terça-feira, 22 de junho de 2021

Matilde-menina chega aos 100 anos!




20 de Junho de 2021: o centenário do nascimento de Matilde Rosa Araújo (Lisboa, 1921-2010). Para comemorar essa festa, poderá escutar uma bela canção com poema seu e música de Jorge Constante Pereira. A interpretação é de Vitorino. Bastará seguir o link no final deste texto.

Creio que ninguém melhor que Matilde soube o que era poesia capaz de “falar” ao coração e à sensorialidade da criança, em títulos como O Livro da Tila (1957), Mistérios (1980), As Fadas Verdes (1994), Segredos e Brinquedos (1999) ou Anjos de Pijama (2009). Mas não esqueçamos, tão pouco, os seus contos para os mais novos, em especial O Palhaço Verde (1960), O Sol e O Menino dos Pés Frios (1972), As Botas do Meu Pai (1977), O Passarinho de Maio (1990) ou História de Uma Flor (lindíssima narrativa curta em torno do 25 de Abril, com belas ilustrações de João Fazenda, publicada em 2008 após uma primeira edição, ainda nos anos setenta). 

Os animais (em especial os mais pequenos, modestos ou desdenhados) e a protecção da Natureza; os grandes mistérios e maravilhas escondidos nas pequenas coisas; a meninice e a velhice; o crescimento, a socialização e a descoberta do mundo; as profissões mais modestas e as injustiças sociais; a “diferença” de diverso tipo e a infância desvalida; a magia do circo e o enamoramento; a criança e a sua actividade lúdica; a infância como promessa de regeneração do mundo – eis alguns dos veios temáticos da escrita de Matilde. Uma escrita muito sábia do ponto de vista fónico-rítmico e que se deixou marcar positivamente tanto pelo cancioneiro popular e pela poesia trovadoresca, como pela poética mais andaluzista de Federico García Lorca.   

Talvez por isto que acabamos de afirmar, muitos foram os que musicaram textos da autora de O Cantar da Tila (1967), como Lopes-Graça, Adriano Correia de Oliveira, Jorge Constante Pereira, Fernando Lapa, Pedro Branco, David Lloyd, Joana Rodrigues e Madalena Carvalho, entre outros. São bem conhecidas, igualmente, as suas parcerias, em livro, com grandes artistas da ilustração como Maria Keil, Manuela Bacelar ou André Letria, entre muitos outros. 

Não esqueçamos, por outro lado, que Matilde Rosa Araújo é ainda autora de um belo livro de poemas “para adultos”, Voz Nua (1982), e de várias obras de ficção narrativa de preferencial destinatário adulto, bem como de alguns ensaios, antologias excelentes e um punhado de manuais escolares de Português não menos desafiantes. 

Premiada por diversas vezes em Portugal e no Brasil, foi candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen do International Board on Books for Young People e uma das mentoras do IAC, Instituto de Apoio à Criança. Além do mais, foi uma democrata e uma antifascista de coração e de posições assumidas, e um ser humano maravilhoso, com um fino sentido de humor e de grande generosidade e delicadeza de alma. Por isso fez mais de mil amigos, certamente, colhendo sempre a simpatia de todos. 

Talvez tenha sido a mais devotada defensora dos direitos da criança que conhecemos. Matilde amava a infância e foi uma notável pedagoga, e uma reconhecida estudiosa da presença da figura infantil na literatura portuguesa.

Bem merece, por isso, que celebremos o centenário do seu nascimento e que honremos o seu imenso legado artístico e humano, dando a ler os seus livros aos mais pequenos e às novas gerações de educadores de infância e professores.

 

[Pode escutar aqui a canção “Ladainha da aranha” com poema de Matilde Rosa Araújo.]


 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

segunda-feira, 14 de junho de 2021

António, Como se Faz Cor-de-Laranja?

António Torrado foi-se embora hoje. Mas o seu pajem continua a não se calar. As hastes do seu veado continuam a florir (ou não fosse ele o veado da liberdade). A sua vassourinha continua a varrer as coisas chatas e velhas (no sentido peçonhento desta palavra) e a varrer, claro está, todos os ditadores. E o seu macaco aspirante a leitor, do Jardim Zoológico em Casa, e os seus bichos jogadores de futebol, do Elefante Não Entra na Jogada, e os seus Emilinho e Anacleto (co-inventados com a Maria Alberta) continuam a fazer-nos rir, rir, rir... O António é a graça feita palavra, é a parole conteuse por excelência, é o melhor contador de histórias orais e escritas que me foi dado conhecer pessoalmente. Ele, que teve como mestres Perrault, Andersen e Oscar Wilde, foi e continuará a ser mestre de muitos. Porque se tornou um verdadeiro artista da Palavra-Que-Conta-e-Encanta e que assim se converte em poesia. 

Solidário, fraterno, genuinamente interessado nos outros e não apenas em si próprio, o António é mestre doutra arte: a de fazer amigos. E por isso, hoje, os seus amigos (tantos são) choram. Porque sabem que, a esta hora, já ele está a brincar e a dizer piadas na companhia da Maria Alberta e da Matilde – a quem, por brincadeira, chamava às vezes paraninfa; e a querida Matilde ria, ria, ria...

Ai que dor, António. Que saudade já. Diz-me, António, diz-me como se faz cor-de-laranja.

 

11-6-2021

 

João Pedro Mésseder

domingo, 6 de junho de 2021

Leonor Riscado | In memoriam

 


Deixou-nos no passado dia 4 de Junho. Conhecíamo-nos há muitos anos. Era, acima de tudo, uma amiga fiel, verdadeira e solidária, de uma delicadeza de espírito rara, nos antípodas de qualquer espécie de egocentrismo. Mas foi também uma das professoras e investigadoras que mais sabiam, entre nós, sobre literatura para a infância e a juventude (LIJ). Escreveu muito e bem (comunicações, artigos, recensões críticas, apresentações públicas de livros) sobre os mais diversos autores e dirigiu não poucas teses e relatórios finais de mestrado sobre pedagogia da leitura e sobre LIJ. Fê-lo na Escola Superior de Educação de Coimbra, onde leccionava (e fazia-o com grande entrega pessoal e profissional), e onde desempenhou cargos como o de presidente do Conselho Científico. Foi ainda membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da comissão de redacção, além de colaboradora permanente, da revista “Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude” (1999-2011), com textos sempre marcados pela qualidade da escrita, pelo rigor e por uma sensibilidade peculiar. Foi, além disso, colaboradora, desde a primeira hora, do Plano Nacional de Leitura, e membro de diversos júris de prémios literários. 


Deixa em todos os que a conheciam (colegas, escritores, ilustradores, amigos, alunos) uma enorme saudade. Nunca esqueceremos o seu olhar, o seu sorriso, a sua voz.  




José António Gomes




Fotografia retirada da página do Plano Nacional de Leitura

domingo, 2 de maio de 2021

«Escritores para crianças saúdam Junta de Salvação nacional»

Em 9 de Maio de 1974, que tinham em comum António Torrado, Alice Gomes, Ilídio Sardoeira, Ilse Losa, Isabel César Anjo, Lília da Fonseca, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Madalena Gomes, Manuela Cruzeiro, Maria Cândida Mendonça, Maria Cecília Correia, Maria do Carmo Rodrigues, Maria Lamas, Maria Lúcia Namorado, Marina Algarvia, Mário Castrim, Matilde Rosa Araújo, Noémia Setembro, Papiniano Carlos, Sidónio Muralha e Sophia de Mello Breyner Andresen, para os seus nomes surgirem a assinar um telegrama noticiado nas páginas do vespertino A Capital

Pois bem, era comum a todos eles a circunstância de serem escritores e se dedicarem (também) à criação literária para a infância e a juventude. O título da notícia era: «Escritores para crianças saúdam Junta de Salvação nacional» e, logo no parágrafo inicial, reproduzia-se o texto do referido telegrama: «Escritores portugueses saúdam Junta de Salvação Nacional e, solidários com os objectivos Movimento 25 de Abril, comprometem-se a continuar a ser intérpretes e zeladores de uma autêntica Democracia num Portugal Novo, onde também a criança e o jovem, a quem têm dedicado grande parte do seu trabalho, ocupem o lugar justo que lhes é devido».


Iniciativa bela, justa e que dignifica quem assinou – pensarão muitos. Assim pensamos nós, também, que bem conhecemos da História o que foi a acção cívica e pedagógico-cultural de vários destes escritores em prol da protecção à infância e à juventude e em defesa dos direitos da criança. Essa infância que, em Portugal, era vítima chocante, escandalosa das políticas económicas, sociais e educativas do fascismo, num tempo em que o analfabetismo e a iliteracia, o abandono escolar, o trabalho infantil e a reduzida escolaridade obrigatória eram apenas quatro das muitas doenças graves de que padecia o país, sujeito que estava à ditadura e marcado por índices de pobreza intoleráveis.


Por outro lado, o telegrama evidenciava também, além da preocupação com a infância e a juventude, a assunção indirecta da dignidade estético-literária do «trabalho» de criação a que se devotavam estes escritores, o que constitui outro elemento digno de ser sublinhado.

Devemos esta informação e a exumação desta notícia a Eleonor Castilho, neta da escritora Maria Cecília Correia (1919-1993). A cópia chegou-nos à mão por via de outra mão amiga, a da Prof.ª Sara Reis da Silva, da Universidade do Minho, colaboradora habitual de A Inocência Recompensada


Com efeito, no quadro do centenário do nascimento de Maria Cecília Correia em 2019 e posteriormente, Eleonor Castilho tem desenvolvido um trabalho aturado e meritório no sentido de manter vivas a memória da sua avó e da obra para crianças e para adultos que nos legou. Essa atenção resultou já em exposições sobre a biografia e a escrita da autora de Histórias da Minha Rua, além de comunicações, publicações e outras intervenções, que muito oportuna e adequadamente têm evocado a sua personalidade rica, multifacetada, interventiva, além da beleza dos seus livros, vários deles a carecerem de reedição, para não falar dos textos inéditos que deixou e que importa sejam publicados. 


Terminemos então lembrando Maria Cecília Correia. Recorremos, para tal, à citação integral da entrada que lhe é dedicada no projecto Vercial:

 

«Maria Cecília Correia Borges Cabral Castilho (1919-1993) nasceu em Viseu e faleceu em Lisboa. Conhecida nos meios literários por Maria Cecília Correia, dedicou-se sobretudo à Literatura Infantil. Deixou um conjunto de livros inspirados no real, no quotidiano e cujas histórias têm como tema o mundo da criança: a beleza, o sonho e a magia.


Destacam-se na sua obra as Histórias da Minha Rua (Prémio Maria Amélia Vaz de Carvalho), Histórias de Pretos e BrancosHistórias do RibeiroO Coelho NicolauAmor Perfeito e O Besouro Amarelo. Para adultos, publicou Pretérito Presente e Presença Viva. Colaborou na revista Modas e Bordados e no Diário Popular. A escritora apoiou várias organizações ligadas à criança, participando com outros escritores na celebração do Dia Internacional do Livro para a Infância e Juventude. Muitos dos seus textos foram inseridos na exposição Brincar Através da Pintura, no Centro Infantil Artístico da Fundação Calouste Gulbenkian.


Obras: Histórias da Minha Rua, ilustração de Maria Keil, Lisboa, 1957?, 1975, 1977, Portugália Editora, Prémio Maria Amélia Vaz de Carvalho. Histórias de Pretos e Brancos e Histórias da Noite, ilustração de Maria Keil, Lisboa, 1960, Ática. Histórias do Ribeiro, ilustração de António Cabral Castilho, Lisboa, Edição da Autora, 1974, 1977, 1984. O Coelho Nicolau, ilustração de António Cabral Castilho, Lisboa, Edição da Autora, 1974, 1976. Amor Perfeito, ilustração de António Cabral Castilho, Lisboa, Edição da Autora, 1975. Histórias da Minha Casa, ilustração de Maria Keil, Lisboa, Edição da Autora, 1976. O Besouro Amarelo, ilustração de António Cabral Castilho, Lisboa, Edição da Autora, 1977. Bom Dia, ilustração de Carlos Barradas, Lisboa, Plátano, 1983. Manhã no Jardim, Lisboa, Plátano, 198-. Pretérito Presente, ilustração de António Cabral Castilho, Lisboa, Edição da Autora, 1976. Presença Viva ilustração de António Cabral Castilho, Lisboa, Secretariado da Pastoral das Vocações e do Ensino Religioso Médio, 1987.»

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

 

domingo, 25 de abril de 2021

Matilde Rosa Araújo: do 25 de Abril à utopia

História de Uma Flor, editado primeiramente nos anos setenta, depois incluído em A Velha do Bosque (1983) e, finalmente, por sugestão minha transmitida ao editor José Oliveira, publicado num livro em formato de álbum, e com conseguidas e vibrantes ilustrações de João Fazenda, História de Uma Flor (Caminho, 2008), dizia, configura uma das mais belas alegorias sobre o fascismo e a Revolução de Abril da nossa literatura para crianças. Foi, sem dúvida, um livro pioneiro no tratamento do tema, um dos primeiros a serem escritos para os mais novos após 1974, juntamente com O Companheiro, de Sidónio Muralha, e Bichos de Abril, de Carlos Pinhão. Um conto, ademais, de prosa simples mas saborosa e eivada de recursos poéticos, protagonizada por uma flor que um dia se liberta da escuridão e reencontra as suas «irmãs» por todo o lado na cidade. Um texto de ecos platónicos, em que, além da flor, nos surge a voz incentivadora dos sapos. 

Utopicamente, a autora, Matilde Rosa Araújo, futurava a sociedade humana como uma aldeia em que nenhum ser humano fosse estranho a outro, em que a fraternidade e solidariedade desinteressada fosse a lei suprema e natural do trato entre os homens, e em que os velhos se vissem tratados com carinho e respeito. Expressão máxima desse ideal é talvez Rosalinda Foi à Feira (Arnado, 1993), um conto breve e simples, mas cheio de graça e ritmicamente marcado pelo homoteleuto, ou seja, a rima interna. 


Mas outros títulos, na obra de Matilde Rosa Araújo, dão voz a esta indeclinável pulsão utópica. E, por isso, aqui fica o desafio do regresso à obra da autora de O Livro da Tila, uma amiga de Abril e, a seu modo, uma resistente ao fascismo (com a sua poesia, a sua acção cívica e a sua defesa dos direitos da criança). Uma amiga cujo centenário do nascimento se comemora em 2021.



José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto)


História de Uma Flor pode ser adquirida aqui

quinta-feira, 18 de março de 2021

2 de Abril, Dia Internacional do Livro Infantil

 

Livro fechado

 

Era uma vez um livro. Um livro fechado. Tristemente fechado. Irremediavelmente fechado. 

Nunca ninguém o abrira, nem sequer para ler as primeiras linhas da primeira página das muitas que o livro tinha para oferecer. 

Quem o comprara trouxera-o para casa e, provavelmente insensível ao que o livro valia, ao que o livro continha, enfiara-o numa prateleira, ao lado de muitos outros. 

Ali estava. Ali ficou. 

Um dia, mais não podendo, queixou-se: 

– Ninguém me leu. Ninguém me liga. 

Ao lado, um colega disse: 

– Desconfio que, nesta estante, haverá muitos outros como tu. 

– É o teu caso? – perguntou, ansiosamente, o livro que nunca tinha sido aberto. 

– Por sinal, não – esclareceu o colega, um respeitável calhamaço. 

– Estou todo sublinhado. Fui lido e relido. Sou um livro de estudo. 

– Quem me dera essa sorte – disse outro livro ao lado, a entrar na conversa. – Por mim só me passaram os olhos, página sim, página não... Mas, enfim, já prestei para alguma coisa. 

– Eu também – falou, perto deles, um livrinho estreito. – Durante muito tempo, servi de calço a uma mesa que tinha um pé mais curto. 

– Isso não é trabalho para livro – estranhou o calhamaço. 

– À falta de outro... – conformou-se o livro estreitinho. 

Escutando os seus companheiros de estante, o livro que nunca fora aberto sentiu uma secreta inveja. Ao menos, tinham para contar, ao passo que ele... 

Suspirou. 

Não chegou ao fim do suspiro, porque duas mãos o foram buscar ao aperto da prateleira. As mãos pegaram nele e poisaram-no sobre os joelhos. 

– Tem bonecos esse livro? – perguntou a voz de uma menina, debruçada sobre o livro, ainda por abrir. 

– Se tem! Muitos bonecos, muitas histórias que eu vou ler-te – disse uma voz mais grave, a quem pertenciam as mãos que escolheram o livro da estante. 

Começou a folheá-lo e, enquanto lhe alisava as primeiras páginas, foi dizendo: 

– Este livro tem uma história. Comprei-o no dia em que tu nasceste. Guardei-o para ti, até hoje. É um livro muito especial. 

– Lê – exigiu a voz da menina. 

E o pai da menina leu. E o livro aberto deixou que o lessem, de ponta a ponta. 

Às vezes, vale a pena esperar.

 

António TorradoLivro Fechado (cartaz, design António Modesto), Secção Portuguesa do IBBY | IPLB, Lisboa: 1997

 

 

António Torrado, figura maior da literatura para crianças e jovens (e não só)

 

Foi no já longínquo ano de 1997 que António Torrado publicou este belo conto breve num cartaz alusivo ao 2 de Abril.


Vinte e quatro anos decorridos, aqui temos o prazer de o recordar, por ocasião do Dia Internacional do Livro Infantil de 2021 e como forma de homenagem ao seu autor, um dos nomes cimeiros da nossa literatura para a infância. Torrado é como que um legítimo herdeiro – ousemos dizê-lo – da riquíssima tradição dos contos de Hans Christian Andersen (1805-1875), o patrono do 2 de Abril (a que prestou tributo em diversas obras), e da nobreza do “contador de histórias” de raiz popular tradicional. Legou-nos aliás um sem número de adaptações/recriações de narrativas populares portuguesas que recontou como muito poucos autores, tendo sabido dar nova e vibrante roupagem a toda a graça, vivacidade e fantasia desses textos imemoriais.

  

Nascido em Lisboa, em 1939, é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e tem tido uma actividade profissional diversificada, dirigida, em grande parte, ao público infantil e juvenil: dramaturgo, poeta, contista, novelista, editor (Plátano, Editorial Comunicação…), produtor, guionista e argumentista, pedagogo e professor. Foi coordenador do Curso Anual de Expressão Poética e Narrativa no Centro de Arte Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian; professor responsável pela disciplina de Escrita Dramática na Escola Superior de Teatro e Cinema e dramaturgo residente na Companhia de Teatro Comuna, em Lisboa, e noutras companhias portuguesas. 


A sua produção literária para crianças tem acumulado prémios e distinções públicas. Destaca-se o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil para o melhor texto do biénio de 1978-79 (Como se faz cor-de-laranja); a recomendação extra-concurso, pelo júri do Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil de 1984-85, da totalidade da colecção "Conto Contigo" (dezasseis títulos de adaptações/recriações de contos populares tradicionais); o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, pelo conjunto da obra, em 1988; as inclusões na Lista de Honra do International Board on Books for Young People, em 1974, com O Veado Florido e, em 1998, com As Estrelas


Torrado recebeu ainda outros prémios literários e foi, por mais que uma vez, nomeado candidato português ao Prémio Hans Christian Andersen, sendo a sua escrita marcada pela diversidade genológica, pelo humor e pela graça, pela extrema vivacidade do contar (que aproxima sempre o texto escrito da narração oral), por um domínio seguríssimo dos códigos técnico-narrativo, retórico e estilístico e por uma orientação ideotemática em que a crítica a comportamentos sociais se compagina com o interesse por outras culturas, com a valorização da liberdade, da justiça, do direito à livre expressão e com o respeito (e um encantamento muito especial) pela condição infantil, cuja natureza o autor bem conhece. 


A terminar, acrescente-se que poderíamos prolongar esta nota e escrever outro trecho da mesma extensão sobre a também impressionante obra “para adultos” de António Torrado – poeta de assinalável mérito, de algum modo aproximável da geração de Poesia’61; mestre incontestável do conto curto e do micro-conto; e um dos mais notáveis dramaturgos portugueses da actualidade; além de, por vezes, crítico literário arguto, ensaísta também no campo da pedagogia, e experimentado argumentista de cinema e televisão. 


Por todas estas razões, é um enorme regozijo poder associar, uma vez mais, o nome de António Torrado à celebração do Dia Internacional do Livro Infantil. 

 

 

BIBLIOGRAFIA SELECTIVA

 

O Veado Florido, Lisboa, Editorial O Século, 1972; 5.ª ed., Porto, Civilização, 1994; Lista de Honra do IBBY 1974.

Como Se Faz Cor-de-laranja, Porto, ASA, 1979; 5.ª ed., Porto, ASA, 1993; Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil para o melhor texto do biénio de 1978/79.

O Pajem Não Se Cala, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; 2.ª ed., Porto, Civilização,1992; também publicado em galego, por Ir Indo Edicións.

O Mercador de Coisa Nenhuma, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; 2.ª ed. revista e aumentada, Porto, Civilização, 1994; Lista de obras de literatura para crianças "The White Ravens" da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique em 1995.

O Elefante Não Entra na Jogada, Porto, ASA, 1985; 3.ª ed., Porto, ASA, 1990.

Vamos Contar Um Segredo, Porto, Civilização, 1993; também publicado em basco, por Erein Argitaletxea; em castelhano, por Editorial La Calesa; em catalão, por Pirene Editorial; em galego, por Ir Indo Edicións e em valenciano, por Tándem Edicions.

As Estrelas, Porto, Civilização, 1996, Lista de Honra do IBBY 1998.

Vassourinha, Porto, Campo das Letras, 2001.

À Esquina da Rima Buzina, Lisboa: Caminho, 2007.

Zaca Zaca, Lisboa, Caminho, 2008.

O Homem sem Sombra, Lisboa: Caminho, 2011.

Fábulas Fabulosas, Alfragide, Leya / ASA, 2017 (1.ª ed., 2012)

Quarenta e Dois Mais Vinte e Um e Outras Histórias, Alfragide, Leya / ASA, 2020.

 

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Como Ana Biscaia desenhou ‘Poucas Letras Tanto Mar’, livro com poemas de João Pedro Mésseder


Era o Verão de 2019. E eram poemas o que lia. Poemas vivos sobre o mar. (O que é o mar? Uma imensidão.) Ler os poemas. Começar a jogar com eles. O que aconteceu neste livro coincidiu com o Verão de 2019. Dias solares, de recolhimento, veraneantes, de água e sal e sol. Eu estava na Figueira da Foz e havia um livro para fazer. Um livro chamado Poucas Letras, Tanto Mar. Peguei no carro e fui prantar-me em frente ao mar. A olhar o mar. A desenhar o mar. A fotografar o mar. Mas não só. Também as rochas, os paus, as pedras, a areia, as gaivotas voadoras. Aconteceram cadernos com desenhos a apontamentos de mar. Estava perto do mar e essa curta distância foi primordial, importante. Aguarelas. Azul-turquesa, areia, amarelo, verde. As cores do mar. A matéria do mar. O desenho nos cadernos, a lápis, experiências primeiras de polvos atrás do almoço. Peixes sorridentes. Tentativas primeiras de desenhar o espírito (ou a alma?) dos poemas. Depois a leitura, sempre a leitura e sugestão oferecida pela poesia. Cor, temperatura. Imagens surgindo dentro do corpo e do coração, memórias de mar inesquecíveis transformadas em desenho. O mar, presença fulcral, tema transversal a todos os poemas. Uns breves, outros longos, todos eles a contarem como descrevem as gaivotas o seu voo rasante, como se enruga a maré vaza, como há frio que afinal ferve, bem querer entre areia e mar, barcos que podem ser sonhados. Ao ilustrar estes poemas pensei num ensaio visual sobre o mar. Pensei em aprender a desenhar o mar. Na pesquisa que fiz encontrei livros japoneses chamados hamonshu, com desenhos de ondas. Ali estava o mar. É preciso aprender com os japoneses (tive esta certeza). Olhar para os seus desenhos e voltar a olhar para o mar. Pensar na sobreposição de um sobre o outro e no acerto que contém. As ilustrações são aguarelas, pinturas, desenhos feitos a carvão, a tinta da china, são pequenos objectos recortados e pintados, são colagens. Algumas saíram directas dos cadernos de esboços, por exemplo, o menino junto ao farol, no poema faroleira é um desenho de caderno. Algumas ilustrações cabem e encaixam no poema, ou seja, foram feitas sobre ele e para ele, outras não, são desenhos realizados a partir do espírito e do tema do poema. São desenhos livres. Algumas ilustrações são pequenas peças de papel recortadas. Havia cores, uniformizando tudo. No mar, o corpo vive sensações difíceis de descrever. Somos parte do mar, somos naturalmente humanos, estamos dentro dele. É das mais belas e das melhores experiências da vida. O corpo dentro do mar. O sol dentro dos olhos. As estrelas que moram dentro das ondas ferventes. O som do mar. O mar traz-nos coisas. Memórias. Pedras. Algas. Paus, conchas, poças. Limos, pássaros, crianças. Desenhos na areia e castelos, construções. Praia! O mar é uma imensidão, solta sonhos, é espaço de trabalho, fonte de vida, de rendimento, estrada para quem nele viaja, amigo para quem nele busca salvação. Na capa do livro existe uma menina numa praia deserta, praia que nunca vi, mas que adivinhei quando assim ilustrei. “Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto do mar” (Sophia). O meu propósito foi de ensaiar. Ensaiar visualmente sobre o mar. Experimentar o gesto, saber do seu desenho, fazer cópias, pensar na expressividade gráfica de uma onda, de várias ondas, saber como se desenha a rebentação e o lençol de espuma, os brilhos de estrelas que permanecem na areia depois do recuo do mar. Lembro-me de uma frase de Vitorino Nemésio. “A melhor coisa que a Figueira tem é o Doutor Oceano.” Sei, de saber de experiência feita, que este Doutor ajuda a curar feridas abertas (visíveis e invisíveis). O meu propósito foi ilustrar a frescura do mar, ilustrar o que sente o corpo. A luz do sol calor. Estender a toalha e não fazer mais nada, por vezes desenhar o que via à minha volta. Regressar a casa cheia de sal e de sol, em direcção ao estirador para ilustrar este livro. 

 

Coimbra, 20 de Dezembro de 2020 (Domingo) 

 

Ana Biscaia

 

 

A obra Poucas Letras, Tanto Mar (Xerefé, 2019), com texto de João Pedro Mésseder e desenhos de Ana Biscaia, pode ser adquirida escrevendo para aqui ou para aqui.