
domingo, 24 de junho de 2012
Revisitar um romance de Alice Vieira: Caderno de Agosto

segunda-feira, 11 de junho de 2012
Maria Keil (2014-2012)

terça-feira, 8 de maio de 2012
Maurice Sendak (10 de junho de 1928 – 8 de maio de 2012)

À memória de um monstro que era um anjo
Lá
where the wild things are
e Ulisses convida os seus Ciclopes
para uma festa,
haverá tempo de sobra
para a partida e para o regresso,
para a revolta e para o aconchego,
e lugar
para desenhar para escrever para criar,
lá,
outside over there,
where the wild things are.
sábado, 21 de abril de 2012
Abril na literatura para crianças e jovens
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Um homem é feito de livros (sobre o Dia Internacional do Livro Infantil)
Um homem faz-se de livros. Falo do homem que os leu e, por isso, os guarda em si (alguns, pelo menos); e também do que os não leu, nem lerá nunca. Porque este simplesmente ignora que a sua vida é feita de livros. Ou antes, condicionada pelos livros: a Ilíada e a Odisseia, Platão e Aristóteles, a Bíblia e o Corão, O Capital, a obra de Freud… – que sei eu, que tantos livros tenho ainda para ler?
Mas talvez nenhuns outros tenham feito mais um homem do que aqueles que leu na infância, pois se é garantido que um livro não transforma o mundo, certo é também que pode mudar a vida de um leitor.
A gradual consciência disto me levou a guardar na estante, como num relicário, os livros que os meus dias de menino me pousaram no colo. E aqueles outros que o magro porta-moedas de criança de vez em quando me permitia adquirir, com a aquiescência dos pais.
Grandes livros? Longe disso (tirando um ou outro). Mas que poderia eu saber, nessa época, dos grandes livros que enformavam o mundo? Para o menino que eu era, grandes eram, sem dúvida, os que lia.
Sapato de Fogo e Sandália de Vento, de Ursula Wolfel, ensinava-me a alegria de ter um pai que nos leva a conhecer mundo, estrada fora. E que, por meio de parábolas (ou seja, de palavras), vai dando forma e sentido às comoções e conquistas, aos medos e enganos com que a vida nos torna o caminho suave ou pedregoso. Talvez um outro livro, Companheiros de Spártaco, de um obscuro Eric Houghton, me tenha inoculado a alergia à injustiça, à exploração do homem pelo homem. Terá sido A Gruta, de Nan Chauncy, a tornar-me para sempre sensível aos gestos de rebeldia? E os livros de aventuras que li até aos dez anos e que, sem sair de Portugal, me deram as primeiras imagens da Hungria, da Alemanha, da Andaluzia, dos Andes, da América do Norte, do Alasca ou da Nova Zelândia? (Lá ia eu à procura do mapa do mundo.)
Muitos outros livros, certamente, me fizeram. Mas como não recordar a vez primeira que li a descrição de abertura de A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen, estampada nas páginas do meu livro de Português do primeiro ano do liceu? Menino que amava a areia e o mar, os rochedos e os navios, como poderia eu ficar indiferente a essa espécie de poema em prosa que vinha envolver a praia numa aura de estesia, coisa nunca vista por mim nem “ouvida” (sim, porque ler, ler por hábito apura também o ouvido interior, aquele que nos diz se uma frase escrita possui, ou não, a eufonia, a elegância, a respiração necessárias). Pela primeira vez, o real, o “meu” real tomava a forma de palavras, isto é, convertia-se em linguagem. E que linguagem. Linhas de prosa que apetecia ler em voz alta saboreando cada palavra como se na língua se sentisse o sal da maresia, o granulado da areia, o rumor da água e das plantas e bichos marinhos. Com A Menina do Mar aprendi, talvez, sem disso ter ainda consciência, que as palavras não se limitam a dar nome às coisas, as palavras são, elas próprias, coisas – como a poesia, lida mais tarde com devoção, viria confirmar.
Depois, terei entendido que a vida de cada um é uma construção, feita pelo próprio, pelos outros, pelo vasto mundo, e obedecendo a um projeto que em nós se vai esboçando. Mostraram-mo as biografias lidas na infância: de Joana d’Arc, de Mark Twain, de Pasteur, de Daniel Boone, de Abraham Lincoln… Mas também a de Camões, contada, em cromos de banda desenhada, pelos belos desenhos de Carlos Alberto Santos e pelo texto de José de Oliveira Cosme.
Por isso, como não amar os livros, esses companheiros de sempre, na saúde e na doença, até que a morte nos separe? E como não sublinhar, uma vez mais, o papel essencial do livro infantil na sempre inacabada construção de um homem?
Publicado em As Artes entre as Letras, 28-03-2012
José António Gomes
NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto
quarta-feira, 21 de março de 2012
Dois textos dramáticos: Doze de Inglaterra seguido de O Guarda-Vento, de António Torrado

Em António Torrado, encontramos um dos mais talentosos representantes de uma tendência da nossa literatura para crianças em que o humor e a crítica a comportamentos sociais se conjugam, em aliança com uma escrita saborosíssima e de elevada qualidade literária (leia-se, por exemplo, Pinguim em Fundo Branco, 1973, O Jardim Zoológico em Casa, 1975, O Elefante não Entra na Jogada, 1985, Da Rua do Contador para a Rua do Ouvidor, 1990, ou Caidé, 2.ª ed., 1998, para não falar das dezenas de títulos posteriormente editados). Lida em voz alta, esta prosa de estilo vigiado, consciente da sua riqueza de recursos, cativa pelo sabor de conto oral que a torna peculiar, sabendo como poucas aliar as situações cómicas à crítica (veja-se O Pajem não se Cala, 1981), da qual ressalta notável poder de observação do real. Excelente contista, poeta (Versos de Pé Folgado, 1979, O Livro das Sete Cores, 1983, este último em coautoria com Maria Alberta Menéres, e vários outros títulos) e dramaturgo (Hoje Há Palhaços, 1976 — também com Maria Alberta Menéres —, O Adorável Homem das Neves, 1984, Zaca-Zaca, 1987, Toca e Foge ou a Flauta sem Mágica, 1992, Teatro às Três Pancadas, 1995), Torrado afirma-se como uma das figuras de relevo da nossa literatura contemporânea, publicando em paralelo importantes textos de reflexão pedagógica, além de textos para adultos. Estes surgem imbuídos dos mesmos valores positivos que transparecem nos seus criativos recontos de histórias populares, e nos seus inúmeros contos e fábulas.
Em Doze de Inglaterra seguido de O Guarda-vento (Caminho, 1999), que aqui é evocado, encontramos duas peças de teatro para crianças e jovens ou, como Torrado prefere dizer, «para todos». Na primeira, levada à cena pela Comuna Teatro de Pesquisa em 1998, o autor preenche, por assim dizer, os espaços em branco do episódio de Magriço e os Doze de Inglaterra, narrado pelo marinheiro Fernão Veloso no canto VI de Os Lusíadas. Dizemos «espaços em branco», pois, como é sabido, Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço — que se desloca a Inglaterra com os seus companheiros de armas para «desafrontar as ofendidas damas inglesas» a pedido do Duque de Lencastre — opta por fazer a viagem por terra ao contrário dos outros portugueses que se deslocarão por via marítima. Ora, não fornecendo Camões pormenores sobre a viagem do Magriço, abre margem para que sobre esse percurso se fantasie e se fundamente, assim, o merecido cabimento do jovem cavaleiro no grupo de bravos que, de peito feito, irão repor a honra das nobres inglesas.
E perguntar-se-á: o que habilita Magriço a conduzir à vitória, em torneio, o lado português, ele que, no início, nem cavaleiro era, não revelando tão pouco os dotes físicos necessários a tão dificultosa empresa. É o próprio autor quem nos elucida em texto de apresentação: «Como em todos os trajetos de iniciação, Magriço vai defrontar-se com as alegorias do crescimento e da maturação típicas dos romances de cavalaria. Não será uma viagem real por território europeu, mas uma viagem iniciática, pontuada por estações ou situações, donde o Magriço, sucessivamente vencedor, colherá sabedoria e força, para acometer a prova final, o torneio» (pp. 15-16). A primeira peça do livro conta, pois, a história de um percurso probatório, do qual não está ausente o humor, em ambiente fantástico povoado de anões, velhos, ninfas e animais falantes.
A simpatia de Torrado por heróis de aparência mais fraca que, em ação e em espírito, revelam a sua superioridade moral (lição aprendida da narrativa popular que o autor conhece como poucos e da qual nos deu numerosos recontos) é comum à primeira peça e à segunda, «O Guarda-Vento». Esta última parte da centralidade teatral da porta de batentes de uma enfermaria que separa dois espaços: o visível, onde decorre a ação principal, e o invisível, onde jaz, enfermo, um príncipe de dez anos, prestes a ser vítima da ausência de escrúpulos de seu tio, o Duque. Contrariando os desígnios deste, Zé Soldado, o herói, supera medos e inseguranças e acaba por desmascarar os conspiradores. Salva-se um reino que continuará, assim, sob a tutela positiva de um príncipe criança, ao qual se mantêm fiéis os mais pobres e mais simples: o soldado e a aia. Opondo o poder da juventude a uma idade adulta que representa aqui a decadência dos valores, a corrupção e a desmesura das ambições, António Torrado mantém-se fiel a si mesmo e à esfera de valores que domina tanto a sua obra narrativa como a sua obra dramática.
Pelo seu entrecho aqui sintetizado, a peça parece configurar, à partida, um drama de contornos quase shakespereanos: o Duque, que já eliminara os pais do príncipe, pretende assassiná-lo, fuzilar Zé Soldado e a Aia e usurpar o poder. No entanto, «O Guarda-Vento», cuja ação decorre «num verosímil reino centro-europeu não identificado, pelos fins do século XIX» (p. 99), impõe-se sobretudo pelo cómico de personagens (com um impagável General de vistas curtas) e pelo cómico de situações e de linguagem a que se alia a exploração do suspense, ingredientes que, no seu conjunto, criam à partida condições para um espetáculo envolvente, extremamente divertido e com matéria de sobra para dar que pensar ao espectador.
Sublinhe-se, a terminar, que Torrado é um daqueles raros autores da nossa literatura dita para crianças que sempre teve a preocupação de teorizar sobre o seu ofício. O leitor adulto das peças encontra abundante matéria de reflexão quer nos textos de apresentação das peças, quer no posfácio que constitui uma espécie de poética do António Torrado dramaturgo. Aconselhe-se, desde já, a leitura atenta deste texto a todos aqueles que não entenderam que o teatro para crianças só poderá ser verdadeiro Teatro a partir do momento em que aqueles que se dedicam a essa forma de expressão artística deixem de entendê-la como uma «atividade de segunda linha» menorizadora do espectador (palavras de Catherine Dasté aqui citadas (p. 192)). Nesta ótica, podemos assegurar que o presente livro de António Torrado dá um contributo valioso para libertar o chamado teatro para crianças do estigma da infantilização.
José António Gomes
NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Sal, Sapo, Sardinha, de António Mota
Acompanhado, na capa da reedição da Gailivro (2010), por imagens de animais (peixe na praia, borboletas, caracol), o título aliterante e silabicamente gradativo desta coleção de vinte e um poemas, muito sugestivo aliás, antecipa traços marcantes da poética de António Mota, designadamente a ligação à terra e à sua fauna.
A observação e reflexão sobre os bichos constituem ponto de partida para um percurso de descoberta: desvendar o mistério que se esconde por trás de cada um, reter os elementos de “alma” animal que nele se manifestam. O projecto ganha expressão em composições muito breves – por vezes não mais que uma frase – (oscilando entre quatro e dezasseis versos, sendo a maioria dos textos de sete, oito ou dez) onde as assonâncias e aliterações, a par da rima e de ritmos sugestivos, marcam presença.
Estes traços não ofuscam, porém, o convite a ver para lá da aparência exterior dos seres (que nunca são isolados do universo que os rodeia), procurando-se, assim, estimular no leitor aquilo a que poderíamos chamar o poder de observação e exegese poéticas – vemo-lo em poemas como "Caracol", "Borboleta", "Truta", "Grilo", "Ovelha" ou "Veado": "Guarda na cabeça / os galhos secos / da floresta / e nas patas / a leveza da brisa. / No focinho tem / o orvalho das manhãs de Verão / no corpo / o Outono dos montes / e nos olhos / a água límpida das fontes."
Em algumas das composições, são notórias as ressonâncias do haiku, recorrendo-se, aqui e acolá, a uma estratégia definicional (Ovelha – "É uma nuvem / num campo / apoiada / em quatro estacas."), que raras vezes opta pela personificação do animal, levando-nos, assim, a distinguir em parte este bestiário de outros igualmente destinados ao público infantil e publicados por autores como Afonso Lopes Vieira, Sidónio Muralha, Alice Gomes, Carlos Pinhão, Leonel Neves ou Violeta Figueiredo.
Naquele que ficará como um dos seus melhores livros, António Mota (que se tem dedicado, sobretudo, à ficção narrativa para crianças e jovens) logrou atingir um grau de simplicidade e contenção expressivas que tornam estes textos um instrumento ideal para a iniciação poética dos mais pequenos.
Uma referência final às ilustrações de Carla Nazareth que, como as de João Tinoco na primeira edição (Caminho, 1996), complementam na justa medida, com cores fortes mas sem excessos de decorativismo, a poesia dos textos.
José António Gomes
NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)