terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Cavalinho de Pau do Menino Jesus e outros contos de Natal, de M. António Pina e Inês do Carmo – Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância

Ao conto “O cavalinho de pau do Menino Jesus” – originalmente editado, em 2004, pelo jornal Expresso, numa pequena colecção de três volumes, com uma componente visual muito apelativa da autoria de Danuta Wojciechowska – juntam-se, nesta obra de Manuel António Pina (MAP), ilustrada por Inês do Carmo, as narrativas “O sorriso” e “Mais depressa, Reis Magos, mais depressa!”.

No primeiro texto referido, “O cavalinho de pau do Menino Jesus”, convivem, num mesmo espaço ficcional, o Pai Natal e o Menino Jesus. Elidindo-se as fronteiras entre o universo cristão e o universo pagão e aproximando-se dois tempos distantes, conta-se, aqui, sempre num registo vivo e frequentemente dialógico, os preparativos, a viagem e a chegada do Pai Natal a Belém, depois de longas horas de trenó desde o Pólo Norte até ao estábulo onde nasceu o Menino Jesus, aludindo-se, ainda, sem apagar o seu natural dramatismo, ao desfecho da sua vida. A associação do Menino Jesus ao universo da infância e ao seu natural gosto infantil pelos brinquedos, desde logo, sugeridos pelo título, representa um dos aspectos mais atractivos do ponto de vista da recepção infantil deste texto. Numa apelativa construção literária de carácter lúdico, marcada por ecos de textos tão variados como o Evangelho ou o poema «Twas the night before Christmas», escrito, em 1822, por Clement Clark Moore, MAP dessacraliza figuras e episódios e, inventando gestos e situações católica ou biblicamente erradas, diverte o leitor.

No segundo conto mencionado, que se intitula “O sorriso” e é o primeiro da colectânea, o Menino Jesus ainda se encontra dentro da barriga da mãe, centrando-se o discurso nas próprias sensações, impressões e dúvidas do Deus-Menino. A humanização das figuras bíblicas e, em particular, a densidade psicológica que os dilemas confessados pelo Menino Jesus deixam pressentir fazem desta narrativa, cremos, uma das mais tocantes do universo literário português de destinatário preferencial infanto-juvenil. Um dos textos mais geniais de MAP, este conto confirma exemplarmente o carácter imaginativo e independente deste autor, já anunciado, aliás, em textos como “O menino Jesus não quer ser Deus”, presente em O País das Pessoas de Pernas para o Ar (1973).

A terceira narrativa que integra a colectânea, sendo protagonizada pelos Reis Magos, acompanhados pelas Rainhas Magas, desenvolve-se em torno do nascimento de Jesus. Este acontecimento é anunciado pela Estrela de Belém que se desloca à “Arábia Feliz” e, depois de uma espera quase desesperada, acaba por acompanhar os três (atrasados) Reis Magos até ao estábulo, já no dia de ano novo. No fundamental, o humor, frequentemente de raiz nonsensical, estrutura-se a partir da recriação dessacralizadora dos comportamentos das personagens ou, por outras palavras, na atribuição de certas características perfeitamente humanas e algumas, até, a reflectirem determinadas marcas de contemporaneidade. Recorde-se, por exemplo, que a “Estrela de Belém estava irritadísssima, farta de esperar. Ainda por cima tinha chegado o Dia de Ano Novo e o barulho era tal em toda a cidade, com fogo-de-artifício por todo o lado e gente a atirar latas e panelas para a rua, que a Estrela, muito aborrecida, quando os Reis Magos finalmente chegaram ao Palácio, os repreendeu...” (Pina, 2009: 17). Atente-se também no facto dos Reis Magos, já pais de “Principezinhos Magos”, serem casados com as Rainhas Magas e de estas também quererem ir adorar o Menino Jesus, tencionando levar-lhe “Uma (...) um bibe de seda, outra um guizo de prata e a terceira uma caixa de música com canções de Natal.” (idem, ibidem). Mesmo a figura bíblica da Nossa Senhora é alvo de um tratamento manifestamente inesperado: “(...) Nossa Senhora fitou-os com severidade: ‘Já estamos a 6 de Janeiro, viestes muito atrasados. Temos estado à vossa espera desde o Dia de Natal, pois estava escrito que viríeis nesse dia. Por pouco já não teríamos tempo de fugir para o Egipto.’” (idem, ibidem).

O efeito cómico deste conto surge reforçado ainda, de forma determinante, pelo uso insistente e muito pessoal da maiusculização de um número elevado de vocábulos e de expressões, criando-se, quanto a este aspecto, uma espécie de norma gramatical muito própria, como se verifica em “Piquenique”, “Escudeiro Mago”, “Caixa de Magia”,”Hipóteses”, “Florestas e Oásis”, “Alimentos”, “Outro Caminho”, entre outros.

Carla Maia de Almeida, que declara num atento post do seu blog, “Jardim Assombrado”, dedicado a este último livro de MAP, «A eleger um livro infantil do Natal de 2009, só pode ser este: O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal», conclui «E se algum leitor considera isto [tudo, ou melhor, «essa história de um Menino Jesus inventado no Céu, nascido de uma mulher que "não tinha amado antes de o ter", como diz o poema de Alberto Caeiro, é a coisa mais triste que há»] uma heresia, é melhor passar ao lado do livro.». E, na verdade, importa sublinhar que estes três textos, com temática natalícia, mas aqui redimensionada segundo o estilo do autor, se estruturam sob o signo da paródia, substantivando, assim, um recurso paradigmático muito frequente na literatura pós-moderna. Tendo como ponto de partida a intertextualidade, a deformação criativa de um texto preexistente (principal proposição inerente à paródia enunciada por Carlos Ceia, no E-Dicionário de Termos Literários), neste caso concreto, do texto bíblico, facilmente um objecto tido como historicamente modelar (na acepção do mesmo estudioso), alimenta a escrita dos textos da colectânea em divulgação, sendo, por vezes, alvo de uma salutar ironia e de uma contagiante criatividade, sustentadas por uma “liberdade livre”.

As ilustrações, em tons fortes e contrastantes, procuram seguir de perto o texto verbal, ainda que nem sempre com a eficácia e a coerência esperadas (veja-se, por exemplo, a recriação icónica discrepante do “cavalo de pau de crina dourada e arreios vermelhos”). Além disso, o discurso visual, apesar de ensaiar a representação dos momentos nucleares da acção e das personagens principais, carece, em certos momentos, de perspectiva, aspecto que, em determinados casos, é superado pelos jogos de luz e sombra, bem como de texturas. Genericamente feliz do ponto de vista da materialização pictórica de algumas das temáticas mais relevantes dos textos de MAP – por exemplo, o Natal, a infância, o amor ou a maternidade –, a componente ilustrativa parece, porém, “abstrair-se” do humor subtil e da intencionalidade subversiva que distinguem estas narrativas e que representam, aliás, dois dos traços mais singularizadores da produção literária do autor em causa.

Referência bibliográfica

PINA, Manuel António (2009). O Cavalinho de Pau do Menino Jesus e outros contos de Natal (ilustrações de Inês do Carmo). Porto: Porto Editora.

Sara Reis da Silva

(Universidade do Minho | Membro associado do NELA - Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Inicialmente publicado em Malasartes, n.º 19, Abril 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Mamã Pôs um Ovo, de Babette Cole

Conhecíamo-la de alguns álbuns ingleses de humor irresistível, como The Trouble with Gran (1987), The Trouble with Grandad (1988), e de outros mais antigos, em tempos publicados pela Sá da Costa. Por isso, é bom ver Babette Cole editada em português, no seu suporte de eleição: o álbum para crianças nas primeiras idades. Em A Mamã Pôs um Ovo (Terramar, 1997), o texto é escasso, já que a ilustração diz quase tudo, num registo caricatural, de um humor um pouco selvagem a lembrar o "cartoon" – e com alguns olhares cúmplices dirigidos ao adulto.

Duas crianças riem-se de uma lição sobre sexualidade e reprodução, dada pelos pais de modo ridiculamente fantasista e pretensamente pedagógico. A opção dos mais pequenos é, então, explicar tudo, em termos realistas e descontraídos: "Pensamos que vocês não sabem como é que realmente se faz um bebé. Portanto, vamos fazer uns desenhos para vos mostrar como é!" Infantis, os desenhos são elucidativos. E – podemos garantir – sem pouparem no pormenor.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Celine, de Brock Cole

Brock Cole, o autor de Celine (Caminho, 1993; col. "Caminho Jovens", trad. de Vitória Cortes, 244 págs.), nasce numa pequena cidade do Michigan em 1938. Doutorado em Filosofia, ensina, durante vários anos, na Universidade de Wisconsin, iniciando, em 1975, uma carreira de autor de livros para crianças que, em 1989, passa pela publicação da obra que constitui objecto deste comentário.

Para rapidamente se ter uma ideia do seu conteúdo, digamos que algo nela nos traz à memória um filme de Woody Allen que tivesse por narrador-protagonista a jovem de 16 anos cujo nome é adoptado como título do livro. No discurso entrelaçam-se a ironia, o humor e a amargura, numa narrativa de registo realista que é também uma pequena lição de escrita romanesca, por vezes, quase cinematográfica.

Como acontece, com frequência, no romance juvenil contemporâneo, a personagem principal, adolescente, encontra-se no centro de um conflito (neste caso mais do que um) cuja origem tem que ver com o abandono forçado da situação parental tradicional e com a adaptação, difícil, a uma insólita recomposição do núcleo familiar. Divorciado, o pai da protagonista está ausente, dando conferências na Europa. A mãe encontra-se no Brasil, trabalhando para uma organização governamental americana. Celine fica entregue a Catherine, a madrasta, seis anos mais velha do que ela. Na vaga esperança de uma curta aventura com o seu professor de arte, Catherine ausenta-se da cidade para assistir a uma conferência sobre psicologia educativa.

Como se tudo isto não bastasse, a protagonista é apanhada no meio de uma outra quezília, a da vizinha com o seu ex-marido, cuja vítima directa é Jacob, o filho de ambos. Em consequência dos egoísmos e distracções dos adultos, tão frequentes ao longo do enredo, o pequeno Jake fica, por alguns dias, à guarda de Celine. Embora em níveis diferentes, ambas as personagens são, até certo ponto, o espelho uma da outra, crescendo entre as duas uma relação de cúmplice amizade. Disto vai ganhando consciência a jovem heroína, perdida num turbilhão de sentimentos contraditórios acerca do mundo adulto, dos seus confusos e dolorosos jogos afectivos, das suas preocupações com uma carreira, das suas pequenas traições inconfessáveis.

Exemplo do vazio afectivo em que Celine se vê imersa, nesse momento crucial do seu crescimento, é uma passagem de um diálogo com Catherine, onde não é difícil adivinhar, por trás da ironia, uma amargura mal contida. Aí, a palavra "vigilância" admite sentidos claramente relacionados com a necessidade de afecto e atenção: "Preciso de vigilância. A gente da minha idade precisa de vigilância quase constante. Toda a gente sabe isso. Somos um monte de hormonas enraivecidas. O que é que o meu pai vai dizer quando voltar e souber que foste passar o fim-de-semana fora e me deixaste sozinha?" (p. 157).

Celine procura organizar e afirmar o seu ego, gerindo, de modo complicado, as suas inclinações afectivas e sexuais, as suas ambições artísticas e o despontar dos seus instintos maternais, sob a pressão de uma escola mergulhada, ela também, em insuperáveis contradições internas. Neste quadro, o seu discurso converte-se num comentário irónico, por vezes amargo, que tem como objecto esse teatro de sentimentos onde os adultos se tornam de repente frágeis e dignos de pena, incapazes de se impor, como modelos credíveis, em relação àqueles que constroem ainda a sua identidade. Daí que, num tom que tem tanto de humorístico como de pungente, Celine possa afirmar, quase no final: "Olhando para leste, do outro lado do lago, vê-se um brilho no céu. Ou é o Sol a nascer ou o fim do mundo. O meu pai anda por lá, algures. Provavelmente a fazer as malas num hotel de Frankfurt ou a saltar do passeio, debaixo de chuva, para chamar um táxi. E Mrs. Barker (a mãe de Jake) também anda por qualquer lado, fazendo telefonemas, escrevendo memorandos e dando explicações, vestindo o casaco e pondo o chapéu. É tudo muito reconfortante, a sério. Aposto que até a Catherine vem a caminho de casa, o narizito espetado por fora da gola do casaco, enquanto contempla a paisagem cinzenta pela janela da camioneta. Andam todos por lá, correndo para casa a fim de salvar as crianças. Vão chegar cansados e cheios de fome. Pergunto-me se não deveria fazer uns bolinhos." (p. 226).

História a um tempo densa e divertida, com um narrador notável de lucidez, humor e ironia, Celine confirma, uma vez mais, a "Caminho Jovens" como a melhor colecção de romances juvenis que em Portugal se editou nos anos 80 e 90 do século XX, graças à sábia selecção do editor José Oliveira.

Obra dirigida a adolescentes e a jovens adultos, Celine, acrescente-se, integra as listas do Plano Nacional de Leitura. Ainda bem que assim é.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 25 de julho de 2010

Ilse Losa e O Senhor Pechincha

Se algum dia nos fosse dado organizar uma antologia de contos portugueses para crianças da segunda metade do século XX, seria difícil resistir a nela integrar a primeira das duas histórias que compõem o volume O Senhor Pechincha, a qual, em tempos, deu pelo título de Mosquito e o Senhor Pechincha – por exemplo na velha edição de 1973, da Inova, com belas ilustrações a preto e branco de Júlio Resende, onde este conto ombreia com algumas das melhores narrativas de Ilse Losa, sob o título de Um Fidalgo de Pernas Curtas e Outras Histórias.

Merece, pois, apreço a reedição, em 1993, de O Senhor Pechincha (Porto: Afrontamento), quer pela nova roupagem que lhe é dada pelas ilustrações de António Lucena (um dos pseudónimos do pintor António Quadros que, na escrita, dava pelo nome de João Pedro Grabato Dias), quer pela companhia da história divertida do irreverente Bonifácio (a segunda do livro, inicialmente editada, em 1980, por Livros Horizonte, sob o título Bonifácio, com ilustrações do cartoonista Miranda). Este conto dá a conhecer um papagaio invulgar que, começando por ser bicho doméstico e acarinhado, terminou exibindo a sua incomodativa arte de imitar buzinas e autoclismos num hipermercado, um desses lugares que, nas palavras do narrador, «talvez sejam grandiosos, não sei bem, mas são lugares tristes para lá se passar a vida» (p. 47).

Não é difícil que ocorra o termo «realismo», quando nos dispomos a falar da maioria das narrativas infantis de Ilse Losa (que, diga-se de passagem, não ficou imune à influência neo-realista). Talvez por isso, esses contos possuam o condão de simultaneamente inquietar e cativar os seus pequenos leitores, como, por várias vezes, tivemos ocasião de comprovar. Com o seu final aberto e ambíguo, recusando moralismos fáceis, O Senhor Pechincha é justamente um desses casos.

Com acção situada numa pequena povoação do litoral nortenho, num quadro social de pobreza e fome (a qual determina boa parte da actuação de um dos protagonistas: o senhor Pechincha), a história expõe-nos a situação de Mosquito, criança de cinco anos iludida por um esfomeado vendedor de pequenos nadas. O terceiro protagonista é o pai da criança. Habitam ambos um casebre nas dunas e vivem da apanha do sargaço. Na ausência do pai, o vendedor ambulante abandona nas mãos do menino, como penhor, a mala com todos os seus «artigos». Recebe a única nota de cinco contos (cem escudos nas edições mais antigas do livro) de que a família dispunha até ao final do mês e, a pretexto de arranjar troco (uma vez que convencera Mosquito a comprar-lhe um pequeno brinquedo), dirige-se para a vila, onde não resiste a gastar boa parte do que recebera num duplo jantar. O resto da narrativa conta o reencontro das personagens, a recuperação de parte do dinheiro, as moderadas recriminações do pai de Mosquito e a compreensão deste último em relação às carências do vendedor ambulante.

Pechincha revela-se, desde o início, como uma figura ambígua. Misto de vagabundo e de sonhador, a sua fome e desespero são os limites da sua honestidade. O final da história deixa, portanto, o leitor na incerta esperança do cumprimento de uma promessa: o regresso deste vendedor de sonhos com o dinheiro em dívida.

Sábio doseador dos efeitos da sua narrativa, o narrador quase se limita a expor, a retratar com certo rigor um quadro humano e social, evitando toda e qualquer tentação judicativa. Ao leitor é dada a liberdade de imaginar e, eventualmente, julgar pelos seus próprios meios, não sem antes lhe ser dada a oportunidade de perceber as motivações da acção humana. Uma acção que surge, neste caso, condicionada por sonhos, frustrações e carências que relevam do social, mas também do afectivo, e que podem suscitar interrogações e curiosas discussões entre leitores de 8 a 11 anos.

António Torrado 1 descreveu bem a prosa da autora, ao afirmar: «Ilse Losa não nasceu na nossa língua, mas foi na nossa língua que se afirmou como escritora. Pródiga transfusão para ambas as partes! No trânsito da língua veicular à íntima união com a escritora, a estrutura linguística adquiriu uma modulação frásica irreproduzível por outra pena.» E acrescenta: «Nas histórias de Ilse, há uma serenidade narrativa de linha de horizonte. As histórias fluem, crescem, acrescentam-se pela vontade própria do acto de contar. Não trazem recados extra, de moral mais ou menos perfilada, nem se ademanam, buscando adular o público a que prioritariamente se destinam.»

Este parece ser o estilo de narração capaz de traduzir as preocupações de uma autora que, em crónica antiga 2, publicada no Diário de Notícias, ao comentar Rosa Bianca, de Roberto Innocenti, escrevia estas palavras de indesmentível lucidez: «Provavelmente é pretensão do adulto supor que as crianças querem saber unicamente de histórias que as divertem. Não é o caso, porque elas vivem os seus próprios dramas e, por vezes, bem dolorosos. O que não quer dizer que deixemos de as transportar para o reino da fantasia e dos sonhos, da diversão e do humor. Elas têm espaço em si para assimilar os vários aspectos do mundo e da vida. Confrontá-las com os grandes males talvez as motive, desde cedo, a combatê-los mais tarde.»

Notas

1 António Torrado (1990). O Bosque Mínimo, Lisboa: Instituto de Apoio à Criança, p. 26.

2 Ilse Losa (1986). «Contar ou ocultar?», Diário de Notícias, 4 de Novembro.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo (1921-2010) – Para uma fada chamada Matilde

Conheci pessoalmente Matilde Rosa Araújo em 1989, em Lisboa, na sessão de lançamento desse belo romance juvenil que é Os Olhos de Ana Marta, de Alice Vieira. A cave da Livraria Barata era pequena para albergar tanta gente conhecida e menos conhecida, todos amigos da autora de Rosa Minha Irmã Rosa. Começara, há pouco tempo, a publicar recensões críticas sobre literatura para crianças e a Caminho convidara-me por isso a apresentar o livro. Estávamos em vésperas do Natal, o frio era cortante, eu andava sufocado de trabalho e o meu texto acabou de se escrever no automóvel, em plena A1, sentido Porto-Lisboa, ao lado de uma motorista simpática e que sabe compreender, quase sempre, o meu silêncio nervoso e a minha fleuma de futuro cardíaco. Lembro-me que um dos «meus» poetas, o grego Iannis Ritsos, havia morrido dias antes e entendi por bem homenageá-lo, integrando, no texto de apresentação, um dos seus pungentes poemas sobre as crianças mortas – já que me parecia especialmente talhado para fazer entender, de modo mais intenso, a dor das personagens de Alice Vieira.

Foi nesse dia que conheci o José Oliveira. No fim do discurso, Dias Lourenço veio felicitar-me pela «bela peça literária» que eu acabava de ler (sempre foi um homem por de mais generoso...). A Matilde não. A Matilde acercou-se de mim e sussurrou-me ao ouvido que gostara da minha voz (apresso-me a informar que, nessa altura, eu não fumava). Conversámos um pouco e eu disse-lhe que estava a escrever parte de uma tese sobre a sua obra. Os olhos sorriram-se-lhe, naquele peculiar jeito de exprimir gratidão de que só ela era dona e senhora. Marcámos um encontro para mais tarde e partiu, cada um de nós, para o seu Natal.

Meses depois, reencontrei-a em Santarém, num colóquio, e percebi que, discretamente, quase a pedir desculpa, Matilde viajara para me ouvir falar da sua escrita. Pude conhecer, então, uma faceta insuspeitada do seu carácter. Não hesitou, nunca, em acompanhar o nosso grupo de aprendizes de conferencistas, nas andanças sociais e nas conversas intermináveis com que costumávamos encher as horas (à medida que íamos esvaziando os copos), quando a ocasião era propícia. Se juventude ali havia, era a dela. A aparente fragilidade escondia, de facto, energia interior e uma capacidade de comoção com a vida indissociável de uma fina ironia e de um sentido de humor com que, não poucas vezes, nos surpreendia.

Descobri ainda que falar com Matilde significava ter a oportunidade de rememorar figuras relevantes da nossa vida cultural das seis últimas décadas. Pelas suas palavras comovidas perpassavam, constantemente, vultos que nos habituámos a venerar, gente que fez parte do círculo afectivo desta Senhora que sabia, como poucos, cultivar aquele princípio, que era apanágio da arte e da vida de Antoine de Saint-Exupéry: «Só há um luxo verdadeiro: o das relações humanas». Irene Lisboa, Lopes Graça, Sebastião da Gama, Jacinto do Prado Coelho, Torga, Maria Keil eram apenas alguns dos nomes que afluíam, com frequência, à memória de Matilde, que parecia ter nascido para dar graças por existir e por ter encontrado um mundo povoado de Amigos.

Alguns meses decorridos, já na recta final da minha dissertação, tivemos, enfim, ocasião de conversar mais longamente sobre a vida e a escrita, folhear os seus álbuns de recordações, com um gravador por perto, respirar o silêncio povoado da sua casa de poeta, numa rua do centro da capital. Tudo se passou numa daquelas tardes de sol e azul de que só Lisboa detém o segredo.

Não me lembro se a rua onde ela morava era ruidosa. Naquele dia, seguramente não o era. Não sei se a sombra das árvores acariciava a sua janela. Naquele dia, seguramente acariciava. Não sei se os pássaros vinham pousar nos ramos dessas árvores. Naquele dia, seguramente vieram. Não sei se se ouviam risos de crianças. Daquele dia, guardo a memória de os ter ouvido. Era, pois, com toda a certeza, uma casa de poeta, numa tarde de poeta. E eu sorria para mim ao ouvir-lhe negar, com um olhar meio sério, meio maroto, que a Tila dos seus primeiros livros fosse uma projecção autobiográfica da jovem Matilde – essa Tila franciscana que falava com os animais e as plantas, e conversava com a pobre gente de Lisboa: o caixeiro, a lavadeira, o varredor do jardim, o vendedor de castanhas. A Tila que dialogava com a mãe, enamorada da sua beleza, ou confidenciando-lhe os estremecimentos dos seus primeiros amores de menina.

Pelo fim da tarde, descemos as escadas, abandonámos aquela sala povoada de rostos e objectos tocados pelo afecto, mergulhada numa acolhedora semi-obscuridade. À porta, estava tão ocupado com o fio da conversa, com o agradecer-lhe e desejar-lhe felicidade, que não reparei, como ela reparou, numa criança descendo a rua, de mão dada com a mãe, que reteve, com a sua graça de menino, o menino olhar de Matilde, sempre atento ao mais ínfimo pulsar da vida – como, de resto, podemos comprovar, lendo os seus versos.

Depois dessa tarde, continuámos a dialogar. Sempre. Por carta, por telefone, nas muitas vezes em que nos encontrámos e partilhámos alegrias ou sombras. E a sua voz, falada ou escrita, soube invariavelmente trazer-me as palavras que eu precisava de ouvir, sobretudo nos momentos mais ásperos da minha vida. Por isso lhe estou grato. E também por me ter ensinado duas coisas: a tomar o sabor, vagarosamente, à mais pequena palavra de cada texto, e a descobrir que ela, Matilde, fazia afinal parte da minha família de poetas.

Ao pensar no primeiro destes ensinamentos, ou seja, ao recordar as diversas vezes em que ouvi Matilde ler em voz alta, em público (na Gulbenkian, na homenagem em Gaia a Maria Alberta Menéres ou noutros locais...), vêm-me à memória uns versos do poeta galego Manuel Maria: «Algum dia viste o mar / com seus roncos e furores, / suas espumas de prata, / seus barcos e pescadores? / (...) Algum dia viste o mar? / Que sabes da sua espuma? / Se tu nunca viste o mar, / Não viste coisa nenhuma!» O que quero, no fim de contas, dizer é que quem nunca ouviu Matilde ler um texto em voz alta, não ouviu coisa nenhuma. E ainda: que devo à sua leitura oral o ter compreendido a verdadeira respiração da sua escrita, o segredo da sua delicada dicção, o peso de cada palavra nas frases de aparência simples que construía. Em suma, o seu estilo quase minimal. Os contos de Matilde foram escritos para ser lidos em voz alta, pausadamente, tentando conservar o halo que envolve cada um dos pequenos segmentos frásicos que os compõem, como se, no seu texto, empreendêssemos uma viagem até aos primórdios de cada palavra, para, enfim, a olharmos, pura, no seu casulo original.

Quando penso nos poetas «da minha família», de imediato me vêm à mente alguns nomes: Paul Celan, Cavafis, Octavio Paz, Lawrence Ferlinghetti, Carlos de Oliveira, Herberto Hélder, o António Ramos Rosa do Ciclo do Cavalo, que sei eu?... Perante tais nomes, poderia parecer estranho que a Matilde fizesse parte da «família». Só que estes pertencem ao seu ramo paterno. E há, naturalmente, um lado materno, decididamente menos obscuro e visceral.

Seria, então, forçado a citar outras vozes. Aquelas cuja aparente inocência me fascina. Aquelas cuja poesia é uma espécie de água corrente que me conduz, por vezes, ao reino dos amores límpidos, das coisas breves e leves (que em nada se confundem com o que é da ordem do superficial) e dos sentimentos ainda nomeáveis, sejam eles eufóricos ou disfóricos. Chego, então, a outros nomes e outras poéticas: às cantigas de amigo e ao cancioneiro popular, e também a um certo Lorca, a Saul Dias, a Sebastião da Gama… a Matilde Rosa Araújo. Poetas que aprecio, não sei bem dizer porquê. Talvez por neles entrever algo de comum e que me é caro: o dom de me conduzirem a uma espécie de ingénuo universo mítico da poesia, que encontra paralelo nos desenhos de Lorca, de Júlio e do seu mestre Chagall, ou em algumas ilustrações de Maria Keil (a grande cúmplice de Matilde, em numerosos livros).

(Um parêntesis: nestas listas, terei de incluir a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen – mas essa está demasiado próxima dos deuses e do intangível, para que eu possa, sem hesitações, trazê-la para o lado paterno ou materno da minha família de poetas. Digamos que a colocaria ao centro, na certeza de que se ousasse olhá-la de frente, queimaria as pupilas com o seu esplendor.)

Este discurso contaminado pelo afecto e pela saudade, dificilmente defensável enquanto modelo de clareza, serve também para tentar justificar (aqui, onde os teóricos e os críticos não me podem ouvir), a atracção por certas vozes que pertencem ao lado materno da minha família de poetas. Para mim, a escrita de Matilde Rosa Araújo habita esse espaço. Por isso continuarei a ler os seus contos e poemas. Sem preconceitos, devagarosamente, ora tomando o peso a cada palavra, como se tivesse sido pronunciada pela vez primeira, ora ouvindo ecoar nos seus versos antiquíssimas canções populares.

Obrigado, querida Matilde, por continuar a existir em mim e pelo muito que me deu: os seus livros e a sua infinita bondade.

José António Gomes

NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010): A Maior Flor do Mundo

Saramago deixou-nos um conto susceptível de ser lido como história para crianças e que foi magnificamente ilustrado por João Caetano, num álbum publicado pela Editorial Caminho.

Na Galiza, produziu-se e realizou-se um belo filme de animação baseado neste conto.

Aí fica o link – modesta forma de homenagear o grande escritor português que hoje nos deixou.

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http://www.youtube.com/watch?v=HcDaT03y2no

domingo, 6 de junho de 2010

Malasartes 19 já em distribuição

Eis algumas perguntas que poderíamos fazer a pais de filhos pré-adolescentes e adolescentes:

Conhece Alice Vieira? Os seus filhos terão lido Rosa, Minha Irmã Rosa, Viagem à Roda do Meu Nome ou Um Fio de Fumo nos Confins do Mar? Conhecem Álvaro Magalhães? Terão lido O Último Grimm, Guardado no Coração ou O Limpa-Palavras e Outros Poemas? E Manuel António Pina? Conhecem Os Piratas? Já ouviram falar dos livros de Ana Saldanha (por exemplo, Para Maiores de Dezasseis) ou do Diário de Sofia e C.ª (aos 15 anos), de Luísa Ducla Soares? E de Uri Orlev? Terão lido A Ilha na Rua dos Pássaros? Terão ouvido referências a Katherine Paterson e ao seu romance Lídia? E a Agustín Fernández Paz e aos seus livros O Laboratório do Dr. Nogueira ou O Centro do Labirinto? Experimentaram ler a série «Harry Potter», de J. K. Rowling? Ou os livros de David Almond? Já agora, e falando de clássicos, conhecerão A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson ou As Aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain?

A lista poderia ser muito maior. Falamos, como é óbvio, da chamada literatura juvenil, livros de ficção para pré-adolescentes e adolescentes, que, não raro, tematizam questões e problemas que aos jovens se colocam. Livros, em suma, destinados àquela faixa etária que, muitas vezes, após um período de convívio gratificante com os livros – entre os 3 e o 10 anos –, abandonam a leitura. Ou, pelo menos, dela se desinteressam durante um certo tempo, dado o peso que diversos factores psicossociais e fisiológicos têm na vida dos adolescentes. Nem todos, porém, deixam de ler. Outros regressam mais tarde ao convívio com os livros, pois não chegaram a perder a noção da importância que a leitura pode ter nas suas vidas. Saltam então, de imediato, para a literatura «para adultos», o que é encorajador. E bem andaríamos, também, se os próprios pais perdessem (ou ganhassem?) algum tempo a ler estas obras para jovens, bem como os livros recomendados pela Escola.

Neste número de Malasartes, reserva-se algum espaço à literatura juvenil: à grande escritora sueca Maria Gripe – será mesmo um exemplo de literatura para jovens? –, a An Alfaya e Agustín Fernández Paz e a mais alguns autores considerados na secção de recensões críticas de livros galegos. E, pelo seu indesmentível sucesso editorial (reclamando, por isso, um olhar analítico), focaliza-se, também, a colecção «Profissão adolescente», de Maria Teresa Maia Gonzalez, pese embora alguma reserva com que a crítica por vezes a tem encarado.

Hoje sobretudo conhecido por adolescentes e adultos – quando lido – é o díptico Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho. Muitos acorreram já às salas de cinema, tentando não perder a recente recriação cinematográfica destas obras. Mas irão ler os textos de Lewis Carroll? Só por si esta questão reclama um olhar crítico sobre a Alice de Tim Burton – um dos destaques do presente número da revista.

Os perfis da ilustradora Inês Oliveira e da escritora Ana María Fernández, a literatura dramática de João Paulo Seara Cardoso e a poesia de Nicolás Guillén para crianças, a par das habituais secções de Práticas e de leitura crítica de obras portuguesas, galegas e brasileiras constituem outros motivos de interesse deste número.

domingo, 23 de maio de 2010

António Modesto: uma introdução (a propósito da exposição de originais patente na Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia)

Quantas vezes tem sido citada a célebre interrogação de Alice que precede a sua entrada no País das Maravilhas: «Para que é que serve um livro sem desenhos nem conversas?» (Carroll, 1970: 25, trad. minha)? Sempre que nela tropeçamos, a pergunta vem recordar que, já no século XIX, a questão era pertinente: pode um livro para crianças impor-se sem ilustração? 1

Antes ainda de aprenderem a ler, é pela imagem que as crianças têm o primeiro convívio com o livro. Em relação às que já lêem, um rápido folhear para observar as ilustrações antecipa-se à entrega ao texto; em simultâneo, e a partir desse elemento paratextual, vai surgindo a primeira formulação de hipóteses sobre o conteúdo da narrativa, se é o caso. Convirá, por outro lado, lembrar que a escrita nunca esteve dissociada da imagem, da qual descende. E, como se pode ler em La Littérature d’Enfance et de Jeunesse: État des lieux, de Denise Escarpit e M. Vagné-Lebas (1988), a imagem é uma expressão mais imediata que o escrito, bebendo directamente nas fontes da psique e do imaginário.

Hoje, talvez mais do que no passado, existe uma consciência apurada de que as imagens de qualidade possuem o dom de despertar e desenvolver a sensibilidade estética dos mais novos. Em contacto com elas, a criança aprende a olhar, a familiarizar-se com as artes visuais e começa a educar o gosto. Por isso são tão importantes, também, as visitas guiadas a museus, desde as primeiras idades.

No panorama da ilustração portuguesa, António Modesto (n. Ponte do Abade, Aguiar da Beira, 1957) é, desde 1981, um dos artistas que mais têm contribuído para que tais objectivos se atinjam. É que as suas ilustrações não se limitam a «fazer sonhar o texto» – para utilizar uma velha expressão de Georges Jean; elas proporcionam à criança uma experiência criativa. Recorrendo a palavras de Denise Escarpit e M. Vagné-Lebas (1988: 162, trad. minha), poderia sintetizar tal experiência desta forma: «Se a imagem é um prolongamento do universo do artista, da sua personalidade, ela é também o prolongamento daquele que a olha, da sua própria cultura e sensibilidade. Não é só a criança que olha a obra; a própria obra olha-a, questiona-a. Entre elas, estabelece-se um verdadeiro diálogo.»

Fazendo o leitor imergir nesse universo muito próprio e inconfundível que é o seu, os objectos visuais de António Modesto que propiciam tal diálogo surgem em quase todos os livros que ilustrou, de O Ouriço-cacheiro Espreitou Três Vezes, de Maria Alberta Menéres (ASA, 1981, Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças – Ilustração, 1982) a Poesia de Fernando Pessoa para Todos (Porto Editora, 2008), passando pelo belíssimo Miguel, O Expositor (Afrontamento, 1983), de Ilse Losa, por O Retrato «em Escadinha» (Livros Horizonte, 1985), de Maria Alberta Menéres, O Homem que Não Queria Sonhar e Outras Histórias (ASA, 1988), de Álvaro Magalhães, O Homem que Tinha Uma Árvore na Cabeça (Porto Editora, 1991), de José Jorge Letria, O Macaco do Rabo Cortado (Civilização, 1992), de António Torrado, O Coração e o Livro (Ambar, 1993; 2.ª ed. com alteração das ilustrações, em 2003), Fábulas (Edinter, 1995), de La Fontaine, Bom Natal, Pai Natal! (Edinter, 1996), de José Jorge Letria, O Mistério da Floresta Mágica (Campo das Letras, 1999), de Arsénio Mota, Histórias Tradicionais Portuguesas (Ambar, 2000), organização de Ana Lourenço, Contos da Cidade das Pontes (Ambar, 2001), coordenação de José António Gomes, ou O Circo das Palavras Voadoras (ASA, 2001) e O Rapaz da Bicicleta Azul (Campo das Letras, 2004), ambos de Álvaro Magalhães, entre outros.

Muito fiel ao lápis de cor e à aguarela, mas com incursões também na coloração digital, tendo-se especializado na ilustração do conto, António Modesto – abra-se aqui um parêntesis necessário – viu o seu trabalho ser distinguido e premiado por diversas vezes. Destaquem-se o já referido Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças – Ilustração (ex-aequo), em 1982; a Menção do V Premi Internacional Catalònia de Il’lustració, Barcelona 1992; a circunstância de ter sido autor da mascote “Gil” da Expo’98 (com o escultor Artur Moreira) e vencedor do respectivo concurso (Lisboa 1993); as menções no The White Ravens, Internationale Jügend Bibliothek, de Munique, em 1994 e 1997; o Diploma de Honra do Prémio Iberoamericano de Ilustração, Sevilha 1994; a nomeação de um dos seus livros para a Lista de Honra do IBBY (International Board on Books for Young People), em 1998; e a nomeação como candidato português ao Prémio Hans Christian Andersen, 2002, pela APPLIJ (Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil).

Ao longo de cerca de 30 anos de ilustração, o trabalho de António Modesto foi evidenciando uma qualidade crescente, sempre marcada por um gosto seguro, por um extremo cuidado na composição e no uso da cor, e sustentada nessa arte do desenho que não poucos ilustradores actuais parecem ter esquecido (será mesmo esquecimento ou inépcia?). Pelo caminho têm ficado outros livros ilustrados que não mencionei, atractivas imagens para manuais escolares (que assim cumprem também a função de formar o gosto dos seus utilizadores) e «ilustrações» soltas – isto é, executadas sem haver um texto de base –, as quais, só por si, são histórias em potência, projectos a retomar, fragmentos de um cativante e muito pessoal universo de fantasia.

Voltando às palavras de Escarpit e Vagné-Lebas, nas ilustrações de Modesto, o leitor não é olhado apenas pela personagem, mas também pelo cenário, por toda uma atmosfera que pulsa e atrai na sua intensa vibração cromática, no seu poder de construir um mundo próprio em que apetece mergulhar. Esse cenário, no entanto, denuncia quase sempre a presença do homem. A beleza dos espaços junta-se, assim, aos sinais do humano para proporcionar à criança visões de um mundo possível, e recriar, para o adulto, o tempo dos devaneios juvenis e do sonho. Quando expostas, isoladas dos contextos para os quais foram criadas, isto é, desligadas da sua função utilitária – iluminar textos –, as ilustrações de António Modesto readquirem autonomia e convidam-nos a revisitá-las com um novo olhar, mais demorado e disponível. Encontramos, assim, condições ideais para fruir a sua intensa poeticidade lírica – sobretudo nos livros que ilustrou até à década de 90 do século passado – e também irrecusáveis pretextos para inventar novas histórias.

Meridional, a ilustração de António Modesto, em especial nas obras dos anos 80 e 90, é muito marcada pela luz mediterrânica, os tons claros, a presença do mar e de nuvens brancas num céu radioso, muitas vezes azul, e pela recorrente comparência do elemento vegetal. As influências, visíveis nos seus primeiros livros ilustrados (sobretudo em O Ouriço-cacheiro Espreitou Três Vezes) são ainda as de João Machado, de Dario Alves e da arte pop, com recurso por vezes à colagem ou à ilusão da colagem. A dimensão discretamente eufórica cede lugar, em livros posteriores, a um universo aparentemente mais disfórico, em tons mais escuros, bem como ao interesse pelos espaços interiores e pelo pormenor (de vestuário, de decoração), a que se juntam um humor subtil e a crescente inclinação para a caricatura de figuras humanas – que foi sempre um dos pontos fortes desta ilustração. A paixão pela pintura também parece acentuar-se, merecendo, por isso, especial referência. Detectamo-la quer em Histórias Tradicionais Portuguesas quer em Poesia de Fernando Pessoa para Todos, onde abundam jogos de hetero e auto-citação e se observa a tendência para dialogar quer com a grande tradição pictórica europeia – no primeiro caso, a pintura flamenga do Renascimento e Velásquez, por exemplo – quer com as vanguardas das primeiras décadas do século XX – Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, um certo Kandinsky, na segunda obra citada, em sintonia com a própria inscrição periodológica da poesia de Pessoa e com as estéticas que seduziram os olhares da geração de Orpheu.

Não obstante estas derivas, próprias de quem muito viu e leu, de quem já estudou muita pintura e conheceu numerosas e diversas experiências de ilustração – em suma, próprias de um ilustrador culto, atento à mudança, mas sem os tiques e o frenesim pseudo-vanguardistas e as pequenas ânsias de reconhecimento precoce que caracterizam ilustradores mais jovens –, não obstante tudo isto, creio que António Modesto nunca deixou, por um lado, de patentear o necessário respeito pelos textos literários que ilustra e a atenção que eles lhe merecem (diria que Modesto é sempre, e em primeira instância, um bom leitor). Por outro lado, sempre teve em conta o que é um livro para crianças – sem dúvida um dos seus objectos de eleição além do design – e de considerar como arte aplicada, em parte ao serviço de um texto, a ilustração do conto infantil ou do poema – não me refiro, portanto, aqui ao caso particular do álbum nem ao livro apenas com imagens. Ou seja, Modesto não é dos que embarcam nesse equívoco – esse estafado cliché com mais de trinta anos – segundo o qual o texto é apenas pretexto para não importa que desvarios ilustrativos. Respeita o destinatário preferencial da obra – a criança ou o jovem – e o seu trabalho evidencia sempre a preocupação com a legibilidade total do livro; por isso, a maioria das suas produções mais recentes deveria ser estudada na sua globalidade, isto é, no modo como, em cada uma delas, interagem e se complementam o texto literário, enquanto objecto semantico-pragmático, a ilustração e o design gráfico (incluindo, neste caso, o próprio texto enquanto imagem, os pequenos elementos ilustrativos que por vezes o circundam, as opções tipográficas, etc.).

António Modesto – recorde-se ainda – contribuiu para criar e impor o Prémio Nacional de Ilustração e deu a conhecer muitos jovens talentos, tendo apoiado com a sua palavra amiga, pedagógica e crítica – no sentido nobre do termo – o trabalho de muitos, vários deles seus antigos alunos. Em Portugal, foi pioneiro na criação, em licenciaturas, da disciplina de Ilustração e, enquanto professor associado, pioneiro também na orientação académica ou na arguição de mestrandos e doutorandos nas áreas do design e dos estudos de ilustração. Ousaria até afirmar que foi o primeiro e que não poucos estudantes de mestrado e de doutoramento recorreram ao seu apoio e saber.

Por tudo isto, pela direcção artística de colecções de prestígio (como a «Oficina dos sonhos», da Porto Editora) e, desde o ano de 1999, da primeira revista portuguesa de investigação e crítica de livros infantis, Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude, mas sobretudo pela superior qualidade do seu trabalho artístico, e pelo seu espírito independente, crítico mas sempre solidário, António Modesto é um mestre e bem merece, por isso, a homenagem que, em Maio de 2010, lhe é prestada pela Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, a cidade onde há muito vive e cria.

Nota

1 Retomo aqui, refundido e acrescentado, o texto, de minha autoria, «A escrita das imagens», publicado em Modesto (1992: [7]).

Referências bibliográficas

CARROLL, Lewis (1970). The Annotated Alice. Alice’s Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass by Lewis Carroll Illustrated by John Tenniel. London: Penguin Books (with an Introduction and Notes by Martin Gardner) (1.ª ed. de Alice’s Adventures in Wonderland, 1865).

ESCARPIT, Denise; VAGNÉ-LEBAS, M. et al. (1988). La Littérature d’Enfance et de Jeunesse: État des lieux. Paris: Hachette - Jeunesse.

MODESTO, António (1992). Ilustrações para Crianças. Porto: [Tipografia Arcanjo Ribeiro, Scra. & Filhos, Lda.].

Vila Nova de Gaia, 17 de Maio de 2010

José António Gomes

NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ilse Losa: breve perfil de uma autora a ler e reler

De origem alemã e ascendência judaica, Ilse Lieblich Losa nasceu em 1913, em Bauer, cidade próxima de Hanover. Tendo vivido a primeira infância com os avós paternos, frequentou o liceu em Osnabrük e Hildesheim e o Instituto Comercial em Hanover. Ao regressar à Alemanha, após um período em Londres tomando conta de crianças, vê-se obrigada a abandonar o país, dada a sua condição de judia. Escapa desse modo à perseguição nazi e, chegada a Portugal em 1934 (ano em que Hitler assume o poder na Alemanha), radica-se no Porto, casando com o arquitecto Arménio Losa e adquirindo a nacionalidade portuguesa.

Inicia, então, uma vasta obra escrita em português, a qual abrange romances inspirados, ou pelo menos enraizados, na sua experiência de vida – como O Mundo em que Vivi, 1949, Rio sem Ponte, 1952, Sob Céus Estranhos, 1962 (vívido retrato, também, do Porto dos anos trinta e quarenta) –, além de contos, crónicas, trabalhos de índole pedagógica (Nós e a Criança, 1954) e sobretudo literatura para crianças. Traduziu para português autores alemães, colaborou em diversos jornais e revistas e foi também uma divulgadora da literatura portuguesa na Alemanha. Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra para crianças e, em 1998, o Grande Prémio de Crónica, da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro À Flor do Tempo (1997).

Revelando permanente abertura à diversidade temática, de géneros e de perspectivas que deve caracterizar a produção literária para crianças, foi a partir de finais dos anos 40 do século XX que Ilse Losa contribuiu, com os seus contos, recontos de histórias tradicionais e peças de teatro (por exemplo A Adivinha: peça em quatro quadros, 1ª ed.: 1967; 2ª ed. refundida: 1979), para uma nova literatura portuguesa para crianças, enveredando muitas vezes por uma via «realista», de acentuada envolvência social, mesmo quando a voz que narra é a de um animal antropomorfizado, como sucede em Faísca Conta a Sua História (1949). Mas imbuiu também a ficção de dilemas morais e espírito crítico, sonho e sentido de esperança, numa escrita coloquial e despojada, pontuada contudo por expressivas comparações e prosopopeias e marcada por um uso rigoroso do adjectivo. Uma escrita que se abriu também ao maravilhoso, ao humor (v. Bonifácio, 1980) e a uma fantasia de cunho onírico (Viagem com Wish, 1984), sem nunca se esquivar a temas «problemáticos» como a guerra, a perseguição política e a tortura. Veja-se, a este propósito, o conto «Apesar de tudo», de A Minha Melhor História, ou ainda Silka, que é difícil não ler como uma parábola focada na questão da intolerância étnica e como uma dolorida meditação sobre o destino do povo judeu. De referir ainda que Ilse Losa dissertou sobre o livro para crianças em várias das suas crónicas jornalísticas, tendo sido pioneira no ensino da literatura para a infância no nosso país.

Beatriz e o Plátano (1976) (livro editado numa histórica e notável colecção de livros infantis que ela própria dirigiu – «ASA Juvenil» –, e que revelou muitos jovens autores, nas décadas de 70 e 80) é uma das primeiras narrativas portuguesas para crianças animadas do espírito do 25 de Abril, evidenciando também pioneiras preocupações ambientais e cívicas. Várias vezes reeditados até à sua morte, em 2006, livros de Ilse Losa como Faísca Conta a Sua História, Um Fidalgo de Pernas Curtas (1961), Um Artista Chamado Duque (1965), O Quadro Roubado (1977) (que não anda longe da estrutura do relato policial), a par de O Senhor Pechincha (a 1ª ed. de que temos conhecimento data de 1973, encontrando-se este conto incluído na 2ª ed. da colectânea Um Fidalgo de Pernas Curtas e Outras Histórias, com ilustrações de Júlio Resende) e ainda A Minha Melhor História (1979) e Silka (1984) constituem marcos na história da literatura portuguesa para a infância e juventude. O último original para crianças que publicou em vida, O Rei Rique e outras Histórias (1989; reeditado em 2006 pela Porto Editora), traz-nos cinco contos breves e divertidos, impregnados de fantasia, a que não falta uma crítica fina e actual a certos comportamentos sociais e até a respeitáveis instituições. Coloquial e discretamente desafiadora, a escrita de Ilse Losa irmana-se nesta última obra com as aguarelas e colagens de um grande pintor, Júlio Resende, que mais do que uma vez ilustrou os textos de Ilse e se afirmaria pela sua criatividade na ilustração de livros para crianças.

Hoje, esta escritora merece sobretudo que bibliotecas e escolas (designadamente as do Porto, cidade que a «adoptou») dêem destaque aos livros que nos deixou, à sua vida e escrita, encontrando modos de continuar a dar a ler tais livros aos mais novos, mantendo assim esta escrita viva e actuante. É que Ilse Losa foi, a vários títulos, uma voz inovadora e, a partir de 1949, concorreu, de maneira decisiva, para a renovação da literatura portuguesa dirigida aos mais pequenos, tendo sido, como se disse, uma das primeiras professoras (senão a primeira) de literatura para a infância na velha Escola do Magistério Primário do Porto. Foi, além do mais, uma assumida antifascista e democrata, que, dos anos 50 em diante, conviveu com uma notável plêiade de homens e mulheres que dinamizaram – com todas as dificuldades impostas pelo fascismo – a vida cultural, literária e cívica do Porto durante o terceiro quartel do século XX. Entre essas mulheres e homens, contam-se Óscar Lopes (que muito apreciava Ilse e sobre ela escreveu), Luísa Dacosta, Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, José Augusto Seabra, António Rebordão Navarro e tantos outros.

José António Gomes

NELA - Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto