quinta-feira, 18 de março de 2021

2 de Abril, Dia Internacional do Livro Infantil

 

Livro fechado

 

Era uma vez um livro. Um livro fechado. Tristemente fechado. Irremediavelmente fechado. 

Nunca ninguém o abrira, nem sequer para ler as primeiras linhas da primeira página das muitas que o livro tinha para oferecer. 

Quem o comprara trouxera-o para casa e, provavelmente insensível ao que o livro valia, ao que o livro continha, enfiara-o numa prateleira, ao lado de muitos outros. 

Ali estava. Ali ficou. 

Um dia, mais não podendo, queixou-se: 

– Ninguém me leu. Ninguém me liga. 

Ao lado, um colega disse: 

– Desconfio que, nesta estante, haverá muitos outros como tu. 

– É o teu caso? – perguntou, ansiosamente, o livro que nunca tinha sido aberto. 

– Por sinal, não – esclareceu o colega, um respeitável calhamaço. 

– Estou todo sublinhado. Fui lido e relido. Sou um livro de estudo. 

– Quem me dera essa sorte – disse outro livro ao lado, a entrar na conversa. – Por mim só me passaram os olhos, página sim, página não... Mas, enfim, já prestei para alguma coisa. 

– Eu também – falou, perto deles, um livrinho estreito. – Durante muito tempo, servi de calço a uma mesa que tinha um pé mais curto. 

– Isso não é trabalho para livro – estranhou o calhamaço. 

– À falta de outro... – conformou-se o livro estreitinho. 

Escutando os seus companheiros de estante, o livro que nunca fora aberto sentiu uma secreta inveja. Ao menos, tinham para contar, ao passo que ele... 

Suspirou. 

Não chegou ao fim do suspiro, porque duas mãos o foram buscar ao aperto da prateleira. As mãos pegaram nele e poisaram-no sobre os joelhos. 

– Tem bonecos esse livro? – perguntou a voz de uma menina, debruçada sobre o livro, ainda por abrir. 

– Se tem! Muitos bonecos, muitas histórias que eu vou ler-te – disse uma voz mais grave, a quem pertenciam as mãos que escolheram o livro da estante. 

Começou a folheá-lo e, enquanto lhe alisava as primeiras páginas, foi dizendo: 

– Este livro tem uma história. Comprei-o no dia em que tu nasceste. Guardei-o para ti, até hoje. É um livro muito especial. 

– Lê – exigiu a voz da menina. 

E o pai da menina leu. E o livro aberto deixou que o lessem, de ponta a ponta. 

Às vezes, vale a pena esperar.

 

António TorradoLivro Fechado (cartaz, design António Modesto), Secção Portuguesa do IBBY | IPLB, Lisboa: 1997

 

 

António Torrado, figura maior da literatura para crianças e jovens (e não só)

 

Foi no já longínquo ano de 1997 que António Torrado publicou este belo conto breve num cartaz alusivo ao 2 de Abril.


Vinte e quatro anos decorridos, aqui temos o prazer de o recordar, por ocasião do Dia Internacional do Livro Infantil de 2021 e como forma de homenagem ao seu autor, um dos nomes cimeiros da nossa literatura para a infância. Torrado é como que um legítimo herdeiro – ousemos dizê-lo – da riquíssima tradição dos contos de Hans Christian Andersen (1805-1875), o patrono do 2 de Abril (a que prestou tributo em diversas obras), e da nobreza do “contador de histórias” de raiz popular tradicional. Legou-nos aliás um sem número de adaptações/recriações de narrativas populares portuguesas que recontou como muito poucos autores, tendo sabido dar nova e vibrante roupagem a toda a graça, vivacidade e fantasia desses textos imemoriais.

  

Nascido em Lisboa, em 1939, é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e tem tido uma actividade profissional diversificada, dirigida, em grande parte, ao público infantil e juvenil: dramaturgo, poeta, contista, novelista, editor (Plátano, Editorial Comunicação…), produtor, guionista e argumentista, pedagogo e professor. Foi coordenador do Curso Anual de Expressão Poética e Narrativa no Centro de Arte Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian; professor responsável pela disciplina de Escrita Dramática na Escola Superior de Teatro e Cinema e dramaturgo residente na Companhia de Teatro Comuna, em Lisboa, e noutras companhias portuguesas. 


A sua produção literária para crianças tem acumulado prémios e distinções públicas. Destaca-se o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil para o melhor texto do biénio de 1978-79 (Como se faz cor-de-laranja); a recomendação extra-concurso, pelo júri do Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil de 1984-85, da totalidade da colecção "Conto Contigo" (dezasseis títulos de adaptações/recriações de contos populares tradicionais); o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, pelo conjunto da obra, em 1988; as inclusões na Lista de Honra do International Board on Books for Young People, em 1974, com O Veado Florido e, em 1998, com As Estrelas


Torrado recebeu ainda outros prémios literários e foi, por mais que uma vez, nomeado candidato português ao Prémio Hans Christian Andersen, sendo a sua escrita marcada pela diversidade genológica, pelo humor e pela graça, pela extrema vivacidade do contar (que aproxima sempre o texto escrito da narração oral), por um domínio seguríssimo dos códigos técnico-narrativo, retórico e estilístico e por uma orientação ideotemática em que a crítica a comportamentos sociais se compagina com o interesse por outras culturas, com a valorização da liberdade, da justiça, do direito à livre expressão e com o respeito (e um encantamento muito especial) pela condição infantil, cuja natureza o autor bem conhece. 


A terminar, acrescente-se que poderíamos prolongar esta nota e escrever outro trecho da mesma extensão sobre a também impressionante obra “para adultos” de António Torrado – poeta de assinalável mérito, de algum modo aproximável da geração de Poesia’61; mestre incontestável do conto curto e do micro-conto; e um dos mais notáveis dramaturgos portugueses da actualidade; além de, por vezes, crítico literário arguto, ensaísta também no campo da pedagogia, e experimentado argumentista de cinema e televisão. 


Por todas estas razões, é um enorme regozijo poder associar, uma vez mais, o nome de António Torrado à celebração do Dia Internacional do Livro Infantil. 

 

 

BIBLIOGRAFIA SELECTIVA

 

O Veado Florido, Lisboa, Editorial O Século, 1972; 5.ª ed., Porto, Civilização, 1994; Lista de Honra do IBBY 1974.

Como Se Faz Cor-de-laranja, Porto, ASA, 1979; 5.ª ed., Porto, ASA, 1993; Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil para o melhor texto do biénio de 1978/79.

O Pajem Não Se Cala, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; 2.ª ed., Porto, Civilização,1992; também publicado em galego, por Ir Indo Edicións.

O Mercador de Coisa Nenhuma, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; 2.ª ed. revista e aumentada, Porto, Civilização, 1994; Lista de obras de literatura para crianças "The White Ravens" da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique em 1995.

O Elefante Não Entra na Jogada, Porto, ASA, 1985; 3.ª ed., Porto, ASA, 1990.

Vamos Contar Um Segredo, Porto, Civilização, 1993; também publicado em basco, por Erein Argitaletxea; em castelhano, por Editorial La Calesa; em catalão, por Pirene Editorial; em galego, por Ir Indo Edicións e em valenciano, por Tándem Edicions.

As Estrelas, Porto, Civilização, 1996, Lista de Honra do IBBY 1998.

Vassourinha, Porto, Campo das Letras, 2001.

À Esquina da Rima Buzina, Lisboa: Caminho, 2007.

Zaca Zaca, Lisboa, Caminho, 2008.

O Homem sem Sombra, Lisboa: Caminho, 2011.

Fábulas Fabulosas, Alfragide, Leya / ASA, 2017 (1.ª ed., 2012)

Quarenta e Dois Mais Vinte e Um e Outras Histórias, Alfragide, Leya / ASA, 2020.

 

 

José António Gomes

IEL-C – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Como Ana Biscaia desenhou ‘Poucas Letras Tanto Mar’, livro com poemas de João Pedro Mésseder


Era o Verão de 2019. E eram poemas o que lia. Poemas vivos sobre o mar. (O que é o mar? Uma imensidão.) Ler os poemas. Começar a jogar com eles. O que aconteceu neste livro coincidiu com o Verão de 2019. Dias solares, de recolhimento, veraneantes, de água e sal e sol. Eu estava na Figueira da Foz e havia um livro para fazer. Um livro chamado Poucas Letras, Tanto Mar. Peguei no carro e fui prantar-me em frente ao mar. A olhar o mar. A desenhar o mar. A fotografar o mar. Mas não só. Também as rochas, os paus, as pedras, a areia, as gaivotas voadoras. Aconteceram cadernos com desenhos a apontamentos de mar. Estava perto do mar e essa curta distância foi primordial, importante. Aguarelas. Azul-turquesa, areia, amarelo, verde. As cores do mar. A matéria do mar. O desenho nos cadernos, a lápis, experiências primeiras de polvos atrás do almoço. Peixes sorridentes. Tentativas primeiras de desenhar o espírito (ou a alma?) dos poemas. Depois a leitura, sempre a leitura e sugestão oferecida pela poesia. Cor, temperatura. Imagens surgindo dentro do corpo e do coração, memórias de mar inesquecíveis transformadas em desenho. O mar, presença fulcral, tema transversal a todos os poemas. Uns breves, outros longos, todos eles a contarem como descrevem as gaivotas o seu voo rasante, como se enruga a maré vaza, como há frio que afinal ferve, bem querer entre areia e mar, barcos que podem ser sonhados. Ao ilustrar estes poemas pensei num ensaio visual sobre o mar. Pensei em aprender a desenhar o mar. Na pesquisa que fiz encontrei livros japoneses chamados hamonshu, com desenhos de ondas. Ali estava o mar. É preciso aprender com os japoneses (tive esta certeza). Olhar para os seus desenhos e voltar a olhar para o mar. Pensar na sobreposição de um sobre o outro e no acerto que contém. As ilustrações são aguarelas, pinturas, desenhos feitos a carvão, a tinta da china, são pequenos objectos recortados e pintados, são colagens. Algumas saíram directas dos cadernos de esboços, por exemplo, o menino junto ao farol, no poema faroleira é um desenho de caderno. Algumas ilustrações cabem e encaixam no poema, ou seja, foram feitas sobre ele e para ele, outras não, são desenhos realizados a partir do espírito e do tema do poema. São desenhos livres. Algumas ilustrações são pequenas peças de papel recortadas. Havia cores, uniformizando tudo. No mar, o corpo vive sensações difíceis de descrever. Somos parte do mar, somos naturalmente humanos, estamos dentro dele. É das mais belas e das melhores experiências da vida. O corpo dentro do mar. O sol dentro dos olhos. As estrelas que moram dentro das ondas ferventes. O som do mar. O mar traz-nos coisas. Memórias. Pedras. Algas. Paus, conchas, poças. Limos, pássaros, crianças. Desenhos na areia e castelos, construções. Praia! O mar é uma imensidão, solta sonhos, é espaço de trabalho, fonte de vida, de rendimento, estrada para quem nele viaja, amigo para quem nele busca salvação. Na capa do livro existe uma menina numa praia deserta, praia que nunca vi, mas que adivinhei quando assim ilustrei. “Quando eu morrer voltarei para buscar / os instantes que não vivi junto do mar” (Sophia). O meu propósito foi de ensaiar. Ensaiar visualmente sobre o mar. Experimentar o gesto, saber do seu desenho, fazer cópias, pensar na expressividade gráfica de uma onda, de várias ondas, saber como se desenha a rebentação e o lençol de espuma, os brilhos de estrelas que permanecem na areia depois do recuo do mar. Lembro-me de uma frase de Vitorino Nemésio. “A melhor coisa que a Figueira tem é o Doutor Oceano.” Sei, de saber de experiência feita, que este Doutor ajuda a curar feridas abertas (visíveis e invisíveis). O meu propósito foi ilustrar a frescura do mar, ilustrar o que sente o corpo. A luz do sol calor. Estender a toalha e não fazer mais nada, por vezes desenhar o que via à minha volta. Regressar a casa cheia de sal e de sol, em direcção ao estirador para ilustrar este livro. 

 

Coimbra, 20 de Dezembro de 2020 (Domingo) 

 

Ana Biscaia

 

 

A obra Poucas Letras, Tanto Mar (Xerefé, 2019), com texto de João Pedro Mésseder e desenhos de Ana Biscaia, pode ser adquirida escrevendo para aqui ou para aqui.


 

 

 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Leonoreta Leitão: um perfil biobibliográfico

Constança Leonoreta da Graça de Azambuja Leitão (que adoptaria o “nome de guerra” e de plume Leonoreta Leitão) nasceu em Leiria, em 1929, num meio social privilegiado. Seria seu padrinho o poeta Afonso Lopes Vieira. 

Licenciada em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1957, fez estágio no 8.º Grupo do Ensino Técnico e Exame de Estado em 1959-61. Foi professora do Ensino Técnico e do Ensino Preparatório (actual 2.º ciclo do Ensino Básico), orientadora de estágio de Português e desempenhou funções pedagógicas e inspectivas na Direcção-Geral do Ensino Secundário. Desde sempre empenhada na dignificação da profissão docente, fez parte dos “grupos de estudo” organizados por professores antes de 1974 e que constituíram o embrião dos sindicatos de professores, após 25 de Abril de 1974. Sobre o seu rico itinerário nos campos pedagógico e político, vale a pena ler a entrada que Helena Pato lhe dedica em Antifascistas da Resistência, no Facebook.

Enquanto poeta, Leonoreta Leitão – que publicou os seus primeiros poemas em 1947, pela mão de David Mourão-Ferreira – colaborou em revistas que fizeram história na vida cultural e literária portuguesa (Távola RedondaSeara NovaJornal de Letras e ArtesColóquio / Letras) e publicou o livro de poesia Amanhã É Domingo (1965), recenseado por nomes como João Gaspar Simões, Liberto Cruz, Álvaro Salema, Fausto Lopo de Carvalho e José Blanc de Portugal. Trata-se de uma escrita cujo húmus biográfico é a relação amorosa mantida com o escritor Urbano Tavares Rodrigues. Caracterizado por um lirismo que nos toca pelo vivido em que radica e não só, mas que nunca é expansivo em excesso, exaltando a aventura amorosa e a juventude, mas dando voz também à coita de amor, Amanhã É Domingo foi publicado na prestigiada colecção Poesia e Verdade, da Guimarães Editores, e contém poemas tão depurados e atentos ao estrato fónico-rítmico como este:

 

Afago que perpassa

em gesto brando de ave,

breve, breve.

 

Vive minha presença,

leve roçar de asa

que no teu mundo passa.

 

Imagem recordada,

constante, natural,

suave, suave.

 

Que eu chore tua ausência,

feliz, recompensada

de me saber total. (p. 23)

 

De referir que, em 1965, Leonoreta Leitão não terá recebido o Prémio de Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores outorgado ao original de Amanhã É Domingo, por esta distinção ter sido, nesse ano, extinta, uma vez que a SPE (Sociedade Portuguesa de Escritores) fora assaltada pela PIDE na noite de 21 de Maio de 1965, num episódio bem conhecido, na sequência da atribuição do Grande Prémio da Novelística a Luuanda, de Luandino Vieira.

Leonoreta foi membro dos corpos gerentes da Sociedade da Língua Portuguesa (1983-1998), dos corpos gerentes da Associação Portuguesa de Escritores (1980-1988 e 1990-1994) e várias vezes eleita em órgãos autárquicos, actividade a que não é alheio o seu forte sentido de intervenção cívica, antes e depois do 25 de Abril. Registe-se, de passagem, a publicação de «As minhas vivências com a PIDE» e de «O insustentável azul violáceo» na Antologia de Memórias e Vivências de Paixão (Colibri, 2020) organizada recentemente por Fernão Mão de Ferro.

Mas a obra autobiográfica em que a autora mais aprofundadamente evoca as suas origens e o seu percurso académico e profissional, a acção cívica e a intervenção pedagógico-cultural que levou a cabo, bem como as suas diversas incursões literárias, é Era Uma Vez Uma Boina – Memórias de uma Professora do Estado Novo à Democracia (a boina guevarista foi sempre um dos adereços icónicos da autora), editado pela Colibri em 2015. Trata-se de um livro merecedor de leitura e com elementos factuais interessantes, não obstante algum desequilíbrio na organização de um texto que, ao aflorar a relação eu/outro(s), teria ganhado em expandir os retratos humanos de diversas figuras com quem a autora/narradora/protagonista afortunadamente se deu ou privou, diluindo assim um pouco a presença do eu. Súmula de uma vida, tem ainda a vantagem de incluir alguns poemas e outros textos que permaneceram inéditos ou que se encontram dispersos em publicações periódicas.

Na área dos livros escolares e para-escolares, Leonoreta Leitão publicou diversas obras dignas de nota, pela sua qualidade: Os Lusíadas (explicação, adaptação e versos escolhidos para crianças – 1971); Barca Bela (selecção e organização em colaboração com Júlio Martins, para o Ensino Preparatório – 1972); Caminhos (selecção e organização em colaboração com Aldónio Gomes e Alice Gomes – nome importante da literatura portuguesa para crianças e irmã de Soeiro Pereira Gomes –, para o Ensino Primário – 1973); e ainda Recado (textos escolhidos para os Cursos Supletivos e para o Ciclo Preparatório – 1979), este último editado pela Plátano e um exemplo bem ilustrativo dos novos rumos que a educação linguística e literária tomou após a Revolução de Abril, tanto em matéria de renovação do corpus textual como no plano visual e gráfico.

A intervenção de Leonoreta Leitão no âmbito da literatura para a infância e a juventude decorreu, em parte, da sua experiência docente e centrou-se, em primeiro lugar, no trabalho da Secção Portuguesa do IBBY (International Board on Books for Young People), de que foi vice-presidente de 1980 a 1982, além de braço direito da escritora Lília da Fonseca – esta, por seu lado, foi presidente e destacou-se tanto pela sua multifacetada escrita (ficção para adultos além de contos, textos dramáticos e poesia para crianças) como pelo seu assinalável trabalho em prol da dignificação e reconhecimento do livro infantil. Leonoreta produziu e apresentou programas de televisão (vinte e dois programas – “A grande aventura” – na Rádio Televisão Portuguesa, em 1972; colaboração no programa da RTP “Uma história ao fim do dia”, em 1986) e organizou acções de promoção da leitura e de animação de bibliotecas infantis, além de ter co-organizado colóquios e produzido recensões críticas e comunicações sobre literatura para crianças. Elaborou e leccionou programas de literatura para crianças e jovens na Escola de Formação de Educadores Paulo VI, entre 1969 e 1975, e na Escola Superior de Educação Almeida Garrett, entre 1992 e 1994. Colaborou ainda no Dicionário no Feminino (sécs. XIX-XX) (2005), dirigido por Zília Osório de Castro e João Esteves.

Publicou um valioso trabalho, As Crianças Entrevistam 16 Escritores, em 1972, por cujas páginas desfilam alguns dos mais importantes nomes da nossa literatura para a infância, em depoimentos dignos de leitura, colhidos por crianças, que então eram alunas da autora na Escola Preparatória Francisco Arruda, no âmbito das actividades do Clube de Português. Testemunhos que espelham um meritório trabalho educativo, e que deverão ser lidos pelos estudiosos e críticos de hoje. Um reencontro com Alice Gomes, António Torrado, Adolfo Simões Müller, Esther de Lemos, Lília da Fonseca, Maria Alberta Menéres, Manuel Ferreira, Mário Castrim, Matilde Rosa Araújo, Olavo d’Eça Leal, Ricardo Alberty, Sophia de Mello Breyner Andresen e outros. 

Em 2007, viu editado Era Uma Vez Um Rei que Teve um Sonho – Os Lusíadas contado às crianças (Dinalivro), conseguida adaptação em prosa da obra de Luís de Camões, que, com ilustrações muito sugestivas (colagem, pintura, composição digital), de José Fragateiro, teve segunda edição em 2010 e foi publicada também no Brasil pela editora Martins Fontes.

Leonoreta Leitão teve assim, desde os anos sessenta, uma voz activa na dinamização desta área da criação literária nos meios pedagógicos e nas discussões sobre a sua importância estética e social. Além de ter conhecido, na juventude, Sebastião da Gama, David Mourão-Ferreira, Matilde Rosa Araújo, Carlos Aboim Inglês e outras figuras, e de ter convivido de perto com muitos autores da nossa literatura para crianças e jovens, foi amiga de Lília da Fonseca e de Natércia Rocha, co-organizou, com Matilde Rosa Araújo, o colóquio de Literatura Infantil, Pedagogia e Psicologia na Escola do Magistério Primário (1975) e representou a Associação Portuguesa de Escritores no júri dos Prémios Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, em 1984. Conviria, pois, escutar mais e mais vezes as suas preciosas memórias.

Além de traçar este breve percurso biobibliográfico, interessa-me ainda sublinhar a acção de Leonoreta Leitão primeiro como activista estudantil, ainda na faculdade, e mais tarde como democrata e antifascista, a quem, em 1996, foi atribuída a medalha de mérito municipal de Alcanena. Interessa-me o seu percurso cívico após o 25 de Abril, a generosidade com que sempre soube estar do lado certo, que é o lado do povo, e a generosidade com que serviu a democracia através dos cargos que exerceu, designadamente como autarca, numa freguesia da cidade de Lisboa. Interessa-me, em suma, a pessoa que foi e é Leonoreta Leitão. A mulher e a cidadã íntegra, lutadora e apaixonada pela vida, pela educação e pelos livros.

 

Bibliografia de Leonoreta Leitão

 

Obra literária

 

«A Carta» (conto), O Século, Página Literária, 1970 (incluído em Leitão, Leonoreta, Era Uma Vez Uma Boina – Memórias de uma Professora do Estado Novo à Democracia, Lisboa: Colibri, 2015, pp. 45-50).

Amanhã é domingo (poesia), Lisboa: Guimarães Editores, 1965, colecção Poesia e Verdade.

Era Uma Vez Um Rei que Teve Um Sonho – Os Lusíadas contado às crianças (reconto/adaptação em prosa), Lisboa: Dinalivro, 2007; 2.ª ed., 2010 (ilustrações de José Fragateiro).

Era Uma Vez Uma Boina – Memórias de uma professora do Estado Novo à Democracia (memórias), Lisboa: 2015.

«As minhas vivências com a PIDE», in Mão de Ferro, Fernão (coord.), Antologia de Memórias e Vivências de Paixão, Lisboa: Colibri, 2020.

«O insustentável azul violáceo» in Mão de Ferro, Fernão (coord.), Antologia de Memórias e Vivências de Paixão, Lisboa: Colibri, 2020.

Textos dispersos em diversas publicações periódicas (poemas, contos, recensões, testemunhos, etc.)

 

Outros trabalhos  

 

As crianças entrevistam 16 Escritores, Lisboa: Escola Preparatória Francisco Arruda. 1972.

Selecção de obras para o catálogo Autores Portugueses de Literatura Infantil, IBBY, Bruxelas: 1982 

 “Situação e perspectiva da literatura infanto-juvenil em Portugal” – comunicação ao II Congresso dos Escritores Portugueses (em co-autoria com Idalécia Cabrita), 1982. 

“Para uma abordagem da realidade social na literatura para crianças” – comunicação no Encontro de Literatura para Crianças da Fundação Gulbenkian, 1982. 

“Literatura Infanto-Juvenil” – balanço da produção de 1987, Colóquio-Letras, n.º 101, Lisboa: 1988. 

“Um olhar sobre a obra de Natércia Rocha”, Boletim do CRILIJ – Centro de Recursos e Investigação sobre Literatura para a Infância e Juventude, n.º 0, Porto: 2000. 

 

Livros escolares

 

Os Lusíadas – explicação, adaptação, versos escolhidos para crianças. Lisboa: Edição da Escola Preparatória de Francisco Arruda, 1971. 

Barca Bela: primeira viagem – contos, fábulas, narrativas, lendas, teatro – antologia para o Ciclo Preparatório, Lisboa: Didáctica, 1972 (co-selecção e co-organização com Júlio Martins). 

Caminhos – 3.ª classe do Ensino Primário, 1973 (co-selecção e co-organização com Aldónio Gomes e Alice Gomes). 

Recado: textos escolhidos de língua portuguesa para os cursos supletivos e ciclo preparatório. Lisboa: Plátano, 1979. 

Recado: algumas sugestões de trabalho. Lisboa: Plátano, 1979.

 

Sobre Leonoreta Leitão

 

Gomes, José António, «Leonoreta Leitão», em Quem É Quem na Literatura para a Infância e a Juventude em Portugal, Base de Dados sobre Autores da DGLAB Autores (dglab.gov.pt) , online, 2-2012.

Pato, Helena, «Leonoreta Leitão», em Antifascistas da Resistência, Facebook, 9-8-2020.

 

 

 

José António Gomes

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais) da ESE do Porto

 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O Lobinho, de José António Franco


Gostamos de lobos. E não é de agora, nem apenas depois de conhecer os incríveis lobos que povoam as inúmeras (infinitas?) versões paródicas do Capuchinho Vermelho, por exemplo. Gostamos de lobos, talvez desde o dia em que soubemos que houve tempos e houve países da Europa que conseguiram extingui-los por inteiro das suas florestas. Sabemos, por exemplo, que o lobo ibérico é uma espécie em vias de extinção. 

Alvo de mitos – Rómulo e Remo foram alimentados por uma loba e talvez fosse importante contar também esta história às crianças e a muitos adultos, naturalmente – e de perseguições, o lobo não deixa de ser um animal que suscita controvérsia junto dos humanos, que nunca conseguiram domesticá-lo.

O Lobinho (Lápis de Memórias, 2016) que José António Franco nos dá a conhecer neste livro singelo fica na memória de pequenos e/ou grandes leitores pelo perigo que corre e pela gratidão que acaba por suscitar na sua alcateia. Animais-animais, mas também animais marcados por uma espessura que toca o humano, nesta narrativa breve, estes são representantes de valores como a união, a solidariedade ou a entreajuda e a bondade, distinguindo, enfim, as personagens humanas e os animais. Plasmam-se significativamente na figura animal canina que coabita com os protagonistas da obra, a Dali, a cadela Labrador, «que há muito fazia parte da família com uma dedicação e lealdade incomparáveis» (Franco, 2016: 19), e são igualmente sugeridos pela actuação do chefe da alcateia. De igual modo, temáticas como a ecologia, a protecção do ambiente ou o respeito pela natureza – que aqui é também constantemente elogiada – perpassam o conto em pauta. Releia-se a este propósito o seguinte excerto: 


«A Inês, o Gonçalo e a Matilde tinham, de facto, uma curiosidade insaciável, e, por isso, aproveitávamos o tempo possível para passear na natureza e identificar os elementos mais importantes: fauna – espécies, tocas, ninhos, hábitos de alguns animais e vestígios deixados pela sua passagem; o canto dos pássaros e os tipos diferentes de voo – e flora – árvores, plantas, aromas, utilidades e perigos» (idemibidem: 21).


E há, ainda, um outro veio ideotemático que, neste conto, se substantiva e que, na nossa perspectiva, merece ser sublinhado. Trata-se das relações familiares e da alegria do convívio entre um avô, que aqui assume a função de voz narrativa ou narrador, e os seus netos que o admiram e que se divertem e aprendem – aliás, este avô tinha sido professor (idemibidem: 13) – na sua companhia. E nunca é de mais referir esta vivência intergeracional, tão salutar e, por vezes, tão arredada do quotidiano de tantas crianças, porque, como deixa escrito José António Franco neste seu livro, 


«O tempo que passávamos juntos era fantástico: um galope frenético de dias com recordações intensas e afectos revigorados.

Tempo de aprendizagens também: eles, inocentes como a sombra das flores – mas ávidos de saber -, iam descobrindo os sinais relevantes da natureza e das pessoas e amadureciam a atenção aos pormenores; eu, jovem incorrigível, aprendia a ser um avô com préstimo, retribuindo a felicidade de vê-los crescer na minha companhia.» (idemibidem: 20). 


O tópico da memória é aqui também especialmente relevante, como se constata, por exemplo, pela referência (crítica) que é feita à linha ferroviária desactivada: 


«Ao fundo da encosta, vislumbrava-se a velha linha de comboio amortalhada pelo esquecimento: quase um século de serviço devorado pelo abandono de governantes que permitiram que o vazio, a tristeza e as ervas se apoderassem definitivamente dos carris. / Memória em ruína de uma viagem sem regresso.» (idemibidem: 24).   


A acção evidencia uma estrutura claramente delimitada, sendo composta por quatro momentos, correspondentes: à situação inicial – a chegada de Inês, Gonçalo e Matilde e o seu acolhimento pelo avô –; às peripécias – a caminhada pela floresta, «ao longo da margem direita de um afluente do Douro» (idemibidem: 21), e os esforços concertados para salvar um «pequeno canídeo» (idemibidem: 28) –; ao ponto culminante – o salvamento do animal –; e ao desenlace feliz, com o regresso a casa sãos e salvos. Note-se, ainda, que, depois de fechada esta acção, o relato prolonga-se e ressitua-se um ano mais tarde, para dar conta do gesto muito humano de um lobo. É este que, em última instância, acaba por salvar um outro avô e os seus netos que se encontravam na iminência de serem apanhados por um incêndio no meio da mata. 


Situada espacialmente no Douro – «vale do Douro» (idemibidem: 14) – e decorrendo em tempo de férias, esta aventura – se assim nos é permitido apelidá-la, porque, de facto, não deixa de haver aqui aspectos próprios da narrativa de aventura ou de mistério – é, portanto, protagonizada por três netos e por um avô, grupo ao qual se junta a sua já referida fiel cadela Dali. Simples, mas apelativo, o enredo desenvolve-se, pois, em torno de uma incursão na mata e do resgate do rio de um canídeo (que, depois, se sabe que é um lobinho), operação arriscada que tem como principal agente Dali.


O relato – colocado na voz de um narrador participante, um avô, como mencionámos, que vive no Porto, cidade a partir da qual conta a história vivida numas férias no Douro, onde tem uma casa – concretiza-se de forma viva e prende o leitor pela simplicidade, pelos sugestivos apontamentos descritivos, pela originalidade das metáforas e das personificações, pelo uso eficaz do adjectivo e, ainda, pelo visualismo/sensorialismo, muitas vezes, decorrente da presença de sugestões/sensações visuais e auditivas, por exemplo, e do recurso delicado à sinestesia. Tomemos como exemplos algumas das passagens de abertura do conto: 

«Era quase meio-dia e um silêncio luminoso e inesperado inundou por momentos todo o vale. (...)


A locomotiva, ainda ofegante, deitava desconsoladas contas aos quilómetros por percorrer – dezenas de curvas estafantes a bordejar os montes e o negrume de uma mão-cheia de túneis mal-encarados e bafientos.» (idemibidem: 11-12).

A este propósito, releia-se, igualmente, o segmento: «Estava uma manhã de luz magnífica. Uma mistura intensa de aromas, de verde, de cantos fantásticos dos pássaros e a sonoridade do rio rebolando endiabrado para desaguar.» (idemibidem: 24). 


Aliás, as sugestões auditivas, muito recorrentes e fortes, imprimem ao texto um realismo que muito atrai o leitor. Exemplos disso são expressões como «desusado alarido» (idemibidem: 12), «gritos de alegria» (idemibidem: 12), «o eco de cada badalada (...). Um magnífico recital de carrilhão que ficávamos a ouvir até à última réplica.» (idemibidem: 16), «soou um apito pouco enérgico» (idemibidem: 17), «atentos à cadência das rodas sobre as juntas dos carris: tangatam, tangatam, tangatam...» (idemibidem: 18), entre outras.


Acresce, ainda, o facto de o discurso, que se pretende próximo do potencial destinatário, que, note-se, é desafiado no final da obra – «Desde então não me canso de contar esta história. / Agora é a vossa vez.» (idemibidem: 40) –, e que se singulariza também pelo tom coloquial – «Mas siga a história, que é para isso que aqui estamos e vale a pena das notícia daquelas duas semanas, como adiante veremos.» (idemibidem: 20) –, se apresentar expressivamente marcado por uma poeticidade invulgar – essa poesia que é tida como estratégia e que configura um traço relevante da escrita de José António Franco –, como atestam expressões como «um caminho largo, com o chão coberto de tufos de erva salpicado por margaridas brancas» (idemibidem: 24) ou «Como se nada tivesse acontecido, o rio, ali ao lado, continuava a sonhar com as águas da foz.» (idemibidem: 36).


Um apontamento, ainda, acerca do design do volume. A configuração gráfica da obra, da autoria de Bruno Inácio, como provam a capa e a contracapa, prima pela sobriedade, assentando na conjugação das cores verde e negro sobre fundo branco. Não foi certamente irreflectida a opção pelo verde, tom que se reveste de uma importante simbologia. A recriação visual do lobo, com laivos do desenho científico, é reveladora da beleza, bem como da postura forte e corajosa, deste mamífero, tornado aqui protagonista da narrativa. Na realidade, em nosso entender, esta imagem substantiva pictoricamente a seguinte passagem do conto:

«Depois olhou-nos majestoso, mas o seu olhar já não provocava temor.

Nobreza de rei agradecendo com humildade.» (idemibidem: 35).    


Terminamos, sublinhando o facto de este conto de José António Franco, que cativa pelos afectos que dele emanam, na nossa perspectiva, integrar, ainda que em certa medida e com uma evidente discrição ou subtileza, essa bela herança da fabulística tradicional. O lobinho e a sua alcateia são aqui mais uns lídimos representantes da sua condição e espécie em moldura quotidiana ou aventurosa. São lobos literariamente revisitados na sua condição animal, juntando-se a esta um inesquecível traço humanizador.



Referência bibliográfica

 

FRANCO, José António (2016). O Lobinho. Coimbra: Lápis de Memórias.

 

 

A obra pode ser adquirida aqui.

 

Sara Reis da Silva

 

Instituto de Educação – Centro de Investigação em Estudos da Criança Universidade do Minho

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O Companheiro – Uma edição no ano em que se comemorou o centenário do nascimento de Sidónio Muralha


A produção literária de Sidónio Muralha [Lisboa, 1920 – Curitiba, Brasil, 1982] alcança superior importância com os livros intencionalmente dirigidos ao público infantil, que tanto respeito lhe mereceu e a quem ofereceu uma obra de assinalável apuro estilístico que se distingue, no plano semântico, pela tematização da Natureza e das questões ambientais e dos valores da liberdade. Na sua escrita para crianças, os ritmos jorram com leveza e a magia resultante de jogos fonemáticos, de rimas e de trocadilhos potencia a imaginação e a formação de leitores diferenciados e aptos, capazes de quebrarem «as grades / de todas as gaiolas do mundo» – metáfora do autor retomada em diversos textos, criando uma intertextualidade homo-autoral, cujo  poema de partida («Pintassilgo») encerra, em forma de exortação, o livro O Rouxinol e a sua Namorada(1983), e que semantiza ideotematicamente estes valores:

Pintassilgo

 

O pintassilgo diz:

— nada me consola,

eu não sou feliz

nesta gaiola.

 

Do céu azul e da amplidão

eu sinto muitas saudades.

Não quero esta solidão

cada minuto e segundo.

 

Crianças, quebrem as grades

de todas as gaiolas do mundo.


Em outro lugar, referi-me a Sidónio Muralha como um escritor injustamente esquecido em Portugal, não obstante o facto de alguns dos seus livros infantis integrarem as listas de obras recomendadas nos documentos programáticos em vigor, no domínio da educação literária. Passados quase quarenta anos sobre a sua morte, e completados 100 anos sobre o seu nascimento, a sinalização do autor e da sua obra em território nacional far-me-ia recuperar o que havia dito, não fora a publicação, em hora boa, do livro O Companheiro, com sugestivas ilustrações de Irene Sá, pela Página a Página, em novembro de 2020.

 

A disponibilização de O Companheiro no mercado editorial constitui, indubitavelmente, um valor acrescentado à tematização literária da Revolução de Abril, alargando, assim, o leque de escolha dos professores do Ensino Básico para trabalho em sala de aula. 

 

Habituados que estamos às poeticidade e inventividade da escrita de Sidónio Muralha, O Companheiro não foge a esses princípios, que são também a sua originalidade. Organizada em sete pequenos capítulos – O homem bom e justo do chapéu verde, Outro homem justo mas sem chapéu, O casaco e o chapéu dos democratas, O espantalho que não sabe assustar, O amigo, Os militares e A grande festa do povo –, a narração da história da Revolução de Abril concretiza-se pela sequencialização vertical própria da poesia (lírica), gerando notações melódicas (internas) de grande beleza e desempenho semântico-pragmático. 

 

Tentarei resistir ao impulso de uma análise exaustiva desta obra, que não cabe neste espaço, sinalizando e generalizando algumas situações / processos  técnico-compositivos que conferem visilegibilidade (não tanto a dos aspetos propriamente tipográficos, de que falava Jacques Anis quando cunhou o termo, mas a que respeita à organicidade interna da própria poesia) a esta prosa que se dispõe a ser lida-vista, lembrando, com Jean-Michel Adam, que ler-ver o texto poético é condição sine qua non para nos apropriarmos dos ritmos e da significação deles decorrente. 

 

Para além da organização do discurso em estrofes (de amplitude variável – monósticos, dísticos, quintilhas, sextilhas, décimas, etc.), a poeticidade decorre de processos de repetição de palavras que colocam em evidência conceitos-imagens-chave, por exemplo, logo no primeiro capítulo, em que se destacam as palavras/expressões como «chapéu» e «chapéu verde», «todos», «homem / homens», «homem bom e justo», «crianças» e «liberdade», cuja significação é intencionalmente intensificada por via de anáforas, de epíforas e de anadiploses:

 

O dono do chapéu verde

era um homem bom e justo.

 

Todos sabem o que é um chapéu.

Todos sabem que há chapéus

de cores diferentes

e de vários tamanhos e feitios.

 

Também todos sabem

o que é um homem.

 

Mas muitos vão perguntar

o que é um homem bom e justo.

 

Muito bem.

O dono do chapéu verde

era bom e justo porque

não defendia só a sua liberdade

mas a liberdade de todos os homens.

 

Não queria livros unicamente

para as crianças ricas mas para todas

as crianças do mundo. 

 

Se atentarmos no excerto transcrito, o quantificador universal «todos» remete para um coletivo, para uma totalidade, e não para uma singularidade, contribuindo para a intensificação do sentido da mensagem que se inscreve, desde logo, na bondade e justeza deste «dono do chapéu verde» por contraponto ao «Senhor fascista», «o dono do país» que deu ordem aos PIDE para o silenciar e assim adiar o seu projeto de igualdade, de justiça e de liberdade:

 

Foi perseguido pelos Pides.

Os Pides tinham armas

mas não tinham ideias.

O homem bom e justo

tinha ideias mas não tinha armas.

 

As armas dispararam e o chapéu verde voou,

sobrevoou as montanhas e as colinas,

desceu o vale, parou entre as árvores

que o homem bom e justo defendia.

 

Se até então os leitores se questionavam sobre a razão de este «homem bom e justo» usar um «chapéu», ou antes, um «chapéu verde», as duas estrofes acima transcritas fornecem a chave do mistério e espessam a mensagem global da obra. Assim, o chapéu desta personagem é mais do que uma prerrogativa masculina ditada pela moda e ao serviço da distinção social. Trata-se, antes, de um objeto ancestral cuja função era, por um lado, a de proteção da cabeça contra este ou aquele tempo atmosférico e, por outro, a de proteção figurada das ideias do indivíduo que usa esse acessório, já que «chapéu» deriva do latim caput que significava «cabeça», «cérebro», e, por extensão, as ideias (que, segundo Horácio, Cícero e outros pensadores romanos, conferiam honra e cidadania às pessoas). No contexto histórico e cultural para que aponta o texto, o uso do chapéu associa-se à imagem das pessoas que trabalham de sol a sol, ou seja, ao povo – esse povo (mais letrado ou menos letrado) que se opôs ao regime fascista e combateu, com ideias próprias (e muitas vezes com a vida) o Estado Novo. 

 

Desta forma se compreende que este «chapéu» só poderia ser «verde», cor simbólica por natureza e que a própria natureza caracteriza. Verde é, pois, a cor do mistério da existência, revelado sazonalmente para lembrar aos homens a sua própria humanidade e afirmar a esperança num mundo renovado. E, no último capítulo, podemos ler:

 

Mas o Povo, que só tinha passado,

agora também tem futuro.

 

As crianças de hoje,

que são os homens e as mulheres

de amanhã, terão uma Pátria

sem Senhor Fascista e sem Pides.

 

Elas são livres.

Livres.


Um pouco mais sobre Sidónio Muralha:

 

Sidónio Muralha integrou, até 1950, data em que voluntariamente parte para o exílio (Congo belga), como forma de contestação do regime fascista do Estado Novo, o grupo coimbrão do Novo Cancioneiro. Até esta altura, o Escritor publica, em Portugal, os primeiros livros de poesia para adultos – Beco (1941), Passagem de nível (1942), Companheira dos homens (1950). Em 1949, Sidónio Muralha estreia-se na literatura para crianças com a publicação de Bichos, Bichinhos e Bicharocos cuja cuidada edição – reeditada em 2010 pela althum.com / Centauro – é ilustrada por Júlio Pomar e apresenta três poemas musicados – com reprodução das respetivas partituras – por Francine Benoit (musicóloga francesa que trabalhou no Jardim-Escola João de Deus e na Academia dos Amadores de Música, tendo sido amiga de Fernando Lopes-Graça). Esta obra e outras que se seguirão a partir dos finais dos anos 40, escritas por autores ligados ao movimento neorrealista contribuíram para uma mudança qualitativa na literatura portuguesa para crianças, por via do tratamento de novas temáticas (a infância camponesa, em Alves Redol; as crianças pobres de meios urbanos, em Ilse Losa e Matilde Rosa Araújo; tópicos relacionados com um olhar mais científico sobre a vida natural, em Redol, também, e em Papiniano Carlos, para não referir outros aspetos em que avulta, por exemplo, uma certa crítica a comportamentos sociais, patente, aliás, no Autor de Bichos, Bichinhos e Bicharocos).

 

Após o exílio voluntário no Congo, Sidónio Muralha viaja para São Paulo, em 1962, fixando, posteriormente, a sua residência em Curitiba. Em S. Paulo, funda, juntamente com o escritor Fernando Correia da Silva e o fotógrafo e artista gráfico Fernando Lemos, a editora Giroflé, dedicada exclusivamente à publicação de livros infantis e juvenis. Trata-se de um projeto verdadeiramente inovador que trouxe ao panorama editorial brasileiro um novo conceito de livro infantil pautado pela qualidade gráfica, pelo design moderno e colorido, pela escolha do papel Kraft e da capa dura, pela ousadia relativamente a novos formatos, nomeadamente o formato à italiana (retangular e alongado), como hoje é conhecido. A estes aspetos acrescem as boas escolhas textuais e a divulgação de nomes que enobrecem a literatura para a infância e a juventude, como é o caso de Cecília Meireles (1919-1964) com Ou Isto ou Aquilo

 

Ainda em 1962, Sidónio Muralha recebe o Prémio Internacional da II Bienal do Livro de São Paulo pelos poemas de A Televisão da Bicharada, ilustrado por Fernando Lemos e com a chancela da sua editora. Para além desta distinção, Valéria e a vida valeu ao Autor, em 1976, o Prémio Secretaria de Estado do Ambiente, que distinguia livros infantis de temática ambiental; e Helena e a cotovia, obra que seguia idêntica linha, recebeu o Prémio Portugal ’79, instituído pela Secção Portuguesa do IBBY (International Board on Books for Young People).

 

Em 1979, destaco a publicação de Catarina de todos nós, um dos raros exemplos, na literatura portuguesa para os mais novos, de um texto dedicado a um episódio marcante da resistência à ditadura salazarista: o assassinato, em 1954, de Catarina Eufémia, jovem camponesa alentejana em luta, juntamente com os seus companheiros, por melhores condições de vida, e cuja reedição, em Portugal, pela Página a Página, estará para breve.

 

Injustamente esquecido, em Portugal, país de onde disse nunca ter saído, o Brasil lembra e valoriza este poeta lusitano de forma tocante – os seus livros para a infância continuam a ser reeditados e a integrar os planos curriculares do Ensino Fundamental (Básico), juntamente com Ou isto ou aquilo (1964), de Cecília Meireles e A arca de Noé (1974), de Vinicius de Moraes – livros e autores que, no Brasil, operaram uma viragem na concepção estético-pedagógica de literatura infantil e juvenil a partir de inícios da década de sessenta, investindo na qualidade dos textos.


Registe-se, por último, que, em 2009, a editora Cosac Naify reeditou as primeiras edições da Giroflé, mantendo fidelidade aos originais e assinalando, deste modo, o significado histórico-cultural que tais livros tiveram no panorama editorial brasileiro.

 

A obra de Sidónio Muralha simultaneamente informa, diverte e coloca em ação a construção de um mundo mais justo – sem dúvida, um escritor a ser lido e relido.

 

Para ler e conhecer Sidónio Muralha: 


Bichos, bichinhos, bicharocos (1949; reeditado em Portugal em 2010 e 2012)

A televisão da bicharada (1962)

Um personagem chamado Pedrinho – vida de Monteiro Lobato contada às crianças (1970)

O companheiro (1975; reeditado em 2020)

A amizade bate à porta (1975)

Valéria e a vida (1976)

A dança dos Pica-Paus (1976)

Sete cavalos na berlinda (1977)

Todas as crianças da terra (1978)

Voa pássaro, voa (1978)

Catarina de todos nós (1979; a ser brevemente reeditado pela Página a Página)

Helena e a cotovia (1979)

Terra e mar vistos do ar (1981)

O rouxinol e a sua namorada (1983)

 A revolta dos guardas chuvas (1988)

Os três cachimbos (1999)

O trem chegou atrasado (2004)



A mais recente edição de O Companheiro pode ser adquirida aqui.



Ana Cristina Vasconcelos de Macedo

Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto