domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Grande Voo do Pardal, de Lídia Jorge e Inês de Oliveira: uma incursão na filosofia para crianças e na educação para os valores

Em 2007, publicou Lídia Jorge o que é apresentado como o seu trabalho de estreia no domínio da chamada literatura para a infância: O Grande Voo do Pardal (Dom Quixote, 2007). A esta obra seguiu-se, mais recentemente, Romance do Grande Gatão (Dom Quixote, 2010).

Assinale-se, contudo, que, já em 1994, e com ilustrações de Alain Corbel, a Contexto & Imagem havia editado autonomamente, com o formato de livro para crianças, um dos contos “para adultos” da autora, obra a que foi dado o título O Conto do Nadador.

De modo singelo e numa linguagem despretensiosa (mas de recorte literário), como convém quando se pretende abordar determinados temas e enfatizar certos valores pensando em leitores muito jovens – referimo-nos à compaixão pelos outros e aos sentidos da vida e da liberdade como condições indispensáveis para alcançar um pouco de felicidade terrena –, O Grande Voo do Pardal conta-nos a história de um homem, Henrique Gaspar, que “possuía a casa mais linda das redondezas”. E o narrador prossegue, recorrendo a comparações escolhidas a dedo, tendo em atenção o(s) sentido(s) que a coerência semântica do texto, como veremos, reclama: “Ninguém sabia onde ele ia buscar aquilo – árvores com flores cheirosas, relva lisa como carpete, uma piscina que parecia um espelho” (p. 7). Todos os dias, porém, era assaltado por bandos de pardais que lhe estragavam o telhado e interrompiam o seu sossego: “Detestava esses pássaros, que dizia terem as penas enxovalhadas, cinzento encardido, além de serem, de entre todos os pássaros, os mais irrequietos, os mais glutões, os mais atrevidos. (...) Detestava-os.” (p. 11). E todos os dias inventava novas formas de afastar as aves da sua propriedade, planeando sempre novas estratégias, todas elas invariavelmente falhadas. Um dia, “estava ele precisamente a podar uns arbustos, quando reparou num pequeno molho de penas que se movia. Era um molhinho cinzento pousado no chão, que parecia respirar, ali mesmo junto a uma aba de roseira” (p. 8). Tratava-se de um jovem pardal que, por lhe faltar a pata direita, não podia voar. Henrique Gaspar tivera a oportunidade de se vingar dos pardais, mas, perante a pequena ave indefesa, não foi capaz de executar os seus intentos, antes “tomou o animal entre os dedos, pô-lo na palma de uma das mãos, acalmou-lhe o coração com a outra, juntou a cabeça do pardal aos lábios para o aquecer e foi para casa fazer-lhe o curativo” (p.14).

Não será descabido afirmar que, nesse momento, Henrique Gaspar foi colocado perante o amor natural, descrito por Rousseau, no seu “Discours sur l’Origine et les Fondements de l’Inégalité parmi les Hommes”, como uma das duas paixões que engrandecem o homem: a compaixão, a qual não permite que fiquemos indiferentes em relação aos outros.

Henrique Gaspar, que até então “detestava esses pássaros” (p. 11) e se encontrava dominado por aquilo a que Erich Fromm chamou o “mundo do ter”, das imagens e dos simulacros, representado pelas “árvores com flores cheirosas, relva lisa como carpete, uma piscina que parecia um espelho”, pelos “lindos sofás brancos comprados na Divani” (p. 17), reconstrói a sua existência no “mundo do ser”, tornando-se, pela descoberta, pela partilha, pelo diálogo com o “outro” (simbolizado no conto pelo pequeno pardal) mais humano e mais próximo de si mesmo. Neste processo de descoberta do outro, que é sempre um encontro consigo próprio, Henrique Gaspar revela também outra qualidade: o altruísmo, naquele sentido que lhe atribui Augusto Comte, em 1851, quando o refere como essencial para estabelecer e edificar relações de amizade, e entendido universalmente como a alienação do bem estar pessoal em favor do bem estar alheio. Daí que Henrique Gaspar se dedique à cura do jovem pardal, renunciando à preservação dos móveis que compõem a sua sala, para, na altura certa, tentar, não obstante a relação simbiótica já estabelecida entre os dois, homem e ave, a reintegração daquele ser no seu habitat natural. Mas, para isso, “era preciso que um bando viesse e levasse consigo o pardal domesticado” (p. 21). Se, antes, Henrique Gaspar fizera esforços para afastar os pardais, agora engendrava todas as estratégias para atrair os pássaros e, dessa forma, restituir à liberdade a jovem ave. Finalmente, após aturado esforço, “o pardal da perna só saltou para o chão, saltou para a borda da vasilha com água e depois elevou-se acima das roseiras, e subiu no ar, entre os seus. Era um entre muitos” (p.23), e o “novelinho cinzento” iniciou assim o seu primeiro grande voo. Surpreendentemente, porém, assistimos, um dia depois, ao seu regresso: “Os dois são livres mas querem estar juntos” (p. 28). É agora a vez de o jovem pássaro revelar ao homem uma outra virtude, que apenas decorre de uma “liberdade positiva”, segundo Isaiah Berlin: a lealdade – que já Platão considerara ser, de entre todos, o valor mais elevado e filosófico.

Deste longo processo de aprendizagem do homem com a natureza, fica a certeza de que só somos realmente livres quando somos nós a fazer as nossas escolhas, a decidir as nossas liberdades. Com a definição de liberdade, fechamos a página vinte e oito com a pergunta, cuja resposta nos é dada ao longo desta conseguida narrativa: “Há lá maior liberdade no Mundo?”.

Ecos de Rousseau associados à fusão idílica do homem com a natureza e a uma certa crença na sua bondade inata são, em suma, algumas das mensagens mais ou menos subliminares que se desenham neste que é o primeiro conto intencionalmente destinado à infância por Lídia Jorge. Um conto bem ilustrado por uma ainda jovem, mas não estreante, ilustradora – Inês de Oliveira, que (afastando-se, cada vez mais, da sua referência tutelar: a austríaca Lisbeth Zwerger) envereda neste livro por uma técnica mista, aguarela e acrílico sobre papel, à qual já recorrera noutras obras. Utilizada timidamente em A Bela e o Monstro (Porto Editora, 2005), de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, esta técnica consolida-se no livro Lendas e Contos Indianos (Ambar, 2006), de José Jorge Letria. O cuidado na composição, a qualidade do desenho e a atenção ao texto são, nesta ilustradora, uma imagem de marca.

Ana Cristina Vasconcelos

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

As narrativas de Ana Luísa Amaral para a infância

Ana Luísa Amaral, poeta e ensaísta de méritos reconhecidos, tem entremeado na sua criação poética contos para a infância, em prosa ou em verso. Os primeiros surgem-nos em Gaspar, o dedo diferente e outras histórias (1.ª ed., Campo das Letras, 1998, ilustrações de Elsa Navarro; 2.ª ed., Civilização, 2011, ilustrações de Abigail Ascenso).

O livro propõe três histórias exemplares, de um fantástico impregnado de animismo infantil (os protagonistas são a pequena Rita e os seus dedos, os animais de uma floresta, uma estrela e um computador), inegavelmente bem escritas e contadas. Reveladoras de sensibilidade humana e poética, destaca-se do conjunto "Gaspar, o dedo diferente", talvez o conto mais conseguido no modo como propõe uma delicada parábola sobre o abandono do egocentrismo, a superação de pequenos medos e a aprendizagem da relação do eu com o outro.

Um outro texto da mesma Autora alude, em filigrana, à criação poética e ao clássico debate sobre a inutilidade ou utilidade da actividade artística e da própria arte. Trata-se de A história da aranha Leopoldina (Porto: Campo das Letras, 2000, ilustrações de Elsa Navarro; 2.ª ed., Civilização, 2010, ilustrações de Raquel Pinheiro), objecto já de uma adaptação teatral pela Companhia de Teatro Assédio. É uma bela composição em verso, a qual, em linguagem figural, ritmada e rimada (que tudo tem a ver com a poesia), oferece um breve relato centrado numa aranha diferente. Uma aranha que luta para afirmar essa diferença, enquanto tecedeira de meias, que não de teias, que é o que fazem as suas semelhantes. Meias inúteis, no universo das aranhas, mas úteis, enquanto objectos de inegável e estranha beleza. Parábola de ressonância autobiográfica – ousaria dizer – sobre as questões de género, sobre a criação artística e sobre a luta pessoal pelo reconhecimento desse trabalho como aparentemente inútil – mas na verdade útil e até essencial a toda a comunidade –, composição em que se descobrem ainda ecos de A cigarra e a formiga, de La Fontaine, e desse clássico do álbum infantil que é Frederico (Lisboa: Kalandraka, 2004), de Leo Lionni, A história da aranha Leopoldina é bem um produto das mãos tecedeiras de uma poeta. E mostra, por outro lado, como, conjugando tradição e modernidade, e recuperando / reinventando certas formas e modalidades textuais que pareciam cristalizadas (neste caso, a vertente épica da poesia, a uma escala infantil), a actual criação poética para crianças não cessa de percorrer, em inteira liberdade criativa, diversos caminhos, não desistindo, assim, de cativar futuros leitores para a poesia dos dias por vir. Uma liberdade, direi ainda, em consonância com a natureza da própria infância, essa «charada de limites ilimitados» (…) «de confins incertos, ampliados pela pequena estatura», como um dia a descreveu a ensaísta e poeta italiana Cristina Campo (2005: 28).

De referir que a 2.ª edição de A história da aranha Leopoldina é acompanhada de um CD com as canções originais e o texto integral da peça contado por Rosa Quiroga.

Ref. bibliográfica

CAMPO, Cristina (2005). Os Imperdoáveis. Lisboa: Assírio & Alvim.

José António Gomes

(NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Homenagem a Matilde Rosa Araújo | Escola Superior de Educação do Porto

A unidade curricular de Prática Instrumental e Vocal II (Música de conjunto), sob a direcção de Graça Mota, a unidade curricular de Literatura para a Infância e Promoção da Leitura, leccionada por José António Gomes, Ana Cristina Macedo e Ana Isabel Pinto, o NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto), os alunos de Educação Musical (2.º ano) e alunos de Educação Básica (3.º ano) promovem, no próximo dia 25 de Janeiro, uma homenagem à escritora Matilde Rosa Araújo (falecida em 2010), figura inesquecível da nossa literatura para crianças.

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A iniciativa consta de um colóquio (16h, Auditório) – em que participam José António Gomes, Ana Margarida Ramos, Sara Reis da Silva, Maria Elisa Sousa, Jorge Alexandre Costa e Ana Cristina Macedo – seguido de uma audição integral de As Cançõezinhas da Tila, de Fernando Lopes-Graça e Matilde Rosa Araújo (18h, Salão de Música), entremeada de leituras e comentário de textos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma Estrela Viaja na Cidade, de Papiniano Carlos e Elsa Lé

A escrita de Papiniano Carlos (n. 1918) sempre se deixou cativar pelo que existe de assombroso na marcha evolutiva do Homem ao longo da História, esse pedregoso caminho que atravessa milénios. Tão antigo que quase se pode dizer ter começado antes da própria Pré-História, antes do Homem ser Homem. Assim se entende a breve alusão ao réptil voador, remoto antepassado do animal humano, que encontramos na abertura do poema dramático Uma Estrela Viaja na Cidade (Porto: Trinta por Uma Linha, 2010). Uma composição que, inicialmente publicada em 1958 1, não como texto para crianças, foi assumida, na presente edição, como obra susceptível de ser lida por esse público e objecto, assim, do necessário enquadramento paratextual: entre outros aspectos, o formato de álbum com capa dura, curtos segmentos de texto por página, em caracteres de razoável tamanho, e imagens a cores assinadas por Elsa Lé, ilustradora de livros infantis.

Constituindo embora o início do livro, a referência ao crocodilo é o desfecho de uma das histórias contadas pela personagem do Poeta e funciona como ponto de arranque para, através de um diálogo entre o Menino, a Jovem, o Jovem, a Mulher, o Velho, um Coro e o próprio Poeta, se percorrer de modo sumário a trilha da humanidade, os seus extraordinários conseguimentos e conquistas que, ao longo dos séculos, foram alternando com os maiores desastres e tragédias colectivos.

O Menino exclamará: «São lindas as tuas histórias, Poeta.». E este responderá: «São a História do Homem.». «A aventura humana…», dirá o Jovem; «A extraordinária viagem…», acrescentará a Jovem. E o Poeta completará a frase: «Que começou no protoplasma, há milhões e milhões de anos… (…) E não acabará tão cedo…».

Assim principia o diálogo que se estende ao longo das páginas deste livro ilustrado em aguarela, cujas imagens procuram acompanhar os picos dramáticos, as cenas mais eufóricas e a atmosfera poética do texto.

Em boa parte escrito em verso, e assumindo a forma de uma pequena peça para representação teatral, Uma Estrela Viaja na Cidade define diferentes dramatis personæ por meio das respectivas falas: o Poeta é o encantador dos outros homens, o desvelador do real, isto é, do que a concretude das coisas não desvenda à primeira vista. E, por isso, se torna personagem perigosa para os que representam o status quo, a opressão, a violência. Com a sua visão do mundo e da História, uma visão sempre lúcida, humanista e poética, o Poeta ajuda os seus semelhantes a sonhar um mundo novo. Um sonho que o Velho, mais pessimista, nunca partilha, até, quase no final e perante a violência, parecer colocar-se ao lado do Poeta, quando este está prestes a ser encarcerado. A visão do futuro repousa, sobretudo, no olhar deslumbrado e nas palavras do Menino; e a determinação em lutar por uma outra cidade anima, em especial, o Jovem e a Jovem. A esta última personagem e à Mulher cabem os discursos de exaltação do amor. Nas vozes de um Coro que comenta as outras falas, ecoam os anseios de quase todas estas personagens, mas emergem também as necessárias explicitações factuais – as estritamente imprescindíveis – para se entender o que está em causa neste breve entrecho. Escutemos um segmento inicial, em que é evocada a gesta do Homem, a um tempo exaltante e trágica:

«POETA – Vocês já sabem, amigos, que as aves fizeram ninho no motor dum avião?

O JOVEM – Veio no Jornal…

VELHO – Eu li.

POETA – Aí está a maravilha, o sinal dos barcos que chegam na aurora…

MULHER – Explica-te.

VELHO – Não entendo.

POETA – Perguntai-o a este menino. (Aponta-o). Tu o sabes,

sim, tu o sabes, que és ainda puro para o entenderes.

MENINO – São os novos tempos que chegam.

POETA – Isso, os tempos cobrindo de primavera a cidade.

VELHO – Odeio a cidade.

MULHER – Amo-a e odeio-a.

MENINO – Eu quero outra cidade.

O JOVEM E A JOVEM (A uma voz) – Queremos outra cidade.

CORO – Outra cidade. Outra cidade.

VELHO – E quando? Quando?

POETA – Os homens construíram a cidade, construíram-na,

ergueram-na sobre os ombros com cimento.

O JOVEM – Ferro…

A JOVEM – Pedra…

MENINO – Flores…

VELHO – Sofrimento inenarrável…

MULHER – Rios de lágrimas…

POETA – E ansiedade sem limites…

VELHO – E para quê? Para quê?

POETA – Construíram-na arrancando as penas das asas

do seu sofrimento, a carne torturada

do seu próprio coração…

VELHO – E para quê? Para quê?

POETA – Ergueram templos…

A JOVEM – Estátuas, pirâmides…

POETA – Construíram portos, estradas, barragens…

O JOVEM – As máquinas…

VELHO – E túmulos para se esconderem da morte…

POETA – Criaram a arte, a filosofia, a ciência.

VELHO – Venceram acaso o sofrimento?

POETA – Lutam contra a morte e o sofrimento,

domesticaram as feras, venceram os monstros.

VELHO – Pobre D. Quixote!

POETA – Eliminaram terríveis micróbios, inventaram a anestesia.

MULHER – O parto sem dor.

O JOVEM – Inventaram o cinema.

A JOVEM – A rádio e a televisão.

VELHO – Os impostos e a lei…

MULHER – A justiça…

POETA – A liberdade…

VELHO – E a opressão.

POETA – Construíram barcos e aeronaves,

dominaram as forças da natureza…

O JOVEM – O fogo…

A JOVEM – A electricidade…

POETA – Cindiram o átomo…

VELHO – Recriaram os infernos…

CORO – A guerra atómica! A guerra atómica!»

É justamente neste passo, e em alusão ao final da Segunda Guerra, que se evocam os terríveis efeitos da bomba nuclear, num segmento de feição mais lírica que traz à memória o célebre «Llanto por Ignacio Sánchez Mejías», de Federico García Lorca, uma das vozes que mais influenciaram poetas da geração de Papiniano Carlos («POETA – Que é feito de Omachi / que estava colhendo flores no seu jardim, / CORO – às 9 e 15 da manhã? / VELHO – Onde foi Iyeyasu que estava matando a fome, / comendo o seu arroz, / CORO – às 9 e 15 da manhã? (…)» ).

Na ilustração de Elsa Lé, a imagem de massacre e destruição encontra correspondência nos tons de cinza do cogumelo nuclear, contrastantes com as cores dominantes do resto do livro e das guardas (vermelhos e rosas em profusão, amarelos e laranjas, roxos e azuis). E, após a referência à crueldade dos Homens (escravização, assassinatos, destruição d’«as vozes do amor e da esperança»…), surge no texto, com naturalidade, a nomeação da figura de Cristo, não uma menção beata, hipócrita ou mesmo metafísica, mas sim a recordação de um d’«aqueles que têm ajudado a semear a primavera no coração dos homens». Uma alusão que opta, e bem, pela moldura poética e intertextual, parafraseando o famoso «Hino de amor» (um poema para crianças) de João de Deus, incluído na sua não menos famosa Cartilha Maternal, de 1885.

Às disfóricas representações da morte e da guerra (a composição de Papiniano Carlos afirma-se também como um manifesto poético em prol da paz) sucedem-se, no livro, as eufóricas imagens do amor e da fecundidade da mulher (veja-se a décima primeira ilustração de Elsa Lé) como garante de um futuro para a humanidade («Através de vós, frágeis mulheres, viajam os barcos do futuro. A cidade constrói-se no fundo de cada um de nós, mas sobretudo, no mais fundo do vosso ventre.» – dirá, a dado momento, o Poeta).

Ora o amor, bem como a esperança, logo a seguir convocada pelo Coro, revelam-se perigosos para quem os encara como pilares do que de melhor existe na condição humana. Daí a surgirem os «homens de rosto metálico» (também eles marcados pelo tom cinza), que nos trazem à memória todas as polícias políticas de má memória, é um ápice. Mas, de imediato também, a prisão do Poeta convoca a solidariedade de todos os que antes dialogavam com ele e, com ele, aprendiam a sonhar um mundo melhor. E, nesse preciso instante, o céu da cidade é atravessado por uma estrela em viagem (símbolo eufórico de uma radical mudança no curso das coisas), como que vigiando o destino dos cidadãos, provocando um «clarão espantoso» e, finalmente, a fuga dos «homens de rosto metálico».

Num texto em que são detectáveis elementos temáticos, ideológicos e estilísticos próprios do Neo-realismo, pontuado pela exclamação e por expressivas metáforas e símbolos, cujo alcance é potenciado pela policromia das ilustrações (os «barcos» representam, como as próprias palavras do Menino e do Poeta evidenciam, «os novos tempos que chegam», os tempos «cobrindo de primavera a cidade»), a mencionada estrela, que ilumina o lugar dos homens, surge como um elemento simbólico mais. E os sentidos inerentes ao seu aparecimento no espaço dramático são desvendados, até certo ponto, pelas próprias falas das personagens: «A JOVEM – Olhai! Olhai! Esta árvore está toda florida! // POETA – É a primavera que chega… // CORO – A primavera! A primavera! // POETA – Nas árvores, na cidade e no coração dos homens.»

Vivemos tempos de negrume económico e social, em que os sinais de retrocesso civilizacional afectam, cada vez mais, as pessoas de bem, as que apenas sabem e podem viver do seu trabalho; são dias também de militarismo, de guerra no Afeganistão, no Iraque, na Palestina, em África, dias em que importa manter viva a lucidez, a esperança, certa atitude de ruptura, buscando um rumo radicalmente diferente daquele para onde nos querem empurrar. É, por isso, que o livro Uma Estrela Viaja na Cidade ganhou particular actualidade. Muito gostaria, pois, de o ver lido e representado em muitas e muitas escolas deste país.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Nota

1 A obra foi primeiramente editada numa separata da revista literária Bandarra, cuja publicação foi iniciada em 1953 e teve direcção de António Navarro e, depois, de António Rebordão Navarro.

Procurando enquadrar periodologicamente Uma Estrela Viaja na Cidade, recordo as palavras de Miguel Falcão a propósito desta obra e de outras igualmente representativas da literatura dramática neo-realista: «Embora, na opinião de alguns estudiosos do Neo-Realismo, os anos 50 (sobretudo a sua última metade) correspondam já à “agonia” do Movimento, o historiador de teatro José Oliveira Barata não hesita em afirmar que é nessa década, precisamente, que se verifica a sua “principal produção” dramática (1999: 17n). Às obras (…) [de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Luís Francisco Rebello, Romeu Correia, Mário Braga, etc.], acrescentamos as peças de outras figuras do Movimento que se destacaram no romance ou na poesia, mas que também experimentaram a escrita dramática, entre as quais: A salva de prata (1950) e, já na década seguinte, O homem da cadeira de rodas (1968) de Sidónio Muralha; Sombras (1951) de Correia Alves; e Uma estrela viaja na cidade (1958) de Papiniano Carlos.» (Miguel Falcão. «A atracção multiforme pela cena», in Batalha pelo conteúdo: Movimento Neo-Realista Português. Livro/Catálogo de Exposição Documental. Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo, Outubro de 2007, pp. 220-243 (disponível em http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qk_9DwTHzfIJ:www.fl.ul.pt/centros_invst/teatro/pagina/Publicacoes/artigos2008/miguel%2520falcao.htm+%22Uma+Estrela+Viaja+na+Cidade%22&cd=28&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt (acedido em 7-1-2011).)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sonhos de Natal, de António Mota

Selectiva, feita de fidelidades ao vivido mas também de pequenas ou grandes infidelidades, a memória da infância rural de António Mota é de novo convocada para recriar um tempo que não foi ainda o do autor empírico – o período da emigração para o Brasil –, mas o de um narrador ficcionado (Manuel), com perto de "quarenta mais trinta anos" (p. 12)1, ou seja quase da idade de uma figura tutelar da sua própria meninice, o sr. Afonso. Grande desvendador de mundos e de sabores desconhecidos, contador de histórias cativante, o sr. Afonso é a imagem viva de uma infância que se eterniza, o que o leva a alinhar nos jogos das crianças (Manuel, Ana, Joana, Pedro e Ricardo) e a proporcionar-lhes a primeira e deslumbrada visão de um presépio cujas figuras, aos olhos do narrador, ganham de repente vida própria. Estamos, em suma, perante mais um dos muitos velhos – meio sábios, meio loucos, mas sempre dignos – que povoam as histórias de António Mota.

