terça-feira, 31 de maio de 2011

A inocência descompensada… Que fazer então?

No Público de 30-5-2011, pode-se ler que, em Portugal, “duas em cada cinco crianças vivem em situação de pobreza”. A notícia, assinada por Andreia Sanches, refere: “Não são apenas as crianças que vivem com rendimentos abaixo do limiar de pobreza que são pobres. São também aquelas cujo bem-estar é afectado por condições de vida “deficientes” – e que, por isso mesmo, se considera que estão “em privação”. É com base nesta abordagem que uma equipa de investigadores do Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade Técnica de Lisboa, conclui que cerca de 40 por cento das crianças portuguesas vivem em "situação de pobreza". Um estudo encomendado pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, a que o Público teve acesso – e que será apresentado (…) [no] Dia Mundial da Criança, no ISEG –, mostra que as crianças até aos 17 anos são o grupo mais vulnerável à pobreza, tendo ultrapassado o dos idosos.” (Andreia Sanches, Público, 30-05-2011).

Quem se preocupa com a infância, com o seu bem-estar, com a educação e a cultura – e este sítio é sobre a literatura da infância – não pode ficar indiferente a números tão cruéis: 40% das crianças portuguesas vivem em situação de pobreza!

Deram nisto trinta e tal anos de mau governo dos três partidos que gostam de se auto-designar como os do “arco da governação” e a que nós preferimos chamar os do “arco da desgovernação”.

Aproximam-se eleições (mais umas) e os portugueses são chamados a votar. Votar nos mesmos ou nos seus sósias, para tudo se manter igual ao que tem sido ou ficar pior ainda? Para Dupond suceder a Dupont e 40% das crianças portuguesas continuarem a viver em situação de pobreza?

E que tem a literatura a ver com isto? Tudo, é claro.

Vale a pena, a propósito, citar estes dois textos, intencionalmente quase sem metáforas, encontrados num livro de Ana Roiz:

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Razões eleitorais que a razão desconhece

Que os ricos - a minoria -

votem naqueles que defendem seus interesses

é coisa que se compreende.

São ricos, não é?

Que os outros - a maioria -

votem contra si mesmos

(continuando, nos ombros, com o peso

dos que vivem do trabalho alheio

e da moral na ponta da língua)

está para lá de toda a compreensão.

Será que a maioria vota

pelo direito à diferença,

essa estranha diferença que é a liberdade de explorar

e de gerar maiorias de pobres

que elegem os representantes dos ricos?

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Adivinha

Mal a lebre se levanta,

qual é a primeira frase, qual é ela,

que o corrupto dirige aos jornalistas?

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Solução:
«Sinto-me de consciência tranquila.»

.Ana Roiz. Derrocada do Parnaso. Serpa: Edições Meridionais, 1990, pp. 12 e 24.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Manuel António Pina (Prémio Camões) e O Têpluquê e outras Histórias

Com pequenas alterações, O Têpluquê e Outras Histórias (2.ª ed., Porto: Afrontamento, 1995, ilustrações de José Guimarães; 3.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, ilustrações de Bárbara Assis Pacheco) reúne cinco textos em prosa e três em verso, antes publicados em Gigões & Anantes (1974) e O Têpluquê (1976), desta feita antecedidos de um poema que o Autor dedica «à Ana no dia dos anos». A dedicatória aponta, desde logo, para um dos traços distintivos da obra: à matéria literária não é alheia uma certa cumplicidade estabelecida entre o Escritor e as suas filhas Sara e Ana, transformadas em personagens de seis das histórias.

O humor, as interrogações em torno da linguagem, da conversa e da desconversa, bem como a reflexão sobre as relações entre pensamento e linguagem constituem aspectos a ter em conta na abordagem de uma obra que, sendo um caso singular na nossa literatura para a infância, se inscreve numa tradição cujo representante máximo é, provavelmente, Lewis Carroll – autor que, juntamente com A. A. Milne, integra o núcleo das preferências literárias de Manuel António Pina.

Carrollianos são, de facto, a personagem do escaravelho Bocage e os diálogos que estabelece com Sara e Ana:

«– Então não estavas a crescer (...) estavas a diminuir.

– Não, disse o Bocage, depois de pensar um bocado. – Porque eu não estava a ficar cada vez menos, eu estava a ficar cada vez mais. Portanto estava a crescer. O que se passava é que estava a ficar cada vez mais baixo em vez de ficar cada vez mais alto. Percebes? (...)

