domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma Estrela Viaja na Cidade, de Papiniano Carlos e Elsa Lé

A escrita de Papiniano Carlos (n. 1918) sempre se deixou cativar pelo que existe de assombroso na marcha evolutiva do Homem ao longo da História, esse pedregoso caminho que atravessa milénios. Tão antigo que quase se pode dizer ter começado antes da própria Pré-História, antes do Homem ser Homem. Assim se entende a breve alusão ao réptil voador, remoto antepassado do animal humano, que encontramos na abertura do poema dramático Uma Estrela Viaja na Cidade (Porto: Trinta por Uma Linha, 2010). Uma composição que, inicialmente publicada em 1958 1, não como texto para crianças, foi assumida, na presente edição, como obra susceptível de ser lida por esse público e objecto, assim, do necessário enquadramento paratextual: entre outros aspectos, o formato de álbum com capa dura, curtos segmentos de texto por página, em caracteres de razoável tamanho, e imagens a cores assinadas por Elsa Lé, ilustradora de livros infantis.

Constituindo embora o início do livro, a referência ao crocodilo é o desfecho de uma das histórias contadas pela personagem do Poeta e funciona como ponto de arranque para, através de um diálogo entre o Menino, a Jovem, o Jovem, a Mulher, o Velho, um Coro e o próprio Poeta, se percorrer de modo sumário a trilha da humanidade, os seus extraordinários conseguimentos e conquistas que, ao longo dos séculos, foram alternando com os maiores desastres e tragédias colectivos.

O Menino exclamará: «São lindas as tuas histórias, Poeta.». E este responderá: «São a História do Homem.». «A aventura humana…», dirá o Jovem; «A extraordinária viagem…», acrescentará a Jovem. E o Poeta completará a frase: «Que começou no protoplasma, há milhões e milhões de anos… (…) E não acabará tão cedo…».

Assim principia o diálogo que se estende ao longo das páginas deste livro ilustrado em aguarela, cujas imagens procuram acompanhar os picos dramáticos, as cenas mais eufóricas e a atmosfera poética do texto.

Em boa parte escrito em verso, e assumindo a forma de uma pequena peça para representação teatral, Uma Estrela Viaja na Cidade define diferentes dramatis personæ por meio das respectivas falas: o Poeta é o encantador dos outros homens, o desvelador do real, isto é, do que a concretude das coisas não desvenda à primeira vista. E, por isso, se torna personagem perigosa para os que representam o status quo, a opressão, a violência. Com a sua visão do mundo e da História, uma visão sempre lúcida, humanista e poética, o Poeta ajuda os seus semelhantes a sonhar um mundo novo. Um sonho que o Velho, mais pessimista, nunca partilha, até, quase no final e perante a violência, parecer colocar-se ao lado do Poeta, quando este está prestes a ser encarcerado. A visão do futuro repousa, sobretudo, no olhar deslumbrado e nas palavras do Menino; e a determinação em lutar por uma outra cidade anima, em especial, o Jovem e a Jovem. A esta última personagem e à Mulher cabem os discursos de exaltação do amor. Nas vozes de um Coro que comenta as outras falas, ecoam os anseios de quase todas estas personagens, mas emergem também as necessárias explicitações factuais – as estritamente imprescindíveis – para se entender o que está em causa neste breve entrecho. Escutemos um segmento inicial, em que é evocada a gesta do Homem, a um tempo exaltante e trágica:

«POETA – Vocês já sabem, amigos, que as aves fizeram ninho no motor dum avião?

O JOVEM – Veio no Jornal…

VELHO – Eu li.

POETA – Aí está a maravilha, o sinal dos barcos que chegam na aurora…

MULHER – Explica-te.

VELHO – Não entendo.

POETA – Perguntai-o a este menino. (Aponta-o). Tu o sabes,

sim, tu o sabes, que és ainda puro para o entenderes.

MENINO – São os novos tempos que chegam.

POETA – Isso, os tempos cobrindo de primavera a cidade.

VELHO – Odeio a cidade.

MULHER – Amo-a e odeio-a.

MENINO – Eu quero outra cidade.

O JOVEM E A JOVEM (A uma voz) – Queremos outra cidade.

CORO – Outra cidade. Outra cidade.

VELHO – E quando? Quando?

POETA – Os homens construíram a cidade, construíram-na,

ergueram-na sobre os ombros com cimento.

O JOVEM – Ferro…

A JOVEM – Pedra…

MENINO – Flores…

VELHO – Sofrimento inenarrável…

MULHER – Rios de lágrimas…

POETA – E ansiedade sem limites…

VELHO – E para quê? Para quê?

POETA – Construíram-na arrancando as penas das asas

do seu sofrimento, a carne torturada

do seu próprio coração…

VELHO – E para quê? Para quê?

POETA – Ergueram templos…

A JOVEM – Estátuas, pirâmides…

POETA – Construíram portos, estradas, barragens…

O JOVEM – As máquinas…

VELHO – E túmulos para se esconderem da morte…

POETA – Criaram a arte, a filosofia, a ciência.

VELHO – Venceram acaso o sofrimento?

POETA – Lutam contra a morte e o sofrimento,

domesticaram as feras, venceram os monstros.

VELHO – Pobre D. Quixote!

POETA – Eliminaram terríveis micróbios, inventaram a anestesia.

MULHER – O parto sem dor.

O JOVEM – Inventaram o cinema.

A JOVEM – A rádio e a televisão.

VELHO – Os impostos e a lei…

MULHER – A justiça…

POETA – A liberdade…

VELHO – E a opressão.

POETA – Construíram barcos e aeronaves,

dominaram as forças da natureza…

O JOVEM – O fogo…

A JOVEM – A electricidade…

POETA – Cindiram o átomo…

VELHO – Recriaram os infernos…

CORO – A guerra atómica! A guerra atómica!»

É justamente neste passo, e em alusão ao final da Segunda Guerra, que se evocam os terríveis efeitos da bomba nuclear, num segmento de feição mais lírica que traz à memória o célebre «Llanto por Ignacio Sánchez Mejías», de Federico García Lorca, uma das vozes que mais influenciaram poetas da geração de Papiniano Carlos («POETA – Que é feito de Omachi / que estava colhendo flores no seu jardim, / CORO – às 9 e 15 da manhã? / VELHO – Onde foi Iyeyasu que estava matando a fome, / comendo o seu arroz, / CORO – às 9 e 15 da manhã? (…)» ).

Na ilustração de Elsa Lé, a imagem de massacre e destruição encontra correspondência nos tons de cinza do cogumelo nuclear, contrastantes com as cores dominantes do resto do livro e das guardas (vermelhos e rosas em profusão, amarelos e laranjas, roxos e azuis). E, após a referência à crueldade dos Homens (escravização, assassinatos, destruição d’«as vozes do amor e da esperança»…), surge no texto, com naturalidade, a nomeação da figura de Cristo, não uma menção beata, hipócrita ou mesmo metafísica, mas sim a recordação de um d’«aqueles que têm ajudado a semear a primavera no coração dos homens». Uma alusão que opta, e bem, pela moldura poética e intertextual, parafraseando o famoso «Hino de amor» (um poema para crianças) de João de Deus, incluído na sua não menos famosa Cartilha Maternal, de 1885.

Às disfóricas representações da morte e da guerra (a composição de Papiniano Carlos afirma-se também como um manifesto poético em prol da paz) sucedem-se, no livro, as eufóricas imagens do amor e da fecundidade da mulher (veja-se a décima primeira ilustração de Elsa Lé) como garante de um futuro para a humanidade («Através de vós, frágeis mulheres, viajam os barcos do futuro. A cidade constrói-se no fundo de cada um de nós, mas sobretudo, no mais fundo do vosso ventre.» – dirá, a dado momento, o Poeta).

Ora o amor, bem como a esperança, logo a seguir convocada pelo Coro, revelam-se perigosos para quem os encara como pilares do que de melhor existe na condição humana. Daí a surgirem os «homens de rosto metálico» (também eles marcados pelo tom cinza), que nos trazem à memória todas as polícias políticas de má memória, é um ápice. Mas, de imediato também, a prisão do Poeta convoca a solidariedade de todos os que antes dialogavam com ele e, com ele, aprendiam a sonhar um mundo melhor. E, nesse preciso instante, o céu da cidade é atravessado por uma estrela em viagem (símbolo eufórico de uma radical mudança no curso das coisas), como que vigiando o destino dos cidadãos, provocando um «clarão espantoso» e, finalmente, a fuga dos «homens de rosto metálico».

Num texto em que são detectáveis elementos temáticos, ideológicos e estilísticos próprios do Neo-realismo, pontuado pela exclamação e por expressivas metáforas e símbolos, cujo alcance é potenciado pela policromia das ilustrações (os «barcos» representam, como as próprias palavras do Menino e do Poeta evidenciam, «os novos tempos que chegam», os tempos «cobrindo de primavera a cidade»), a mencionada estrela, que ilumina o lugar dos homens, surge como um elemento simbólico mais. E os sentidos inerentes ao seu aparecimento no espaço dramático são desvendados, até certo ponto, pelas próprias falas das personagens: «A JOVEM – Olhai! Olhai! Esta árvore está toda florida! // POETA – É a primavera que chega… // CORO – A primavera! A primavera! // POETA – Nas árvores, na cidade e no coração dos homens.»

Vivemos tempos de negrume económico e social, em que os sinais de retrocesso civilizacional afectam, cada vez mais, as pessoas de bem, as que apenas sabem e podem viver do seu trabalho; são dias também de militarismo, de guerra no Afeganistão, no Iraque, na Palestina, em África, dias em que importa manter viva a lucidez, a esperança, certa atitude de ruptura, buscando um rumo radicalmente diferente daquele para onde nos querem empurrar. É, por isso, que o livro Uma Estrela Viaja na Cidade ganhou particular actualidade. Muito gostaria, pois, de o ver lido e representado em muitas e muitas escolas deste país.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Nota

1 A obra foi primeiramente editada numa separata da revista literária Bandarra, cuja publicação foi iniciada em 1953 e teve direcção de António Navarro e, depois, de António Rebordão Navarro.

Procurando enquadrar periodologicamente Uma Estrela Viaja na Cidade, recordo as palavras de Miguel Falcão a propósito desta obra e de outras igualmente representativas da literatura dramática neo-realista: «Embora, na opinião de alguns estudiosos do Neo-Realismo, os anos 50 (sobretudo a sua última metade) correspondam já à “agonia” do Movimento, o historiador de teatro José Oliveira Barata não hesita em afirmar que é nessa década, precisamente, que se verifica a sua “principal produção” dramática (1999: 17n). Às obras (…) [de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Luís Francisco Rebello, Romeu Correia, Mário Braga, etc.], acrescentamos as peças de outras figuras do Movimento que se destacaram no romance ou na poesia, mas que também experimentaram a escrita dramática, entre as quais: A salva de prata (1950) e, já na década seguinte, O homem da cadeira de rodas (1968) de Sidónio Muralha; Sombras (1951) de Correia Alves; e Uma estrela viaja na cidade (1958) de Papiniano Carlos.» (Miguel Falcão. «A atracção multiforme pela cena», in Batalha pelo conteúdo: Movimento Neo-Realista Português. Livro/Catálogo de Exposição Documental. Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo, Outubro de 2007, pp. 220-243 (disponível em http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qk_9DwTHzfIJ:www.fl.ul.pt/centros_invst/teatro/pagina/Publicacoes/artigos2008/miguel%2520falcao.htm+%22Uma+Estrela+Viaja+na+Cidade%22&cd=28&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt (acedido em 7-1-2011).)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sonhos de Natal, de António Mota

