terça-feira, 21 de junho de 2011

Com um abraço para a Margarida

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Com o título «Último director da Pide "não tem bom nome que possa ser defendido"», publicou o Jornal de Notícias, a 11 deste mês, uma notícia que nos permitimos transcrever, pela justeza e inteligência das palavras de José Manuel Tengarrinha:

«O último director da PIDE, Silva Pais, cuja memória está a ser evocada no julgamento da peça "A filha rebelde", não tem bom nome que possa ser defendido em tribunal, disse o professor catedrático José Manuel Tengarrinha.

"Ele pode ter sido uma boa pessoa em família, mas a sua atitude pública, o seu comportamento foi altamente condenável como principal responsável da repressão do Estado Novo", disse o antigo deputado, várias vezes detido pela PIDE.

Em causa está uma peça de teatro estreada no Teatro D. Maria II, em 2007, e que conta a história de Annie Silva Pais, filha do antigo director da PIDE.

Os sobrinhos de Silva Pais processaram os dois antigos directores do Teatro Nacional D. Maria II – Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira – e a autora da adaptação do texto, Margarida Fonseca Santos, por difamação e ofensa à memória de Silva Pais.

Em tribunal "defende-se o bom nome de uma pessoa que tem bom nome. Ele não tem bom nome", opinou Tengarrinha, actualmente com 80 anos.

Para o fundador do Movimento Democrático Português, é preciso separar as águas: por um lado a "afeição familiar" dos sobrinhos de Silva Pais e por outro o comportamento "cruel, opressivo e repressivo" do antigo director da PIDE.

"É confundir as duas coisas. Ele não tem bom nome. Eu estive várias vezes preso quando ele foi director e sei bem o que passei e qual era a opinião dele sobre os presos políticos e como deviam ser "apertados" para denunciar", recordou.

O julgamento começou no dia 3 de maio e a próxima audiência está marcada para o dia 22, para audição de Valdemar Cruz e José Pedro Castanheira, jornalistas do semanário Expresso e autores do livro "A Filha Rebelde", testemunhas arroladas por ambas as partes do processo.»

Porque este é um sítio sobre livros para a infância e Margarida Fonseca Santos é (também) uma ilustre cultora desta escrita, mal iríamos se aqui não chamássemos a atenção para este vergonhoso episódio, inquietante sinal dos tempos direitistas que atravessamos.

Merece ainda a Margarida que aproveitemos este triste ensejo para recordar um dos seus livros de 2002.

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Autora de numerosos livros para crianças e jovens, romances e livros de contos para adultos, Margarida Fonseca Santos foi professora de Formação Musical e tem-se dedicado também à animação pedagógica e cultural, bem como à escrita de peças de teatro para jovens e para adultos.

Em Há Dias Assim (Garrido Editores, 2002; ilustrações de Carla Nazareth), propõe-nos um livro preenchido com um único conto e que se aproxima do conceito de álbum ilustrado para crianças pequenas, em que o texto surge incorporado na mancha da ilustração.

A história – segundo é explicado no paratexto da contacapa – está enraizada numa situação vivida e desenrola-se em Beja. A protagonista – que acumula o papel de narradora – é Lena, uma menina em idade escolar que partilha as suas experiências com Rosarinho, da mesma idade. Tudo se joga, nesta narrativa breve e sensível, em torno do tema da morte, de facto poucas vezes enfrentado na escrita para crianças. Entre um pequeno pássaro abandonado que acaba por morrer – após as tentativas infrutíferas de o salvar por parte das meninas – e um outro que, em condições semelhantes, consegue sobreviver e reconquistar a liberdade, desenha-se um arco que ilustra, sem dramatismos excessivos nem discursos piedosos, o ciclo da vida e da morte. Pelo meio, uma cena ocorrida na noite dos contos, durante o tradicional Encontro das Palavras Andarilhas (Andarilho será, aliás, o nome de «baptismo» de ambos os animais), permite dar a explicação possível do inexplicável: o mistério do viver e do morrer.

Uma linguagem simples e fluente, que não prescinde, contudo, de recursos literários – quer no plano imagético, quer ao nível fónico e rítmico – nem de uma certa vivacidade do contar, confere nota positiva a este livro de Margarida Fonseca Santos.

José António Gomes

NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Em torno da escrita de António Mota e de A Casa das Bengalas

Se procedermos a um balanço do que a escrita de António Mota tem trazido à nossa literatura contemporânea para jovens, julgo ser consensual o reconhecimento de um modo peculiar de recriar um espaço e um tempo dos quais os citadinos parecem, cada vez mais, distanciar-se (de forma irremediável?). Por isso, os enredos durienses de António Mota, enraizados numa infância e juventude provavelmente difíceis – como o Autor gosta de lembrar –, mas que se nutriram de elementos naturais que escapam aos «bichos» cinzentos da cidade, essas histórias, dizia, continuam a provocar-me um efeito de estranheza que quase sempre me atrai.

Direi o mesmo da sua linguagem, da forma crua como descreve, por vezes, a existência humana e resgata do esquecimento as falas da gente do campo – da sua gente – retratando, ainda, essa bizarra convivência entre homens e bichos que, em momentos mais felizes, traz à lembrança o mundo de Aquilino Ribeiro.

Ao devolver a voz a artífices, sacristães, camponeses, vendedores ambulantes, mulheres sabidas, artistas de circos pobres, mestres-escola, idosos carregados de memória, rapazio descalço de monco no nariz (monco: como o Autor gosta desta e doutras palavras «feias», ou talvez não...), Tom Sawyers de aldeias com estranhos nomes, como a povoação de Torna-Ó-Rego, onde decorre parte da acção de A Casa das Bengalas (1.ª ed., 1995; reed. V. N. de Gaia: Gailivro, 20031) ao restituir a voz a esta gente, António Mota tem elevado, aqui e acolá, esses seres anónimos e esquecidos à condição de sábios e heróis. E como andamos precisados de tais vozes, num tempo em que o equívoco valor de cada um tende a medir-se, ao sabor das modas, pelo maior ou menor brilho da efémera imagem, mediática ou não, que o poder do dinheiro lhe modela!

Por isso continuo a pensar (exagero, porventura) que muitas destas criaturas me trazem à mente as personagens de certos filmes de camponeses dos Irmãos Taviani, de Elmano Olmi ou mesmo – com as devidas distâncias – algumas figuras do 1900 de Bernardo Bertolucci.

Mais uma vez, em A Casa das Bengalas, é com uma dessas figuras – um velho cheio de «ciência» – que nos vemos confrontados. Em traços gerais, pode dizer-se que a obra aborda o modo como um homem envelhecido e fragilizado se vê obrigado a separar-se dos lugares inscritos na sua memória, dando entrada num mundo – uma antecâmara do nada – onde quase tudo e todos lhe são estranhos: refiro-me a esses locais para onde uma parte da sociedade se habituou a exilar os que se encontram mais próximos dos derradeiros dias da sua vida: os lares de terceira idade, ou melhor, as casas das bengalas.

À semelhança de outros romances do autor, A Casa das Bengalas acaba por suscitar uma meditação sobre a memória e a passagem do tempo. Notarei, por exemplo, que uma das obsessões do avô desta história é a colecção de calendários antigos que surgem espalhados pelas paredes da sua casa, muito embora, num deles, se reflicta a preocupação com uma outra dimensão do tempo, mais conforme com o ritmo da Natureza e do homem nela integrado. Com efeito, numa das folhas, o velho assinalara o início das fases da Lua, provavelmente pela necessidade de programar o trabalho da terra. Em contraste com esta forma de encarar o tempo, horários de certo modo artificiais condicionam o ritmo de vida das gentes urbanas – que a família do neto (personagem e narrador) representa. Para o velho de A Casa das Bengalas, o tempo é organizado em função da terra, do ciclo das estações e de pequenos ritos (como o das sementeiras). A sua família da cidade, pelo contrário, vive um tempo desumanizado e fragmentado, em que deixou de haver disponibilidade para os rituais e, sobretudo, para os outros. Observe-se este diálogo em que intervêm o pai do jovem narrador (depreciativamente tratado como «o agente Aníbal»), a mãe e o avô, enfim «encarcerado» na «casa das bengalas»:

«– Então até um dia destes – disse o agente Aníbal, muito videirinho. (...)

– Temos de ir – disse minha mãe.

– Os visitantes desta casa têm sempre muita pressa... Ide à vossa vida que está a fazer-se tarde.» (p. 160)

A família do narrador concentra, de facto, em si todos os sonhos medíocres de uma pequena burguesia (sub)urbana, desenraizada e sem horizontes, que sintomaticamente vive nas imediações de uma grande superfície comercial, em zona periférica. O olhar crítico do jovem define-se sobretudo por uma visão simultaneamente irónica e angustiada. Esta angústia, no entanto, é contida, muito embora resulte da observação magoada de uma figura querida, a um tempo sábia mas incapaz de adaptação, a cujo apagamento se assiste penosamente. À mercê do mau humor dos pais, o drama do narrador tinge-se de cores mais carregadas perante uma mãe que por vezes projecta sobre ele as suas próprias angústias sem solução:

«E foi então que minha mãe perguntou, farta de saber que não havia resposta para uma questão aparentemente tão simples:

– E agora quem é que vai tratar do meu pai?» (p. 125)

Já no lar, durante uma das visitas, o velho formula um pedido revelador de uma dignidade que se encontra em evidente contraste com os sentimentos de culpa da família. Com ele concluo esta nota de leitura, pois isso permite-me deixar uma mensagem de proveito e exemplo. A máxima do velho acerca das violetas sintetiza, como se poderá ver, toda uma filosofia de vida que vale a pena a reter.

Guardá-la-á na memória o jovem narrador.

Guardamo-la nós, leitores, para benefício pessoal, na certeza de que, não obstante ser breve a nossa passagem por este mundo conturbado, há ainda palavras que parecem dizer que nem tudo está perdido. Ou, como escrevia Manuel António Pina, no título de um seu livro de 1974, «ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde»:

«– O pai precisa de alguma coisa?

– Não, tenho aqui tudo! Quer dizer… eu gostava que o meu neto me fizesse um grande favor. Mas não é coisa urgente.

– O que é, avô?

– Quando viesses cá, passavas pelo meu quintal e… arrancavas uns pezinhos de violetas, tu sabes onde elas estão?

– Sei.

– Então passas por lá e arrancas as violetas. É que há aí fora um jardim e as violetas ficavam lá bem. Fazes-me esse favor, Tião?

– Não me custa nada, avô!

Minha mãe sorriu.

Na próxima visita ao lar, hei-de levar-lhe todas as violetas do quintal. E quando estiver a arrancá-las certamente recordarei mais uma vez aquela frase bonita que o velho um dia me ensinou:

“As violetas avisam os homens que estamos aqui de passagem, mas isso não impede que cheiremos bem enquanto por cá caminhamos”.» (p. 161)

Nota

1 Os passos citados seguem esta reedição.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

terça-feira, 31 de maio de 2011

A inocência descompensada… Que fazer então?

No Público de 30-5-2011, pode-se ler que, em Portugal, “duas em cada cinco crianças vivem em situação de pobreza”. A notícia, assinada por Andreia Sanches, refere: “Não são apenas as crianças que vivem com rendimentos abaixo do limiar de pobreza que são pobres. São também aquelas cujo bem-estar é afectado por condições de vida “deficientes” – e que, por isso mesmo, se considera que estão “em privação”. É com base nesta abordagem que uma equipa de investigadores do Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade Técnica de Lisboa, conclui que cerca de 40 por cento das crianças portuguesas vivem em "situação de pobreza". Um estudo encomendado pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, a que o Público teve acesso – e que será apresentado (…) [no] Dia Mundial da Criança, no ISEG –, mostra que as crianças até aos 17 anos são o grupo mais vulnerável à pobreza, tendo ultrapassado o dos idosos.” (Andreia Sanches, Público, 30-05-2011).

Quem se preocupa com a infância, com o seu bem-estar, com a educação e a cultura – e este sítio é sobre a literatura da infância – não pode ficar indiferente a números tão cruéis: 40% das crianças portuguesas vivem em situação de pobreza!

Deram nisto trinta e tal anos de mau governo dos três partidos que gostam de se auto-designar como os do “arco da governação” e a que nós preferimos chamar os do “arco da desgovernação”.

Aproximam-se eleições (mais umas) e os portugueses são chamados a votar. Votar nos mesmos ou nos seus sósias, para tudo se manter igual ao que tem sido ou ficar pior ainda? Para Dupond suceder a Dupont e 40% das crianças portuguesas continuarem a viver em situação de pobreza?

E que tem a literatura a ver com isto? Tudo, é claro.

Vale a pena, a propósito, citar estes dois textos, intencionalmente quase sem metáforas, encontrados num livro de Ana Roiz:

.

Razões eleitorais que a razão desconhece

Que os ricos - a minoria -

votem naqueles que defendem seus interesses

é coisa que se compreende.

São ricos, não é?

Que os outros - a maioria -

votem contra si mesmos

(continuando, nos ombros, com o peso

dos que vivem do trabalho alheio

e da moral na ponta da língua)

está para lá de toda a compreensão.

Será que a maioria vota

pelo direito à diferença,

essa estranha diferença que é a liberdade de explorar

e de gerar maiorias de pobres

que elegem os representantes dos ricos?

.

.

Adivinha

Mal a lebre se levanta,

qual é a primeira frase, qual é ela,

que o corrupto dirige aos jornalistas?

.

Solução:
«Sinto-me de consciência tranquila.»

.Ana Roiz. Derrocada do Parnaso. Serpa: Edições Meridionais, 1990, pp. 12 e 24.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Manuel António Pina (Prémio Camões) e O Têpluquê e outras Histórias

Com pequenas alterações, O Têpluquê e Outras Histórias (2.ª ed., Porto: Afrontamento, 1995, ilustrações de José Guimarães; 3.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, ilustrações de Bárbara Assis Pacheco) reúne cinco textos em prosa e três em verso, antes publicados em Gigões & Anantes (1974) e O Têpluquê (1976), desta feita antecedidos de um poema que o Autor dedica «à Ana no dia dos anos». A dedicatória aponta, desde logo, para um dos traços distintivos da obra: à matéria literária não é alheia uma certa cumplicidade estabelecida entre o Escritor e as suas filhas Sara e Ana, transformadas em personagens de seis das histórias.

O humor, as interrogações em torno da linguagem, da conversa e da desconversa, bem como a reflexão sobre as relações entre pensamento e linguagem constituem aspectos a ter em conta na abordagem de uma obra que, sendo um caso singular na nossa literatura para a infância, se inscreve numa tradição cujo representante máximo é, provavelmente, Lewis Carroll – autor que, juntamente com A. A. Milne, integra o núcleo das preferências literárias de Manuel António Pina.

Carrollianos são, de facto, a personagem do escaravelho Bocage e os diálogos que estabelece com Sara e Ana:

«– Então não estavas a crescer (...) estavas a diminuir.

– Não, disse o Bocage, depois de pensar um bocado. – Porque eu não estava a ficar cada vez menos, eu estava a ficar cada vez mais. Portanto estava a crescer. O que se passava é que estava a ficar cada vez mais baixo em vez de ficar cada vez mais alto. Percebes? (...)

“Este não regula bem” – pensou a Ana.» (2.ª ed., pp. 24-25)

À semelhança de Alice, na «Wonderland», o que Ana e Sara parecem compreender, nas suas primeiras experiências linguísticas, é que a linguagem verbal não é fiável, ou antes, é uma fonte de ambiguidades e duplos sentidos que convertem as relações interpessoais em espaços de insegurança, geradores de equívocos, mas também de situações cómicas.

Ao mesmo tempo, porém, é esta característica da linguagem que permite o eclodir da criatividade verbal e da poesia, por vezes interrompidas (ou talvez não) pela ilusão de que é possível criar uma língua nova, feita de palavras inventadas e «de toda a confiança» (2.ª ed., p. 30): não sabendo como distinguir os gigões dos anantes, Ana «arranjou uma teoria: / xixanava com eles e o que ficava / xubiante ou ximbimpante era o gigão, / e o anante o que fingia que não.» (p. 30).

Aqui e acolá piscando o olho ao leitor adulto, a escrita de Manuel António Pina não hesita em transformar o alfabeto numa espécie de espaço social dominado por conflitos de clara conotação política (é bom recordar que as primeiras edições destes textos datam de 1974 e 1976), já que a Ordem Alfabética, como todas as ordens mais ou menos arbitrárias, será posta em xeque por uma revolução: «depois das letras revoltaram-se as palavras, e depois os livros, e depois as bibliotecas, e depois tudo.» (p. 14).

Parece, pois, acertada a ideia de reunir esta produção num único volume. Percorrendo-o do princípio ao fim, o tópico da linguagem é introduzido pelo próprio título, o qual nos convida a centrar a atenção num texto bem-humorado, porventura o mais paradigmático e conseguido de toda a obra: «O Têpluquê» (p. 18), um achado em termos de criatividade linguística, com não poucos incentivos à reflexão, susceptíveis de estimular o chamado pensamento divergente.

Nas primeiras edições, de A Regra do Jogo, as imagens de João Botelho (ilustrador e cineasta) davam a ver o trabalho, conseguido, de um velho companheiro de jornada de Pina, responsável pelas ilustrações de outras obras do Escritor. A edição da Afrontamento, por sua vez, mostrava uma incursão de José de Guimarães na área do livro infantil. Quanto às ilustrações da edição da Assírio & Alvim, deram a conhecer uma nova ilustradora: Bárbara Assis Pacheco. Nascida em Lisboa, em 1973, licenciada em Arquitectura e em Filosofia e diplomada com um Curso de Desenho e um Curso Avançado de Artes Plásticas, esta pintora ilustrou também os livros Histórias para Ler e Sonhar e Natal na Quinta, ambos de Pedro Strecht.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O Livro dos Desejos, de Vergílio Alberto Vieira

A 20 de Maio, decorrerá, no Auditório Multimédia do Instituto de Educação da Universidade do Minho, um simpósio sobre a Obra de Vergílio Alberto Vieira, que, este ano, completa quarenta anos de vida literária (estreou-se, na poesia, em 1971, com o livro Na Margem do Silêncio). Organizado pela unidade curricular de Literatura para a Infância e Juventude (Instituto de Educação – Universidade do Minho) e a Tropelias & Companhia – Associação Cultural, o simpósio conta com a participação de José António Gomes, Ana Margarida Ramos, Sara Reis da Silva, João Manuel Ribeiro e as ilustradoras Teresa Lima, Marta Madureira e Anabela Dias, além do próprio autor homenageado.

Um bom pretexto, pois, para recordar aqui um dos seus livros de poesia para a infância.

Em O Livro dos Desejos, volume de título convidativo, cuja primeira edição data de 1994, ganha relevo a dimensão humorística que o autor ensaiara já em trabalhos anteriores, dirigidos ao público infantil, e que haveria de se reforçar em títulos editados posteriormente.

Patente em particular nos doze últimos poemas do livro, essa dimensão encontra expressão preferencial em textos – por que não denominá-los pequenos romances em verso? – cujos versos se organizam, quase sempre, em quintilhas. Acrescente-se que – como é usual na poesia dita para crianças – a rima tem aqui um papel primordial. Se a ela juntarmos a inclinação para o verso de redondilha maior ou menor (esta mais do que aquela) e o gosto pelo jogo de aliterações e assonâncias (que, em alguns casos, nos traz à memória Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles), teremos – no plano formal – os elementos básicos de uma poética que procura, a uma primeira aproximação, cativar a sensibilidade auditiva do leitor/ouvinte.

Do que atrás fica dito se depreende que, em O Livro dos Desejos, a narratividade se acentua, dando origem a historietas cuja ironia em relação aos poderosos não passa despercebida (leiam-se, por exemplo, «Os Reis Magros», «A Vingança do Chinês» ou «O último orangotango de Paris»). Outras vezes, organizados em quadras, encontramos textos curtos que não poupam a presunção dos deputados («O cavalinho presunçoso») nem o apego dos governantes ao poder («Os secretários de estrado» (sic)).

No avesso da caricatura e da irrisão, surge a exaltação de outros mundos: o canto e a arte de pintar, o tocador de flauta e o trapezista, a romãzeira e a passagem das estações... O discurso ganha, então, em intensidade lírica e confirma – pela expressão do desejo de amar, de reter uma beleza fugidia ou de contrariar o sentido do tempo – a justeza do título escolhido para a colectânea: «Em brilhos de escama / Desce, a truta, o rio. / P’ra tão nobre dama / Só proveito e fama / Lhe escapam por um fio. // Preso ao seu lugar / Fica um pescador, / Pensando que o mar / Se há-de enamorar / do seu esplendor.» (p. 27).

Se dúvidas houvesse, O Livro dos Desejos serviria, uma vez mais, para confirmar que existe, na literatura dita para a infância, um espaço para a expressão poética de qualidade.

Ficha

O Livro dos Desejos

Vergílio Alberto Vieira (texto) / Cristina Robalo (ilustrações)

5.ª ed., Caminho, 2010

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 27 de março de 2011

Mensagem do 2 de Abril de 2011, Dia Internacional do Livro Infantil

O livro recorda

Aino Pervik

“Quando Arno e o seu pai chegaram à escola, as aulas já tinham começado.”

No meu país, a Estónia, quase toda a gente conhece esta frase de cor. É a primeira linha de um livro intitulado Primavera. Publicado em 1912, é da autoria do escritor estónio Oskar Luts (1887-1953).

Primavera narra a vida de crianças que frequentavam uma escola rural na Estónia, em finais do século XIX. O Autor escrevia sobre a sua própria infância e Arno, na verdade, era o próprio Oskar Luts na sua meninice.

Os investigadores estudam documentos antigos e, com base neles, escrevem livros de História. Os livros de História relatam eventos que aconteceram, mas é claro que esses livros nunca contam como eram de facto as vidas das pessoas comuns em certa época.

Os livros de histórias, por seu lado, recordam coisas que não é possível encontrar nos velhos documentos. Podem contar-nos, por exemplo, o que é que um rapaz como Arno pensava quando foi para a escola há cem anos, ou quais os sonhos das crianças dessa época, que medos tinham e o que as fazia felizes. O livro também recorda os pais dessas crianças, como queriam ser e que futuro desejavam para os seus filhos.

Claro que hoje podemos escrever livros sobre os velhos tempos, e esses livros são, muitas vezes, apaixonantes. Mas um escritor actual não pode realmente conhecer os sabores e os cheiros, os medos e as alegrias de um passado distante. O escritor de hoje já sabe o que aconteceu depois e o que o futuro reservava à gente de então.

O livro recorda o tempo em que foi escrito.

A partir dos livros de Charles Dickens, ficamos a saber como era realmente a vida de um rapazinho nas ruas de Londres, em meados do século XIX, no tempo de Oliver Twist. Através dos olhos de David Copperfield (coincidentes com o olhar de Dickens nessa época), vemos todo o tipo de personagens que ao tempo viviam na Inglaterra – que relações tinham, e como os seus pensamentos e sentimentos influenciaram tais relações. Porque David Copperfield era de facto, em muitos aspectos, o próprio Charles Dickens; Dickens não precisava de inventar nada, ele pura e simplesmente conhecia aquilo que contava.

São os livros que nos permitem saber o que realmente sentiam Tom Sawyer, Huckleberry Finn e o seu amigo Jim nas viagens pelo Mississipi em finais do século XIX, quando Mark Twain escreveu as suas aventuras. Ele conhecia profundamente o que as pessoas do seu tempo pensavam sobre as demais, porque ele próprio vivia entre elas. Era uma delas.

Nas obras literárias, os relatos mais verosímeis sobre gente do passado são os que foram escritos à época em que essa mesma gente vivia.

O livro recorda.

Tradução: José António Gomes

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A Mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil é uma iniciativa do IBBY (International Board on Books for Young People), difundida em Portugal pela APPLIJ (Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil), Secção Portuguesa do IBBY.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Grande Voo do Pardal, de Lídia Jorge e Inês de Oliveira: uma incursão na filosofia para crianças e na educação para os valores

Em 2007, publicou Lídia Jorge o que é apresentado como o seu trabalho de estreia no domínio da chamada literatura para a infância: O Grande Voo do Pardal (Dom Quixote, 2007). A esta obra seguiu-se, mais recentemente, Romance do Grande Gatão (Dom Quixote, 2010).

Assinale-se, contudo, que, já em 1994, e com ilustrações de Alain Corbel, a Contexto & Imagem havia editado autonomamente, com o formato de livro para crianças, um dos contos “para adultos” da autora, obra a que foi dado o título O Conto do Nadador.

De modo singelo e numa linguagem despretensiosa (mas de recorte literário), como convém quando se pretende abordar determinados temas e enfatizar certos valores pensando em leitores muito jovens – referimo-nos à compaixão pelos outros e aos sentidos da vida e da liberdade como condições indispensáveis para alcançar um pouco de felicidade terrena –, O Grande Voo do Pardal conta-nos a história de um homem, Henrique Gaspar, que “possuía a casa mais linda das redondezas”. E o narrador prossegue, recorrendo a comparações escolhidas a dedo, tendo em atenção o(s) sentido(s) que a coerência semântica do texto, como veremos, reclama: “Ninguém sabia onde ele ia buscar aquilo – árvores com flores cheirosas, relva lisa como carpete, uma piscina que parecia um espelho” (p. 7). Todos os dias, porém, era assaltado por bandos de pardais que lhe estragavam o telhado e interrompiam o seu sossego: “Detestava esses pássaros, que dizia terem as penas enxovalhadas, cinzento encardido, além de serem, de entre todos os pássaros, os mais irrequietos, os mais glutões, os mais atrevidos. (...) Detestava-os.” (p. 11). E todos os dias inventava novas formas de afastar as aves da sua propriedade, planeando sempre novas estratégias, todas elas invariavelmente falhadas. Um dia, “estava ele precisamente a podar uns arbustos, quando reparou num pequeno molho de penas que se movia. Era um molhinho cinzento pousado no chão, que parecia respirar, ali mesmo junto a uma aba de roseira” (p. 8). Tratava-se de um jovem pardal que, por lhe faltar a pata direita, não podia voar. Henrique Gaspar tivera a oportunidade de se vingar dos pardais, mas, perante a pequena ave indefesa, não foi capaz de executar os seus intentos, antes “tomou o animal entre os dedos, pô-lo na palma de uma das mãos, acalmou-lhe o coração com a outra, juntou a cabeça do pardal aos lábios para o aquecer e foi para casa fazer-lhe o curativo” (p.14).

Não será descabido afirmar que, nesse momento, Henrique Gaspar foi colocado perante o amor natural, descrito por Rousseau, no seu “Discours sur l’Origine et les Fondements de l’Inégalité parmi les Hommes”, como uma das duas paixões que engrandecem o homem: a compaixão, a qual não permite que fiquemos indiferentes em relação aos outros.

Henrique Gaspar, que até então “detestava esses pássaros” (p. 11) e se encontrava dominado por aquilo a que Erich Fromm chamou o “mundo do ter”, das imagens e dos simulacros, representado pelas “árvores com flores cheirosas, relva lisa como carpete, uma piscina que parecia um espelho”, pelos “lindos sofás brancos comprados na Divani” (p. 17), reconstrói a sua existência no “mundo do ser”, tornando-se, pela descoberta, pela partilha, pelo diálogo com o “outro” (simbolizado no conto pelo pequeno pardal) mais humano e mais próximo de si mesmo. Neste processo de descoberta do outro, que é sempre um encontro consigo próprio, Henrique Gaspar revela também outra qualidade: o altruísmo, naquele sentido que lhe atribui Augusto Comte, em 1851, quando o refere como essencial para estabelecer e edificar relações de amizade, e entendido universalmente como a alienação do bem estar pessoal em favor do bem estar alheio. Daí que Henrique Gaspar se dedique à cura do jovem pardal, renunciando à preservação dos móveis que compõem a sua sala, para, na altura certa, tentar, não obstante a relação simbiótica já estabelecida entre os dois, homem e ave, a reintegração daquele ser no seu habitat natural. Mas, para isso, “era preciso que um bando viesse e levasse consigo o pardal domesticado” (p. 21). Se, antes, Henrique Gaspar fizera esforços para afastar os pardais, agora engendrava todas as estratégias para atrair os pássaros e, dessa forma, restituir à liberdade a jovem ave. Finalmente, após aturado esforço, “o pardal da perna só saltou para o chão, saltou para a borda da vasilha com água e depois elevou-se acima das roseiras, e subiu no ar, entre os seus. Era um entre muitos” (p.23), e o “novelinho cinzento” iniciou assim o seu primeiro grande voo. Surpreendentemente, porém, assistimos, um dia depois, ao seu regresso: “Os dois são livres mas querem estar juntos” (p. 28). É agora a vez de o jovem pássaro revelar ao homem uma outra virtude, que apenas decorre de uma “liberdade positiva”, segundo Isaiah Berlin: a lealdade – que já Platão considerara ser, de entre todos, o valor mais elevado e filosófico.

Deste longo processo de aprendizagem do homem com a natureza, fica a certeza de que só somos realmente livres quando somos nós a fazer as nossas escolhas, a decidir as nossas liberdades. Com a definição de liberdade, fechamos a página vinte e oito com a pergunta, cuja resposta nos é dada ao longo desta conseguida narrativa: “Há lá maior liberdade no Mundo?”.

Ecos de Rousseau associados à fusão idílica do homem com a natureza e a uma certa crença na sua bondade inata são, em suma, algumas das mensagens mais ou menos subliminares que se desenham neste que é o primeiro conto intencionalmente destinado à infância por Lídia Jorge. Um conto bem ilustrado por uma ainda jovem, mas não estreante, ilustradora – Inês de Oliveira, que (afastando-se, cada vez mais, da sua referência tutelar: a austríaca Lisbeth Zwerger) envereda neste livro por uma técnica mista, aguarela e acrílico sobre papel, à qual já recorrera noutras obras. Utilizada timidamente em A Bela e o Monstro (Porto Editora, 2005), de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, esta técnica consolida-se no livro Lendas e Contos Indianos (Ambar, 2006), de José Jorge Letria. O cuidado na composição, a qualidade do desenho e a atenção ao texto são, nesta ilustradora, uma imagem de marca.

Ana Cristina Vasconcelos

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

As narrativas de Ana Luísa Amaral para a infância

Ana Luísa Amaral, poeta e ensaísta de méritos reconhecidos, tem entremeado na sua criação poética contos para a infância, em prosa ou em verso. Os primeiros surgem-nos em Gaspar, o dedo diferente e outras histórias (1.ª ed., Campo das Letras, 1998, ilustrações de Elsa Navarro; 2.ª ed., Civilização, 2011, ilustrações de Abigail Ascenso).

O livro propõe três histórias exemplares, de um fantástico impregnado de animismo infantil (os protagonistas são a pequena Rita e os seus dedos, os animais de uma floresta, uma estrela e um computador), inegavelmente bem escritas e contadas. Reveladoras de sensibilidade humana e poética, destaca-se do conjunto "Gaspar, o dedo diferente", talvez o conto mais conseguido no modo como propõe uma delicada parábola sobre o abandono do egocentrismo, a superação de pequenos medos e a aprendizagem da relação do eu com o outro.

Um outro texto da mesma Autora alude, em filigrana, à criação poética e ao clássico debate sobre a inutilidade ou utilidade da actividade artística e da própria arte. Trata-se de A história da aranha Leopoldina (Porto: Campo das Letras, 2000, ilustrações de Elsa Navarro; 2.ª ed., Civilização, 2010, ilustrações de Raquel Pinheiro), objecto já de uma adaptação teatral pela Companhia de Teatro Assédio. É uma bela composição em verso, a qual, em linguagem figural, ritmada e rimada (que tudo tem a ver com a poesia), oferece um breve relato centrado numa aranha diferente. Uma aranha que luta para afirmar essa diferença, enquanto tecedeira de meias, que não de teias, que é o que fazem as suas semelhantes. Meias inúteis, no universo das aranhas, mas úteis, enquanto objectos de inegável e estranha beleza. Parábola de ressonância autobiográfica – ousaria dizer – sobre as questões de género, sobre a criação artística e sobre a luta pessoal pelo reconhecimento desse trabalho como aparentemente inútil – mas na verdade útil e até essencial a toda a comunidade –, composição em que se descobrem ainda ecos de A cigarra e a formiga, de La Fontaine, e desse clássico do álbum infantil que é Frederico (Lisboa: Kalandraka, 2004), de Leo Lionni, A história da aranha Leopoldina é bem um produto das mãos tecedeiras de uma poeta. E mostra, por outro lado, como, conjugando tradição e modernidade, e recuperando / reinventando certas formas e modalidades textuais que pareciam cristalizadas (neste caso, a vertente épica da poesia, a uma escala infantil), a actual criação poética para crianças não cessa de percorrer, em inteira liberdade criativa, diversos caminhos, não desistindo, assim, de cativar futuros leitores para a poesia dos dias por vir. Uma liberdade, direi ainda, em consonância com a natureza da própria infância, essa «charada de limites ilimitados» (…) «de confins incertos, ampliados pela pequena estatura», como um dia a descreveu a ensaísta e poeta italiana Cristina Campo (2005: 28).

De referir que a 2.ª edição de A história da aranha Leopoldina é acompanhada de um CD com as canções originais e o texto integral da peça contado por Rosa Quiroga.

Ref. bibliográfica

CAMPO, Cristina (2005). Os Imperdoáveis. Lisboa: Assírio & Alvim.

José António Gomes

(NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)