“Este não regula bem” – pensou a Ana.» (2.ª ed., pp. 24-25)

À semelhança de Alice, na «Wonderland», o que Ana e Sara parecem compreender, nas suas primeiras experiências linguísticas, é que a linguagem verbal não é fiável, ou antes, é uma fonte de ambiguidades e duplos sentidos que convertem as relações interpessoais em espaços de insegurança, geradores de equívocos, mas também de situações cómicas.

Ao mesmo tempo, porém, é esta característica da linguagem que permite o eclodir da criatividade verbal e da poesia, por vezes interrompidas (ou talvez não) pela ilusão de que é possível criar uma língua nova, feita de palavras inventadas e «de toda a confiança» (2.ª ed., p. 30): não sabendo como distinguir os gigões dos anantes, Ana «arranjou uma teoria: / xixanava com eles e o que ficava / xubiante ou ximbimpante era o gigão, / e o anante o que fingia que não.» (p. 30).

Aqui e acolá piscando o olho ao leitor adulto, a escrita de Manuel António Pina não hesita em transformar o alfabeto numa espécie de espaço social dominado por conflitos de clara conotação política (é bom recordar que as primeiras edições destes textos datam de 1974 e 1976), já que a Ordem Alfabética, como todas as ordens mais ou menos arbitrárias, será posta em xeque por uma revolução: «depois das letras revoltaram-se as palavras, e depois os livros, e depois as bibliotecas, e depois tudo.» (p. 14).

Parece, pois, acertada a ideia de reunir esta produção num único volume. Percorrendo-o do princípio ao fim, o tópico da linguagem é introduzido pelo próprio título, o qual nos convida a centrar a atenção num texto bem-humorado, porventura o mais paradigmático e conseguido de toda a obra: «O Têpluquê» (p. 18), um achado em termos de criatividade linguística, com não poucos incentivos à reflexão, susceptíveis de estimular o chamado pensamento divergente.

Nas primeiras edições, de A Regra do Jogo, as imagens de João Botelho (ilustrador e cineasta) davam a ver o trabalho, conseguido, de um velho companheiro de jornada de Pina, responsável pelas ilustrações de outras obras do Escritor. A edição da Afrontamento, por sua vez, mostrava uma incursão de José de Guimarães na área do livro infantil. Quanto às ilustrações da edição da Assírio & Alvim, deram a conhecer uma nova ilustradora: Bárbara Assis Pacheco. Nascida em Lisboa, em 1973, licenciada em Arquitectura e em Filosofia e diplomada com um Curso de Desenho e um Curso Avançado de Artes Plásticas, esta pintora ilustrou também os livros Histórias para Ler e Sonhar e Natal na Quinta, ambos de Pedro Strecht.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O Livro dos Desejos, de Vergílio Alberto Vieira

A 20 de Maio, decorrerá, no Auditório Multimédia do Instituto de Educação da Universidade do Minho, um simpósio sobre a Obra de Vergílio Alberto Vieira, que, este ano, completa quarenta anos de vida literária (estreou-se, na poesia, em 1971, com o livro Na Margem do Silêncio). Organizado pela unidade curricular de Literatura para a Infância e Juventude (Instituto de Educação – Universidade do Minho) e a Tropelias & Companhia – Associação Cultural, o simpósio conta com a participação de José António Gomes, Ana Margarida Ramos, Sara Reis da Silva, João Manuel Ribeiro e as ilustradoras Teresa Lima, Marta Madureira e Anabela Dias, além do próprio autor homenageado.

Um bom pretexto, pois, para recordar aqui um dos seus livros de poesia para a infância.

Em O Livro dos Desejos, volume de título convidativo, cuja primeira edição data de 1994, ganha relevo a dimensão humorística que o autor ensaiara já em trabalhos anteriores, dirigidos ao público infantil, e que haveria de se reforçar em títulos editados posteriormente.

Patente em particular nos doze últimos poemas do livro, essa dimensão encontra expressão preferencial em textos – por que não denominá-los pequenos romances em verso? – cujos versos se organizam, quase sempre, em quintilhas. Acrescente-se que – como é usual na poesia dita para crianças – a rima tem aqui um papel primordial. Se a ela juntarmos a inclinação para o verso de redondilha maior ou menor (esta mais do que aquela) e o gosto pelo jogo de aliterações e assonâncias (que, em alguns casos, nos traz à memória Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles), teremos – no plano formal – os elementos básicos de uma poética que procura, a uma primeira aproximação, cativar a sensibilidade auditiva do leitor/ouvinte.

