é seguida de uma página em branco onde a criança pode desenhar, fazer colagem, grafismos, escrever… E porque «Poema / É brincadeira de palavras / Que gostam / De se divertir», como se lê no «Poema brincante» (p. 30), não se estranhará que a vertente lúdica da poesia, a materialidade do signo, a festa da língua sejam aqui as pedras de toque. Mas também o é o modo sensível e arguto como o olhar do sujeito poético capta idiossincrasias e encantos dos seres, das coisas, dos lugares. As ilustrações simples mas sugestivas (traço a negro sobre grande superfície colorida) de Cassiano Tabalipa (que também assina capa e projecto gráfico) dialogam bem com as palavras, evidenciando uma preocupação: não as afogar na imagem, mas antes valorizar o texto literário enquanto objecto verbal artístico. 

Monteiro Lobato, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Henriqueta Lisboa, Jorge Amado, Manoel de Barros, José Paulo Paes e sobretudo Ziraldo, Lygia Bojunga, Ruth Rocha, Ana Maria Machado são apenas alguns dos nomes que me vêm à memória quando penso na grande literatura brasileira para a infância e a juventude. O estro de Jaqueline Conte possui já alguma coisa desta nobre linhagem, da sua intemporal frescura criativa e da sua inventividade linguística. Apetece dizer, após a leitura destes três livros: Jaqueline, uma nova escritora que é uma escritora nova.

 

Nota

1 Escreve Jaqueline Conte no seu Facebook, em Dezembro de 2021: «Para quem não sabe, o livro "Passarinho às Oito e Poucotem um site, acessível por meio do QR Code que está impresso ao final do livro. Lá há muito conteúdo ligado à literatura, artes, música e ciências, além de sugestões de atividades para mediadores de leitura. Também por ali convido os leitores a pensar no poema que o personagem principal teria feito. E vira e mexe recebo os poemas feitos pelas crianças.»

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

sábado, 4 de dezembro de 2021

A Senhora Prestável, de Augusto Baptista e Emelie Ostergren


Contista, inventor de frases-enigma de recorte poético e humorístico, autor de livros Tangram, capista e cartoonista, além de fotógrafo, Augusto Baptista averba, na relação das suas obras, um livro de cunho infanto-juvenil editado pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e pelo Centro Hospitalar de São João, em 2017: O Lobo Mau no Hospital, concepção gráfica de João Bicker (FBA) e ilustrações de Z.L. Darocha (1945 - 2016). Trata-se de uma narrativa que desconstrói o esquema de «O Capuchinho Vermelho» (Perrault, Grimm…), readaptando a história ao universo hospitalar dos mais novos.

O escritor regressa, em Dezembro de 2021, a este domínio, mas com uma obra que talvez seja mais de fronteira, isto é, de recepção transgeracional. A edição é da Xerefé e trata-se de um belo objecto para uma prenda natalícia.


Apoiada pelas imagens de Emelie Ostergren, que divergem dos gostos dominantes em matéria de ilustração em Portugal – mas que inegavelmente se distinguem pelo humor –, a curta narrativa escrita por Augusto Baptista é um pequeno prodígio de graça. Dispensa mensagens subliminares ou outras para apostar apenas (e já não é pouco) na criação de personagens cómicas e de episódios de cariz surrealizante, em que a dimensão hiperbólica e caricatural das situações é rainha. O «negócio» de A Senhora Prestável é mesmo fazer rir, e consegue-o de modo exemplar, naquela prosa de recorte saboroso a que já nos habituou Baptista, mestre do conto breve e do microconto. Uma história bem divertida, capaz de atrair tanto miúdos como graúdos.  


José António Gomes

IEL-C Núcleo de Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto