segunda-feira, 23 de março de 2009

Recordar Leonor Praça e o seu álbum Tucha e Bicó

Originalmente editado em 1969, como o primeiro volume da colecção de O Século «Pim-Pam-Pum», e, posteriormente, alvo de reedição na Plátano, numa colecção dedicada a Leonor Praça, onde se incluem obras marcantes como Rama, o Elefante Azul (1970), de Isabel da Nóbrega ou O Veado Florido (1972), de António Torrado, Tucha e Bicó (1969) constitui um marco relevante no panorama literário português no que ao público infantil diz respeito.

Desde logo, pela filiação no género do álbum narrativo, praticamente desconhecido em Portugal naquela altura, mas que, na Europa e nos Estados-Unidos, exactamente nesta época, ia revelando todas as suas potencialidades. Mas também pela dimensão lúdica que percorre o livro, centrado nas actividades levadas a cabo por duas crianças de 3 e 4 anos, com especial destaque para os brinquedos e as brincadeiras, os passeios e as férias, a escola e a família e que influenciará criadoras como Maria Keil e Manuela Bacelar.

Destinada a leitores muito pequenos, a narrativa é protagonizada pelos dois irmãos que emprestam o nome ao livro, e narrada pela menina, dando conta, num discurso de primeira pessoa, assumidamente infantil, da realidade vivida pelas duas crianças, com especial atenção para a vida familiar, as suas rotinas e actividades marcantes. Promovendo a identificação por parte dos leitores, que se reconhecem no universo recriado, assim como nas personalidades dos dois pequenos irmãos, o livro estimula a observação das imagens e a forma como elas completam um texto marcado pela brevidade, simplicidade e contenção. Caracterizado pela sequência de frases afirmativas que, a cada virar de página, se vão sucedendo, o texto não apresenta uma estrutura narrativa de tipo tradicional. Aliás, isento de conectores de qualquer tipo que esclareçam relações de sentido ou de causalidade entre as afirmações, o texto caracteriza-se, por esse facto, por uma certa aproximação ao discurso infantil, linear e aditivo, obrigando o leitor à realização de inferências de modo a estabelecer ligações semânticas e sintácticas entre as frases, criando, assim, nexos de lógica. Em alguns casos, a cumplicidade entre o texto e as imagens é tal que os deícticos, como é o caso do determinante demonstrativo «estes», apontam para a mensagem pictórica e, logo, extratextual.

Actuando em complemento do texto, as ilustrações não só pormenorizam a informação que ele disponibiliza como, em alguns casos, colaboram no preenchimento dos espaços em branco que ela integra, condicionando, pelo menos em parte, a leitura. Veja-se, por exemplo, o caso da frase «O meu irmão tem muitos brinquedos engraçados.» que, sem especificar de que tipo de brinquedos se trata, solicita uma resposta da imagem, identificando pelo menos alguns deles e orientando, desta forma, a interpretação do leitor.

Neste caso, como em outros, a leitura realizada resulta, como o mostraram Lawrence Sipe ou Maria Nikolajeva, do cruzamento de informações oriundas de duas linguagens distintas, actuando em relação sinérgica e potenciando-se mutuamente. O final do álbum exige o mesmo tipo de inferências. A afirmação «À noite estamos cansados de brincar… Boa noite!», com que o livro termina, não só conclui uma longa enumeração de actividades realizadas pelas duas crianças, como permite perceber, também com a colaboração das imagens que representam os dois irmãos em trajes de noite, que chegou a hora de dormir, parecendo, deste modo, fechar um ciclo de acção com o necessário descanso. Estimula, além disso, uma certa sugestão dialogal com o leitor, activamente implicado pela fórmula de despedida com que o livro encerra, marcando o fim da leitura e da história, mas também o fim do dia e da agitação que o caracteriza.

Com recurso a uma técnica muito simples, baseada no desenho do contorno e no preenchimento, a cor, talvez com caneta de feltro, dos espaços, a ilustradora explora as sugestões de expressividade sugeridas pelos rostos e posturas das personagens, ao mesmo tempo que joga com padrões e motivos cromaticamente muito fortes, como os fundos e as grandes manchas, criando contrastes visualmente muito apelativos, mas mantendo a sugestão de ingenuidade que também caracteriza o texto.

Precocemente desaparecida, vítima de doença, aos 34 anos de idade, Leonor Praça é ainda responsável pela ilustração, nas edições Europa-América, de duas obras de Alves Redol, A flor vai pescar num bote (1968) e A flor vai ver o mar (1968), assim como pelas imagens dos já mencionados livros de Isabel da Nóbrega e António Torrado ou ainda de A Maria Bé e o finório Zé Tomé (Plátano, 1974), de Manuel Ferreira. A pintora, nascida no Porto em 1936, estreou-se, com uma exposição individual, em 1949 e participou em numerosas exposições colectivas tendo deixado parte significativa da sua obra inédita.

 

Ficha bibliográfica

 

PRAÇA, Leonor (1969). Tucha e Bicó, Lisboa: O Século, col. Pim-Pam-Pum (nº 1)

 

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro;

membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 21 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia – Violeta Figueiredo

Autora de Fala Bicho (Caminho), O Gato do Pêlo em Pé (Caminho), Portas (Porto Editora) e Portões (Porto Editora), entre muitos outros títulos, Violeta Figueiredo é uma das vozes mais originais da nossa poesia para a infância.

Por isso, neste Dia Mundial da Poesia, propõe-se a leitura de dois poemas da autora, inéditos em livro, mas publicados no seu blogue http://violetafigueiredo.blogspot.com/ que convidamos os leitores de A Inocência Recompensada a visitar.

 

 

NO QUINTAL AO MEIO-DIA

 

No quintal ao meio-dia
não são as nêsperas frescas
que atraem vespas,
são as nêsperas do chão.
Por serem doces caíram,
foram tocadas pelo Verão.

 

ASSIM-ASSIM

 

Metido entre Muito e Pouco,
Assim-Assim nunca sabe
quanto lhe cabe.

sábado, 7 de março de 2009

Peter Pan: a infância imperecível

Peter Pan é um daqueles livros que aparentam guardar em si uma indefinível energia, um segredo imperscrutável, como se alguma coisa neles se furtasse ao bisturi da leitura crítica e reclamasse, antes, uma adesão afectiva sem reservas. E não é de admirar, se atendermos ao profundo enraizamento deste mundo ficcional em algumas das experiências mais comuns e densas da existência humana. Trata-se de uma história sempre actual, sobre a euforia da meninice, a relação entre filhos e pais, a dicotomia dependência vs. autonomia. E uma outra tensão emerge: por um lado, a perda da infância, por outro, a resistência a essa perda ao longo da vida. A este propósito, leia-se o diálogo das últimas páginas, em que Wendy, já adulta, rememora nostalgicamente as atribuladas aventuras vividas com Peter e os Rapazes Perdidos, na Terra do Nunca – essa mítica ilha povoada de fadas, piratas, sereias e peles-vermelhas:

«– Aqueles belos dias em que eu sabia voar!

– Por que não podes voar agora, mãe? [– perguntou a filha, Jane.]

– Porque sou crescida, querida. Quando as pessoas crescem esquecem-se.

– E porquê?

– Porque já não são alegres, inocentes e descuidadas e só os que são assim sabem voar.

– O que são os alegres, inocentes e descuidados? Quem me dera ser assim!» (Peter Pan. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 197).

Trata-se de um livro tão perene, afinal, como o próprio herói, Peter Pan, a eterna criança, sem mãe e quase sem memória, que se recusa a crescer e a tornar-se homem.       

Do autor – o escocês James Matthew Barrie (1860-1937) – se pode dizer que era um escritor eminentemente popular, com uma intensa relação com a mãe, e cuja trajectória o conduziu do jornalismo à publicação de romances de sucesso e à literatura dramática, à qual se dedica quase por inteiro a partir de 1901, após o casamento com a actriz Mary Ansell.

A comunicabilidade de uma escrita coloquial, sempre disponível para o humor e a ironia, e que sabe divertir e divertir-se com o próprio jogo da ficção e da narração, além da habilidade para conceber episódios e encontrar formulações que possuem o dom (releve-se o intencional lugar comum) de «falar ao coração» e à memória íntima de cada leitor ou espectador médio – eis um par de ingredientes que concorreram para o sucesso público da obra de Barrie. Êxito comum, acrescente-se, a outros autores de pouca erudição mas idêntico talento, como o dinamarquês Hans Christian Andersen (de quem se celebrou em 2005 o segundo centenário do nascimento). Vieram favorecer tal sucesso as numerosas adaptações dramatico-musicais e cinematográficas de Peter Pan: uma fita muda em 1924, um admirável filme de animação saído dos estúdios da Walt Disney em 1952, e uma comédia musical em 1954 (mais tarde transposta para os ecrãs de televisão), entre outras adaptações – isto sem falar da sequela Hook (1991), de Spielberg.

A tentação de adaptar Peter Pan ao cinema prende-se com a visualidade de muitas cenas e o seu potencial em termos de espectáculo, mas também com o suspense, a sucessão de lances dramáticos e, sobretudo, com a forma primitiva do próprio texto. É que este começou por ser uma peça, levada à cena com êxito em Londres, no ano de 1904; mais tarde foi reposta com novos actos e cenas, e finalmente recontada em livro, sob a forma de uma narrativa, em 1911, com o título Peter and Wendy. Em 1928, a peça teatral seria enfim publicada, existindo hoje estudos sobre este longo processo de escrita, encenações sucessivas e reescrita.

Juntamente com as obras de Edward Lear (em especial os limericks de The Book of Nonsense, 1846, e outros títulos) e ainda as de Lewis Carroll (as Alices de 1865 e 1872) e Robert Louis Stevenson, a narrativa de James M. Bar­rie – não obstante a sua originalidade – inscreve-se numa linha que se traduz em produções poéticas e narrativas caracterizadas ora pelo nonsense, o fantástico e o «irracional», ora pela sátira e o culto da aventura sem limites, deixando para trás o racionalismo vitoriano. Sem menosprezar as consideráveis diferenças existentes entre as diversas obras e respectivas matrizes culturais e visões do mundo e da infância, registe-se que Peter Pan ombreia, por outro lado, com esse punhado de livros de primeira água que a segunda metade do século XIX e o princípio do século XX legaram à infância e à juventude, e no qual avultam títulos como As Aventuras de Tom Sawyer (1876) de Mark Twain, As Aventuras de Pinóquio (1883) de Collodi, e A Ilha do Tesouro (1883) de Stevenson – obra onde Barrie foi beber elementos diversos, em especial no tocante à caracterização dos piratas.

Clássico da literatura tout court – e não só da chamada literatura para crianças –, o livro de Barrie mantém intacto o poder de surpreender e comover leitores de todas as idades e latitudes. Recorde-se outro passo do último capítulo: «[Wendy] passou as mãos pelo cabelo daquele rapazinho trágico [Peter]. Já não era uma rapariguinha de coração desfeito por ele, mas uma adulta sorrindo de tudo aquilo, embora com um sorriso molhado.» (p. 200)

Peter Pan, a fada Sininho, o Capitão Gancho e a pequena e maternal Wendy continuarão certamente a povoar os sonhos de muitas crianças. Mas também daqueles adultos que se recusam a inumar a sua própria infância, mantendo viva essa idade de todos os possíveis que, mesmo quando idealizada, os continua a impelir para a aventura e a mudança.           

 

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 1 de março de 2009

Versos Diversos para Meninos Travessos, de Maria Rosa Colaço

Colectânea de quase três dezenas de composições poéticas de Maria Rosa Colaço, este livro percorre algumas das linhas de força da produção literária da autora, precocemente desaparecida em 2004, com especial relevo para a valorização de uma dimensão da infância nem sempre conotada com a alegria e a felicidade. Assim, muitos poemas dão voz a uma certa imagem magoada e dorida da infância com a qual o sujeito poético se solidariza. Mas os poemas não se resumem à constatação das dificuldades (incluindo a fome e a pobreza), nem à sua denúncia. De alguns deles, sobretudo aqueles onde surgem os motivos da arte, da poesia e também da escola, ressuma uma esperança renovada no futuro e nas novas gerações, em resultado, por exemplo, do acesso à educação e ao afecto. Percorridos por eixos temáticos que se estendem também aos textos em prosa da autora, veja-se o caso da novela Gaivota (Caminho, 1989), os poemas aqui agrupados são devedores de uma certa influência neo-realista que configura, se não uma literatura de intervenção, pelo menos, uma produção despertadora das consciências. Atenta à realidade social urbana, em particular a da margem sul do Tejo durante décadas particularmente difíceis, a autora distingue-se por recriar, com subtil lirismo, cenários e ambientes marcados pela degradação e pelo abandono afectivo onde a criança surge como elemento central.

Outra vertente relevante desta colectânea reside na forma como os textos reflectem o olhar infantil, inaugural e deslumbrado, perante as maravilhas, mesmo as mais pequenas e aparentemente insignificantes, da Natureza, como é o caso do bichinho de conta, a estrela do mar, a lagarta ou a pacatez do burrinho, o pirilampo ou a joaninha. Os brinquedos e as brincadeiras tradicionais suscitam, no acto contemplativo do sujeito poético, assumidamente adulto, reflexão sobre a inocência infantil e a ingenuidade dos sonhos que se jogam nessas actividades.

Com influências de uma certa lírica tradicional, os textos caracterizam-se pelo recurso à quadra, à redondilha e à rima cruzada, verificando-se, igualmente, uma certa proximidade com as canções de roda e com as rimas infantis, sobretudo em textos dialogados, marcados por um ritmo e uma melodia muito particulares.

As ilustrações que, regularmente, vão pontuando os textos, dão corpo e forma a alguns dos motes poéticos centrais da publicação, sublinhando a subtileza do volume. A merecer leitura atenta, esta colectânea ilustra bem o talento de uma das autoras mais relevantes da literatura portuguesa para a infância da segunda metade do século XX.

 

Ficha bibliográfica

 

Maria Rosa Colaço (texto) e Isabel Paiva (ilustrações). Versos Diversos para Meninos Travessos. Odivelas: Europress, 1994, colecção Índio Maluco, ISBN 972-559-174-7

 

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro e membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

História da ressurreição do papagaio, de Eduardo Galeano e Antonio Santos

No final de 2008, veio a lume, com a chancela da Kalandraka, um álbum narrativo da autoria de Eduardo Galeano e com ilustrações de Antonio Santos. Aqui, o conhecido escritor uruguaio recria, de forma original, uma lenda do Nordeste Brasileiro, onde o oleiro do Ceará, com as suas mãos, devolve à vida um papagaio morto em consequência da sua extrema curiosidade.

O texto, muito simples e contido, desenrola-se segundo uma estrutura acumulativa, de acordo com uma sequência perfeitamente encadeada, que se revelará determinante para o resultado final da história e para o próprio epílogo.

Face à morte do papagaio, são muitas as vozes solidárias que se unem para chorá-lo: a menina, sua amiga, a laranja, o fogo, o muro, a árvore, o vento, o céu e o homem, numa sucessão contínua de acções que manifestam o pesar pelo acontecido. A personificação dos elementos da Natureza revela a comunhão que os caracteriza, como partes de um mundo simbiótico. As diferentes formas de exteriorização de uma mesma tristeza – pelo choro da menina, a perda da casca da laranja, o apagar do fogo, a perda da pedra do muro, a queda das folhas da árvore, a perda da rajada do vento, a abertura da janela e o desaparecimento da cor do céu – serão a matéria-prima que, nas mãos mágicas do oleiro, dará vida, múltiplas cores, qualidades e voz ao novo papagaio. O cariz circular da narrativa, as repetições e os paralelismos, visíveis também no recurso à anáfora e ao polissíndeto, assim como o vocabulário simples e o final feliz, com a reinstauração de um equilíbrio melhorado, reforçam a ancoragem do texto no universo tradicional oral, aproximando o narrador do contador de histórias. O simbolismo do papagaio colorido na cultura brasileira, em especial na nordestina, confere-lhe um lugar particular na vida e nos afectos dos homens, destacando-se, pela inteligência e por imitar a linguagem humana, das restantes aves. Símbolo do próprio país, venerado em diferentes culturas indígenas, esta espécie conhece reiterado tratamento literário e artístico.

A componente visual do livro merece, igualmente, observação atenta e cuidada. Da autoria de Antonio Santos, pintor e escultor espanhol, as ilustrações resultam da fotografia de composições escultóricas, em madeira pintada, funcionando de forma tridimensional e permitindo explorar sugestões de volumetria e de movimento. Mantêm, para além disso, em resultado da técnica utilizada na construção das esculturas, uma ligação ao universo artesanal que é sublinhada pela opção pelos materiais e pelas formas. O dramatismo das imagens resulta, ainda, largamente, do processo de fotografia de que são alvo, para além do cuidado design da edição, explorando a sugestão de sombras e a variação de perspectivas e de planos, com especial relevo para o plano de pormenor, permitindo a criação de sequências dinâmicas.

Objecto de uma recriação original, também em resultado da adição de uma forte dimensão poética, esta lenda brasileira que junta binómios aparentemente contraditórios, como a vida e a morte, distingue-se, para além de uma exemplar componente pictórica, muito colorida, expressiva e perfeitamente articulada com o universo textual, pela forma como alia narrativa e poesia, tradição e modernidade, construindo uma narrativa que, para além de tudo, também fala de afectos e de como eles mudam o mundo e vencem até a própria morte.

 

Ficha bibliográfica

Eduardo Galeano (texto) e Antonio Santos (ilustrações)

História da ressurreição do papagaio, Matosinhos: Kalandraka, 2008, col. Livros para sonhar, tradução de Elisabete Pereira ISBN 978-989-8205-01-8

 

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro; membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Do amor na Literatura para a Infância

Uma hipótese que mentalmente se me impunha era esta: o amor, ou, pelo menos, o amor entre homem e mulher ou entre pessoas do mesmo sexo parece não ser uma temática recorrente na literatura infantil e juvenil. Era a intuição que tinha. Mas seria ela verdadeira? Dediquei-me então a desfiar, ao sabor do acaso, a minha memória da literatura infantil e juvenil portuguesa e, de imediato, a hipótese inicial começou a fraquejar. E porquê?

Bom, porque logo recordei a breve história dos amores proibidos de Vanina e Guidobaldo, situada na Veneza do século XV e encaixada na narrativa de Sophia de Mello Breyner Andresen, O Cavaleiro da Dinamarca (1964), um dos nossos clássicos. Ambos belos e apaixonados, Vanina e Guidobaldo fogem de gôndola para nunca mais serem encontrados por Jacob Orso, o ditatorial tutor de Vanina, e por Arrigo, o idoso pretendente. O pente que, apesar de ser de ouro, não brilhava tanto como os cabelos de Vanina, e a escada de seda que esta usa para fugir pela janela cumprem a função que costuma ser cometida aos objectos mágicos no conto de fadas, sendo por isso dois dos elementos que fazem com que a história se possa enquadrar num universo que a aproxima das narrativas tradicionais (havendo ecos, por exemplo, de Rapunzel, mas também da lenda de Tristão e Isolda, que aliás é referida no texto de Sophia). Existe, por outro lado, certo paralelismo entre o episódio de Vanina e o entrecho da peça Romeu e Julieta (1597) de William Shakespeare, muito embora, em Sophia, o enredo conheça um rumo oposto, isto é, um desfecho feliz para os dois amantes. A história de Vanina configura, pois, uma apologia da liberdade e do amor autêntico que cala fundo no espírito do leitor.

Esta história trouxe-me de imediato à lembrança todo o universo do conto de fadas, centrado no amor, de A Bela Adormecida a Cinderela, passando por A Bela e o Monstro, qualquer deles com múltiplas e diferenciadas versões na tradição oral portuguesa.

Depois, ocorreram-me exemplos relevantes do romance juvenil português. Como Guardado no Coração (2 vols., 1993 e 1994), de Álvaro Magalhães, uma narrativa de esquema policial que se abeira do fantástico, protagonizada por quatro jovens adolescentes e situada no Porto, onde se desenrola uma bela história de enamoramento e paixão entre Joana e Gil, a que não faltam alusões intertextuais, por exemplo à poesia de Rainer Maria Rilke, um poeta do amor e um adicto das histórias de grandes paixões amorosas.

Por seu turno, Caderno de Agosto (1995), de Alice Vieira – o mais representativo nome da ficção portuguesa para jovens –, é apenas uma das obras desta autora que mais directamente abordam a questão do amor, mas sobretudo do matrimónio desfeito, do divórcio e da busca de um novo rumo para a vida de uma mulher a chegar à meia-idade. Num texto que, a cada momento, nos convida a entrar no seu jogo de humor e ironia (essa arma letal, como lhe chamou Douwe Fokkema), apetece, sobretudo, reter o olhar arguto e feminino de Glória, filha de Luísa e narradora autodiegética, ou seja, o modo divertido como observa, com a lucidez da sua adolescência, a comédia de paixões desastradas e equívocos sem remédio em que se vão atolando os adultos que a rodeiam.

No campo do texto dramático, é difícil esquecer Todos os Rapazes São Gatos (2004), de Álvaro Magalhães, em que não se esconde certa nostalgia da primeira juventude, fazendo-se emergir uma oposição entre idade adulta, marcada no texto pelo sema da negatividade, e idade juvenil, que tem inscrito em si um sema de positividade – um pouco como ocorre no conto de fadas. Diz uma das personagens: «Só os jovens e os animais (…) podem ter [uma alma] porque só eles estão próximos do modo natural da vida. É por isso que os rapazes e os gatos podem trocar as almas, os corpos, as energias.» (p. 26). Uma destas «energias» prende-se com o impulso amoroso e joga-se numa tensão entre pulsão de vida e pulsão de morte, no quadro de um entrecho de tipo fantástico, em que a adolescência surge identificada com a condição felina. Na escrita de Álvaro Magalhães, a descoberta do amor, o desejo larvar, o despontar da paixão constituem uma tópica de eleição, na esteira de textos anteriores, como Os Hipopóptimos: Uma História de Amor (2001), o «Romance de Lucas e Pandora» incluído em Contos da Cidade das Pontes (2001) (também ele uma história de gatos) e vários dos títulos da colecção juvenil «Triângulo Jota».

No domínio do álbum para crianças, registo O Livro do Pedro (Maria dos 7 aos 8) (2008), de Manuela Bacelar (texto e ilustração), onde se ousa abordar, com naturalidade, o amor entre dois homens e a adopção por casais homossexuais. Mas poderia mencionar outros títulos, centrados em diferentes dimensões do sentimento amoroso.

E, por último, entre várias outras obras que poderia apontar, ocorre-me a poesia de Eugénio de Andrade para crianças, autor que, já em História da Égua Branca (1976), assinara um conto de tipo exemplar, com um esquema só na aparência tradicional, muito centrado nos equívocos decorrentes da incompreensão do instinto sexual. Do seu livro Aquela Nuvem e Outras (1986), guardo, por exemplo, este belíssimo «Faz de conta»:

 

– Faz de conta que sou abelha.

– Eu serei a flor mais bela.

 

– Faz de conta que sou cardo.

– Eu serei somente orvalho.

 

– Faz de conta que sou potro.

– Eu serei sombra em Agosto.

 

– Faz de conta que sou choupo.

– Eu serei pássaro louco,

pássaro voando e voando

sobre ti vezes sem conta.

 

– Faz de conta, faz de conta.

 

Neste poema, cujo título parece remeter o leitor para o território da simbolização e do imaginário, trata-se, no fim de contas, de dar a conhecer o jogo intemporal da sedução amorosa, recorrendo quer a um núcleo de signos comuns na escrita de Eugénio de Andrade «para adultos», quer à forma dialogada, que permite escutar duas vozes. O poeta constrói então uma série quase perfeita de correspondências semânticas e fónicas (abelha/flor mais bela; cardo/orvalho; potro / agosto; choupo / pássaro louco) que configura uma sucessão de metáforas de ressonância erótica, da qual ressalta a ideia de aproximação insistente da segunda voz (ou corpo) à que desafiadoramente diz «Faz de conta» (o primeiro corpo). Após um crescendo, o poema termina, no entanto, com a repetição do leitmotiv, como se sugerisse que o encontro dos dois corpos é impossível e que o interminável jogo – tão físico como mental –, vale por si. A pulsão desejante parece, aliás, comandar a escrita de muitos dos poemas de Eugénio de Andrade para crianças – isto sem falar da sua poesia dita para adultos –, uma pulsão irradiante que em diversas direcções se projecta.

Não resisto a apontar um último exemplo da presença do amor na literatura infantil portuguesa. Colho-o no belíssimo livro de Álvaro Magalhães, O Reino Perdido (1986), em especial neste delicioso poema dedicado ao «Bombeiro»:

 

Ele apaga todos os fogos

mesmo o do coração da amada.

Só que esse é um fogo doce

que ele está sempre a apagar para o voltar a atear.

Como ele mesmo diria,

esse incêndio é uma alegria.

 

Onde ele não é muito bem visto

é no inferno.

Lá, nenhum bombeiro tem hospedagem.

É uma grande vantagem.

 

Como se pode ver, bastou meia dúzia de exemplos para a minha hipótese inicial perder consistência. De facto, o amor, nas suas múltiplas dimensões (e já nem falo do amor materno, do amor paterno ou do amor entre irmãos), é um tópico com expressão tudo menos negligenciável nos livros para os mais novos. E apraz-me dizer isto, pois, numa sociedade mercantil e ferozmente individualista como a nossa, que tantas vezes incute nos seus filhos o culto da competição e é indulgente para com as suas pulsões egocêntricas, a presença desta temática indicia, pelo menos, que a educação dos afectos não é menosprezada pelos autores e ilustradores da literatura infantil e juvenil.

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

De volta aos anos 90 – Teresa Lima e a pulsação poética das imagens

Em notícias biográficas sobre Teresa Lima, é possível ler que a artista nasceu em Lisboa, em 1962, e que nesta cidade concluiu o Curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes. Talvez valha a pena acrescentar que Teresa Lima é mãe e professora, o que decerto contribuiu para um conhecimento, de experiência feito, acerca do mundo da criança. Aliado a uma memória viva da sua própria infância, esse saber terá de uma forma ou de outra reforçado a sua enraizada vocação de ilustradora de literatura para crianças. Participando, desde 1986, em exposições colectivas de pintura e desenho, foi distinguida com alguns prémios e menções honrosas e dedicou-se também à concepção de capas para livros, o que já prenunciava a actividade que a tornou conhecida: a ilustração de livros infantis.

O que primeiramente cumpre assinalar, no percurso desta artista, é o facto de ter dedicado o melhor do seu labor à difícil arte de ilustrar livros para crianças, fazendo-o em detrimento de outros tipos de ilustração. Esta especialização permitiu a Teresa Lima um conhecimento mais profundo do seu campo de trabalho e das peculiaridades do livro infantil (condicionado pelo público preferencial e pelos consequentes constrangimentos editoriais), proporcionando-lhe em simultâneo condições para a consolidação gradual de um estilo próprio que encontrou várias possibilidades de se desenvolver. Isto permite afirmar que, entre A Cor das Vogais (a primeira obra de relevo que viu editada, em 1995) e Alice no País das Maravilhas (1998), se verifica, efectivamente, um percurso evolutivo. Mas é preciso reconhecer também que a qualidade estética logo evidenciada nas primeiras ilustrações terá favorecido o aparecimento de ofertas de trabalho menos condicionadas pelos aflitivos ritmos editoriais. Parece ser o caso da segunda das obras citadas, cujas imagens, pelo seu preciosismo e riqueza de pormenores, obrigaram a tempos de maturação e de composição necessariamente dilatados, que não é fácil ver concedidos aos ilustradores portugueses pelas editoras que temos. Até porque Teresa Lima é uma inteligente leitora dos textos (o mesmo se não pode dizer de todos os ilustradores), atenta aos diferentes matizes da palavra.

Tanto os versos de Vergílio Alberto Vieira (A Cor das Vogais, Civilização, 1995) como os micro-contos de António Mota (Segredos, Desabrochar, 1996) ilustrados por Teresa Lima radicam numa realidade nacional de raízes rurais, aspecto que não poderia deixar de se traduzir no trabalho da artista. Talvez por isso, as suas composições nestes dois livros integrem quase sempre elementos de um imaginário peculiar com o qual muitos leitores portugueses se sentem familiarizados. Observe-se, por exemplo, a representação das casas de aldeia, dos animais, da natureza campestre e de certos ofícios tradicionais. Criador de ambientes por vezes oníricos, carregados – supõe-se – de memórias de infância, o traço de Teresa Lima revela um fascínio pelas composições pictóricas das crianças, a que não serão porventura alheios a sua já mencionada condição de professora e o convívio com a obra de Paul Klee e de alguns surrealistas.

As linhas e formas curvas, bem como a violação intencional de algumas regras de perspectiva provocam efeitos por vezes surpreendentes que potenciam a força poética das composições. Mas ela repousa, também, no modo como certas imagens dão a ilusão de representar o «visível» e o «não visível», entendendo este como o que apenas é possível adivinhar sob o que um primeiro olhar revela. Refiro-me à matéria subterrânea, às fundas raízes das árvores, por exemplo. Neste sentido, e não só, as imagens de Teresa Lima possuem uma dimensão pedagógica ao estimularem a criança a ultrapassar a superfície das coisas, como se cada ser ou objecto escondesse um mundo insuspeitado e por descobrir. De salientar ainda a pulsão narrativa de certas ilustrações, caracterizadas por, numa única imagem, representarem diferentes momentos da mesma história sem que o equilíbrio global se veja prejudicado – como se torna perceptível em algumas ilustrações de Segredos e de O Gigante e as Três Irmãs (Caminho, 1998), um conto tradicional recriado por Alice Vieira. A profusão de cores e tonalidades que em geral caracteriza as imagens nunca faz cedências, contudo, em matéria de gosto, nem prejudica o equilíbrio compositivo de um conjunto de forte poder apelativo. Da conjugação dos elementos apontados, da pluralidade de leituras que as imagens suscitam resulta, a meu ver, a dimensão poética das ilustrações de Teresa Lima, patente também nas que executou para livros e jogos da autoria de Graça Gonçalves, dos quais destaco Tchim, a Droga e o Benjamim e Tchim e a SIDA É assim..., ambos de 1998 (reedições da editora Gostar).

Vocacionado para a ilustração de livros para crianças entre os seis e os doze anos, o trabalho de Teresa Lima, na década de 90, evidenciava assim potencialidades que o futuro não deixou de confirmar – uma das muitas razões que terão pesado na nomeação de A Cor das Vogais para a Lista de Honra do International Board on Books for Young People (IBBY) de 1996. A esta distinção seguiu-se a selecção da artista para a exposição «Cores para o Futuro» que, com a presença de doze nomes apenas, representou a ilustração portuguesa na Feira do Livro de Frankfurt de 1997.

Finalmente, em 1999, Teresa Lima foi distinguida, pela primeira vez, com o Prémio Nacional de Ilustração de 1998. Este prémio fora criado dois anos antes, pela Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil (Secção Portuguesa do IBBY) e pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, a fim de estimular e promover a ilustração de qualidade publicada em livros infantis e juvenis portugueses, chamando também a atenção para o papel desempenhado por esta modalidade de expressão artística na formação do gosto estético de crianças e jovens e na motivação para a leitura. Sendo no momento o único prémio português – e dirigido a portugueses – a distinguir esta forma de expressão estética singular (e até certo ponto indissociável da escrita literária com a qual deverá constituir um todo), o Prémio Nacional de Ilustração tem despertado o interesse de muitos artistas e editores, manifesto no elevado número de obras apresentadas a concurso nos últimos anos.

O livro premiado em 1999 foi a já citada versão de Alice no País das Maravilhas, publicada pela Civilização Editora, obra que veio demonstrar a vocação de Teresa Lima para uma nova área: a da ilustração de clássicos da literatura para crianças, domínio que constitui, em regra, uma prova de fogo para a maioria dos grandes ilustradores. Não discorrerei aqui sobre um texto sobejamente conhecido e que se impôs como obra-prima da literatura de fantasia da época vitoriana e do nonsense de raiz anglo-saxónica. Direi apenas que Teresa Lima ilustrou esta narrativa de forma superior, dando sinais de consolidação de um estilo inconfundível. Nas páginas de grande formato, o seu traço expande-se na composição dos cenários, deixando perceber diversas influências que o enobrecem mas não chegam a condicionar em excesso o produto final. Prevalece, com efeito, o estilo pessoal da artista, quer no desenho quer no modo como trabalha o pormenor, trata a cor e os contrastes, confere profundidade ao cenário e aprofunda certas dimensões do fantástico carrolliano, sem contudo perder de vista a necessária articulação do texto literário com a imagem na produção de significado da narrativa, além de deixar entrever relações interartísticas. Este é um dos aspectos salientados por João Paiva Boléo quando escreve: «Pela sua qualidade e originalidade, reforçada pelos pormenores repetidos em sombra ao longo do texto, [as ilustrações] tornam este livro um objecto maravilhoso. Sem se sentir constrangida pelas paradigmáticas ilustrações de Tenniel, Teresa Lima optou por ilustrações/quadros que abrem/resumem cada capítulo, com o extraordinário mérito de ser fiel ao imaginário de Lewis Carroll e ter uma ressonância estética de fortes raízes portuguesas, passando por Mário Botas, os azulejos, Paula Rêgo» 1.

Pelo que fica dito, parece claro que Teresa Lima encontrou um caminho seu que percorre agora com segurança, em especial nos domínios do conto, da poesia e ainda dos clássicos da literatura para a infância. Nas suas imagens, a tradição fecunda um registo pessoal. Sem se alhear das suas raízes culturais, esse estilo confere substância a um percurso de ilustração moderno e que sabe como desafiar o imaginário infantil, enriquecendo-o com a poesia que emana de uma singular conjugação de formas e de cores com um imaginário muito próprio.

 

Nota

1 João P. Boléo. «Contos ilustrados», Expresso (Cartaz), 21/8/1999, p. 23.

 

 

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)