Do que atrás fica dito se depreende que, em O Livro dos Desejos, a narratividade se acentua, dando origem a historietas cuja ironia em relação aos poderosos não passa despercebida (leiam-se, por exemplo, «Os Reis Magros», «A Vingança do Chinês» ou «O último orangotango de Paris»). Outras vezes, organizados em quadras, encontramos textos curtos que não poupam a presunção dos deputados («O cavalinho presunçoso») nem o apego dos governantes ao poder («Os secretários de estrado» (sic)).

No avesso da caricatura e da irrisão, surge a exaltação de outros mundos: o canto e a arte de pintar, o tocador de flauta e o trapezista, a romãzeira e a passagem das estações... O discurso ganha, então, em intensidade lírica e confirma – pela expressão do desejo de amar, de reter uma beleza fugidia ou de contrariar o sentido do tempo – a justeza do título escolhido para a colectânea: «Em brilhos de escama / Desce, a truta, o rio. / P’ra tão nobre dama / Só proveito e fama / Lhe escapam por um fio. // Preso ao seu lugar / Fica um pescador, / Pensando que o mar / Se há-de enamorar / do seu esplendor.» (p. 27).

Se dúvidas houvesse, O Livro dos Desejos serviria, uma vez mais, para confirmar que existe, na literatura dita para a infância, um espaço para a expressão poética de qualidade.

Ficha

O Livro dos Desejos

Vergílio Alberto Vieira (texto) / Cristina Robalo (ilustrações)

5.ª ed., Caminho, 2010

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 27 de março de 2011

Mensagem do 2 de Abril de 2011, Dia Internacional do Livro Infantil

O livro recorda

Aino Pervik

“Quando Arno e o seu pai chegaram à escola, as aulas já tinham começado.”

No meu país, a Estónia, quase toda a gente conhece esta frase de cor. É a primeira linha de um livro intitulado Primavera. Publicado em 1912, é da autoria do escritor estónio Oskar Luts (1887-1953).

Primavera narra a vida de crianças que frequentavam uma escola rural na Estónia, em finais do século XIX. O Autor escrevia sobre a sua própria infância e Arno, na verdade, era o próprio Oskar Luts na sua meninice.

Os investigadores estudam documentos antigos e, com base neles, escrevem livros de História. Os livros de História relatam eventos que aconteceram, mas é claro que esses livros nunca contam como eram de facto as vidas das pessoas comuns em certa época.

Os livros de histórias, por seu lado, recordam coisas que não é possível encontrar nos velhos documentos. Podem contar-nos, por exemplo, o que é que um rapaz como Arno pensava quando foi para a escola há cem anos, ou quais os sonhos das crianças dessa época, que medos tinham e o que as fazia felizes. O livro também recorda os pais dessas crianças, como queriam ser e que futuro desejavam para os seus filhos.

Claro que hoje podemos escrever livros sobre os velhos tempos, e esses livros são, muitas vezes, apaixonantes. Mas um escritor actual não pode realmente conhecer os sabores e os cheiros, os medos e as alegrias de um passado distante. O escritor de hoje já sabe o que aconteceu depois e o que o futuro reservava à gente de então.

O livro recorda o tempo em que foi escrito.

A partir dos livros de Charles Dickens, ficamos a saber como era realmente a vida de um rapazinho nas ruas de Londres, em meados do século XIX, no tempo de Oliver Twist. Através dos olhos de David Copperfield (coincidentes com o olhar de Dickens nessa época), vemos todo o tipo de personagens que ao tempo viviam na Inglaterra – que relações tinham, e como os seus pensamentos e sentimentos influenciaram tais relações. Porque David Copperfield era de facto, em muitos aspectos, o próprio Charles Dickens; Dickens não precisava de inventar nada, ele pura e simplesmente conhecia aquilo que contava.

São os livros que nos permitem saber o que realmente sentiam Tom Sawyer, Huckleberry Finn e o seu amigo Jim nas viagens pelo Mississipi em finais do século XIX, quando Mark Twain escreveu as suas aventuras. Ele conhecia profundamente o que as pessoas do seu tempo pensavam sobre as demais, porque ele próprio vivia entre elas. Era uma delas.

Nas obras literárias, os relatos mais verosímeis sobre gente do passado são os que foram escritos à época em que essa mesma gente vivia.

O livro recorda.

Tradução: José António Gomes

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A Mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil é uma iniciativa do IBBY (International Board on Books for Young People), difundida em Portugal pela APPLIJ (Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil), Secção Portuguesa do IBBY.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Grande Voo do Pardal, de Lídia Jorge e Inês de Oliveira: uma incursão na filosofia para crianças e na educação para os valores

Em 2007, publicou Lídia Jorge o que é apresentado como o seu trabalho de estreia no domínio da chamada literatura para a infância: O Grande Voo do Pardal (Dom Quixote, 2007). A esta obra seguiu-se, mais recentemente, Romance do Grande Gatão (Dom Quixote, 2010).

Assinale-se, contudo, que, já em 1994, e com ilustrações de Alain Corbel, a Contexto & Imagem havia editado autonomamente, com o formato de livro para crianças, um dos contos “para adultos” da autora, obra a que foi dado o título O Conto do Nadador.

De modo singelo e numa linguagem despretensiosa (mas de recorte literário), como convém quando se pretende abordar determinados temas e enfatizar certos valores pensando em leitores muito jovens – referimo-nos à compaixão pelos outros e aos sentidos da vida e da liberdade como condições indispensáveis para alcançar um pouco de felicidade terrena –, O Grande Voo do Pardal conta-nos a história de um homem, Henrique Gaspar, que “possuía a casa mais linda das redondezas”. E o narrador prossegue, recorrendo a comparações escolhidas a dedo, tendo em atenção o(s) sentido(s) que a coerência semântica do texto, como veremos, reclama: “Ninguém sabia onde ele ia buscar aquilo – árvores com flores cheirosas, relva lisa como carpete, uma piscina que parecia um espelho” (p. 7). Todos os dias, porém, era assaltado por bandos de pardais que lhe estragavam o telhado e interrompiam o seu sossego: “Detestava esses pássaros, que dizia terem as penas enxovalhadas, cinzento encardido, além de serem, de entre todos os pássaros, os mais irrequietos, os mais glutões, os mais atrevidos. (...) Detestava-os.” (p. 11). E todos os dias inventava novas formas de afastar as aves da sua propriedade, planeando sempre novas estratégias, todas elas invariavelmente falhadas. Um dia, “estava ele precisamente a podar uns arbustos, quando reparou num pequeno molho de penas que se movia. Era um molhinho cinzento pousado no chão, que parecia respirar, ali mesmo junto a uma aba de roseira” (p. 8). Tratava-se de um jovem pardal que, por lhe faltar a pata direita, não podia voar. Henrique Gaspar tivera a oportunidade de se vingar dos pardais, mas, perante a pequena ave indefesa, não foi capaz de executar os seus intentos, antes “tomou o animal entre os dedos, pô-lo na palma de uma das mãos, acalmou-lhe o coração com a outra, juntou a cabeça do pardal aos lábios para o aquecer e foi para casa fazer-lhe o curativo” (p.14).

Não será descabido afirmar que, nesse momento, Henrique Gaspar foi colocado perante o amor natural, descrito por Rousseau, no seu “Discours sur l’Origine et les Fondements de l’Inégalité parmi les Hommes”, como uma das duas paixões que engrandecem o homem: a compaixão, a qual não permite que fiquemos indiferentes em relação aos outros.

Henrique Gaspar, que até então “detestava esses pássaros” (p. 11) e se encontrava dominado por aquilo a que Erich Fromm chamou o “mundo do ter”, das imagens e dos simulacros, representado pelas “árvores com flores cheirosas, relva lisa como carpete, uma piscina que parecia um espelho”, pelos “lindos sofás brancos comprados na Divani” (p. 17), reconstrói a sua existência no “mundo do ser”, tornando-se, pela descoberta, pela partilha, pelo diálogo com o “outro” (simbolizado no conto pelo pequeno pardal) mais humano e mais próximo de si mesmo. Neste processo de descoberta do outro, que é sempre um encontro consigo próprio, Henrique Gaspar revela também outra qualidade: o altruísmo, naquele sentido que lhe atribui Augusto Comte, em 1851, quando o refere como essencial para estabelecer e edificar relações de amizade, e entendido universalmente como a alienação do bem estar pessoal em favor do bem estar alheio. Daí que Henrique Gaspar se dedique à cura do jovem pardal, renunciando à preservação dos móveis que compõem a sua sala, para, na altura certa, tentar, não obstante a relação simbiótica já estabelecida entre os dois, homem e ave, a reintegração daquele ser no seu habitat natural. Mas, para isso, “era preciso que um bando viesse e levasse consigo o pardal domesticado” (p. 21). Se, antes, Henrique Gaspar fizera esforços para afastar os pardais, agora engendrava todas as estratégias para atrair os pássaros e, dessa forma, restituir à liberdade a jovem ave. Finalmente, após aturado esforço, “o pardal da perna só saltou para o chão, saltou para a borda da vasilha com água e depois elevou-se acima das roseiras, e subiu no ar, entre os seus. Era um entre muitos” (p.23), e o “novelinho cinzento” iniciou assim o seu primeiro grande voo. Surpreendentemente, porém, assistimos, um dia depois, ao seu regresso: “Os dois são livres mas querem estar juntos” (p. 28). É agora a vez de o jovem pássaro revelar ao homem uma outra virtude, que apenas decorre de uma “liberdade positiva”, segundo Isaiah Berlin: a lealdade – que já Platão considerara ser, de entre todos, o valor mais elevado e filosófico.