Selectiva, feita de fidelidades ao vivido mas também de pequenas ou grandes infidelidades, a memória da infância rural de António Mota é de novo convocada para recriar um tempo que não foi ainda o do autor empírico – o período da emigração para o Brasil –, mas o de um narrador ficcionado (Manuel), com perto de "quarenta mais trinta anos" (p. 12)1, ou seja quase da idade de uma figura tutelar da sua própria meninice, o sr. Afonso. Grande desvendador de mundos e de sabores desconhecidos, contador de histórias cativante, o sr. Afonso é a imagem viva de uma infância que se eterniza, o que o leva a alinhar nos jogos das crianças (Manuel, Ana, Joana, Pedro e Ricardo) e a proporcionar-lhes a primeira e deslumbrada visão de um presépio cujas figuras, aos olhos do narrador, ganham de repente vida própria. Estamos, em suma, perante mais um dos muitos velhos – meio sábios, meio loucos, mas sempre dignos – que povoam as histórias de António Mota.

Sonhos de Natal não se limita, contudo, a narrar a deslumbrada descoberta do mundo e dos seus mistérios – a neve e os jogos a ela associados, os mistérios do mundo animal, o sabor dos comeres tradicionais, as meias palavras dos adultos plenas de sentidos ocultos, a magia inquietante do Menino Jesus ou a ansiosa espera pelos presentes de Natal. A narrativa de António Mota é também um discurso sobre a ausência desse pai que Manuel descobre estar emigrado no Brasil. O sentimento incerto que tal ausência provoca é apenas sugerido, de modo difuso, quer nas conversas entre as crianças acerca da figura do Menino Jesus, quer no olhar do narrador que se alonga sobre a imagem da família arquetípica representada no presépio. Não surpreendem, por isso, as suas palavras: "Já não têm conta as vezes que sonhei acordado. E muitos sonhos compartilhei com os meus amigos. Mas nada foi tão especial como aquele dia que calhou a vinte e quatro de Dezembro desse ano que agora relembro." (p. 46)

O sonho maior é, pois, aquele que acaba por se concretizar: o regresso inesperado do pai, justamente na véspera de Natal. A dimensão afectiva deste sonho tornado realidade ganha especial relevo pelo facto de à figura paterna ficar associada a dádiva dos presentes, alguns deles durante tanto tempo desejados: um livro de capa dura para escrever histórias, uma caneta de tinta permanente, um par de meias, um tambor e uma gravata vermelha como símbolo do sucesso social. Presentes que não valem apenas por aquilo que são, mas sobretudo por aquilo que representam e simbolicamente antecipam: o escritor que Manuel virá a ser, um destino determinado pelo próprio, mas também pelo pai.

Evocação comovida e comovente da figura paterna e da magia do Natal, vista pelos olhos de uma criança na idade de todos os deslumbramentos, e num tempo em que ainda não havia "televisão, vídeo e jogos de computador" (p. 25), o texto de António Mota utiliza um registo realista (mas não neo-realista), evidenciando aquilo a que Luís Miguel Queirós, a propósito de outra obra do autor, chamou "a capacidade de nos levar até ao último capítulo narrando apenas coisas verosímeis, descritas num estilo chão e directo" (Público, 6/10/1991).

Utilizando o lápis-de-cor, o discurso visual de Manuela Bronze (que ilustra a 1.ª edição, da Desabrochar) não se limita a uma relação pleonástica com a palavra. Procura, sim, dar forma aos implícitos do texto verbal, criando uma atmosfera poética, concedendo uma atenção intencional ao pormenor e realçando alguns elementos de fantasia que o texto apenas deixava adivinhar. Através da imagem, procurou-se também restituir um tempo e um espaço sinalizados pela presença viva de algumas tradições da vida rural nortenha.

Conjugando texto e ilustrações, segmentando, por vezes, estas últimas e isolando esses segmentos na página para enfatizar certos elementos, para melhor pontuar a narrativa ou ainda para realçar o conteúdo principal de cada capítulo, o arranjo gráfico de Acácio Carvalho e de Jorge Carvalho, na 1.ª edição da obra, transformou Sonhos de Natal num livro atractivo que apetece folhear e ler.

A 2.ª edição, datada de 2003, tem imagens de Júlio Vanzeler, que recorre à ilustração digital, obtendo também um produto final de elevada qualidade artística.

Nota

1 As citações são feitas a partir da 1.ª edição de Sonhos de Natal.

Ficha técnica

Autor do texto – António Mota

Ilustrador/a – Manuela Bronze (1.ª ed.); Júlio Vanzeler (2.ª ed.)

Local – Porto (1.ª ed.); Vila Nova de Gaia (2.ª ed.)

Editora – Desabrochar (1.ª ed.); Gailivro (2.ª ed.)

Data – 1997 (1.ª ed.); 2003 (2.ª ed.)

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Francisco Duarte Mangas, domador de palavras

Se me perguntarem sobre que é este Sílvio, Domador de Caracóis (Caminho, 2010), livro de Francisco Duarte Mangas (texto) 1 e Madalena Moniz (ilustrações), dificilmente saberei dizê-lo. E livros como este são, em geral, os que me atraem. Aqueles que guardam em si qualquer coisa de indefinível, de irresumível, de imparafraseável, livros cuja teia de sentidos possíveis parece torná-los irredutíveis à moldura crítica.

Trata-se de um livro sobre a amorosa e terna relação entre uma mãe e o seu filho pequeno, curioso e descobridor? Sim e não. É sobre a conversa entre ambos, funcionando como lição sobre a liberdade e a poesia, mas também sobre os constrangimentos da vida? É e não é. É sobre os sonhos irrealizáveis das crianças? É e não é (até porque tenho dúvidas de que alguns deles sejam irrealizáveis…). É sobre o desconsolo da vida adulta, em que a imaginação infantil se afigura por vezes deslocada e perigosa? É e não é. Insinua-se como exemplo de ecopoesia? Sim e não. É sobre a paixão pela mãe Natureza (vemos, com efeito, uma mãe – que, até certo ponto, constitui um reflexo especular da Natureza – e um filho, chamado Sílvio 2, que edipianamente a ama), insinuada numa conversa em torno do fascínio pelos seres e coisas que conformam o mundo natural? (E este foi sempre um dos tópicos de eleição de Francisco Duarte Mangas, em especial naquele aspecto em que tal paixão o conduz, depois, à ternura filial por esses outros «seres vivos» que são as palavras 3. Uma atracção, em suma, pelas suas misteriosas combinações, susceptíveis de edificar mundos possíveis: «cultivar palavras no jardim», ser «domador de caracóis», «carteiro das toupeiras», «arquitecto das cegonhas»…) É sobre tudo isto? É e não é. Encontramos neste livro uma tentativa de conferir materialidade a algumas sedutoras metáforas? Sim e não. É uma meditação sobre a condição de poeta – que Sílvio, no fundo é, porque pretende vir a «cultivar palavras»? Talvez seja, talvez não. É uma narrativa breve ou um breve texto dramático? Possui elementos, é certo, que a ambos os modos pertencem, mas não é uma coisa nem outra, a ambos fugindo para, definitivamente, se instalar no limbo da poesia. É um texto de desarmante simplicidade? É e não é, porque é tão simples quanto denso. É um livro para crianças? Não tenho a menor dúvida que seja. Mas é, também, daqueles livros a que um leitor literário, adulto, não resiste. Daqueles livros que certos adultos podem ler com um gosto imenso, sem se lembrarem de que estão a ler um livro para crianças.

É tudo isto que torna o pequeno grande livro de Francisco Duarte Mangas e Madalena Moniz num objecto simultaneamente simples e complexo, notável de leveza e de densidade (e, quando digo leveza, estou a falar obviamente daquela a que se refere Italo Calvino 4). Um livro que, além do mais, desperta em nós a memória de certas composições, de estrutura dialogal, quer do cancioneiro popular quer das cantigas de amigo medievais, galaico-portuguesas, em que mãe e filha conversam, quer ainda de vários poemas infantis de Eugénio de Andrade e de Matilde Rosa Araújo, e, principalmente, a memória de algumas Canciones (1921-1924) de Federico García Lorca, em especial as Canciones para Niños, como a «Canción tonta» ou a «Cancioncilla sevillana» 5 (e são bem conhecidos os ecos do andaluz na poética do autor de O Ladrão de Palavras que, como todos os poetas dignos desse nome, sabe que a infância é a terra onde germina a poesia – como também Lorca sabia).

Tomando em mãos esta breve mas admirável composição de Francisco Duarte Mangas, a ilustradora Madalena Moniz transformou-a num álbum. Um álbum entre o poético e o narrativo, onde a Natureza respira e respiram também os olhos do leitor, um álbum onde os tons de verde se revestem de importância fundamental, concordante com a possível intencionalidade do texto, e a que nem sequer faltam certos elementos desse paradigma simétrico do picture story book, a que obedecem alguns dos mais bem-amados álbuns narrativos para crianças 6 (verifica-se certa circularidade no texto que, por outro lado, repousa, do princípio ao fim, numa estrutura dialogal 7 mais ou menos repetitiva).

Recorrendo com mestria ao lápis de cor, numa ilustração cujo traço evidencia originalidade e frescura, além de sensibilidade para traduzir a dimensão psicológica, a ilustradora desenha a própria letra utilizada no livro, conferindo à obra um cariz artesanal, conforme com a componente semantico-pragmática do texto de Francisco Duarte Mangas.

Uma parceria feliz, em suma, para uma obra feliz, uma obra que revaloriza a imaginação e os seus poderes e que insta a uma reconciliação com uma Natureza em perigo; um livro na «margem da alegria», necessário para o tempo tristíssimo e cheio de equívocos morais e ideológicos em que vivemos; um livro que convida a pensar, que estimula na criança o pensamento divergente e do qual, não tenho dúvidas, os leitores infantis (e os adultos também) vão gostar.

José António Gomes

(NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Notas

1 Nascido em Rossas (Vieira do Minho), em 1960, jornalista de profissão, romancista premiado (Diário de Link, Teorema, 1993; Geografia do Medo, Teorema, 1997; A Morte do Dali, Teorema, 2001; O Coração Transido dos Mouros, Teorema, 2002, etc.), contista e poeta (Pequeno Livro da Terra, Teorema, 1996; Transumância, Campo das Letras, 2002, etc.), Francisco Duarte Mangas é já autor de uma obra considerável no domínio da literatura para a infância, repartida pelo conto, pelo conto em formato de álbum e pela poesia: Elefantezinho Verde (Elefante Editores, 1999; 2.ª ed., Campo das Letras, 2001), O Gato Karl (Caminho, 2005), O Ladrão de Palavras (Caminho, 2006), O Noitibó, a Gralha e Outros Bichos (Caminho, 2009), além de Breviário do Sol (Caminho, 2002) e Breviário da Água (Caminho, 2004), ambos em co-autoria com João Pedro Mésseder. Vários dos seus livros para adultos foram traduzidos e editados em Espanha e na Itália.

2 Nome de evidentes conotações simbólicas, já que, como ensinam os dicionários, silv(i)… é um elemento latino de composição de palavras que exprime a ideia de selva, floresta, mata (v. J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo et alii. Dicionário da Língua Portuguesa. 5.ª ed., Porto: Porto Editora, s.d., p. 83.). Sílvio, o protagonista deste livro, deseja, entre outras profissões sonhadas, vir a ser «médico das árvores», tratar-lhes do coração, e ama a floresta e os seres, por assim dizer, selvagens.

3 Leia-se esta passagem do texto: «(…) Vou cultivar palavras no jardim, sempre foi esse o meu sonho. || Que palavras? – diz a mãe. || A palavra “Verão”, a palavra “sede”, a palavra “golfinho”… || Bebem muita água, gastam muito adubo – diz a mãe. || Adubo?! || O fertilizante das palavras é a ternura, Sílvio – diz a mãe. || E que água bebem? || A água pura dos teus olhos – diz a mãe. || A ternura é toda para ti, mãe.»

4 Italo Calvino. Seis Propostas para o Próximo Milénio. Lisboa: Teorema, s.d. (originalmente editado em Itália, em 1990). pp. 15-44.

5 Canción tonta: «Mamá, / yo quiero ser de plata. / Hijo, / tendrás mucho frío. / Mamá. / Yo quiero ser de agua. / Hijo, / tendrás mucho frío. / Mamá. / Bórdame en tu almohada. / ¡Eso sí! / ¡Ahora mismo!» – http://users.fulladsl.be/spb1667/cultural/lorca/canciones/canciones_para_ninos/cancion_tonta.html (acedido em 5/11/2010); Cancioncilla sevillana: «Amanecía en el naranjel. / Abejitas de oro / buscaban la miel. // ¿Dónde estará / la miel? // Está en la flor azul, / Isabel. / En la flor, / del romero aquel. // (Sillita de oro / para el moro. / Silla de oropel / para su mujer.) // Amanecía / en el naranjel.» –http://users.fulladsl.be/spb1667/cultural/lorca/canciones/canciones_para_ninos/cancioncilla_sevillana.html (acedido em 5/11/2010).

6 O «symmetrical picture storybook paradigm» é estudado por Eve Heidi Bine-Stock em How to Write a Children’s Picture Book: Learning from The Very Hungry Caterpillar, Chicka Chicka Boom Boom, Corduroy, Where the Wild Things Are, The Carrot Seed, Good Night, Gorilla, Sylvester and the Magic Pebble and Other Favorite Stories. USA: Lightning Source | Ingram and Baker & Taylor, E & E Publishing, 2003 (sumário disponível em http://www.eandegroup.com/Publishing/How-to-Write.html (acedido em 30-3-2009)).

7 Recorde-se que o modo dialogal sempre conheceu larga fortuna na literatura para a infância desde os seus primórdios, quer enquanto forma privilegiada, e mais viva, de transmissão de noções edificantes quer assumindo a forma de diálogos autónomos, sem didascálias (ou quase), incorporados no tecido narrativo – releia-se, por exemplo, a Condessa de Ségur; imagine-se os Diálogos entre uma Avó e sua Neta, de Mathilde de Sant’Anna e Vasconcellos (volume publicado em 1862 que Henrique Marques Júnior, em Algumas Achegas para uma Bibliografia Infantil (1928), afirma não ter conseguido consultar); e lembre-se certos textos de Virgínia de Castro e Almeida (exemplo: Em Pleno Azul (1.ª ed., 1907). 11.ª ed., Lisboa: Clássica Editora, 1988, pp. 72-78, 113-114 e outras) e de Ana de Castro Osório (exemplo: Viagens Aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil (1.ª ed., 1923). Lisboa: Instituto Piaget, 1998, pp. 83-88 e outras). Saindo do âmbito do livro infantil, mas indo às raízes do modo dialogal em literatura, mencione-se por exemplo o modelo estabelecido pelos Diálogos de Platão ou o cultivo, no período barroco, dos livros de diálogos sobre a vida na corte ou de índole moral – e não só, já que os temas abordados poderiam ir da crítica social à crítica literária (releia-se, para só referir dois exemplos da literatura portuguesa do século XVII, Francisco Rodrigues Lobo e a sua Corte na Aldeia (1619) ou D. Francisco Manuel de Melo e os seus Apólogos Dialogais (1721), de publicação póstuma).

domingo, 14 de novembro de 2010

Malasartes n.º 20 – em breve nas livrarias e nas mãos dos assinantes

2010 é um ano de luto para todos os que estudam ou fazem uso, enquanto mediadores da leitura, da literatura para crianças e jovens, e se habituaram à presença de algumas figuras tutelares. Sem Matilde Rosa Araújo, sem Madalena Gomes, sem António Manuel Couto Viana, sem José Saramago, sem João Paulo Seara Cardoso ficámos sem dúvida mais pobres. Mas – certo é também – temos a sorte de herdar destas vozes um legado literário que perpetuará no tempo a sua memória; um legado que importa continuar a ler, a estudar e, sobretudo, a dar a ler aos mais jovens – razão de ser do nosso trabalho como mediadores da leitura e defensores de uma literatura de qualidade para a infância.

Natural é, por isso, que evoquemos estes Autores no n.º 20 de Malasartes.

20, por outro lado, é um número carregado de simbolismo. Contrariando a tendência de boa parte das revistas literárias e científicas – nomeadamente em Portugal –, a circunstância de Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude ter logrado, contra ventos e marés, atingir o seu vigésimo número, em onze anos, reveste-se de enorme significado. E resulta também de um esforço de paciência e persistência que deve incutir orgulho em todos os colaboradores da revista, portugueses e galegos. Mas muito há ainda a fazer: para sobreviver às intempéries da crise, Malasartes precisa urgentemente de maior divulgação e de crescer, em número de assinantes e leitores. Uma tarefa que deveria ser assumida por todos os interessados nesta área (bibliotecários e professores incluídos) e não apenas pelo núcleo de colaboradores mais próximos. Seria lamentável não conseguir manter vivo e actuante este projecto que corresponde ao desejo de muitos: o da única revista luso-galega, de perfil científico aberto, dedicada ao estudo, à crítica e à divulgação do livro para crianças e jovens.

Continue-se, pois, o caminho iniciado. Aprofundando o conhecimento, neste vigésimo número, de mais dois escritores da maior relevância no panorama das literaturas infantis e juvenis galega e portuguesa: Paco Martín (uma presença actual e singular) e Maria Lamas (uma das figuras do período de ouro da escrita para crianças em Portugal). Revisitando, por outra parte, obras de referência de Autores como Jules Verne, Raymond Léopold Bruckberger, Sidónio Muralha, Xosé Neira Vilas, Maria Victoria Moreno ou Max Velthuijs. E concentrando-nos, ainda, em criações recentes que atestam a vitalidade da escrita e da ilustração contemporâneas – de nomes como o já referido Paco Martín, Manuela Bacelar, Agualusa, Henrique Cayatte, Fernando Pinto do Amaral, Nuno Higino e de muitos outros, cujos livros, neste número, são objecto de atenção crítica.

Nas habituais secções de Práticas, de Estudos e de recensões de estudos e revistas, continuarão, certamente, os leitores de Malasartes a encontrar respostas a outras questões que o seu trabalho de investigação ou de mediação da leitura lhes suscita.

sábado, 30 de outubro de 2010

Cinderela: o último gesto criador de João Paulo Seara Cardoso

Foi um dos mais inovadores protagonistas do teatro para a infância, em Portugal, nas décadas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Fundador e director artístico do Teatro de Marionetas do Porto, cenógrafo, escritor e professor de interpretação teatral, João Paulo Seara Cardoso (1956-2010) imprimiu, desde sempre, ao seu trabalho uma dimensão investigativa. Sem fazer tábua rasa da tradição, ao contrário de outros, a sua paixão pelas marionetas radicava num estudo dedicado à pesquisa e reconstituição do Teatro Dom Roberto (fantoches populares portugueses). Costumava, assim, afirmar que herdara de Mestre António Dias esta secular tradição a que quis e soube dar continuidade. Neste contexto, a criação do Museu da Marioneta, na histórica e camiliana Rua das Flores, no Porto, era o seu mais recente projecto.

O talento e saber de João Paulo Seara Cardoso foram postos, também, ao serviço de diversas companhias e instituições ligadas ao teatro e à ópera, para as quais encenou espectáculos. William Shakespeare, António José da Silva, Lewis Carroll, A. A. Milne, Alfred Jarry, Almada Negreiros, Aquilino Ribeiro, Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Gregory Motton, Heiner Müller, Marguerite Duras, Al Berto e Luísa Costa Gomes foram alguns dos autores cujos textos levou à cena.

Com um impressivo currículo de encenação e montagem de espectáculos, em Portugal e no estrangeiro, a que se somam inesquecíveis trabalhos para televisão (A Árvore dos Patafúrdios, Os Amigos do Gaspar, Mópi e No Tempo dos Afonsinhos), João Paulo Seara Cardoso era também um relevante autor de livros para a infância, quase todos resultantes da sua actividade teatral (Óscar, Campo das Letras, 2003; Bichos do Bosque, Campo das Letras, 2008; O Senhor…, Porto Editora, 2008, entre outros títulos). Merece, por isso, releitura atenta o ensaio de Paula Garcia, «João Paulo Seara Cardoso: uma escrita “funcional” no teatro para a infância», em boa hora publicado no n.º 18 de Malasartes, de Maio de 2010 (pp. 36-43).

A derradeira produção teatral de Seara Cardoso, em cena no Porto à data da sua morte (29-10-2010), foi Cinderela, que se encontra na origem do último livro infantil que publicou (em Outubro de 2010), com a chancela da Porto Editora, na colecção Oficina dos Sonhos – texto potenciado pelas excelentes ilustrações de João Vaz de Carvalho.

Singular exemplo de recriação hipertextual e de releitura parodística de um clássico (que nos traz à memória Gianni Rodari ou Roald Dahl e as suas Revolting Rhymes), Cinderela constitui um admirável momento de humor, caricatura e ritmo dramáticos, quer pelo cómico de situações e de linguagem que tão bem explora (incorporando, por exemplo, um registo abrasileirado no discurso de várias personagens) quer pelo modo como entretece prosa e verso, narrativa e drama, quer ainda pela convocação de figuras oriundas de outros contos. E isto para não falar da cómica subversão dos traços psicológicos de algumas das personagens da história tradicional, ou das muitas alusões jocosas e críticas ao presente, a permitirem manter vivo, actual e actuante o velho enredo contado por Perrault (em finais do século XVII), por Jacob e Wilhelm Grimm (no século XX) e por outros ainda.

José António Gomes

NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Literatura para a infância e ilustração – Leituras em Diálogo, de Ana Margarida Ramos

Segundo volume da colecção "Percursos da Literatura Infanto-Juvenil", editada pela Tropelias & Companhia, Literatura para a Infância e Ilustração – Leituras em diálogo constitui uma colectânea de ensaios sobre a produção literária de potencial recepção infantil, os seus desenvolvimentos e as suas tendências mais recentes no contexto editorial português. Na tentativa de sensibilizar o mediador adulto para a sua importância e as suas mais variadas potencialidades no desenvolvimento precoce de competências literácitas na criança, a autora confere especial atenção à componente ilustrativa (e paratextual) dos livros vocacionados para o público mais novo, em particular no álbum ilustrado, cuja evolução, em Portugal, nos últimos anos, tem exigido uma observação atenta e uma análise cada vez mais aprofundada das suas publicações.

Sem por isso coibir a iluminação de obras clássicas que concorreram para a conformação do actual panorama editorial, a cristalização de um período mais recente da produção, nos diversos percursos de leitura, diacrónica e/ou crítica, propostos, possibilita não só uma actualização da história da literatura infantil e juvenil portuguesa como a compreensão, através da sua avaliação analítico-descritiva, das opções temáticas, genológicas e discursivas, actualmente, mais recorrentes nas edições que às crianças se consagram.

Além disso, as reflexões aqui reunidas também mostram que a reedição e tradução de álbuns clássicos em língua portuguesa – muitos deles depois de largas décadas de espera –, assim como o prosseguimento de outros vultos consagrados do panorama literário nacional, influenciaram o surgimento de uma nova geração de autores, e, em especial, de ilustradores, fortemente responsáveis pelo notável impulso criativo da edição portuguesa contemporânea para a infância.

Apoiada num vasto e diversificado corpus, a autora procura descrever as potencialidades de um dos segmentos mais dinâmicos e inovadores da criação gráfica e literária universal, um fenómeno editorial notável pela sua amplitude e pelo seu sucesso, que tem despertado o interesse por parte de inúmeros investigadores, educadores/professores e demais mediadores no domínio da literatura para a infância. Partindo da reflexão sobre aspectos ligados à concepção destes volumes, nomeadamente ao nível da sua edição e criação gráfica, bem como à leitura das imagens que os integram, a autora sublinha a relevância da articulação icónico-verbal na potencialização de um processo interpretativo complexo e diferente e na celebração de pacto de leitura com a criança visivelmente desconhecido noutros tipos de livros ilustrados.

Em perfeita consonância com alguns dos mais actuais interesses investigativos no domínio em epígrafe, esta obra revela-se, pois, uma ferramenta de grande utilidade para todos os que se interessem pela literatura de potencial recepção infantil, constituindo uma referência imprescindível ao estudo do álbum narrativo ilustrado.

Ficha

Literatura para a Infância e Ilustração – Leituras em diálogo

Ana Margarida Ramos

Tropelias & companhia, 2010

Col. Percursos da Literatura Infanto-juvenil

ISBN: 978-989-96256-8-6

Carina Rodrigues (Bolseira FCT/Universidade de Aveiro)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Cavalinho de Pau do Menino Jesus e outros contos de Natal, de M. António Pina e Inês do Carmo – Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância

Ao conto “O cavalinho de pau do Menino Jesus” – originalmente editado, em 2004, pelo jornal Expresso, numa pequena colecção de três volumes, com uma componente visual muito apelativa da autoria de Danuta Wojciechowska – juntam-se, nesta obra de Manuel António Pina (MAP), ilustrada por Inês do Carmo, as narrativas “O sorriso” e “Mais depressa, Reis Magos, mais depressa!”.

No primeiro texto referido, “O cavalinho de pau do Menino Jesus”, convivem, num mesmo espaço ficcional, o Pai Natal e o Menino Jesus. Elidindo-se as fronteiras entre o universo cristão e o universo pagão e aproximando-se dois tempos distantes, conta-se, aqui, sempre num registo vivo e frequentemente dialógico, os preparativos, a viagem e a chegada do Pai Natal a Belém, depois de longas horas de trenó desde o Pólo Norte até ao estábulo onde nasceu o Menino Jesus, aludindo-se, ainda, sem apagar o seu natural dramatismo, ao desfecho da sua vida. A associação do Menino Jesus ao universo da infância e ao seu natural gosto infantil pelos brinquedos, desde logo, sugeridos pelo título, representa um dos aspectos mais atractivos do ponto de vista da recepção infantil deste texto. Numa apelativa construção literária de carácter lúdico, marcada por ecos de textos tão variados como o Evangelho ou o poema «Twas the night before Christmas», escrito, em 1822, por Clement Clark Moore, MAP dessacraliza figuras e episódios e, inventando gestos e situações católica ou biblicamente erradas, diverte o leitor.

No segundo conto mencionado, que se intitula “O sorriso” e é o primeiro da colectânea, o Menino Jesus ainda se encontra dentro da barriga da mãe, centrando-se o discurso nas próprias sensações, impressões e dúvidas do Deus-Menino. A humanização das figuras bíblicas e, em particular, a densidade psicológica que os dilemas confessados pelo Menino Jesus deixam pressentir fazem desta narrativa, cremos, uma das mais tocantes do universo literário português de destinatário preferencial infanto-juvenil. Um dos textos mais geniais de MAP, este conto confirma exemplarmente o carácter imaginativo e independente deste autor, já anunciado, aliás, em textos como “O menino Jesus não quer ser Deus”, presente em O País das Pessoas de Pernas para o Ar (1973).

A terceira narrativa que integra a colectânea, sendo protagonizada pelos Reis Magos, acompanhados pelas Rainhas Magas, desenvolve-se em torno do nascimento de Jesus. Este acontecimento é anunciado pela Estrela de Belém que se desloca à “Arábia Feliz” e, depois de uma espera quase desesperada, acaba por acompanhar os três (atrasados) Reis Magos até ao estábulo, já no dia de ano novo. No fundamental, o humor, frequentemente de raiz nonsensical, estrutura-se a partir da recriação dessacralizadora dos comportamentos das personagens ou, por outras palavras, na atribuição de certas características perfeitamente humanas e algumas, até, a reflectirem determinadas marcas de contemporaneidade. Recorde-se, por exemplo, que a “Estrela de Belém estava irritadísssima, farta de esperar. Ainda por cima tinha chegado o Dia de Ano Novo e o barulho era tal em toda a cidade, com fogo-de-artifício por todo o lado e gente a atirar latas e panelas para a rua, que a Estrela, muito aborrecida, quando os Reis Magos finalmente chegaram ao Palácio, os repreendeu...” (Pina, 2009: 17). Atente-se também no facto dos Reis Magos, já pais de “Principezinhos Magos”, serem casados com as Rainhas Magas e de estas também quererem ir adorar o Menino Jesus, tencionando levar-lhe “Uma (...) um bibe de seda, outra um guizo de prata e a terceira uma caixa de música com canções de Natal.” (idem, ibidem). Mesmo a figura bíblica da Nossa Senhora é alvo de um tratamento manifestamente inesperado: “(...) Nossa Senhora fitou-os com severidade: ‘Já estamos a 6 de Janeiro, viestes muito atrasados. Temos estado à vossa espera desde o Dia de Natal, pois estava escrito que viríeis nesse dia. Por pouco já não teríamos tempo de fugir para o Egipto.’” (idem, ibidem).

O efeito cómico deste conto surge reforçado ainda, de forma determinante, pelo uso insistente e muito pessoal da maiusculização de um número elevado de vocábulos e de expressões, criando-se, quanto a este aspecto, uma espécie de norma gramatical muito própria, como se verifica em “Piquenique”, “Escudeiro Mago”, “Caixa de Magia”,”Hipóteses”, “Florestas e Oásis”, “Alimentos”, “Outro Caminho”, entre outros.

Carla Maia de Almeida, que declara num atento post do seu blog, “Jardim Assombrado”, dedicado a este último livro de MAP, «A eleger um livro infantil do Natal de 2009, só pode ser este: O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal», conclui «E se algum leitor considera isto [tudo, ou melhor, «essa história de um Menino Jesus inventado no Céu, nascido de uma mulher que "não tinha amado antes de o ter", como diz o poema de Alberto Caeiro, é a coisa mais triste que há»] uma heresia, é melhor passar ao lado do livro.». E, na verdade, importa sublinhar que estes três textos, com temática natalícia, mas aqui redimensionada segundo o estilo do autor, se estruturam sob o signo da paródia, substantivando, assim, um recurso paradigmático muito frequente na literatura pós-moderna. Tendo como ponto de partida a intertextualidade, a deformação criativa de um texto preexistente (principal proposição inerente à paródia enunciada por Carlos Ceia, no E-Dicionário de Termos Literários), neste caso concreto, do texto bíblico, facilmente um objecto tido como historicamente modelar (na acepção do mesmo estudioso), alimenta a escrita dos textos da colectânea em divulgação, sendo, por vezes, alvo de uma salutar ironia e de uma contagiante criatividade, sustentadas por uma “liberdade livre”.

As ilustrações, em tons fortes e contrastantes, procuram seguir de perto o texto verbal, ainda que nem sempre com a eficácia e a coerência esperadas (veja-se, por exemplo, a recriação icónica discrepante do “cavalo de pau de crina dourada e arreios vermelhos”). Além disso, o discurso visual, apesar de ensaiar a representação dos momentos nucleares da acção e das personagens principais, carece, em certos momentos, de perspectiva, aspecto que, em determinados casos, é superado pelos jogos de luz e sombra, bem como de texturas. Genericamente feliz do ponto de vista da materialização pictórica de algumas das temáticas mais relevantes dos textos de MAP – por exemplo, o Natal, a infância, o amor ou a maternidade –, a componente ilustrativa parece, porém, “abstrair-se” do humor subtil e da intencionalidade subversiva que distinguem estas narrativas e que representam, aliás, dois dos traços mais singularizadores da produção literária do autor em causa.

Referência bibliográfica

PINA, Manuel António (2009). O Cavalinho de Pau do Menino Jesus e outros contos de Natal (ilustrações de Inês do Carmo). Porto: Porto Editora.

Sara Reis da Silva

(Universidade do Minho | Membro associado do NELA - Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Inicialmente publicado em Malasartes, n.º 19, Abril 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Mamã Pôs um Ovo, de Babette Cole

Conhecíamo-la de alguns álbuns ingleses de humor irresistível, como The Trouble with Gran (1987), The Trouble with Grandad (1988), e de outros mais antigos, em tempos publicados pela Sá da Costa. Por isso, é bom ver Babette Cole editada em português, no seu suporte de eleição: o álbum para crianças nas primeiras idades. Em A Mamã Pôs um Ovo (Terramar, 1997), o texto é escasso, já que a ilustração diz quase tudo, num registo caricatural, de um humor um pouco selvagem a lembrar o "cartoon" – e com alguns olhares cúmplices dirigidos ao adulto.

Duas crianças riem-se de uma lição sobre sexualidade e reprodução, dada pelos pais de modo ridiculamente fantasista e pretensamente pedagógico. A opção dos mais pequenos é, então, explicar tudo, em termos realistas e descontraídos: "Pensamos que vocês não sabem como é que realmente se faz um bebé. Portanto, vamos fazer uns desenhos para vos mostrar como é!" Infantis, os desenhos são elucidativos. E – podemos garantir – sem pouparem no pormenor.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)