domingo, 30 de março de 2014

Um homem é feito de livros (sobre o Dia Internacional do Livro Infantil)


Meyer von Bremen | Strickendes und lesendes Mädchen (1863)
Si hortum in bibliotheca habes, deerit nihil | Cícero, Ad Familiares, 4.4
(trad.: Se tiveres um jardim perto da biblioteca, nada te faltará).
Um homem faz-se de livros. Falo do homem que os leu e, por isso, os guarda em si (alguns, pelo menos); e também do que os não leu, nem lerá nunca. Porque este simplesmente ignora que a sua vida é feita de livros, condicionada pelos livros: a Ilíada e a Odisseia, Platão e Aristóteles, a Bíblia e o Corão, O Capital, a obra de Freud… – que sei eu, que tantos livros tenho ainda para ler?
Mas talvez nenhuns outros tenham feito mais um homem do que aqueles que leu na infância, pois se é garantido que um livro não transforma o mundo, certo é também que pode mudar a vida de um leitor.
A gradual consciência disto me levou a guardar na estante, como num relicário, os livros que os meus dias de menino me pousaram no colo. E aqueles outros que o magro porta-moedas de criança de vez em quando me permitia adquirir, com a aquiescência dos pais.
Grandes livros? Longe disso (tirando um ou outro). Mas que poderia eu saber, nessa época, dos grandes livros que enformavam o mundo? Para o menino que eu era, grandes eram, sem dúvida, os que lia.
Sapato de Fogo e Sandália de Vento, de Ursula Wölfel, ensinava-me a alegria de ter um pai que nos leva a conhecer mundo, estrada fora. E que, por meio de parábolas (ou seja, de palavras), vai dando forma e sentido às comoções e conquistas, aos medos e enganos com que a vida nos torna o caminho suave ou pedregoso. Talvez um outro livro, Companheiros de Spártaco, de um obscuro Eric Houghton, me tenha inoculado a alergia à injustiça, à exploração do homem pelo homem. Terá sido A Gruta, de Nan Chauncy, a tornar-me para sempre sensível aos gestos de rebeldia? E os livros de aventuras que li até aos dez anos e que, sem sair de Portugal, me deram as primeiras imagens da Hungria, da Alemanha, da Andaluzia, dos Andes, da América do Norte, do Alasca ou da Nova Zelândia? (Lá ia eu à procura do mapa do mundo.)
Muitos outros livros, certamente, me fizeram. Mas como não recordar a vez primeira que li a descrição de abertura de A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen, estampada nas páginas do meu livro de Português do primeiro ano do liceu? Menino que amava a areia e o mar, os rochedos e os navios, como poderia eu ficar indiferente a essa espécie de poema em prosa que vinha envolver a praia numa aura de estesia, coisa nunca vista por mim nem “ouvida” (sim, porque ler, ler por hábito apura também o ouvido interior, aquele que nos diz se uma frase escrita possui, ou não, a eufonia, a elegância, a respiração necessárias). Pela primeira vez, o real, o “meu” real tomava a forma de palavras, isto é, convertia-se em linguagem. E que linguagem. Linhas de prosa que apetecia ler em voz alta saboreando cada palavra como se na língua se sentisse o sal da maresia, o granulado da areia, o rumor da água e das plantas e bichos marinhos. Com A Menina do Mar aprendi, talvez, sem disso ter ainda consciência, que as palavras não se limitam a dar nome às coisas, as palavras são, elas próprias, coisas – como a poesia, lida mais tarde com devoção, viria confirmar.
Depois, terei entendido que a vida de cada um é uma construção, feita pelo próprio, pelos outros, pelo vasto mundo, obedecendo a um projeto que em nós se vai esboçando, ganhando forma. Mostraram-mo as biografias lidas na infância: de Joana d’Arc, de Mark Twain, de Pasteur, de Daniel Boone, de Abraham Lincoln… Mas também a de Camões, contada, em cromos de banda desenhada, pelos belos desenhos de Carlos Alberto Santos e pelo texto de José de Oliveira Cosme.
Por isso, como não amar os livros, esses companheiros de sempre, na saúde e na doença, até que a morte nos separe? E como não sublinhar, uma vez mais, o papel essencial do livro infantil na sempre inacabada construção de um homem?

José António Gomes


IELC – Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Porto

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Que a Inocência seja recompensada…

ONU está preocupada com "elevados níveis de privação" das crianças em Portugal

Aqui se reproduz, com a devida vénia a Ana Dias Cordeiro e ao jornal Público, excerto de uma notícia publicada em 5-2-2014.


A austeridade é fonte de preocupação para o Comité dos Direitos das Crianças que esta quarta-feira divulgou as conclusões, dos últimos três anos, relativas ao cumprimento da Convenção em Portugal e noutros países.
O comité de 18 peritos independentes alerta para “o preço que está a ser pago” pelas famílias portuguesas com os cortes no investimento público nas áreas sociais, quer ver reduzido o impacto das restrições financeiras nos cuidados de saúde e bem-estar das crianças e defende que devem ser “travados novos cortes no sector da Educação”. A ONU exorta ainda o Governo português a definir “objectivos orçamentais estratégicos” para a infância.
A crise económica e as políticas de austeridade dos últimos anos reduzem as perspectivas de Portugal vir a cumprir a Convenção dos Direitos das Crianças  em Portugal, um dos mais de 190 Estados signatários que, regularmente, se submetem a uma avaliação dos avanços realizados na aplicação dos princípios desse tratado de 1990.
Na sua mais recente avaliação, publicada esta quarta-feira, o comité de 18 peritos independentes alerta para “o preço que está a ser pago” pelas famílias com os cortes no investimento público nas áreas sociais, em consequência da crise, e lamenta que as crianças em Portugal sejam expostas ao “risco crescente” de “pobreza” e às menores garantias dos direitos contidos na Convenção – como o acesso aos cuidados de saúde, ao ensino e à protecção social.
Por isso, além de apelar a Portugal para que continue a harmonizar as suas leis à Convenção, exorta o Governo português a definir “objectivos orçamentais estratégicos” para a infância e a "ter em vista os direitos das crianças na elaboração do Orçamento do Estado". Em concreto, defende "alocações claras para as crianças em sectores relevantes e agências, com indicadores especiais [relativos ao bem-estar das crianças] e um sistema de detecção".
No documento que deve agora ser transmitido ao Presidente e à Assembleia da República, aos ministérios envolvidos nas questões apontadas, ao Supremo Tribunal e às autarquias, o comité considera pois imperativos os esforços para sustentar o investimento social e a protecção das famílias numa perspectiva “equitativa” e sempre na lógica de dar a prioridade às crianças.
Ao mesmo tempo que acolhe, por exemplo, a implementação do Programa de Emergência Social, em 2011, pelo Ministério da Solidariedade e da Segurança Social, para minimizar o impacto social da crise na vida das famílias mais vulneráveis, ou a extensão do programa alimentar às escolas, com a criação de uma rede de cantinas sociais, salienta a sua preocupação perante “os elevados níveis de privação entre as crianças” e o “impacto negativo” da austeridade na vida das famílias.
Os 18 especialistas do comité, que são eleitos pelos Estados (para mandatos de quatro anos), recomendam ao Estado português não limitar mas reforçar os apoios às famílias, como o abono de família, numa altura em que a tendência tem sido inversa. Segundo dados do Observatório das Famílias e Políticas de Família, publicados no fim de 2013, meio milhão de crianças perderam o direito ao abono de família entre 2009 e 2012, estando Portugal abaixo da média europeia em despesas do Estado para apoio às famílias. (…)

Ana Dias Cordeiro  
Público


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Ovelhinha Preta, de Elizabeth Shaw, um pequeno álbum narrativo nas Metas Curriculares do Português para o Ensino Básico (1.º ano)

Nascida em Belfast, em 1920, Elizabeth Shaw morreu em Berlim, em 1992, depois de ter vivido a maior parte da sua vida na Alemanha de leste (antiga RDA: República Democrática da Alemanha, 1949-1990) com o seu marido, o escultor e pintor suíço René Graetz.
Escreveu e ilustrou numerosos livros – além de ter criado imagens para obras de outros autores (Mark Twain, Erich Kästner, Astrid Lindgren, Bertolt Brecht, etc.) –, averbando no seu currículo prémios de prestígio, além de trabalhos editados em vários países. Escreveu ainda um livro de memórias: Irish Berlin.
Inicialmente publicado em Dublin, em 1985, A Ovelhinha Preta (1.ª ed. na Caminho em 1997; 3.ª em 2009) constitui a prova de que um álbum narrativo de qualidade, para crianças pequenas, não tem de viver em exclusivo da quadricromia, da vertigem da cor, do grande formato e da capa cartonada e luxuosa. De facto, no livro de Elizabeth Shaw, essa qualidade não é incompatível com o preto-e-branco (ajustado, aliás, ao sentido do conflito e à possível intencionalidade do texto), nem com a simplicidade do traço e a dimensão do livro de bolso.
O título e o desenho da capa indiciam, desde logo, o intuito de desmontar uma expressão-feita: a ovelha negra do rebanho. As primeiras páginas, por sua vez, propõem uma reflexão sobre uma ordem pouco legítima, representada por um cão-pastor autoritário. Obcecado pela disciplina e agastado com a diferença que a ovelha introduz num rebanho de animais brancos, o cão não hesita em queixar-se ao pastor: «– Aquela ovelha preta não me obedece! (...) E pensa de mais! As ovelhas não precisam de pensar. Eu penso por elas!» (p. 18).
Uma tempestade providencial, durante a qual o pastor e o cão abandonam o rebanho, permitirá à ovelha revelar autonomia e preocupação com o colectivo. Pela primeira vez, o grupo de pares dispensa uma autoridade que lhe é estranha, pensa por si e o pastor reforça a sua convicção de que uma ovelha negra é sempre útil. Além disso, com a lã de duas cores, o homem vê aumentar o seu sucesso na venda dos cachecóis e das meias que tricota, o que o leva a adquirir mais animais de cor preta: «Em breve tinha um rebanho de ovelhas e carneiros brancos e pretos e malhados.» A conclusão não se faz esperar: «Eram todos diferentes, e ainda bem porque agora eram todos iguais.» (p. 52)
Apesar de óbvia, a parábola impõe-se pela sua pertinência e actualidade, sem cair no maniqueísmo e em excessos de moralismo. Traduzindo uma mensagem clara mas não impositiva, despojado nos meios expressivos que utiliza, A Ovelhinha Preta pode ser lido a crianças a partir dos cinco anos, tendo condições para constituir, simultaneamente, um dispositivo pedagógico interessante numa educação para a cidadania e para a aceitação activa da diversidade.
Os autores das Metas Curriculares do Português para o Ensino Básico decidiram incluir este livro sobre a diferença, o preconceito e a intolerância na lista de obras e textos para iniciação à Educação Literária, no 1.º ano de escolaridade. Parece uma decisão acertada. Em matéria de álbuns narrativos, acrescente-se, apenas um outro figura na lista: A História de Pedrito Coelho (1902), o clássico de Beatrix Potter.


Ficha

A Ovelhinha Preta
Elizabeth Shaw (texto e ilustração)
3.ª ed., Caminho, 2009


Para saber mais sobre Elizabeth Shaw ver:


Para saber mais sobre René Graetz ver:

Kunstarchiv Elizabeth Shaw & René Graetz, http://www.artshaw.com/artgraetz%20seiten/englisch/index_eng.html


José António Gomes
IEL-C  (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais) da Escola Superior de Educação do Porto


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Menino no Sapatinho: Mia Couto lança livro infanto-juvenil que critica Natal de consumo

Com a devida vénia ao Diário de Notícias, à Agência Lusa e a Susana Salvador, se dá a conhecer texto publicado a 5 de dezembro de 2013 sobre o último título de Mia Couto: um livro belíssimo, um livro para o tempo que atravessamos.

O escritor Mia Couto lançou (…) em Lisboa o livro infanto-juvenil Menino no Sapatinho, baseado num conto publicado pela primeira vez em 2001 na obra Na Berma de Nenhuma Estrada, agora reescrito com ilustrações de Danuta Wojciechowska.
O Menino no Sapatinho é um livro que "joga com um imaginário mitológico cristão e de uma tradição animista" e "critica a sociedade de consumo e particularmente um Natal de consumo", resumiu a professora de Literatura, Artes e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Inocência Mata, durante a apresentação da obra.
A estória do livro de Mia Couto, Prémio Camões-2013, com ilustrações de Danuta Wojciechowska, começa com o "era uma vez", o convencional arranque das fábulas, mas não se trata exatamente de um conto para crianças.
"É um jogo que nós vamos descobrindo, que é um livro para todas as idades", afirmou Inocência Mata sobre a estória, que fala de um "menino pequenito, tão 'minimozito' que todos os seus dedos eram mindinhos".
"Mia Couto trabalha com o secretismo discursivo", afirmou a apresentadora do livro, assegurando: "neste conto, nitidamente de Natal, vamos ler o Mia Couto de sempre".
O lançamento ocorreu no mesmo dia em que o escritor moçambicano foi homenageado em Portugal pelos 30 anos de vida literária, numa cerimónia em que também recebeu a Medalha de Mérito Grau Ouro e uma cadeira denominada "Princesa de África".
A distinção denominada "Mia Couto. 30 anos a escrever, 30 anos de maravilhamento" foi aprovada por todos os partidos com representação na Câmara Municipal de Lisboa, mas foi feita por personalidades da cultura residentes em Portugal, grupo de académicos, representantes da embaixada de Moçambique em Lisboa e responsáveis e colaboradores das editora LeYa e Caminho.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cinco obras para um Natal: cinco livros para ler ou ouvir ler e não apenas para ver

Ilustração de Florence Mason para o livro Holidays & Happy Days, de H. Hendry, 1901
O Cavaleiro da Dinamarca (1964), de Sophia de Mello Breyner Andresen, é já um clássico da nossa literatura para os mais jovens. Está lá tudo: a grande viagem probatória, um cavaleiro impoluto, a aventura, o perigo e o heroísmo; o amor e a arte; a tensão entre a visão teocêntrica e a visão antropocêntrica – e algumas das matrizes culturais da Europa exemplarmente narrativizadas. Pelo meio, a Dinamarca, Veneza, Florença, a Flandres, a Terra Santa…; Cimabué, Giotto, Dante e os descobridores portugueses. Actualizando, a cada momento, o mito do contador de histórias, um livro que é, também, uma vertiginosa viagem pelas narrativas da grande tradição cultural europeia e um comovente tributo ao espírito do Natal. O talento de contar aliado a uma sedutora prosa poética, de prosódia inconfundível. Não faltam, por aí, edições mais antigas (as da Figueirinhas, por exemplo) ou mais recentes (a da Porto Editora) deste livro exemplar: basta procurá-las.
Quanto a Histórias Tradicionais Portuguesas Contadas de Novo, de António Torrado, com ilustrações de Maria João Lopes (Civilização, 2002), direi que eram nove os contos populares portugueses que o autor tinha dispersos por outros tantos livros e que, aqui, surgem reunidos num só volume de grande formato e com novas ilustrações. Para perfazer as dez, Torrado acrescenta-lhes «Maria Rosa e os sete veados barbudos», variante do conhecido «Os sete corvos» dos Grimm. Lido o conjunto, pode-se dizer que poucos têm sido capazes de recontar estas velhas histórias com tanto humor e tão apurado sentido de preservação do oral ao nível da escrita. Outro clássico.
Por último, O Menino Nicolau, O Menino Nicolau e os seus Amigos e As Brincadeiras do Menino Nicolau (Teorema, col. Sésamo), de Sempé e Goscinny. A pedagogia, os rankings, as malditas «lideranças», eu sei lá o que mais de rastos. Professores, alunos, funcionários e encarregados de educação como personagens de uma anedota interminável. Uma poética da irrisão que não seria o que é sem o humor único dos desenhos de Sempé. Ideal para uma catarse em tempo de pausa lectiva (que se aproxima).


José António Gomes
IEL-C (Investigação em Estudos Literários e Culturais (antigo NELA) da Escola Superior de Educação do Porto