Deste longo processo de aprendizagem do homem com a natureza, fica a certeza de que só somos realmente livres quando somos nós a fazer as nossas escolhas, a decidir as nossas liberdades. Com a definição de liberdade, fechamos a página vinte e oito com a pergunta, cuja resposta nos é dada ao longo desta conseguida narrativa: “Há lá maior liberdade no Mundo?”.

Ecos de Rousseau associados à fusão idílica do homem com a natureza e a uma certa crença na sua bondade inata são, em suma, algumas das mensagens mais ou menos subliminares que se desenham neste que é o primeiro conto intencionalmente destinado à infância por Lídia Jorge. Um conto bem ilustrado por uma ainda jovem, mas não estreante, ilustradora – Inês de Oliveira, que (afastando-se, cada vez mais, da sua referência tutelar: a austríaca Lisbeth Zwerger) envereda neste livro por uma técnica mista, aguarela e acrílico sobre papel, à qual já recorrera noutras obras. Utilizada timidamente em A Bela e o Monstro (Porto Editora, 2005), de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, esta técnica consolida-se no livro Lendas e Contos Indianos (Ambar, 2006), de José Jorge Letria. O cuidado na composição, a qualidade do desenho e a atenção ao texto são, nesta ilustradora, uma imagem de marca.

Ana Cristina Vasconcelos

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

As narrativas de Ana Luísa Amaral para a infância

Ana Luísa Amaral, poeta e ensaísta de méritos reconhecidos, tem entremeado na sua criação poética contos para a infância, em prosa ou em verso. Os primeiros surgem-nos em Gaspar, o dedo diferente e outras histórias (1.ª ed., Campo das Letras, 1998, ilustrações de Elsa Navarro; 2.ª ed., Civilização, 2011, ilustrações de Abigail Ascenso).

O livro propõe três histórias exemplares, de um fantástico impregnado de animismo infantil (os protagonistas são a pequena Rita e os seus dedos, os animais de uma floresta, uma estrela e um computador), inegavelmente bem escritas e contadas. Reveladoras de sensibilidade humana e poética, destaca-se do conjunto "Gaspar, o dedo diferente", talvez o conto mais conseguido no modo como propõe uma delicada parábola sobre o abandono do egocentrismo, a superação de pequenos medos e a aprendizagem da relação do eu com o outro.

Um outro texto da mesma Autora alude, em filigrana, à criação poética e ao clássico debate sobre a inutilidade ou utilidade da actividade artística e da própria arte. Trata-se de A história da aranha Leopoldina (Porto: Campo das Letras, 2000, ilustrações de Elsa Navarro; 2.ª ed., Civilização, 2010, ilustrações de Raquel Pinheiro), objecto já de uma adaptação teatral pela Companhia de Teatro Assédio. É uma bela composição em verso, a qual, em linguagem figural, ritmada e rimada (que tudo tem a ver com a poesia), oferece um breve relato centrado numa aranha diferente. Uma aranha que luta para afirmar essa diferença, enquanto tecedeira de meias, que não de teias, que é o que fazem as suas semelhantes. Meias inúteis, no universo das aranhas, mas úteis, enquanto objectos de inegável e estranha beleza. Parábola de ressonância autobiográfica – ousaria dizer – sobre as questões de género, sobre a criação artística e sobre a luta pessoal pelo reconhecimento desse trabalho como aparentemente inútil – mas na verdade útil e até essencial a toda a comunidade –, composição em que se descobrem ainda ecos de A cigarra e a formiga, de La Fontaine, e desse clássico do álbum infantil que é Frederico (Lisboa: Kalandraka, 2004), de Leo Lionni, A história da aranha Leopoldina é bem um produto das mãos tecedeiras de uma poeta. E mostra, por outro lado, como, conjugando tradição e modernidade, e recuperando / reinventando certas formas e modalidades textuais que pareciam cristalizadas (neste caso, a vertente épica da poesia, a uma escala infantil), a actual criação poética para crianças não cessa de percorrer, em inteira liberdade criativa, diversos caminhos, não desistindo, assim, de cativar futuros leitores para a poesia dos dias por vir. Uma liberdade, direi ainda, em consonância com a natureza da própria infância, essa «charada de limites ilimitados» (…) «de confins incertos, ampliados pela pequena estatura», como um dia a descreveu a ensaísta e poeta italiana Cristina Campo (2005: 28).

De referir que a 2.ª edição de A história da aranha Leopoldina é acompanhada de um CD com as canções originais e o texto integral da peça contado por Rosa Quiroga.

Ref. bibliográfica

CAMPO, Cristina (2005). Os Imperdoáveis. Lisboa: Assírio & Alvim.

José António Gomes

(NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Homenagem a Matilde Rosa Araújo | Escola Superior de Educação do Porto

A unidade curricular de Prática Instrumental e Vocal II (Música de conjunto), sob a direcção de Graça Mota, a unidade curricular de Literatura para a Infância e Promoção da Leitura, leccionada por José António Gomes, Ana Cristina Macedo e Ana Isabel Pinto, o NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto), os alunos de Educação Musical (2.º ano) e alunos de Educação Básica (3.º ano) promovem, no próximo dia 25 de Janeiro, uma homenagem à escritora Matilde Rosa Araújo (falecida em 2010), figura inesquecível da nossa literatura para crianças.

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A iniciativa consta de um colóquio (16h, Auditório) – em que participam José António Gomes, Ana Margarida Ramos, Sara Reis da Silva, Maria Elisa Sousa, Jorge Alexandre Costa e Ana Cristina Macedo – seguido de uma audição integral de As Cançõezinhas da Tila, de Fernando Lopes-Graça e Matilde Rosa Araújo (18h, Salão de Música), entremeada de leituras e comentário de textos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma Estrela Viaja na Cidade, de Papiniano Carlos e Elsa Lé

A escrita de Papiniano Carlos (n. 1918) sempre se deixou cativar pelo que existe de assombroso na marcha evolutiva do Homem ao longo da História, esse pedregoso caminho que atravessa milénios. Tão antigo que quase se pode dizer ter começado antes da própria Pré-História, antes do Homem ser Homem. Assim se entende a breve alusão ao réptil voador, remoto antepassado do animal humano, que encontramos na abertura do poema dramático Uma Estrela Viaja na Cidade (Porto: Trinta por Uma Linha, 2010). Uma composição que, inicialmente publicada em 1958 1, não como texto para crianças, foi assumida, na presente edição, como obra susceptível de ser lida por esse público e objecto, assim, do necessário enquadramento paratextual: entre outros aspectos, o formato de álbum com capa dura, curtos segmentos de texto por página, em caracteres de razoável tamanho, e imagens a cores assinadas por Elsa Lé, ilustradora de livros infantis.

Constituindo embora o início do livro, a referência ao crocodilo é o desfecho de uma das histórias contadas pela personagem do Poeta e funciona como ponto de arranque para, através de um diálogo entre o Menino, a Jovem, o Jovem, a Mulher, o Velho, um Coro e o próprio Poeta, se percorrer de modo sumário a trilha da humanidade, os seus extraordinários conseguimentos e conquistas que, ao longo dos séculos, foram alternando com os maiores desastres e tragédias colectivos.

O Menino exclamará: «São lindas as tuas histórias, Poeta.». E este responderá: «São a História do Homem.». «A aventura humana…», dirá o Jovem; «A extraordinária viagem…», acrescentará a Jovem. E o Poeta completará a frase: «Que começou no protoplasma, há milhões e milhões de anos… (…) E não acabará tão cedo…».

Assim principia o diálogo que se estende ao longo das páginas deste livro ilustrado em aguarela, cujas imagens procuram acompanhar os picos dramáticos, as cenas mais eufóricas e a atmosfera poética do texto.

Em boa parte escrito em verso, e assumindo a forma de uma pequena peça para representação teatral, Uma Estrela Viaja na Cidade define diferentes dramatis personæ por meio das respectivas falas: o Poeta é o encantador dos outros homens, o desvelador do real, isto é, do que a concretude das coisas não desvenda à primeira vista. E, por isso, se torna personagem perigosa para os que representam o status quo, a opressão, a violência. Com a sua visão do mundo e da História, uma visão sempre lúcida, humanista e poética, o Poeta ajuda os seus semelhantes a sonhar um mundo novo. Um sonho que o Velho, mais pessimista, nunca partilha, até, quase no final e perante a violência, parecer colocar-se ao lado do Poeta, quando este está prestes a ser encarcerado. A visão do futuro repousa, sobretudo, no olhar deslumbrado e nas palavras do Menino; e a determinação em lutar por uma outra cidade anima, em especial, o Jovem e a Jovem. A esta última personagem e à Mulher cabem os discursos de exaltação do amor. Nas vozes de um Coro que comenta as outras falas, ecoam os anseios de quase todas estas personagens, mas emergem também as necessárias explicitações factuais – as estritamente imprescindíveis – para se entender o que está em causa neste breve entrecho. Escutemos um segmento inicial, em que é evocada a gesta do Homem, a um tempo exaltante e trágica:

«POETA – Vocês já sabem, amigos, que as aves fizeram ninho no motor dum avião?

O JOVEM – Veio no Jornal…

VELHO – Eu li.

POETA – Aí está a maravilha, o sinal dos barcos que chegam na aurora…

MULHER – Explica-te.

VELHO – Não entendo.

POETA – Perguntai-o a este menino. (Aponta-o). Tu o sabes,

sim, tu o sabes, que és ainda puro para o entenderes.

MENINO – São os novos tempos que chegam.

POETA – Isso, os tempos cobrindo de primavera a cidade.

VELHO – Odeio a cidade.

MULHER – Amo-a e odeio-a.

MENINO – Eu quero outra cidade.

O JOVEM E A JOVEM (A uma voz) – Queremos outra cidade.

CORO – Outra cidade. Outra cidade.

VELHO – E quando? Quando?

POETA – Os homens construíram a cidade, construíram-na,

ergueram-na sobre os ombros com cimento.

O JOVEM – Ferro…

A JOVEM – Pedra…

MENINO – Flores…

VELHO – Sofrimento inenarrável…

MULHER – Rios de lágrimas…

POETA – E ansiedade sem limites…

VELHO – E para quê? Para quê?

POETA – Construíram-na arrancando as penas das asas

do seu sofrimento, a carne torturada

do seu próprio coração…

VELHO – E para quê? Para quê?

POETA – Ergueram templos…

A JOVEM – Estátuas, pirâmides…

POETA – Construíram portos, estradas, barragens…

O JOVEM – As máquinas…

VELHO – E túmulos para se esconderem da morte…

POETA – Criaram a arte, a filosofia, a ciência.

VELHO – Venceram acaso o sofrimento?

POETA – Lutam contra a morte e o sofrimento,

domesticaram as feras, venceram os monstros.

VELHO – Pobre D. Quixote!

POETA – Eliminaram terríveis micróbios, inventaram a anestesia.

MULHER – O parto sem dor.

O JOVEM – Inventaram o cinema.

A JOVEM – A rádio e a televisão.

VELHO – Os impostos e a lei…

MULHER – A justiça…

POETA – A liberdade…

VELHO – E a opressão.

POETA – Construíram barcos e aeronaves,

dominaram as forças da natureza…

O JOVEM – O fogo…

A JOVEM – A electricidade…

POETA – Cindiram o átomo…

VELHO – Recriaram os infernos…

CORO – A guerra atómica! A guerra atómica!»

É justamente neste passo, e em alusão ao final da Segunda Guerra, que se evocam os terríveis efeitos da bomba nuclear, num segmento de feição mais lírica que traz à memória o célebre «Llanto por Ignacio Sánchez Mejías», de Federico García Lorca, uma das vozes que mais influenciaram poetas da geração de Papiniano Carlos («POETA – Que é feito de Omachi / que estava colhendo flores no seu jardim, / CORO – às 9 e 15 da manhã? / VELHO – Onde foi Iyeyasu que estava matando a fome, / comendo o seu arroz, / CORO – às 9 e 15 da manhã? (…)» ).

Na ilustração de Elsa Lé, a imagem de massacre e destruição encontra correspondência nos tons de cinza do cogumelo nuclear, contrastantes com as cores dominantes do resto do livro e das guardas (vermelhos e rosas em profusão, amarelos e laranjas, roxos e azuis). E, após a referência à crueldade dos Homens (escravização, assassinatos, destruição d’«as vozes do amor e da esperança»…), surge no texto, com naturalidade, a nomeação da figura de Cristo, não uma menção beata, hipócrita ou mesmo metafísica, mas sim a recordação de um d’«aqueles que têm ajudado a semear a primavera no coração dos homens». Uma alusão que opta, e bem, pela moldura poética e intertextual, parafraseando o famoso «Hino de amor» (um poema para crianças) de João de Deus, incluído na sua não menos famosa Cartilha Maternal, de 1885.

Às disfóricas representações da morte e da guerra (a composição de Papiniano Carlos afirma-se também como um manifesto poético em prol da paz) sucedem-se, no livro, as eufóricas imagens do amor e da fecundidade da mulher (veja-se a décima primeira ilustração de Elsa Lé) como garante de um futuro para a humanidade («Através de vós, frágeis mulheres, viajam os barcos do futuro. A cidade constrói-se no fundo de cada um de nós, mas sobretudo, no mais fundo do vosso ventre.» – dirá, a dado momento, o Poeta).

Ora o amor, bem como a esperança, logo a seguir convocada pelo Coro, revelam-se perigosos para quem os encara como pilares do que de melhor existe na condição humana. Daí a surgirem os «homens de rosto metálico» (também eles marcados pelo tom cinza), que nos trazem à memória todas as polícias políticas de má memória, é um ápice. Mas, de imediato também, a prisão do Poeta convoca a solidariedade de todos os que antes dialogavam com ele e, com ele, aprendiam a sonhar um mundo melhor. E, nesse preciso instante, o céu da cidade é atravessado por uma estrela em viagem (símbolo eufórico de uma radical mudança no curso das coisas), como que vigiando o destino dos cidadãos, provocando um «clarão espantoso» e, finalmente, a fuga dos «homens de rosto metálico».

Num texto em que são detectáveis elementos temáticos, ideológicos e estilísticos próprios do Neo-realismo, pontuado pela exclamação e por expressivas metáforas e símbolos, cujo alcance é potenciado pela policromia das ilustrações (os «barcos» representam, como as próprias palavras do Menino e do Poeta evidenciam, «os novos tempos que chegam», os tempos «cobrindo de primavera a cidade»), a mencionada estrela, que ilumina o lugar dos homens, surge como um elemento simbólico mais. E os sentidos inerentes ao seu aparecimento no espaço dramático são desvendados, até certo ponto, pelas próprias falas das personagens: «A JOVEM – Olhai! Olhai! Esta árvore está toda florida! // POETA – É a primavera que chega… // CORO – A primavera! A primavera! // POETA – Nas árvores, na cidade e no coração dos homens.»

Vivemos tempos de negrume económico e social, em que os sinais de retrocesso civilizacional afectam, cada vez mais, as pessoas de bem, as que apenas sabem e podem viver do seu trabalho; são dias também de militarismo, de guerra no Afeganistão, no Iraque, na Palestina, em África, dias em que importa manter viva a lucidez, a esperança, certa atitude de ruptura, buscando um rumo radicalmente diferente daquele para onde nos querem empurrar. É, por isso, que o livro Uma Estrela Viaja na Cidade ganhou particular actualidade. Muito gostaria, pois, de o ver lido e representado em muitas e muitas escolas deste país.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Nota

1 A obra foi primeiramente editada numa separata da revista literária Bandarra, cuja publicação foi iniciada em 1953 e teve direcção de António Navarro e, depois, de António Rebordão Navarro.

Procurando enquadrar periodologicamente Uma Estrela Viaja na Cidade, recordo as palavras de Miguel Falcão a propósito desta obra e de outras igualmente representativas da literatura dramática neo-realista: «Embora, na opinião de alguns estudiosos do Neo-Realismo, os anos 50 (sobretudo a sua última metade) correspondam já à “agonia” do Movimento, o historiador de teatro José Oliveira Barata não hesita em afirmar que é nessa década, precisamente, que se verifica a sua “principal produção” dramática (1999: 17n). Às obras (…) [de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Luís Francisco Rebello, Romeu Correia, Mário Braga, etc.], acrescentamos as peças de outras figuras do Movimento que se destacaram no romance ou na poesia, mas que também experimentaram a escrita dramática, entre as quais: A salva de prata (1950) e, já na década seguinte, O homem da cadeira de rodas (1968) de Sidónio Muralha; Sombras (1951) de Correia Alves; e Uma estrela viaja na cidade (1958) de Papiniano Carlos.» (Miguel Falcão. «A atracção multiforme pela cena», in Batalha pelo conteúdo: Movimento Neo-Realista Português. Livro/Catálogo de Exposição Documental. Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo, Outubro de 2007, pp. 220-243 (disponível em http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:qk_9DwTHzfIJ:www.fl.ul.pt/centros_invst/teatro/pagina/Publicacoes/artigos2008/miguel%2520falcao.htm+%22Uma+Estrela+Viaja+na+Cidade%22&cd=28&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt (acedido em 7-1-2011).)