domingo, 28 de junho de 2009

As Cores dos Animais, de Michael Rosen e John Clementson

No prefácio à sua antologia de Os Melhores Contos Populares de Portugal (Rio de Janeiro, 1944), Luís da Câmara Cascudo define os «contos etiológicos» como histórias que «explicam a peculiaridade morfológica de um animal, a forma de uma árvore, o aspecto de um monte».

Lembrar-se-á o leitor mais atento de uma deliciosa colectânea de Contos do Tio Porquê, de origem africana, publicada, em 1978, pelas Edições 70? O que o livro As Cores dos Animais, de Michael Rosen (um dos mais populares poetas e autores de narrativas para crianças do Reino Unido), propõe é, justamente, uma série de nove contos etiológicos, muitos dos quais nos trazem à memória as histórias do tio Porquê. Aqui, porém, surge mais nítida a vinculação de tais narrativas a mitos ancestrais de várias regiões do mundo, explicando-se, de modo fantasioso, as razões da coloração que determinados animais apresentam.

Tomemos o sexto conto como exemplo. Aí se narram as desventuras do leopardo, que é vítima da sua arrogância perante o leão. Este envolve-se em combate com aquele arrancando-lhe bocados. Antes de ser morto pelo leão, o leopardo foge, «até que encontra um charco de lama fresca. Com as patas apanha bocados de lama e (...) mete-os nos buracos que o Leão lhe fizera (...) até não haver quaisquer vestígios. (...) Tudo ficou bem com o Leopardo, mas agora a sua pele está malhada para sempre» (p. 32).

No livro, é possível encontrar breves contos do mesmo tipo, originários de várias regiões, acerca do coiote (Estados Unidos), dos peixes voadores (Nova Guiné), da rã (Itália), do tigre (China), da brolga (Austrália), do leopardo (Libéria), do pavão (Índia), do grou (Uganda) e do jaguar, do puma e da cobra (Bolívia e Paraguai). Um útil apêndice final informa sobre as raízes míticas e históricas destes contos, cujas fontes bibliográficas são, por sua vez, referenciadas no início da obra.

Recolhidas a partir dessas fontes (essencialmente colectâneas de narrativas da tradição oral), as histórias foram recontadas pelo escritor inglês Michael Rosen e bem ilustradas por John Clementson. O arranjo gráfico é excelente e integra, de modo feliz, título, texto e ilustração.

A tradução merece, contudo, reparos, considerando a pobreza estilística de certos segmentos do texto português. Acresce que a revisão do mesmo denota, igualmente, alguma desatenção. É pena, já que um livro tão interessante, tanto pelo texto como pela ilustração, reclamava, neste aspecto, um cuidado especial.

Ficha bibliográfica

As Cores dos Animais (How the animals got their colours)

Michael Rosen (texto); John Clementson (ilustração)

Lisboa: Editorial Notícias, 1992 (sem indicação de tradutor)

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 21 de junho de 2009

O Sonhador, de Ian McEwan e Anthony Browne

O hiper-realismo fantástico de Anthony Browne, cujas imagens ambíguas nos situam quase sempre em cenários inquietantes, parece constituir o estilo de ilustração ideal para a narrativa de Ian McEwan, também ela percorrida pela consciência de uma impossibilidade: a existência de uma fronteira estável entre realidade e sonho. Bastaria ter sido esta a primeira vez que surgiram editadas, em Portugal, imagens do celebrado ilustrador inglês (prémio Hans Christian Andersen há alguns anos) para que O Sonhador (Lisboa: Gradiva, 1995; reed. 2007) merecesse destaque.

Impondo-se, no entanto, pelos seus méritos próprios, o texto revela uma história, ou antes, um conjunto de histórias vividas pela mesma personagem, cujo público não se esgota na faixa dos pré-adolescentes, para a qual, inicialmente, parece ter sido escrita. O que explica que, em França e na Itália, o livro de McEwan tenha sido editado em colecções não juvenis, constituindo porventura um exemplo daquilo a que Sandra Lee Beckett chama «crossover fiction».

Traduzida para português por Maria do Carmo Figueira, a obra afirma-se, justamente, pelo modo como consegue analisar, com notável minúcia adulta, o imaginário de Peter Fortune (um afortunado rapaz de dez anos, senhor de uma inteligência e de uma inventiva invulgares), bem como o seu modo peculiar de, através de uma vivência física e afectiva, descobrir e de (se) identificar (n)o mundo e (n)os seres que o povoam: o gato, a família, um colega de escola, um primo de poucos meses, os adultos que integram o círculo de relações dos pais e mesmo uma futura namorada.

Peter é um daydreamer (título original do livro): «na escola (...) deixava muitas vezes o corpo sentado na cadeira enquanto o espírito partia em viagem; e, em casa, o facto de sonhar acordado causava-lhe frequentemente problemas.» (p. 10 da 1.ª ed. portuguesa). Como todos os sonhos, os de Peter não são gratuitos, pois ajudam-no a compreender o real e o seu próprio lugar no mundo. A realidade, porém, é geradora de insegurança e, por vezes, difícil, penosa. E «sonhá-la» tem menos a ver com a sensação de omnipotência do sujeito que, dando livre curso aos seus devaneios, constrói um universo à medida dos seus desejos – interpretação a que uma primeira leitura de um capítulo dedicado à derrota do «rufião» da escola, a páginas 55-65, nos poderia conduzir. A questão prende-se, antes, com a possibilidade de Peter observar e viver o real com um olhar novo, ou seja, de o ver e de o integrar nos seus múltiplos matizes.

Os sonhos obrigam, pois, o herói a descentrar-se de si mesmo para conhecer o outro, assim se socializando, aprofundando a sua visão do mundo e, deste modo, alargando o seu campo de consciência. Leiam-se, a este propósito, os notáveis capítulos sobre o gato e o primo. No primeiro caso, Peter troca de corpo e de vida com o animal, selando definitivamente uma relação afectiva que o vai preparar para enfrentar a morte do companheiro de sempre; no segundo, regressa à condição de bebé, experimentando as sensações dos primeiros meses de vida e aprendendo, desse modo, a conviver com uma criança cujo comportamento inicialmente o perturbava. Estas vivências são descritas com singular intuição e, no segundo capítulo referido, com um sentido de humor contido, mas irrecusável.

«O meu objectivo é falar de corpos que se transformaram em formas de outro tipo» – escreve Ovídio no livro I das Metamorfoses. Partindo deste paratexto, McEwan constrói um extraordinário texto sobre a importância de viver o corpo, nomeadamente o nosso no outro e o do outro através do nosso, como metáfora de um processo dialéctico: o do crescimento social, afectivo e ético.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 24 de maio de 2009

Os Barrigas e os Magriços ou a história da Revolução de Abril contada aos mais pequenos

Ao escrever o conto «Os Barrigas e os Magriços», Álvaro Cunhal (1913-2005), líder histórico do Partido Comunista Português, propõe-se narrar, numa linguagem adequada aos destinatários preferenciais, a história dos antecedentes que explicam a Revolução de Abril de 1974. Socorrendo-se de uma parábola e explicitando, de forma muito clara e visual, a oposição entre os exploradores e os explorados, o autor justifica a necessidade da mudança com o cansaço de anos e anos de exploração e sofrimento das classes operárias e mais desfavorecidas. Interpela directamente o narratário motivando-o a tomar partido ao lado dos «magriços» que, cansados da opressão e da fome, resolveram tomar o poder nas mãos e criar uma sociedade mais justa e mais solidária.

É curioso como o narrador explora a polissemia do conceito de magriço, tradicionalmente associado à imagem do português leal e justo, combatente ao lado dos perseguidos e injustiçados – relembre-se o episódio das novelas de Cavalaria (que Camões também aproveita na sua epopeia para definir e exemplificar o verdadeiro cavaleiro português) onde o jovem Magriço, depois de atravessar, por terra, parte significativa dos territórios europeus, combate em defesa da honra de uma donzela inglesa ofendida por um seu conterrâneo – mas também aqui interpretado de forma literal, como associado à excessiva magreza resultante das difíceis condições de vida existentes. Esta ideia sai ainda mais reforçada perante a oposição face aos «barrigas» opressores e exploradores, bem nutridos à custa do trabalho e do sofrimento alheios. A oposição – algo simplista pelo maniqueísmo que encerra – entre estes dois grupos de personagens não deixa margem para dúvidas sobre o significado do confronto e sobre a posição do autor/narrador. Do ponto de vista linguístico, veja-se como o narrador, pela utilização de repetições e de estruturas paralelísticas na descrição dos dois grupos em confronto, clarifica a oposição estrutural que está aqui em causa. Com um discurso acessível, construído com base no diálogo, nos seus comentários esporádicos, no uso de comparações, imagens e na própria metáfora que estrutura todo o conto, o narrador alude, de forma implícita mas acessível e facilmente compreendida, às ideias de exploração, de censura, de perseguição, mas também de revolução, de igualdade, de justiça, de liberdade e até de reforma agrária…

Esta edição da Junta de Freguesia de Portimão preenche uma lacuna importante no panorama editorial português, uma vez que o texto de Álvaro Cunhal nunca tinha sido editado em formato livro. E bem o merecia! Ilustrado por crianças do pré-escolar, o texto encontra-se finalmente com os leitores a quem se destinava e é visto e recriado a partir dos seus olhares e das suas cores. Atente-se na genuína ingenuidade com que são representadas as personagens, nas fisionomias que buscam fidelidade ao texto e no cuidado arranjo visual da edição, comemorativa dos 35 anos do 25 de Abril, nomeadamente na variação cromática dos fundos das páginas.

 

 

Referência bibliográfica

 

CUNHAL, Álvaro (2009): Os Barrigas e os Magriços, Portimão: Junta de Freguesia de Portimão (ilustrações de alunos do pré-escolar das escolas do Fojo, Quinta do Amparo e Major David Neto).

Também acessível em

http://www.jf-portimao.pt/pub/os_barrigas_e_os_magri%C3%A7os.pdf

 

 

Ana Margarida Ramos (Universidade de Aveiro); membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 10 de maio de 2009

A Vida Mágica da Sementinha, de Alves Redol

Texto clássico da literatura portuguesa para a infância, esta história do trigo, da autoria de Alves Redol, constitui uma referência obrigatória pela forma como o autor, num discurso aparentemente simples e acessível, cruza uma multiplicidade de temas e apela a uma distribuição mais justa da riqueza. A pequena sementinha que protagoniza a narrativa, tal qual uma heroína de um conto de fadas, vive muitas aventuras até se transformar em planta e, novamente, em grão. Entre o espanto e o receio, são muitas as surpresas que a sua vida lhe reserva, pormenorizadamente descritas, desde que o semeador a retira da arca onde estava guardada com outras companheiras.

Mesmo antes de cair na terra, o seu destino leva-a a ser roubada por um rouxinol cantor, por quem se apaixona, e depois por um pardal faminto que a tenta devorar, quase interrompendo o ciclo de vida que a aguarda. O seu carácter especial, capaz de amadurecer antes de todas as outras sementes, impede-a de se transformar em farinha e depois em pão, como acontece com outras sementes com quem partilha da terra, e em alimento, matando a fome aos trabalhadores que, árdua e alegremente, cuidam dos campos. Em vez disso, será alvo de estudos e de experiências, num elogio da ciência e das suas capacidades que o autor reserva para o final da narrativa, manifestando nela a sua esperança do fim da fome através da abundância de farinha.

Em alguns momentos, também em resultado da proximidade temporal e ideológica dos seus autores, podem ser estabelecidas pertinentes analogias quer com A Menina Gotinha de Água (1963), quer com O Cavalo das Sete Cores (1977), ambas obras de Papiniano Carlos, não só pela sugestão enérgica que caracteriza os textos, assumidamente dinâmicos, plenos de vida a brotar de forma quase pujante, mas também pelo modo, quase ingénuo para o leitor contemporâneo, como revelam uma esperança ilimitada na ciência, espécie de panaceia universal para os males do mundo.

Combinando poesia e ciência, a obra recria o ciclo do grão de trigo, sem esquecer de narrar a sua história desde as origens mais remotas, dando conta do seu relevo na alimentação humana, mas também do seu contributo para a evolução da humanidade. Ao leitor adulto não escaparão, ainda, as alusões mais ou menos explícitas à realidade social e económica contemporânea da escrita do texto, como é o caso da menção à fome e às duras condições de vida dos trabalhadores agrícolas, dependentes de contingências climáticas.  

 

Ficha bibliográfica

 

A Vida Mágica da Sementinha

texto de Alves Redol

8ª edição, Lisboa: Caminho, 2008 (1ª edição de 1956)

ISBN: 978-972-21-0892-8

 

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro; membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 26 de abril de 2009

O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame e E. H. Shepard

Clássico da literatura infantil, O Vento nos Salgueiros é uma obra publicada pela primeira vez em 1908 e que, desde então, tem conhecido edições e traduções sucessivas em diferentes línguas. Alvo de várias adaptações, incluindo para desenhos animados, cuja série passou, com assinalável sucesso, em Portugal há algumas décadas, o texto original, nesta bela edição da Tinta-da-China, mantém toda a qualidade original, permitindo aos leitores portugueses (re)descobrir as extraordinárias aventuras vividas por vários amigos, todos animais, na margem aprazível e bucólica de um rio inglês. As diferentes personalidades das antropomorfizadas personagens – senhor Toupeira, senhor Rato, senhor Texugo e senhor Sapo – recriam a diversidade da alma humana, permitindo perceber como a amizade, a cumplicidade e o respeito se sobrepõem às diferentes idiossincrasias. O pitoresco de alguns episódios e o detalhe com que são narrados criam um sugestivo visualismo. A paisagem campestre e os seus distintos matizes ao longo das várias estações do ano, pormenorizadamente descritas, servem de pano de fundo a um conjunto de narrativas que põem à prova as personagens, as suas crenças e valores, a sua coragem e altruísmo, criando laços afectivos cada vez mais fortes entre elas. O discurso também reflecte os cambiantes da intriga, ora enérgico e dinâmico, ora cómico e irónico, ora lírico e descritivo, prendendo os leitores à narrativa. Acompanhado por ilustrações muito simples e expressivas, da autoria de E. H. Shepard, o mesmo criador das imagens de Winnie-the-Pooh, de A. A. Milne, explorando os múltiplos efeitos do sinal textura, o livro vê potenciada a sua dimensão alegórica, funcionando como uma obra que, apesar de preferencialmente destinada a crianças, tem qualidades para agradar a todos.

Ficha bibliográfica

O Vento nos Salgueiros, texto Kenneth Grahame e ilustrações de E. H. Shepard, tradução de Júlio Henriques, Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2007, ISBN: 978-972-8955-26-7

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro | membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 5 de abril de 2009

Novo número de Malasartes (o 17, de Abril de 2009) já disponível

Encontra-se já nos escaparates o novo número de Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude. O editorial sumaria o fundamental do que este número tem a oferecer.

Os chamados novos temas e os géneros emergentes (pelo menos na produção literária e editorial portuguesa para crianças) constituem um dos aspectos em realce neste novo número de Malasartes. Entre, por um lado, as questões da multiculturalidade, da defesa do património natural e da homossexualidade (vejam-se as análises do último livro de Manuela Bacelar e, na secção de recensões, da obra Titiritesa, de Xerardo Quintiá e Maurizio A. C. Quarello) e, por outra parte, os novos álbuns portugueses da Planeta Tangerina, há todo um percurso de leitura a fazer neste número que, esperamos, proporcione aos mediadores de leitura uma reflexão pertinente e oportuna sobre os caminhos mais recentes da literatura para a infância.

Uma literatura que quase nunca vive sem a ilustração. Daí que artigos como os dedicados à «customización de ilustracións» (uma interessante análise e, em simultâneo, uma sugestão de trabalho para mediadores, incluídas na secção Práticas) e às já mencionadas produções da Planeta Tangerina e de Manuela Bacelar venham sublinhar o relevo crescente de que se reveste esta dimensão do livro infantil, bem como a necessidade de pensar seriamente o desenvolvimento da literacia visual nos mais jovens.

Os novos autores e ilustradores de literatura infantil em língua portuguesa (Rita Taborda Duarte, Odjaki, Luís Henriques) e um clássico contemporâneo da literatura infantil e juvenil galega (António García Teijeiro, poeta e ficcionista que já era tempo de ver traduzido para português) merecem também destaque neste número.

E, como não é possível entender o presente sem conhecer a tradição e revisitar caminhos antes trilhados, incluem-se também dois artigos de particular interesse na secção Referências. Por um lado, o dedicado aos 20 anos da colecção galega «Merlín» – que abriu portas a tantos autores e ilustradores que hoje se contam entre os mais influentes da literatura infantil e juvenil galega, além de ter editado escritores portugueses, como António Torrado, Manuel António Pina e Álvaro Magalhães. Por outro lado, registe-se o artigo centrado no Tesouro Poético da Infância, uma das primeiras antologias portuguesas de poesia destinada à infância que se publicaram em Portugal, ainda no século XIX.

As habituais secções de recensões críticas de livros infantis e juvenis em português e em galego e outras matérias de interesse completam este décimo sétimo número da Malasartes. Assim se mantém vivo um dos principais propósitos da revista: fazer chegar a estudiosos e a mediadores de leitura informação e análises actuais sobre a produção literária preferencialmente destinada aos mais jovens.

terça-feira, 24 de março de 2009

Mensagem do 2 de Abril de 2009 | Dia Internacional do Livro Infantil

Eu sou o mundo

 

Eu sou o mundo e o mundo sou eu,

porque, com o meu livro,

posso ser tudo o que quiser.

Palavras e imagens, verso e prosa

levam-me a lugares a um tempo próximos e distantes.

 

Na terra dos sultões e do ouro,

há mil histórias a descobrir.

Tapetes voadores, lâmpadas mágicas,

génios, vampiros e Sindbades

contam os seus segredos a Xerazade.

 

Com cada palavra de cada página

viajo pelo tempo e pelo espaço

e, nas asas da fantasia,

o meu espírito atravessa terra e mar.

 

Quanto mais leio mais compreendo

que com o meu livro

estarei sempre

na melhor das companhias.

 

Hani D. El-Masri

Tradução: José António Gomes

 

Hani D. El-Masri

Ilustrador e profissional de cinema, nascido no Cairo, Egipto, em 1951, Hani El-Masri foi educado pelos Jesuítas, tendo mais tarde ingressado no Colégio de Belas Artes do Cairo. Emigrou para os Estados Unidos aos trinta e cinco anos. Ali, entrou para a Walt Disney Imagineering, em 1990, onde trabalhou como desenhador conceptual durante cinco anos. Na Imagineering, participou em projectos como o Disneyland’s ToonTown, o Disneyland’s Critter Country de Tóquio, o Museu Infantil de Baltimore, e o Arabian Coast do recentemente inaugurado Tokyo Disney Seas. Em 1995, Hani trabalhou como artista de desenvolvimento visual de projectos na película de animação O Príncipe do Egipto, assim como em A Estrada para El Dorado e Spirit: o corcel indomável. Mais tarde, trabalhou na película Osmosis Jones. Regressado ao Egipto, dedica-se, desde 2005, à realização da sua própria versão para crianças de As mil e uma noites, em forma de livro. Foi premiado como melhor ilustrador pela saga de Xerazade no prémio Suzanne Mubarak, outorgado pelo Egyptian Board on Books for Young People (EBBY).

A Mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil é uma iniciativa do IBBY (International Board on Books for Young People), difundida em Portugal pela APPLIJ (Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil), Secção Portuguesa do IBBY.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Recordar Leonor Praça e o seu álbum Tucha e Bicó

Originalmente editado em 1969, como o primeiro volume da colecção de O Século «Pim-Pam-Pum», e, posteriormente, alvo de reedição na Plátano, numa colecção dedicada a Leonor Praça, onde se incluem obras marcantes como Rama, o Elefante Azul (1970), de Isabel da Nóbrega ou O Veado Florido (1972), de António Torrado, Tucha e Bicó (1969) constitui um marco relevante no panorama literário português no que ao público infantil diz respeito.

Desde logo, pela filiação no género do álbum narrativo, praticamente desconhecido em Portugal naquela altura, mas que, na Europa e nos Estados-Unidos, exactamente nesta época, ia revelando todas as suas potencialidades. Mas também pela dimensão lúdica que percorre o livro, centrado nas actividades levadas a cabo por duas crianças de 3 e 4 anos, com especial destaque para os brinquedos e as brincadeiras, os passeios e as férias, a escola e a família e que influenciará criadoras como Maria Keil e Manuela Bacelar.

Destinada a leitores muito pequenos, a narrativa é protagonizada pelos dois irmãos que emprestam o nome ao livro, e narrada pela menina, dando conta, num discurso de primeira pessoa, assumidamente infantil, da realidade vivida pelas duas crianças, com especial atenção para a vida familiar, as suas rotinas e actividades marcantes. Promovendo a identificação por parte dos leitores, que se reconhecem no universo recriado, assim como nas personalidades dos dois pequenos irmãos, o livro estimula a observação das imagens e a forma como elas completam um texto marcado pela brevidade, simplicidade e contenção. Caracterizado pela sequência de frases afirmativas que, a cada virar de página, se vão sucedendo, o texto não apresenta uma estrutura narrativa de tipo tradicional. Aliás, isento de conectores de qualquer tipo que esclareçam relações de sentido ou de causalidade entre as afirmações, o texto caracteriza-se, por esse facto, por uma certa aproximação ao discurso infantil, linear e aditivo, obrigando o leitor à realização de inferências de modo a estabelecer ligações semânticas e sintácticas entre as frases, criando, assim, nexos de lógica. Em alguns casos, a cumplicidade entre o texto e as imagens é tal que os deícticos, como é o caso do determinante demonstrativo «estes», apontam para a mensagem pictórica e, logo, extratextual.

Actuando em complemento do texto, as ilustrações não só pormenorizam a informação que ele disponibiliza como, em alguns casos, colaboram no preenchimento dos espaços em branco que ela integra, condicionando, pelo menos em parte, a leitura. Veja-se, por exemplo, o caso da frase «O meu irmão tem muitos brinquedos engraçados.» que, sem especificar de que tipo de brinquedos se trata, solicita uma resposta da imagem, identificando pelo menos alguns deles e orientando, desta forma, a interpretação do leitor.

Neste caso, como em outros, a leitura realizada resulta, como o mostraram Lawrence Sipe ou Maria Nikolajeva, do cruzamento de informações oriundas de duas linguagens distintas, actuando em relação sinérgica e potenciando-se mutuamente. O final do álbum exige o mesmo tipo de inferências. A afirmação «À noite estamos cansados de brincar… Boa noite!», com que o livro termina, não só conclui uma longa enumeração de actividades realizadas pelas duas crianças, como permite perceber, também com a colaboração das imagens que representam os dois irmãos em trajes de noite, que chegou a hora de dormir, parecendo, deste modo, fechar um ciclo de acção com o necessário descanso. Estimula, além disso, uma certa sugestão dialogal com o leitor, activamente implicado pela fórmula de despedida com que o livro encerra, marcando o fim da leitura e da história, mas também o fim do dia e da agitação que o caracteriza.

Com recurso a uma técnica muito simples, baseada no desenho do contorno e no preenchimento, a cor, talvez com caneta de feltro, dos espaços, a ilustradora explora as sugestões de expressividade sugeridas pelos rostos e posturas das personagens, ao mesmo tempo que joga com padrões e motivos cromaticamente muito fortes, como os fundos e as grandes manchas, criando contrastes visualmente muito apelativos, mas mantendo a sugestão de ingenuidade que também caracteriza o texto.

Precocemente desaparecida, vítima de doença, aos 34 anos de idade, Leonor Praça é ainda responsável pela ilustração, nas edições Europa-América, de duas obras de Alves Redol, A flor vai pescar num bote (1968) e A flor vai ver o mar (1968), assim como pelas imagens dos já mencionados livros de Isabel da Nóbrega e António Torrado ou ainda de A Maria Bé e o finório Zé Tomé (Plátano, 1974), de Manuel Ferreira. A pintora, nascida no Porto em 1936, estreou-se, com uma exposição individual, em 1949 e participou em numerosas exposições colectivas tendo deixado parte significativa da sua obra inédita.

 

Ficha bibliográfica

 

PRAÇA, Leonor (1969). Tucha e Bicó, Lisboa: O Século, col. Pim-Pam-Pum (nº 1)

 

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro;

membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 21 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia – Violeta Figueiredo

Autora de Fala Bicho (Caminho), O Gato do Pêlo em Pé (Caminho), Portas (Porto Editora) e Portões (Porto Editora), entre muitos outros títulos, Violeta Figueiredo é uma das vozes mais originais da nossa poesia para a infância.

Por isso, neste Dia Mundial da Poesia, propõe-se a leitura de dois poemas da autora, inéditos em livro, mas publicados no seu blogue http://violetafigueiredo.blogspot.com/ que convidamos os leitores de A Inocência Recompensada a visitar.

 

 

NO QUINTAL AO MEIO-DIA

 

No quintal ao meio-dia
não são as nêsperas frescas
que atraem vespas,
são as nêsperas do chão.
Por serem doces caíram,
foram tocadas pelo Verão.

 

ASSIM-ASSIM

 

Metido entre Muito e Pouco,
Assim-Assim nunca sabe
quanto lhe cabe.

sábado, 7 de março de 2009

Peter Pan: a infância imperecível

Peter Pan é um daqueles livros que aparentam guardar em si uma indefinível energia, um segredo imperscrutável, como se alguma coisa neles se furtasse ao bisturi da leitura crítica e reclamasse, antes, uma adesão afectiva sem reservas. E não é de admirar, se atendermos ao profundo enraizamento deste mundo ficcional em algumas das experiências mais comuns e densas da existência humana. Trata-se de uma história sempre actual, sobre a euforia da meninice, a relação entre filhos e pais, a dicotomia dependência vs. autonomia. E uma outra tensão emerge: por um lado, a perda da infância, por outro, a resistência a essa perda ao longo da vida. A este propósito, leia-se o diálogo das últimas páginas, em que Wendy, já adulta, rememora nostalgicamente as atribuladas aventuras vividas com Peter e os Rapazes Perdidos, na Terra do Nunca – essa mítica ilha povoada de fadas, piratas, sereias e peles-vermelhas:

«– Aqueles belos dias em que eu sabia voar!

– Por que não podes voar agora, mãe? [– perguntou a filha, Jane.]

– Porque sou crescida, querida. Quando as pessoas crescem esquecem-se.

– E porquê?

– Porque já não são alegres, inocentes e descuidadas e só os que são assim sabem voar.

– O que são os alegres, inocentes e descuidados? Quem me dera ser assim!» (Peter Pan. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 197).

Trata-se de um livro tão perene, afinal, como o próprio herói, Peter Pan, a eterna criança, sem mãe e quase sem memória, que se recusa a crescer e a tornar-se homem.       

Do autor – o escocês James Matthew Barrie (1860-1937) – se pode dizer que era um escritor eminentemente popular, com uma intensa relação com a mãe, e cuja trajectória o conduziu do jornalismo à publicação de romances de sucesso e à literatura dramática, à qual se dedica quase por inteiro a partir de 1901, após o casamento com a actriz Mary Ansell.

A comunicabilidade de uma escrita coloquial, sempre disponível para o humor e a ironia, e que sabe divertir e divertir-se com o próprio jogo da ficção e da narração, além da habilidade para conceber episódios e encontrar formulações que possuem o dom (releve-se o intencional lugar comum) de «falar ao coração» e à memória íntima de cada leitor ou espectador médio – eis um par de ingredientes que concorreram para o sucesso público da obra de Barrie. Êxito comum, acrescente-se, a outros autores de pouca erudição mas idêntico talento, como o dinamarquês Hans Christian Andersen (de quem se celebrou em 2005 o segundo centenário do nascimento). Vieram favorecer tal sucesso as numerosas adaptações dramatico-musicais e cinematográficas de Peter Pan: uma fita muda em 1924, um admirável filme de animação saído dos estúdios da Walt Disney em 1952, e uma comédia musical em 1954 (mais tarde transposta para os ecrãs de televisão), entre outras adaptações – isto sem falar da sequela Hook (1991), de Spielberg.

A tentação de adaptar Peter Pan ao cinema prende-se com a visualidade de muitas cenas e o seu potencial em termos de espectáculo, mas também com o suspense, a sucessão de lances dramáticos e, sobretudo, com a forma primitiva do próprio texto. É que este começou por ser uma peça, levada à cena com êxito em Londres, no ano de 1904; mais tarde foi reposta com novos actos e cenas, e finalmente recontada em livro, sob a forma de uma narrativa, em 1911, com o título Peter and Wendy. Em 1928, a peça teatral seria enfim publicada, existindo hoje estudos sobre este longo processo de escrita, encenações sucessivas e reescrita.

Juntamente com as obras de Edward Lear (em especial os limericks de The Book of Nonsense, 1846, e outros títulos) e ainda as de Lewis Carroll (as Alices de 1865 e 1872) e Robert Louis Stevenson, a narrativa de James M. Bar­rie – não obstante a sua originalidade – inscreve-se numa linha que se traduz em produções poéticas e narrativas caracterizadas ora pelo nonsense, o fantástico e o «irracional», ora pela sátira e o culto da aventura sem limites, deixando para trás o racionalismo vitoriano. Sem menosprezar as consideráveis diferenças existentes entre as diversas obras e respectivas matrizes culturais e visões do mundo e da infância, registe-se que Peter Pan ombreia, por outro lado, com esse punhado de livros de primeira água que a segunda metade do século XIX e o princípio do século XX legaram à infância e à juventude, e no qual avultam títulos como As Aventuras de Tom Sawyer (1876) de Mark Twain, As Aventuras de Pinóquio (1883) de Collodi, e A Ilha do Tesouro (1883) de Stevenson – obra onde Barrie foi beber elementos diversos, em especial no tocante à caracterização dos piratas.

Clássico da literatura tout court – e não só da chamada literatura para crianças –, o livro de Barrie mantém intacto o poder de surpreender e comover leitores de todas as idades e latitudes. Recorde-se outro passo do último capítulo: «[Wendy] passou as mãos pelo cabelo daquele rapazinho trágico [Peter]. Já não era uma rapariguinha de coração desfeito por ele, mas uma adulta sorrindo de tudo aquilo, embora com um sorriso molhado.» (p. 200)

Peter Pan, a fada Sininho, o Capitão Gancho e a pequena e maternal Wendy continuarão certamente a povoar os sonhos de muitas crianças. Mas também daqueles adultos que se recusam a inumar a sua própria infância, mantendo viva essa idade de todos os possíveis que, mesmo quando idealizada, os continua a impelir para a aventura e a mudança.           

 

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)