quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O Lobinho, de José António Franco


Gostamos de lobos. E não é de agora, nem apenas depois de conhecer os incríveis lobos que povoam as inúmeras (infinitas?) versões paródicas do Capuchinho Vermelho, por exemplo. Gostamos de lobos, talvez desde o dia em que soubemos que houve tempos e houve países da Europa que conseguiram extingui-los por inteiro das suas florestas. Sabemos, por exemplo, que o lobo ibérico é uma espécie em vias de extinção. 

Alvo de mitos – Rómulo e Remo foram alimentados por uma loba e talvez fosse importante contar também esta história às crianças e a muitos adultos, naturalmente – e de perseguições, o lobo não deixa de ser um animal que suscita controvérsia junto dos humanos, que nunca conseguiram domesticá-lo.

O Lobinho (Lápis de Memórias, 2016) que José António Franco nos dá a conhecer neste livro singelo fica na memória de pequenos e/ou grandes leitores pelo perigo que corre e pela gratidão que acaba por suscitar na sua alcateia. Animais-animais, mas também animais marcados por uma espessura que toca o humano, nesta narrativa breve, estes são representantes de valores como a união, a solidariedade ou a entreajuda e a bondade, distinguindo, enfim, as personagens humanas e os animais. Plasmam-se significativamente na figura animal canina que coabita com os protagonistas da obra, a Dali, a cadela Labrador, «que há muito fazia parte da família com uma dedicação e lealdade incomparáveis» (Franco, 2016: 19), e são igualmente sugeridos pela actuação do chefe da alcateia. De igual modo, temáticas como a ecologia, a protecção do ambiente ou o respeito pela natureza – que aqui é também constantemente elogiada – perpassam o conto em pauta. Releia-se a este propósito o seguinte excerto: 


«A Inês, o Gonçalo e a Matilde tinham, de facto, uma curiosidade insaciável, e, por isso, aproveitávamos o tempo possível para passear na natureza e identificar os elementos mais importantes: fauna – espécies, tocas, ninhos, hábitos de alguns animais e vestígios deixados pela sua passagem; o canto dos pássaros e os tipos diferentes de voo – e flora – árvores, plantas, aromas, utilidades e perigos» (idemibidem: 21).


E há, ainda, um outro veio ideotemático que, neste conto, se substantiva e que, na nossa perspectiva, merece ser sublinhado. Trata-se das relações familiares e da alegria do convívio entre um avô, que aqui assume a função de voz narrativa ou narrador, e os seus netos que o admiram e que se divertem e aprendem – aliás, este avô tinha sido professor (idemibidem: 13) – na sua companhia. E nunca é de mais referir esta vivência intergeracional, tão salutar e, por vezes, tão arredada do quotidiano de tantas crianças, porque, como deixa escrito José António Franco neste seu livro, 


«O tempo que passávamos juntos era fantástico: um galope frenético de dias com recordações intensas e afectos revigorados.

Tempo de aprendizagens também: eles, inocentes como a sombra das flores – mas ávidos de saber -, iam descobrindo os sinais relevantes da natureza e das pessoas e amadureciam a atenção aos pormenores; eu, jovem incorrigível, aprendia a ser um avô com préstimo, retribuindo a felicidade de vê-los crescer na minha companhia.» (idemibidem: 20). 


O tópico da memória é aqui também especialmente relevante, como se constata, por exemplo, pela referência (crítica) que é feita à linha ferroviária desactivada: 


«Ao fundo da encosta, vislumbrava-se a velha linha de comboio amortalhada pelo esquecimento: quase um século de serviço devorado pelo abandono de governantes que permitiram que o vazio, a tristeza e as ervas se apoderassem definitivamente dos carris. / Memória em ruína de uma viagem sem regresso.» (idemibidem: 24).   


A acção evidencia uma estrutura claramente delimitada, sendo composta por quatro momentos, correspondentes: à situação inicial – a chegada de Inês, Gonçalo e Matilde e o seu acolhimento pelo avô –; às peripécias – a caminhada pela floresta, «ao longo da margem direita de um afluente do Douro» (idemibidem: 21), e os esforços concertados para salvar um «pequeno canídeo» (idemibidem: 28) –; ao ponto culminante – o salvamento do animal –; e ao desenlace feliz, com o regresso a casa sãos e salvos. Note-se, ainda, que, depois de fechada esta acção, o relato prolonga-se e ressitua-se um ano mais tarde, para dar conta do gesto muito humano de um lobo. É este que, em última instância, acaba por salvar um outro avô e os seus netos que se encontravam na iminência de serem apanhados por um incêndio no meio da mata. 


Situada espacialmente no Douro – «vale do Douro» (idemibidem: 14) – e decorrendo em tempo de férias, esta aventura – se assim nos é permitido apelidá-la, porque, de facto, não deixa de haver aqui aspectos próprios da narrativa de aventura ou de mistério – é, portanto, protagonizada por três netos e por um avô, grupo ao qual se junta a sua já referida fiel cadela Dali. Simples, mas apelativo, o enredo desenvolve-se, pois, em torno de uma incursão na mata e do resgate do rio de um canídeo (que, depois, se sabe que é um lobinho), operação arriscada que tem como principal agente Dali.


O relato – colocado na voz de um narrador participante, um avô, como mencionámos, que vive no Porto, cidade a partir da qual conta a história vivida numas férias no Douro, onde tem uma casa – concretiza-se de forma viva e prende o leitor pela simplicidade, pelos sugestivos apontamentos descritivos, pela originalidade das metáforas e das personificações, pelo uso eficaz do adjectivo e, ainda, pelo visualismo/sensorialismo, muitas vezes, decorrente da presença de sugestões/sensações visuais e auditivas, por exemplo, e do recurso delicado à sinestesia. Tomemos como exemplos algumas das passagens de abertura do conto: 

«Era quase meio-dia e um silêncio luminoso e inesperado inundou por momentos todo o vale. (...)


A locomotiva, ainda ofegante, deitava desconsoladas contas aos quilómetros por percorrer – dezenas de curvas estafantes a bordejar os montes e o negrume de uma mão-cheia de túneis mal-encarados e bafientos.» (idemibidem: 11-12).

A este propósito, releia-se, igualmente, o segmento: «Estava uma manhã de luz magnífica. Uma mistura intensa de aromas, de verde, de cantos fantásticos dos pássaros e a sonoridade do rio rebolando endiabrado para desaguar.» (idemibidem: 24). 


Aliás, as sugestões auditivas, muito recorrentes e fortes, imprimem ao texto um realismo que muito atrai o leitor. Exemplos disso são expressões como «desusado alarido» (idemibidem: 12), «gritos de alegria» (idemibidem: 12), «o eco de cada badalada (...). Um magnífico recital de carrilhão que ficávamos a ouvir até à última réplica.» (idemibidem: 16), «soou um apito pouco enérgico» (idemibidem: 17), «atentos à cadência das rodas sobre as juntas dos carris: tangatam, tangatam, tangatam...» (idemibidem: 18), entre outras.


Acresce, ainda, o facto de o discurso, que se pretende próximo do potencial destinatário, que, note-se, é desafiado no final da obra – «Desde então não me canso de contar esta história. / Agora é a vossa vez.» (idemibidem: 40) –, e que se singulariza também pelo tom coloquial – «Mas siga a história, que é para isso que aqui estamos e vale a pena das notícia daquelas duas semanas, como adiante veremos.» (idemibidem: 20) –, se apresentar expressivamente marcado por uma poeticidade invulgar – essa poesia que é tida como estratégia e que configura um traço relevante da escrita de José António Franco –, como atestam expressões como «um caminho largo, com o chão coberto de tufos de erva salpicado por margaridas brancas» (idemibidem: 24) ou «Como se nada tivesse acontecido, o rio, ali ao lado, continuava a sonhar com as águas da foz.» (idemibidem: 36).


Um apontamento, ainda, acerca do design do volume. A configuração gráfica da obra, da autoria de Bruno Inácio, como provam a capa e a contracapa, prima pela sobriedade, assentando na conjugação das cores verde e negro sobre fundo branco. Não foi certamente irreflectida a opção pelo verde, tom que se reveste de uma importante simbologia. A recriação visual do lobo, com laivos do desenho científico, é reveladora da beleza, bem como da postura forte e corajosa, deste mamífero, tornado aqui protagonista da narrativa. Na realidade, em nosso entender, esta imagem substantiva pictoricamente a seguinte passagem do conto:

«Depois olhou-nos majestoso, mas o seu olhar já não provocava temor.

Nobreza de rei agradecendo com humildade.» (idemibidem: 35).    


Terminamos, sublinhando o facto de este conto de José António Franco, que cativa pelos afectos que dele emanam, na nossa perspectiva, integrar, ainda que em certa medida e com uma evidente discrição ou subtileza, essa bela herança da fabulística tradicional. O lobinho e a sua alcateia são aqui mais uns lídimos representantes da sua condição e espécie em moldura quotidiana ou aventurosa. São lobos literariamente revisitados na sua condição animal, juntando-se a esta um inesquecível traço humanizador.



Referência bibliográfica

 

FRANCO, José António (2016). O Lobinho. Coimbra: Lápis de Memórias.

 

 

A obra pode ser adquirida aqui.

 

Sara Reis da Silva

 

Instituto de Educação – Centro de Investigação em Estudos da Criança Universidade do Minho

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O Companheiro – Uma edição no ano em que se comemorou o centenário do nascimento de Sidónio Muralha


A produção literária de Sidónio Muralha [Lisboa, 1920 – Curitiba, Brasil, 1982] alcança superior importância com os livros intencionalmente dirigidos ao público infantil, que tanto respeito lhe mereceu e a quem ofereceu uma obra de assinalável apuro estilístico que se distingue, no plano semântico, pela tematização da Natureza e das questões ambientais e dos valores da liberdade. Na sua escrita para crianças, os ritmos jorram com leveza e a magia resultante de jogos fonemáticos, de rimas e de trocadilhos potencia a imaginação e a formação de leitores diferenciados e aptos, capazes de quebrarem «as grades / de todas as gaiolas do mundo» – metáfora do autor retomada em diversos textos, criando uma intertextualidade homo-autoral, cujo  poema de partida («Pintassilgo») encerra, em forma de exortação, o livro O Rouxinol e a sua Namorada(1983), e que semantiza ideotematicamente estes valores:

Pintassilgo

 

O pintassilgo diz:

— nada me consola,

eu não sou feliz

nesta gaiola.

 

Do céu azul e da amplidão

eu sinto muitas saudades.

Não quero esta solidão

cada minuto e segundo.

 

Crianças, quebrem as grades

de todas as gaiolas do mundo.


Em outro lugar, referi-me a Sidónio Muralha como um escritor injustamente esquecido em Portugal, não obstante o facto de alguns dos seus livros infantis integrarem as listas de obras recomendadas nos documentos programáticos em vigor, no domínio da educação literária. Passados quase quarenta anos sobre a sua morte, e completados 100 anos sobre o seu nascimento, a sinalização do autor e da sua obra em território nacional far-me-ia recuperar o que havia dito, não fora a publicação, em hora boa, do livro O Companheiro, com sugestivas ilustrações de Irene Sá, pela Página a Página, em novembro de 2020.

 

A disponibilização de O Companheiro no mercado editorial constitui, indubitavelmente, um valor acrescentado à tematização literária da Revolução de Abril, alargando, assim, o leque de escolha dos professores do Ensino Básico para trabalho em sala de aula. 

 

Habituados que estamos às poeticidade e inventividade da escrita de Sidónio Muralha, O Companheiro não foge a esses princípios, que são também a sua originalidade. Organizada em sete pequenos capítulos – O homem bom e justo do chapéu verde, Outro homem justo mas sem chapéu, O casaco e o chapéu dos democratas, O espantalho que não sabe assustar, O amigo, Os militares e A grande festa do povo –, a narração da história da Revolução de Abril concretiza-se pela sequencialização vertical própria da poesia (lírica), gerando notações melódicas (internas) de grande beleza e desempenho semântico-pragmático. 

 

Tentarei resistir ao impulso de uma análise exaustiva desta obra, que não cabe neste espaço, sinalizando e generalizando algumas situações / processos  técnico-compositivos que conferem visilegibilidade (não tanto a dos aspetos propriamente tipográficos, de que falava Jacques Anis quando cunhou o termo, mas a que respeita à organicidade interna da própria poesia) a esta prosa que se dispõe a ser lida-vista, lembrando, com Jean-Michel Adam, que ler-ver o texto poético é condição sine qua non para nos apropriarmos dos ritmos e da significação deles decorrente. 

 

Para além da organização do discurso em estrofes (de amplitude variável – monósticos, dísticos, quintilhas, sextilhas, décimas, etc.), a poeticidade decorre de processos de repetição de palavras que colocam em evidência conceitos-imagens-chave, por exemplo, logo no primeiro capítulo, em que se destacam as palavras/expressões como «chapéu» e «chapéu verde», «todos», «homem / homens», «homem bom e justo», «crianças» e «liberdade», cuja significação é intencionalmente intensificada por via de anáforas, de epíforas e de anadiploses:

 

O dono do chapéu verde

era um homem bom e justo.

 

Todos sabem o que é um chapéu.

Todos sabem que há chapéus

de cores diferentes

e de vários tamanhos e feitios.

 

Também todos sabem

o que é um homem.

 

Mas muitos vão perguntar

o que é um homem bom e justo.

 

Muito bem.

O dono do chapéu verde

era bom e justo porque

não defendia só a sua liberdade

mas a liberdade de todos os homens.

 

Não queria livros unicamente

para as crianças ricas mas para todas

as crianças do mundo. 

 

Se atentarmos no excerto transcrito, o quantificador universal «todos» remete para um coletivo, para uma totalidade, e não para uma singularidade, contribuindo para a intensificação do sentido da mensagem que se inscreve, desde logo, na bondade e justeza deste «dono do chapéu verde» por contraponto ao «Senhor fascista», «o dono do país» que deu ordem aos PIDE para o silenciar e assim adiar o seu projeto de igualdade, de justiça e de liberdade:

 

Foi perseguido pelos Pides.

Os Pides tinham armas

mas não tinham ideias.

O homem bom e justo

tinha ideias mas não tinha armas.

 

As armas dispararam e o chapéu verde voou,

sobrevoou as montanhas e as colinas,

desceu o vale, parou entre as árvores

que o homem bom e justo defendia.

 

Se até então os leitores se questionavam sobre a razão de este «homem bom e justo» usar um «chapéu», ou antes, um «chapéu verde», as duas estrofes acima transcritas fornecem a chave do mistério e espessam a mensagem global da obra. Assim, o chapéu desta personagem é mais do que uma prerrogativa masculina ditada pela moda e ao serviço da distinção social. Trata-se, antes, de um objeto ancestral cuja função era, por um lado, a de proteção da cabeça contra este ou aquele tempo atmosférico e, por outro, a de proteção figurada das ideias do indivíduo que usa esse acessório, já que «chapéu» deriva do latim caput que significava «cabeça», «cérebro», e, por extensão, as ideias (que, segundo Horácio, Cícero e outros pensadores romanos, conferiam honra e cidadania às pessoas). No contexto histórico e cultural para que aponta o texto, o uso do chapéu associa-se à imagem das pessoas que trabalham de sol a sol, ou seja, ao povo – esse povo (mais letrado ou menos letrado) que se opôs ao regime fascista e combateu, com ideias próprias (e muitas vezes com a vida) o Estado Novo. 

 

Desta forma se compreende que este «chapéu» só poderia ser «verde», cor simbólica por natureza e que a própria natureza caracteriza. Verde é, pois, a cor do mistério da existência, revelado sazonalmente para lembrar aos homens a sua própria humanidade e afirmar a esperança num mundo renovado. E, no último capítulo, podemos ler:

 

Mas o Povo, que só tinha passado,

agora também tem futuro.

 

As crianças de hoje,

que são os homens e as mulheres

de amanhã, terão uma Pátria

sem Senhor Fascista e sem Pides.

 

Elas são livres.

Livres.


Um pouco mais sobre Sidónio Muralha:

 

Sidónio Muralha integrou, até 1950, data em que voluntariamente parte para o exílio (Congo belga), como forma de contestação do regime fascista do Estado Novo, o grupo coimbrão do Novo Cancioneiro. Até esta altura, o Escritor publica, em Portugal, os primeiros livros de poesia para adultos – Beco (1941), Passagem de nível (1942), Companheira dos homens (1950). Em 1949, Sidónio Muralha estreia-se na literatura para crianças com a publicação de Bichos, Bichinhos e Bicharocos cuja cuidada edição – reeditada em 2010 pela althum.com / Centauro – é ilustrada por Júlio Pomar e apresenta três poemas musicados – com reprodução das respetivas partituras – por Francine Benoit (musicóloga francesa que trabalhou no Jardim-Escola João de Deus e na Academia dos Amadores de Música, tendo sido amiga de Fernando Lopes-Graça). Esta obra e outras que se seguirão a partir dos finais dos anos 40, escritas por autores ligados ao movimento neorrealista contribuíram para uma mudança qualitativa na literatura portuguesa para crianças, por via do tratamento de novas temáticas (a infância camponesa, em Alves Redol; as crianças pobres de meios urbanos, em Ilse Losa e Matilde Rosa Araújo; tópicos relacionados com um olhar mais científico sobre a vida natural, em Redol, também, e em Papiniano Carlos, para não referir outros aspetos em que avulta, por exemplo, uma certa crítica a comportamentos sociais, patente, aliás, no Autor de Bichos, Bichinhos e Bicharocos).

 

Após o exílio voluntário no Congo, Sidónio Muralha viaja para São Paulo, em 1962, fixando, posteriormente, a sua residência em Curitiba. Em S. Paulo, funda, juntamente com o escritor Fernando Correia da Silva e o fotógrafo e artista gráfico Fernando Lemos, a editora Giroflé, dedicada exclusivamente à publicação de livros infantis e juvenis. Trata-se de um projeto verdadeiramente inovador que trouxe ao panorama editorial brasileiro um novo conceito de livro infantil pautado pela qualidade gráfica, pelo design moderno e colorido, pela escolha do papel Kraft e da capa dura, pela ousadia relativamente a novos formatos, nomeadamente o formato à italiana (retangular e alongado), como hoje é conhecido. A estes aspetos acrescem as boas escolhas textuais e a divulgação de nomes que enobrecem a literatura para a infância e a juventude, como é o caso de Cecília Meireles (1919-1964) com Ou Isto ou Aquilo

 

Ainda em 1962, Sidónio Muralha recebe o Prémio Internacional da II Bienal do Livro de São Paulo pelos poemas de A Televisão da Bicharada, ilustrado por Fernando Lemos e com a chancela da sua editora. Para além desta distinção, Valéria e a vida valeu ao Autor, em 1976, o Prémio Secretaria de Estado do Ambiente, que distinguia livros infantis de temática ambiental; e Helena e a cotovia, obra que seguia idêntica linha, recebeu o Prémio Portugal ’79, instituído pela Secção Portuguesa do IBBY (International Board on Books for Young People).

 

Em 1979, destaco a publicação de Catarina de todos nós, um dos raros exemplos, na literatura portuguesa para os mais novos, de um texto dedicado a um episódio marcante da resistência à ditadura salazarista: o assassinato, em 1954, de Catarina Eufémia, jovem camponesa alentejana em luta, juntamente com os seus companheiros, por melhores condições de vida, e cuja reedição, em Portugal, pela Página a Página, estará para breve.

 

Injustamente esquecido, em Portugal, país de onde disse nunca ter saído, o Brasil lembra e valoriza este poeta lusitano de forma tocante – os seus livros para a infância continuam a ser reeditados e a integrar os planos curriculares do Ensino Fundamental (Básico), juntamente com Ou isto ou aquilo (1964), de Cecília Meireles e A arca de Noé (1974), de Vinicius de Moraes – livros e autores que, no Brasil, operaram uma viragem na concepção estético-pedagógica de literatura infantil e juvenil a partir de inícios da década de sessenta, investindo na qualidade dos textos.


Registe-se, por último, que, em 2009, a editora Cosac Naify reeditou as primeiras edições da Giroflé, mantendo fidelidade aos originais e assinalando, deste modo, o significado histórico-cultural que tais livros tiveram no panorama editorial brasileiro.

 

A obra de Sidónio Muralha simultaneamente informa, diverte e coloca em ação a construção de um mundo mais justo – sem dúvida, um escritor a ser lido e relido.

 

Para ler e conhecer Sidónio Muralha: 


Bichos, bichinhos, bicharocos (1949; reeditado em Portugal em 2010 e 2012)

A televisão da bicharada (1962)

Um personagem chamado Pedrinho – vida de Monteiro Lobato contada às crianças (1970)

O companheiro (1975; reeditado em 2020)

A amizade bate à porta (1975)

Valéria e a vida (1976)

A dança dos Pica-Paus (1976)

Sete cavalos na berlinda (1977)

Todas as crianças da terra (1978)

Voa pássaro, voa (1978)

Catarina de todos nós (1979; a ser brevemente reeditado pela Página a Página)

Helena e a cotovia (1979)

Terra e mar vistos do ar (1981)

O rouxinol e a sua namorada (1983)

 A revolta dos guardas chuvas (1988)

Os três cachimbos (1999)

O trem chegou atrasado (2004)



A mais recente edição de O Companheiro pode ser adquirida aqui.



Ana Cristina Vasconcelos de Macedo

Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Quatro centenários a não esquecer: Rodari, Clarice, Sidónio e Castrim




Com o final deste terrível 2020, encerra-se um ano de quatro centenários merecedores de referência muito especial e prazerosa, para quem se interessa pela literatura em geral e pela escrita para a infância e a juventude, em particular. Pena que a imprensa cultural portuguesa, na sua obsessão presentista e no seu défice de pluralismo (para outra coisa não dizer), lhes não tenha dado a menor importância, se exceptuarmos o caso da notável escritora brasileira de que aqui também falaremos.

Comecemos pelo grande Gianni Rodari, nascido em Omegna, a 23 de Outubro de 1920 e falecido em Roma, a 14 de Abril de 1980. Prosador e poeta italiano, pedagogo e jornalista, Rodari é, sem sombra de dúvida, um dos mais relevantes autores da literatura para a infância e a juventude em todo o mundo, e a sua escrita reveste-se de importância internacional, visto ter sido, e continuar a revelar-se, extremamente influente. A circunstância de se encontrar amplamente traduzido para muitos idiomas, incluindo o Português, contribuiu certamente para tal facto e para a sua fortuna crítica.

Em Portugal foi inicialmente editado e bem traduzido pela Caminho (graças ao apuro de sensibilidade e inteligência desse editor de excepção, grande conhecedor do livro infanto-juvenil, que é José Oliveira) e também pelo Círculo de Leitores e pela Teorema. Hoje, é sobretudo a Kalandraka que tem publicado Rodari, dando preferência à edição de alguns dos poemas do autor e dos seus contos, em livros em formato de álbum, mas não só. Leia-se, por exemplo, Gelsomino no País dos Mentirosos (2020), Era Duas Vezes o Barão Lamberto (2020), Contos ao Telefone (2019), Inventando Números (2018), Baralhando Histórias (2011), O Que É Preciso (2011), todos editados pela Kalandraka, a que importa juntar algumas edições relativamente recentes, da Dinalivro, como Alice entre as Gravuras (2008) e Animais sem Jardim Zoológico (2020).

Grande pedagogo e director de suplementos de jornal dedicados ao público infantil, Rodari, que foi militante do Partido Comunista Italiano, antifascista e activíssimo defensor da paz e dos direitos da criança, tornou-se um inesquecível animador cultural do público infantil e um mestre da invenção, como comprova a sua criativa «introdução à arte de contar histórias», que dá pelo título de Gramática da Fantasia, editada primeiramente pela Caminho, em 1997 e, em 2017, pela Faktoria K de Livros. Uma obra que, além de ser uma divertidíssima e multifacetada lição de literatura e de criatividade, deve continuar a figurar em toda e qualquer bibliografia essencial da formação de educadores de infância, de professores do 1.º ciclo e de professores de Português, tanto do Básico como do Secundário. E isto para não falar em bibliotecários, em educadores sociais e em animadores e promotores da leitura.

A obra de Rodari balança entre o excelente e tocante (neo-)realismo do romance Pequenos Vagabundos(Caminho, 1986), sobre as vergastadas infâncias camponesas, operárias e marginais do pós-Segunda Guerra no norte da Itália, e o ludismo tanto verbal como de situações, a comicidade e por vezes o nonsense que é possível descobrir nos excelentes Contos ao Telefone – textos marcados pela literariedade e pela implicação intertextual, pela comunicabilidade com o potencial leitor, e pelo humor, num quadro de transbordante e divertida imaginação criadora e de um permanente espírito crítico. A escrita de Rodari – um inovador poeta e contador para a infância e um homem profundamente culto – diverte invariavelmente o leitor, e cremos poder dizer que faz de todos nós, crianças ou adultos, pessoas mais inteligentes, mais atentas ao mundo que nos rodeia e aos seus problemas (a guerra e a luta pela paz, a injustiça social, as ideias retrógradas, etc.) e certamente faz de nós seres humanos mais bem-humorados. 

Pela reconhecida qualidade e originalidade do conjunto da sua obra para a infância e a juventude, Gianni Rodari receberia, em 1970, o Prémio Hans Christian Andersen do International Board on Books for Young People – o equivalente, no livro infanto-juvenil, ao Nobel da Literatura.

Um escritor, pois, para ler em todas as estações, em todos os tempos e lugares. Tal como a grande Clarice Lispector, nascida em Chechelnyk, na Ucrânia, a 10 de Dezembro de 1920, e falecida no Rio de Janeiro, a 9 de Dezembro de 1977. Escritora de timbre inconfundível, marca, com a sua prosa cintilante de estranheza e prenhe de pequenas / grandes epifanias, a literatura para a infância e não apenas os seus magníficos romances, contos e crónicas «para adultos». É o que sucede em livros belos e interpeladores como O Mistério do Coelho Pensante (1967), A Mulher que Matou os Peixes (1968), A Vida Íntima de Laura (1974), Quase de Verdade (1978) e Como Nasceram as Estrelas (1987).

Ao Brasil de Clarice ficou também ligado para sempre o português Sidónio Muralha, nascido em Lisboa, a 29 de Julho de 1920, e falecido em Curitiba, a 8 de Dezembro de 1982. Escreveu poesia, prosa (ficção e ensaio), bem como literatura para a infância. 

Sidónio Muralha é reconhecido como um dos pioneiros do movimento neo-realista em Portugal, com a publicação de Beco, logo em 1941, na colecção Novo Cancioneiro (onde editaram poesia os jovens Namora, Carlos de Oliveira, Cochofel, Manuel da Fonseca, Joaquim Namorado e outros), tendo iniciado a sua incursão na literatura para os mais novos com o inesquecível e, à época, profundamente original e tematicamente ousado Bichos, Bichinhos e Bicharocos, de 1949 (Francine Benoît musicaria alguns destes poemas, quase todos narrativos, que Júlio Pomar ilustrou).

Muralha foi um dos presentes nos famosos Passeios do Tejo (anos 40), organizados por Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e António Dias Lourenço e onde participaram, entre outros, Alexandre Cabral, Álvaro Cunhal, Carlos de Oliveira, Carlos Pato, Fernando Lopes-Graça, Fernando Piteira Santos, Manuel da Fonseca e Mário Dionísio.

Com uma lírica “para adultos” muito sensível às injustiças sociais e à pobreza, à repressão fascista, às questões da guerra e dos direitos humanos, aos anseios de liberdade e de democracia, mas também à dimensão amorosa e à condição da mulher, Sidónio Muralha tornou-se, a partir de 1949, um dos mais marcantes escritores portugueses de poesia e contos para crianças, em livros como A Televisão da Bicharada(1962), Sete Cavalos na Berlinda (1977), Voa Pássaro Voa (1978), Catarina de Todos Nós (1979) e muitos outros – vários deles publicados no Brasil, onde passou a viver a partir de inícios da década de 60. Aí fundou a Giroflé, inovadora editora de livros infantis, e o Brasil é onde existe hoje uma fundação que perpetua o nome e a obra do escritor (algum jornal cultural, alguma rádio, algum canal de televisão poderia falar disto, por favor?). Em Portugal, Sidónio foi publicado sobretudo pela Horizonte, pela Plátano, pela Caminho, pela Gailivro, pela Porto Editora e legou-nos obras não apenas originais no campo da poesia (ludismo linguístico e valorização do significante, humor, elementos de crítica social…) mas também narrativas pioneiras no tratamento das questões ambientais, como Valéria e a Vida (1976), Helena e a Cotovia (1979) e Terra e Mar Vistos do Ar (1981), algumas delas distinguidas com prémios.
O seu amor à liberdade e à democracia, e o seu posicionamento antifascista determinaram a escrita de, entre outros livros, O Companheiro (1975), reeditado em 2020 pela Página a Página, com ilustrações originais de Irene Sá – um belíssimo livro para crianças (para todos, diremos mesmo) sobre «um país sem liberdade, mas onde as ideias boas e justas e os corações generosos não desaparecem e voltam sempre para devolver o futuro ao Povo», como é afirmado em epitexto editorial. É talvez o primeiro (ou um dos primeiros) livro(s) infantil(is) sobre a temática da ditadura salazarista/marcelista e da sequente Revolução libertadora do 25 de Abril, e um dos mais conseguidos e estilisticamente «livres» textos para a infância do autor. Uma voz literária que, no futuro, não poderemos obviamente ignorar. 

E o mesmo diremos de Manuel Nunes da Fonseca (Ílhavo, 31 de Julho de 1920 – Lisboa, 15 de Outubro de 2002), jornalista, poeta, novelista, crítico de televisão e professor português, que usou o pseudónimo Mário Castrim, tendo sido igualmente pioneiro na divulgação crítica de livros para a infância na imprensa. Os poemas, crónicas, contos e artigos «para adultos» de Castrim impõem-no como um escritor de mérito, irónico mas sensível, sempre atento ao quotidiano lisboeta, a uma sociedade injusta e à luta por uma vida e um mundo melhores. Importa, por isso, regressar sempre aos seus textos. Mas os cem anos de Castrim enquanto escritor de livros para a infância e a juventude interessam-nos sobremaneira, dado ter sido uma voz à frente do seu tempo na novelística juvenil (A Caminho de Fátima, 1992; O Caso da Rua Jau, 1994, e outros títulos), com obras que se distinguem pelo humor, pelo sentido crítico e pela preocupação com a memória e com o diálogo entre gerações. Foi também uma voz inovadora nas pequenas narrativas ilustradas para pré-leitores e leitores iniciais (veja-se a série da girafa Gira-Gira, nove volumezinhos editados a partir de 2001 pela Campo das Letras). E foi-o ainda, e sobretudo, na escrita poética, tendo sido talvez o primeiro poeta concretista na área da poesia para crianças e jovens, em belos livros como Histórias com Juízo (1969, com reedições aumentadas nos anos seguintes) e principalmente Estas São As Letras (1977). O nonsenseefectivo ou apenas aparente, o humor inteligente, o gosto pelo conto breve e pelo micro-conto, o estímulo do pensamento crítico são apenas alguns dos traços que singularizam a poética de Castrim (autor que era também comunista, como Rodari, além de católico). Trata-se, pois, duma escrita que importa continuar a ler e a dar a ler aos mais novos. E, para isso, aí estão reedições recentes como a do cativante livro de versos para os mais novos, Nome de Flor (1979) – do qual emergem as preocupações sociopolíticas de Castrim, mas também uma delicada reflexão sobre as relações afectivas e familiares. É um título trazido de novo a lume pela Página a Página, em 2020, com sugestivas ilustrações originais de Patrícia Shim. Registe-se de passagem que a Plátano, a Caminho, a Campo das Letras, a Âncora, a Página a Página são algumas das editoras que deram a conhecer os livros deste importante autor.

Gianni Rodari, Clarice Lispector, Sidónio Muralha e Mário Castrim fizeram cem anos em 2020. Mas continuam, diremos nós, mais jovens do que nunca. Tenham pois o prazer de os ler e de os oferecer aos mais novos.

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Talvez, neste Natal

TALVEZ, NESTE NATAL 



Talvez este Natal nos anoiteça,

por momentos nos mergulhe

em águas fundas

e nos faça descrer do mundo que ideámos.


Mas talvez uma semente luminosa, 

chegada essa hora cor de terra, 

consiga germinar

no ileso fulgor duma lembrança.


Talvez ela dê fruto num sorriso, 

num gesto quase irmão,

num olhar de súbito sem sombra;


ou talvez se transforme em velho estábulo, 

em árvore luzente ou numa estrela

para guiar amanhã os nossos passos.



2020


Texto por João Pedro Mésseder 



A equipa da Inocência Recompensada deseja a todos os nossos leitores um Feliz e Santo Natal.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Luísa – As Histórias da Minha Vida, de Luísa Ducla Soares: uma obra bela e necessária

Neste ano de 2020, as comemorações dos 50 anos de vida literária de Luísa Ducla Soares – que se estreou nas letras, em 1970, com um belo livro de poesia para adultos, Contrato, marcado já por um discurso lírico pessoal, ligado às preocupações estéticas e sociais do grupo de Poesia 61 (Luiza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Maria Teresa Horta…) –, tais comemorações, dizia, concretizadas em novos livros, atravessaram este período de pandemia como uma pequena luz feita de graça, de talento e de devoção à escrita por parte da que é, há muito, uma grande senhora das nossas letras e um ser humano raro. 

As principais editoras que publicam as obras de Luísa Ducla Soares trouxeram a lume novos títulos, mas também reedições, chancelando-os por vezes com uma espécie de logótipo que assinala esse meio século de criação literária. Assim têm feito a Horizonte ou a Porto Editora.

Logo em Junho de 2020, esta última casa editora colocou nas livrarias Luísa – As Histórias da Minha Vida (ao que parece um desafio lançado à autora) com ilustrações bem-humoradas, em registo adequado ao tipo de obra, e que incorporam, por vezes, fotos de Luísa. Assina este trabalho Ângela Vieira. 

Em formato grande (A4), 82 páginas, trata-se de um belo livro. Direi mesmo que um dos melhores livros infanto-juvenis publicados em 2020, pela sua singularidade e qualidade estética. Mas também pela sua excelência no plano formativo e informativo. 

Escrito num estilo fluente e coloquializante, muito vivo e pontuado por comentários, apartes, apontamentos humorísticos – no fim de contas o bem reconhecível estilo de Luísa Ducla Soares, no registo de contadora de histórias que lhe é tão próprio –, o texto divide-se em seis partes, cujos títulos poderão funcionar aqui como sumário da obra: «Olá! Cheguei ao planeta Terra!» é o primeiro; seguem-se-lhe «Adeus meninice! Entrei no liceu!»; Finalmente, adulta!», «Comecei a trabalhar!», «Vida de escritora!» e «Lembranças de família!». Neste último, a autora dedica um pequeno capítulo a cada um dos membros mais próximos da sua família: o marido, os dois filhos, a filha, as duas netas e os dois netos. Termina esta parte com o segmento «Fiz 80 anos!». 

Curiosa é a presença constante da exclamação no final de cada frase/título, forma justa de assinalar o amor à vida e o conseguimento pessoal que cada etapa constituiu – num percurso (que neste caso é também um discurso) onde há sempre naturalidade, modéstia e contenção, o justo tom, sem exibição, sem excesso narcísico, apenas a alegria de viver, conviver e criar, mesmo que enfrentando tremendos escolhos, a alegria de um conseguimento pessoal que nunca esquece a relação interpessoal e os afectos.

Não pretendo resumir aqui uma obra que é rica. Pelo facto precisamente de ser rica, preenchida, fecunda e criativa a existência de quem aqui se conta. Entre, por um lado, uma infância em tempo de 2.ª Guerra Mundial, repleta de encantos, aprendizagens, revelações e choques provocados pelo crescimento e pela socialização, e, por outro lado, uma vida plena de escritora, o leitor pequeno, jovem ou adulto (porque, acreditem, os adultos gostarão muito de ler este livro) testemunha, creio que divertida e entusiasmadamente, o processo de maturação da pessoa, da cidadã e da escritora. Alguém para quem os livros lidos e escritos foram sempre um refúgio e uma aventura, uma partilha e uma transmissão de cultura e de valores, uma forma de chegar aos outros; de alguma maneira também, um modo de intervenção na sociedade. 

Corajosamente, Luísa narra aqui, por exemplo, a sua prisão política e as humilhações que lhe foram infligidas (e lembremos que o seu marido, Mário Sottomayor Cardia, personagem também desta narrativa, foi preso pela PIDE quatro vezes, tendo, na última dessas detenções, sido «barbaramente espancado», com agressões que lhe provocaram «um descolamento de retina e outros males de que nunca por completo se recomporia», como escreve Manuel Alegre na sentida evocação «Breve sumário de Sottomayor Cardia» (Público, 7-12-2006, p. 10)). Eu diria que é especialmente significativo – sobretudo nestes dias de reascenso de novas formas de fascismo na Europa e designadamente em Portugal (com o Chega) graças à benção branqueadora de partidos do sistema, como o PSD e o CDS –, é significativo, repito, que Luísa Ducla Soares dê conta, mesmo que sumariamente, como aqui faz, do que foi a sua luta pela liberdade, pela democracia e pela justiça social. Fazendo-o, acrescente-se, no tom certo e adequado. E corajosa, também, por razões mais íntimas, a forma comovente como consegue evocar a curtíssima vida do seu filho Mico, falecido com um cancro. Vida breve, é certo, mas humanamente rica em lições para o futuro de quem aqui dolorosamente a conta, e para o futuro de quem venha a ler a obra. 

Deste modo, e mesmo em outras passagens pungentes e mais duras deste livro, se observa a arte de Luísa Ducla Soares para abordar na sua escrita para os mais jovens os chamados temas difíceis. Temas indissociáveis da própria pulsão da escrita, alimentada, no livro em apreço, pela pregnância do vivido. 

Não contarei, para não quebrar o encanto da revelação, as muitas anedotas e episódios de evidente comicidade que há na obra e que despertarão certamente muitos risos e sorrisos no leitor, seja qual for a sua idade. É por isso que, além de pleno de humanidade e do sumo das vivências de quem aqui se retrata, Luísa – As Histórias da Minha Vida é essencialmente um livro divertido. Mas um livro que, além disso, e como sempre sucede em Luísa Ducla Soares, interpela e faz o leitor pensar. 

Oxalá o saibam aproveitar devidamente não apenas quem ensina Língua Portuguesa mas também quem ensina História (quer no 1.º ciclo, em que prevalece a monodocência, quer nos ciclos subsequentes, sobretudo o 2.º e o 3.º). A obra de Luísa é mais um recurso nas mãos de quem queira promover a interdisciplinaridade de uma forma didacticamente inteligente. 

Por último, assinale-se outra das singularidades do texto: o facto de ser uma narrativa autobiográfica. Num ensaio seminal sobre a escrita autobiográfica, Le Pacte Autobiographique (1975), Philippe Lejeune enunciava os princípios básicos do reconhecimento de um discurso autobiográfico: a coincidência entre nome do autor e nome do narrador e a narração de uma vida em primeira pessoa. Se nos ativermos a este ponto de vista (já que o conceito de Lejeune viria a ser mais tarde profundamente discutido, rediscutido e reelaborado pelo próprio e por outros teóricos), Luísa – As Histórias da Minha Vida é exemplo de um escrito autobiográfico, que logo deste o título propõe o seu peculiar «pacto» de leitura. Ora, existindo diversos exemplos que poderíamos apontar – como Als ich ein kleiner Junge war, 1957, de Erich Kästner, traduzido para Português por Ilse Losa, em 1977, com o título Quando Eu Era Rapaz –, é pouco comum, na literatura para a infância e a juventude, sobretudo na portuguesa, este tipo de obras, assumidamente autobiográficas. Por isso, também neste aspecto, Luísa Ducla Soares, uma vez mais, inova. 

E digo uma vez mais, pois é inegável o seu contributo para a renovação da nossa poesia para a infância, para o enriquecimento da ficção científica na narrativa infanto-juvenil portuguesa, para o conto e o poema nonsensical de recorte fortemente humorístico. Como é inegável o seu concurso para uma aproximação crítica, mas cheia de humanidade, aos chamados temas difíceis e ousados na escrita para crianças e jovens.  

Que ninguém perca, por isso, a leitura de Luísa – As Histórias da Minha Vida. Um livro imprescindível em qualquer biblioteca infantil, familiar e escolar.

 

José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O Barco de Papel, de Eugénio Roda e André da Loba

O Barco de Papel (2013), livro singelo publicado com a chancela da editora aveirense Bags of Books e com o gosto especial do seu editor, Francisco Vaz da Silva, uma iniciativa apoiada pela Câmara Municipal de Aveiro e pelo Projecto Rampa, nasce do feliz encontro entre as palavras literárias de Eugénio Roda e as ilustrações de André da Loba.

Pertencentes a uma nova geração de escritores/ilustradores que tem contribuído para a renovação da literatura portuguesa de potencial recepção infanto-juvenil, importa talvez aqui deixar, antes de tudo, algumas palavras acerca dos co-autores desta obra. 

Eugénio Roda (pseudónimo) – ou Emílio Remelhe (Barcelos, 1965) – lecciona na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e na ESAD (Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos) e o seu livro O Quê Que Quem. Notas de Rodapé e de Corrimão, ilustrado por Gémeo Luís, foi distinguido com o Prémio Nacional de Ilustração em 2005. Um outro, Azul, Blue e Bleu (Edições Eterogémeas, 2009) foi nomeado pela SPA para o Prémio Autores 2010. De Eugénio Roda – ou também de ER, Estêvão Roque, Ena Romero e Elliot Rain – conhecemos, há anos, os múltiplos resultados de uma actividade criativa desenvolvida em torno das letras1, mas também à volta das imagens ou da pintura, desenho, ilustração e cenografia. Com efeito, não têm sido raras as vezes em que, palavras e imagens, umas e outras, se desafiam, se motivam e se alimentam mutuamente, 


1. quer quando são nascidas das mesmas mãos ou da sensibilidade do próprio Emílio (Eugénio), como acontece em Trapalhadas Fantásticas. O Verdadeiro Destino do Senhor Adiposino (Edições Eterogémeas, 2005);


2. quer a partir de textos da autoria de outros escritores, como João Pedro Mésseder, por exemplo, em À Noite as Estrelas Descem do Céu (Campo das Letras, 2002), ou de um conjunto distinto de poetas como Filipa Leal, Jorge Sousa Braga, Luísa Ducla Soares ou Matilde Rosa Araújo, por exemplo, na colectânea Com Quatro Pedras na Mão. O Porto Cantado por Crianças e Jovens (Deriva, 2008);  


3. quer quando das palavras do Emílio nascem imagens, como se observa nas ilustrações que Gémeo Luís e Cristina Valadas têm inventado para textos seus, como são os casos de Ssschlep (Edições Gémeo, 2006) e Irmã(o) (Edições Gémeo, 2008);


 4. quer, ainda, quando escreve tendo como motivo inspirador as ilustrações de outros artistas plásticos, como sucede, por exemplo, 


a) com a micronarrativa “Toca a Roer”, redigida a partir de um desenho de Alberto Faria e publicada no catálogo da exposição A Casa dos Sonhos (Fundação Byssaia Barreto, 2003); 

b) com As Aventuras Domiciliárias II A História do senhor Inquilino Caseiro, livro composto por desenhos de Gémeo Luís, comentados por Estêvão Roque (Eterogémeas, 2002); 

c) ou, ainda, no grande livro (grande nas suas diferentes acepções) que assinou, também precisamente, com André da Loba: Pensamientras / On Thoughts (Edições Eterogémeas, 2012). 


É, aliás, logo no início deste livro, Pensamientras / On Thougths que encontramos registada uma das expressões que, em nosso entender, melhor poderão reflectir aquilo que de especial possui a escrita de Eugénio Roda/Emílio Remelhe. Efectivamente, os textos deste autor substantivam aquilo que designa como o “pensar revira-revoltas”, aquilo que, em última instância, é uma escrita poética, da família do discurso das crianças (sempre feito de ginásticas e de acrobacias com palavras e sons), de um registo ou de uma maneira de pensar que se alegra e se dedica a olhar o mundo e os outros do lado que poucos vêem, mas que muitos ambicionam conseguir ver. 

André da Loba, natural da cidade de Aveiro, é um reconhecido artista – ilustrador, designer gráfico, escultor e animador –, com trabalho publicado/divulgado nacional e internacionalmente. Com vivacidade e uma agilidade criativa, que lhe valeram já o reconhecimento pela The Society of Illustrators NY, pela Communication Artes, pela Illustrarte ou pela Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha, entre outros, André da Loba é colaborador regular do New York Times e já ilustrou mais de uma dezena de livros infantis. Aliando a sua arte à escrita de Eugénio Roda – no já referido Pensamientras, por exemplo – ou de João Paulo Cotrim – em Querer Muito –, apenas para citar dois exemplos – André da Loba cria singularmente, num estilo com “assinatura legível e inconfundível”, que se demarca pela simplicidade das figuras, construídas a traços e contornos reduzidos ao essencial, mas raramente distantes de um impulso metafórico que provoca ou desafia o leitor, alimentando a sua curiosidade.    

A obra O Barco de Papel exemplifica, na verdade, muito do que acabámos de expor acerca da arte literária e ilustrativa dos seus co-autores.  

Ficcionalizando, com subtileza e sem imediatismos ou interpretações gratuitas, a temática da mobilidade/acessibilidade, O Barco de Papel guarda uma história na qual participam personagens anónimas, recriadas visualmente a partir de formas minimais, opção que, em certa medida, corrobora a ideia de universalização da mensagem veiculada. Num espaço-casa, cenário habitado por uma família e preenchido de “coisas” – tapetes, cortinas com rendas, portas e fechaduras, jarras com flores, estatuetas, móveis e estantes, por exemplo – coisas, dizíamos, que cingem a respiração, a vida fecha-se e o movimento livre e imprevisível de aviões de papel, nascidos de mãos infantis, frustra-se.

Mas o certo é que este pequeno herói «tentou, tentou, fartou-se de tentar. Bafejava os aviões, falava-lhes baixinho, gesticulava, rezava.» (Roda, 2013: s/p). Insiste e persiste, ganha seguidores – «Avós, tios, primos, noras, genros, sogras, filhos, irmãos, netos.» (idemibidem: s/p) e, por fim, muitos foram os que puderam esvoaçar «como pássaros recém-tirados do ninho» (idemibidem: s/p). Diz o livro que «Houve até quem inventasse acontecimentos só para voar mais alto. Nunca na casa tinha entrado tanto ar. Nunca se tinha visto tanta coisa, abaixo dos pés e acima da cabeça.» (idemibidem: s/p).

A acção arquitecta-se, assim, em momentos ou em etapas claramente diferenciados, correspondentes às sucessivas tentativas de voo dos referidos aviões e à sua impossibilidade. Tecido de gestos persistentes protagonizados por um rapaz, o enredo desenvolve-se, então, e conclui-se positivamente, apenas porque a capacidade infantil de sonhar/ambicionar e, muito especialmente, de impor a mudança “para melhorar o mundo” não tem limites. Na verdade, o voo não é aqui somente um acto físico de um leve avião de papel. É, acima de tudo e na sua essência simbólica, uma aspiração e uma libertação. E o avião, «rápido, delicado no seu mecanismo e difícil de manejar» (Chevalier e Gheerbrant, 1994: 103), meio de partida da terra/evasão do terrestre, materializa, assim, a leveza, o sonho e a aventura.     

O próprio discurso é leve, leve como convém a uma prosa que em muito é poética, uma prosa «sem arestas objectivas e utilitárias» (Pimenta, s/d: s/p), que evidencia uma cadência especial. Para esse ritmo harmonioso contribuem, de forma determinante, a construção frásica, manifestamente simples e breve, a recorrência de formas verbais actanciais, o recurso preciso e “na medida certa” ao adjectivo, por exemplo, ou, ainda, à metáfora, aqui, em concreto, neste Barco de Papel, enquanto maneira de pensar e de viver, projecção imaginativa da verdade, ou “imagination in action”. Releiam-se, por exemplo, segmentos como: «E a casa arejou com a brisa das folhas, com a frescura das histórias.»; «A mãe sempre dissera que as novidades têm asas. Ora, se cada um se concentrasse numa boa novidade, conseguiria voar com ela.» (Roda, 2013: s/p).

A componente ilustrativa, contida na cor e nas formas, recria/revisita as principais linhas ideotemáticas e os momentos actanciais mais relevantes, assumindo particular significado, logo desde a capa e das guardas iniciais e finais. Com efeito, a ilustração da capa, revestindo-se de uma importante função catafórica ou antecipatória, sugere quer o movimento/a viagem, quer os meios que a poderão proporcionar – avião/barco –, também patentes, aliás, nas guardas iniciais (avião) e nas guardas finais (barco). Além disso e em última instância, o jogo que se celebra entre este dois elementos paratextuais (guardas iniciais e guardas finais) não deixa de substantivar (simbolicamente) o incipit e o explicit deste conto ilustrado – do avião de papel ao barco de papel: «Pai, e se fizesse um barco de papel?» (idemibidem: s/p), assim termina a história.

Concluímos, pois, sublinhando apenas que O Barco de Papel, de Eugénio Roda e André da Loba, é um objecto estético muito estimulante, um livro no qual, com uma admirável distância do literal, se elogia a vontade, o impulso, a capacidade, a liberdade de voar… «sem usar as escadas ou o elevador».  


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1 Tem livros publicados, por exemplo, na Campo das Letras, Caminho, Gailivro, Edições Eterogémeas, Porto Editora, entre outras.

 

Referências bibliográficas

 

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain (1994). Dicionário dos Símbolos. Lisboa: Teorema.

PIMENTA, Alberto (s/d). «Prosa poética» in http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=399&Itemid=2(consultado no dia 21 de Fevereiro de 2014).

 

Sara Reis da Silva
Instituto de Educação – Centro de Investigação em Estudos da Criança Universidade do Minho