Sonhos de Natal não se limita, contudo, a narrar a deslumbrada descoberta do mundo e dos seus mistérios – a neve e os jogos a ela associados, os mistérios do mundo animal, o sabor dos comeres tradicionais, as meias palavras dos adultos plenas de sentidos ocultos, a magia inquietante do Menino Jesus ou a ansiosa espera pelos presentes de Natal. A narrativa de António Mota é também um discurso sobre a ausência desse pai que Manuel descobre estar emigrado no Brasil. O sentimento incerto que tal ausência provoca é apenas sugerido, de modo difuso, quer nas conversas entre as crianças acerca da figura do Menino Jesus, quer no olhar do narrador que se alonga sobre a imagem da família arquetípica representada no presépio. Não surpreendem, por isso, as suas palavras: "Já não têm conta as vezes que sonhei acordado. E muitos sonhos compartilhei com os meus amigos. Mas nada foi tão especial como aquele dia que calhou a vinte e quatro de Dezembro desse ano que agora relembro." (p. 46)

O sonho maior é, pois, aquele que acaba por se concretizar: o regresso inesperado do pai, justamente na véspera de Natal. A dimensão afectiva deste sonho tornado realidade ganha especial relevo pelo facto de à figura paterna ficar associada a dádiva dos presentes, alguns deles durante tanto tempo desejados: um livro de capa dura para escrever histórias, uma caneta de tinta permanente, um par de meias, um tambor e uma gravata vermelha como símbolo do sucesso social. Presentes que não valem apenas por aquilo que são, mas sobretudo por aquilo que representam e simbolicamente antecipam: o escritor que Manuel virá a ser, um destino determinado pelo próprio, mas também pelo pai.

Evocação comovida e comovente da figura paterna e da magia do Natal, vista pelos olhos de uma criança na idade de todos os deslumbramentos, e num tempo em que ainda não havia "televisão, vídeo e jogos de computador" (p. 25), o texto de António Mota utiliza um registo realista (mas não neo-realista), evidenciando aquilo a que Luís Miguel Queirós, a propósito de outra obra do autor, chamou "a capacidade de nos levar até ao último capítulo narrando apenas coisas verosímeis, descritas num estilo chão e directo" (Público, 6/10/1991).

Utilizando o lápis-de-cor, o discurso visual de Manuela Bronze (que ilustra a 1.ª edição, da Desabrochar) não se limita a uma relação pleonástica com a palavra. Procura, sim, dar forma aos implícitos do texto verbal, criando uma atmosfera poética, concedendo uma atenção intencional ao pormenor e realçando alguns elementos de fantasia que o texto apenas deixava adivinhar. Através da imagem, procurou-se também restituir um tempo e um espaço sinalizados pela presença viva de algumas tradições da vida rural nortenha.

Conjugando texto e ilustrações, segmentando, por vezes, estas últimas e isolando esses segmentos na página para enfatizar certos elementos, para melhor pontuar a narrativa ou ainda para realçar o conteúdo principal de cada capítulo, o arranjo gráfico de Acácio Carvalho e de Jorge Carvalho, na 1.ª edição da obra, transformou Sonhos de Natal num livro atractivo que apetece folhear e ler.

A 2.ª edição, datada de 2003, tem imagens de Júlio Vanzeler, que recorre à ilustração digital, obtendo também um produto final de elevada qualidade artística.

Nota

1 As citações são feitas a partir da 1.ª edição de Sonhos de Natal.

Ficha técnica

Autor do texto – António Mota

Ilustrador/a – Manuela Bronze (1.ª ed.); Júlio Vanzeler (2.ª ed.)

Local – Porto (1.ª ed.); Vila Nova de Gaia (2.ª ed.)

Editora – Desabrochar (1.ª ed.); Gailivro (2.ª ed.)

Data – 1997 (1.ª ed.); 2003 (2.ª ed.)

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Francisco Duarte Mangas, domador de palavras

Se me perguntarem sobre que é este Sílvio, Domador de Caracóis (Caminho, 2010), livro de Francisco Duarte Mangas (texto) 1 e Madalena Moniz (ilustrações), dificilmente saberei dizê-lo. E livros como este são, em geral, os que me atraem. Aqueles que guardam em si qualquer coisa de indefinível, de irresumível, de imparafraseável, livros cuja teia de sentidos possíveis parece torná-los irredutíveis à moldura crítica.

Trata-se de um livro sobre a amorosa e terna relação entre uma mãe e o seu filho pequeno, curioso e descobridor? Sim e não. É sobre a conversa entre ambos, funcionando como lição sobre a liberdade e a poesia, mas também sobre os constrangimentos da vida? É e não é. É sobre os sonhos irrealizáveis das crianças? É e não é (até porque tenho dúvidas de que alguns deles sejam irrealizáveis…). É sobre o desconsolo da vida adulta, em que a imaginação infantil se afigura por vezes deslocada e perigosa? É e não é. Insinua-se como exemplo de ecopoesia? Sim e não. É sobre a paixão pela mãe Natureza (vemos, com efeito, uma mãe – que, até certo ponto, constitui um reflexo especular da Natureza – e um filho, chamado Sílvio 2, que edipianamente a ama), insinuada numa conversa em torno do fascínio pelos seres e coisas que conformam o mundo natural? (E este foi sempre um dos tópicos de eleição de Francisco Duarte Mangas, em especial naquele aspecto em que tal paixão o conduz, depois, à ternura filial por esses outros «seres vivos» que são as palavras 3. Uma atracção, em suma, pelas suas misteriosas combinações, susceptíveis de edificar mundos possíveis: «cultivar palavras no jardim», ser «domador de caracóis», «carteiro das toupeiras», «arquitecto das cegonhas»…) É sobre tudo isto? É e não é. Encontramos neste livro uma tentativa de conferir materialidade a algumas sedutoras metáforas? Sim e não. É uma meditação sobre a condição de poeta – que Sílvio, no fundo é, porque pretende vir a «cultivar palavras»? Talvez seja, talvez não. É uma narrativa breve ou um breve texto dramático? Possui elementos, é certo, que a ambos os modos pertencem, mas não é uma coisa nem outra, a ambos fugindo para, definitivamente, se instalar no limbo da poesia. É um texto de desarmante simplicidade? É e não é, porque é tão simples quanto denso. É um livro para crianças? Não tenho a menor dúvida que seja. Mas é, também, daqueles livros a que um leitor literário, adulto, não resiste. Daqueles livros que certos adultos podem ler com um gosto imenso, sem se lembrarem de que estão a ler um livro para crianças.

É tudo isto que torna o pequeno grande livro de Francisco Duarte Mangas e Madalena Moniz num objecto simultaneamente simples e complexo, notável de leveza e de densidade (e, quando digo leveza, estou a falar obviamente daquela a que se refere Italo Calvino 4). Um livro que, além do mais, desperta em nós a memória de certas composições, de estrutura dialogal, quer do cancioneiro popular quer das cantigas de amigo medievais, galaico-portuguesas, em que mãe e filha conversam, quer ainda de vários poemas infantis de Eugénio de Andrade e de Matilde Rosa Araújo, e, principalmente, a memória de algumas Canciones (1921-1924) de Federico García Lorca, em especial as Canciones para Niños, como a «Canción tonta» ou a «Cancioncilla sevillana» 5 (e são bem conhecidos os ecos do andaluz na poética do autor de O Ladrão de Palavras que, como todos os poetas dignos desse nome, sabe que a infância é a terra onde germina a poesia – como também Lorca sabia).

Tomando em mãos esta breve mas admirável composição de Francisco Duarte Mangas, a ilustradora Madalena Moniz transformou-a num álbum. Um álbum entre o poético e o narrativo, onde a Natureza respira e respiram também os olhos do leitor, um álbum onde os tons de verde se revestem de importância fundamental, concordante com a possível intencionalidade do texto, e a que nem sequer faltam certos elementos desse paradigma simétrico do picture story book, a que obedecem alguns dos mais bem-amados álbuns narrativos para crianças 6 (verifica-se certa circularidade no texto que, por outro lado, repousa, do princípio ao fim, numa estrutura dialogal 7 mais ou menos repetitiva).

Recorrendo com mestria ao lápis de cor, numa ilustração cujo traço evidencia originalidade e frescura, além de sensibilidade para traduzir a dimensão psicológica, a ilustradora desenha a própria letra utilizada no livro, conferindo à obra um cariz artesanal, conforme com a componente semantico-pragmática do texto de Francisco Duarte Mangas.

Uma parceria feliz, em suma, para uma obra feliz, uma obra que revaloriza a imaginação e os seus poderes e que insta a uma reconciliação com uma Natureza em perigo; um livro na «margem da alegria», necessário para o tempo tristíssimo e cheio de equívocos morais e ideológicos em que vivemos; um livro que convida a pensar, que estimula na criança o pensamento divergente e do qual, não tenho dúvidas, os leitores infantis (e os adultos também) vão gostar.

José António Gomes

(NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Notas

1 Nascido em Rossas (Vieira do Minho), em 1960, jornalista de profissão, romancista premiado (Diário de Link, Teorema, 1993; Geografia do Medo, Teorema, 1997; A Morte do Dali, Teorema, 2001; O Coração Transido dos Mouros, Teorema, 2002, etc.), contista e poeta (Pequeno Livro da Terra, Teorema, 1996; Transumância, Campo das Letras, 2002, etc.), Francisco Duarte Mangas é já autor de uma obra considerável no domínio da literatura para a infância, repartida pelo conto, pelo conto em formato de álbum e pela poesia: Elefantezinho Verde (Elefante Editores, 1999; 2.ª ed., Campo das Letras, 2001), O Gato Karl (Caminho, 2005), O Ladrão de Palavras (Caminho, 2006), O Noitibó, a Gralha e Outros Bichos (Caminho, 2009), além de Breviário do Sol (Caminho, 2002) e Breviário da Água (Caminho, 2004), ambos em co-autoria com João Pedro Mésseder. Vários dos seus livros para adultos foram traduzidos e editados em Espanha e na Itália.

2 Nome de evidentes conotações simbólicas, já que, como ensinam os dicionários, silv(i)… é um elemento latino de composição de palavras que exprime a ideia de selva, floresta, mata (v. J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo et alii. Dicionário da Língua Portuguesa. 5.ª ed., Porto: Porto Editora, s.d., p. 83.). Sílvio, o protagonista deste livro, deseja, entre outras profissões sonhadas, vir a ser «médico das árvores», tratar-lhes do coração, e ama a floresta e os seres, por assim dizer, selvagens.

3 Leia-se esta passagem do texto: «(…) Vou cultivar palavras no jardim, sempre foi esse o meu sonho. || Que palavras? – diz a mãe. || A palavra “Verão”, a palavra “sede”, a palavra “golfinho”… || Bebem muita água, gastam muito adubo – diz a mãe. || Adubo?! || O fertilizante das palavras é a ternura, Sílvio – diz a mãe. || E que água bebem? || A água pura dos teus olhos – diz a mãe. || A ternura é toda para ti, mãe.»

4 Italo Calvino. Seis Propostas para o Próximo Milénio. Lisboa: Teorema, s.d. (originalmente editado em Itália, em 1990). pp. 15-44.

5 Canción tonta: «Mamá, / yo quiero ser de plata. / Hijo, / tendrás mucho frío. / Mamá. / Yo quiero ser de agua. / Hijo, / tendrás mucho frío. / Mamá. / Bórdame en tu almohada. / ¡Eso sí! / ¡Ahora mismo!» – http://users.fulladsl.be/spb1667/cultural/lorca/canciones/canciones_para_ninos/cancion_tonta.html (acedido em 5/11/2010); Cancioncilla sevillana: «Amanecía en el naranjel. / Abejitas de oro / buscaban la miel. // ¿Dónde estará / la miel? // Está en la flor azul, / Isabel. / En la flor, / del romero aquel. // (Sillita de oro / para el moro. / Silla de oropel / para su mujer.) // Amanecía / en el naranjel.» –http://users.fulladsl.be/spb1667/cultural/lorca/canciones/canciones_para_ninos/cancioncilla_sevillana.html (acedido em 5/11/2010).

6 O «symmetrical picture storybook paradigm» é estudado por Eve Heidi Bine-Stock em How to Write a Children’s Picture Book: Learning from The Very Hungry Caterpillar, Chicka Chicka Boom Boom, Corduroy, Where the Wild Things Are, The Carrot Seed, Good Night, Gorilla, Sylvester and the Magic Pebble and Other Favorite Stories. USA: Lightning Source | Ingram and Baker & Taylor, E & E Publishing, 2003 (sumário disponível em http://www.eandegroup.com/Publishing/How-to-Write.html (acedido em 30-3-2009)).

7 Recorde-se que o modo dialogal sempre conheceu larga fortuna na literatura para a infância desde os seus primórdios, quer enquanto forma privilegiada, e mais viva, de transmissão de noções edificantes quer assumindo a forma de diálogos autónomos, sem didascálias (ou quase), incorporados no tecido narrativo – releia-se, por exemplo, a Condessa de Ségur; imagine-se os Diálogos entre uma Avó e sua Neta, de Mathilde de Sant’Anna e Vasconcellos (volume publicado em 1862 que Henrique Marques Júnior, em Algumas Achegas para uma Bibliografia Infantil (1928), afirma não ter conseguido consultar); e lembre-se certos textos de Virgínia de Castro e Almeida (exemplo: Em Pleno Azul (1.ª ed., 1907). 11.ª ed., Lisboa: Clássica Editora, 1988, pp. 72-78, 113-114 e outras) e de Ana de Castro Osório (exemplo: Viagens Aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil (1.ª ed., 1923). Lisboa: Instituto Piaget, 1998, pp. 83-88 e outras). Saindo do âmbito do livro infantil, mas indo às raízes do modo dialogal em literatura, mencione-se por exemplo o modelo estabelecido pelos Diálogos de Platão ou o cultivo, no período barroco, dos livros de diálogos sobre a vida na corte ou de índole moral – e não só, já que os temas abordados poderiam ir da crítica social à crítica literária (releia-se, para só referir dois exemplos da literatura portuguesa do século XVII, Francisco Rodrigues Lobo e a sua Corte na Aldeia (1619) ou D. Francisco Manuel de Melo e os seus Apólogos Dialogais (1721), de publicação póstuma).