sábado, 27 de fevereiro de 2010

Luísa Ducla Soares: notas em torno da sua obra e, em particular, de cinco dos seus livros

Luísa Ducla Soares acaba de publicar o seu 100.º livro. Só nas últimas semanas, ficámos a conhecer três: No Dia da Criança (APCC, Dezembro de 2009); Provérbios Ilustrados (Civilização, 2009), uma recolha de textos proverbiais portugueses, ilustrados por Luísa Beato, a que se segue, na parte final da obra, a explicação de cada um deles; e Comprar, Comprar, Comprar (Civilização, 2010), um novo texto da autora em torno da vertigem consumista e da sua superação.

Focar a escrita de Luísa Ducla Soares (nascida em Lisboa, em 20 de Julho de 1939) é dar visibilidade a uma das criadoras mais singulares da nossa literatura contemporânea para a infância e a juventude. Uma obra que se reparte pelos modos lírico, narrativo e dramático, e por géneros, subgéneros ou modalidades literárias tão diversos como, entre outros:

- o poema para crianças, nonsensical e cómico ou de carácter socialmente interventivo (leia-se Poemas da Mentira… e da Verdade (Horizonte, 1983));

- o álbum narrativo – veja-se, por exemplo, Os Ovos Misteriosos (Afrontamento, 1994), parceria feliz com a ilustradora Manuela Bacelar que vai conhecendo sucessivas reedições;

- o conto para a infância, com incursões até na ficção científica, como sucede em Três Histórias do Futuro (Afrontamento, 1982) e O Rapaz e o Robô (Terramar, 1995);

- a narrativa juvenil sob a forma de diário ficcionado, numa linha de «realismo» social e psicológico patente em Diário de Sofia & Cª (aos 15 anos) (Civilização, 1994);

- o texto dramático – veja-se As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift (Civilização, 2001), adaptação livre do conhecido clássico do século XVIII);

- a adaptação de textos clássicos da literatura portuguesa;

- a tradução – leia-se a conseguida versão de Histórias em Verso para Meninos Perversos, de Roald Dahl, editada, em 1989, pela Teorema.

Vale a pena começar por recordar aqui alguns elementos biográficos 1: o nascimento em Lisboa, uma educação quase bilingue em que a língua e a cultura inglesas marcaram forte presença (o que sem dúvida influenciou a poesia da autora dirigida à infância, em especial as composições em que são visíveis laços intertextuais com as nursery rhymes e as children’s rhymes), a licenciatura em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa – onde integrou o grupo de poetas conhecido como Poesia 61 – e o início da actividade profissional como tradutora, consultora literária e jornalista, tendo sido directora da revista de divulgação cultural Vida (1971-2). Luísa Ducla Soares colaborou em diversos jornais e revistas e estreou-se com um livro de poemas, Contrato, em 1970. Foi adjunta do Gabinete do Ministro da Educação (1976-78) e trabalhou, desde 1979, na Biblioteca Nacional. Aí organizou numerosas exposições e foi responsável pela Área de Informação Bibliográfica. Sócia fundadora do Instituto de Apoio à Criança, escreveu guiões televisivos e concebeu sites da Internet dirigidos a crianças, nomeadamente para a Presidência da República durante o mandato de Jorge Sampaio. Elaborou para o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, para o Ministério da Educação e para a Fundação Gulbenkian pequenas publicações de cunho critico-divulgativo e selectivo sobre literatura nacional e internacional para crianças, área em que o seu saber é reconhecido. De referir ainda que várias composições poéticas da autora foram musicadas, tendo sido editado, em 1999, um CD com textos de sua autoria musicados por Suzana Ralha. O CD intitulou-se 25, pelo facto de ser composto por 25 canções e de a sua edição se ter enquadrado na comemoração dos 25 anos da Revolução de 25 de Abril. Luísa Ducla Soares desenvolve acções de incentivo à leitura em escolas e bibliotecas e participa com frequência em colóquios e encontros, apresentando conferências e comunicações sobre tópicos relacionados com os jovens e a leitura e sobre literatura para a infância e a juventude. Recusou, por motivos políticos, o Grande Prémio de Literatura Infantil que o SNI (o Secretariado Nacional de Informação da ditadura salazarista-marcelista) pretendeu atribuir-lhe pelo livro História da Papoila (1972), em 1973 (aliás, já tinha conhecido a prisão política, tal como o seu marido, Mário Sottomayor Cardia); mas recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro do biénio 1984-5 por 6 Histórias de Encantar, tendo sido distinguida com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua obra em 1996. Em 2004, a Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil (Secção Portuguesa do IBBY) propôs Luísa Ducla Soares como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen. A propósito de 6 Histórias de Encantar (Areal, 1985) – reeditado, em 2003, com o título Seis Histórias às Avessas (Civilização) – registe-se o gosto da autora pela recriação pós-moderna e algo subversiva de certos códigos do conto de fadas tradicional, visível também em A Menina do Capuchinho Vermelho no Século XXI (Civilização, 2007).

Nos últimos anos, a reedição dos contos mais antigos de Luísa Ducla Soares, com novos formatos e ilustrações, revela uma escrita vocacionada para o álbum destinado aos 4-7 anos, a que apenas faltaram, nas primeiras edições, as condições de publicação ideais. É o caso de O Urso e a Formiga (Civilização, 2002; ilustrações de Paul Driver). Em linguagem ritmada e pontuada por rimas internas, introduz-se, na história de um urso-formigueiro devorador, uma velha figura da literatura oral tradicional – a formiga Rabiga –, revelando-se que a perspicácia e a coragem dos pequenos podem vencer os grandes. As imagens sublinham o humor do texto.

Outra das obras mais conhecidas de Luísa Ducla Soares é O Soldado João (Estúdios Cor, 1973; ilustrações de Zé Manel), conto apresentado em formato de picture story book cujo protagonista, um jovem camponês dotado de saudável e ingénua espontaneidade, inverte e subverte os códigos da guerra: cumprimenta os inimigos, põe os exércitos em confronto a dançar ao som do seu cornetim, serve café a todos e apara os calos aos comandantes dos dois exércitos. De forma quase natural, a sua actuação contribui assim para retirar sentido ao conflito bélico. Note-se que a obra data de 1973, ou seja, de uma época em que, na sociedade portuguesa, a oposição ao absurdo da Guerra Colonial atingira o seu pico, em especial no meio estudantil e nos próprios meios militares. Assinale-se, a este propósito, que, já depois do 25 de Abril, mais precisamente em 1981, um outro autor, Leonel Neves, utiliza também a caricatura e o humor para, na linha de Luísa Ducla Soares, ridicularizar certos aspectos da instituição castrense e da sua rigidez hierárquica em O Soldadinho e a Pomba (Horizonte, 1981), cujo ingénuo protagonista traz inevitavelmente à memória o Soldado João. Uma reedição desta obra de Luísa Ducla Soares surge em 2001, com a chancela da Civilização, mas com ilustrações que a desfiguram e claramente prejudicam.

Em Mãe, Querida Mãe (Terramar, 2000; ilustrações de Pedro Leitão), a autora dá-nos um livrinho que, pelo seu pequeno formato, qualquer criança em idade pré-escolar pode transportar consigo no bolso. Propõe-se um curto texto bem-humorado e de estrutura anafórica, sobre os diferentes tipos psicológicos de mãe: a mãe-formiga («que só pensa no trabalho»), a mãe-papagaio («que repete sempre a mesma cassete»), a mãe-galinha («que guarda os filhos debaixo da asa»), etc.. Servem de suporte a estas dezoito definições metafóricas, animalistas e caricaturais, os desenhos coloridos e humorísticos de Pedro Leitão. A experiência repetir-se-á em 2003 com o título Pai, Querido Pai, também com chancela da Terramar.

O ilustrador destas duas obras concebe ainda as imagens que acompanham O Maluquinho da Bola (Horizonte, 2005). Um texto muito breve, aliado a uma ilustração convencional mas bem-humorada, conta a vida de um rapaz que nasceu, por acidente, num jogo de futebol e cuja existência gira (é a palavra exacta) em torno da forma esférica: desde o jogo infantil com bolas de papel feitas com folhas de caderno até ao casamento «com uma rapariga redonda», passando pelo trabalho numa fábrica de berlindes. Um livro para os muito pequenos, a que não falta graça e uma ironia plena de actualidade.

Em A Cavalo no Tempo (Civilização, 2003), e com belas ilustrações de Teresa Lima (ilustração), a autora (que fora nomeada, no ano de publicação deste livro, candidata portuguesa ao Prémio Andersen 2004) oferece-nos um dos melhores títulos de versos para a infância publicados em 2003, conjunto de composições em que se opta, quase sempre, por esquemas métricos, estróficos e rimáticos tradicionalizantes, com destaque para o recurso ao verso de redondilha maior. Sempre irreverentes e críticas em relação ao mundo de hoje, as composições de Luísa Ducla Soares atraem pelo ritmo cantante (algumas, aliás, haviam sido musicadas por Suzana Ralha e gravadas pelo Bando dos Gambozinos, como já foi dito). Mas também cativam pelo humor e pelo modo como acompanham os solavancos do tempo. Uma forma desconcertante – ou talvez não – de abordar o desconcerto do mundo: guerra e discriminações, solidão e consumismo, e as habituais contradições do pensamento dominante. Veja-se um exemplo (o poema «Minas») do tipo de composições que é possível ler em A Cavalo no Tempo e aprecie-se o modo simples mas eficaz como a autora – em época de conflitos bélicos – tira partido do jogo linguístico (neste caso, em torno do signo «minas» e dos seus diferentes significados):

Nos meus sonhos de menina

havia sempre uma mina.

.

Uma mina, um tesouro,

com pedrinhas todas de ouro.

.

Uma mina de brilhantes,

turquesas e diamantes.

.

Uma mina, uma nascente

de água fresca transparente.

.

Hoje ainda sou menina,

mas já pisei uma mina.

.

Tenho o sonho em estilhaços:

fiquei sem pernas, sem braços.

Outro exemplo dos versos para crianças de Luísa Ducla Soares, desta feita extraído da colectânea de poesia Conto Estrelas em Ti (Campo das Letras), que eu mesmo organizei em 2000, é o poema «Dia de Natal»:

Hoje é dia de Natal

mas o Menino Jesus

nem sequer tem uma cama,

dorme na palha onde o pus.

.

Recebi cinco brinquedos

mais um casaco comprido.

Pobre Menino Jesus,

faz anos e está despido.

.

Comi bacalhau e bolos,

peru, pinhões e pudim.

Só ele não comeu nada

do que me deram a mim.

.

Os reis de longe lhe trazem

tesouros, incenso e mirra.

Se me dessem tais presentes,

Eu cá fazia uma birra.

.

Às escondidas de todos

vou pegar-lhe pela mão

e sentá-lo no meu colo

para ver televisão.

Um humor que chega a explorar dimensões escatológicas ou que se volta para o nonsense tirando por vezes partido de jogos linguísticos paronomásticos e outros; um apurado sentido crítico cujo alvo é a sociedade contemporânea, escalpelizando-se com pertinência e graça (que chega contudo a ser amarga) o materialismo exacerbado, o consumismo, o preconceito racial e as relações dos adultos com as crianças; a preocupação com os conflitos bélicos e com a convivência nas novas sociedades multiculturais (leia-se o já citado Os Ovos Misteriosos e também Há sempre uma Estrela no Natal (Civilização, 2006)) – eis, em suma, alguns dos traços presentes nestes livros e que tornam peculiar a escrita de Luísa Ducla Soares para crianças e jovens.

Nota

1 Consulte-se: http://www.app.pt/nte/luisads/bio.htm; http://www.boasleituras.com/luisa/bibliografia.asp e http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADsa_Ducla_Soares (20-3-2008), onde é possível colher a maioria dos elementos biográficos aqui reunidos.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Maria Alberta Menéres e a poesia para a infância

Do incompreensível silêncio crítico que se abate, não poucas vezes, sobre os autores da literatura dita infantil tem sido também vítima Maria Alberta Menéres, depois de um período (décadas de 70 a 90 do século XX), em que a sua obra terá sido, porventura, mais bem amada do que hoje é. A sua editora actual celebra, em 2010, e bem, o Ano Maria Alberta Menéres, em homenagem à autora que comemora este ano o seu 80.º aniversário. Momento ideal, por isso, para assinalar aspectos de uma escrita que é um caso de indubitável presença do literário na narrativa, no texto dramático e sobretudo na poesia para crianças e jovens. Momento ideal, também, para recordar a certos adultos (um número a crescer assustadoramente, céus!) que a chamada literatura para a infância é muito mais do que imagens e design – pois (já tardava) parece ter-se invertido a intolerável situação de desvalorização da ilustração verificada há algumas décadas, em que o nome do ilustrador chegava a não figurar na capa nem na ficha técnica dos livros. Hoje, o que por vezes parece relegado para segundo plano é justamente a qualidade literária dos textos – o que, num país de iletrados e de estudantes do Ensino Superior que nunca leram um livro, seguramente não surpreende. Caso para dizer: nem oito, nem oitenta.

Em jeito de breve tributo, destaquemos pois alguns traços que singularizam a escrita de Maria Alberta Menéres, a qual, é sabido, se tem repartido por muitos e variados géneros: da poesia «para adultos» (cuja publicação iniciou em 1952 e viria a reunir, num primeiro momento antológico, nesse belo livro que é O Robot Sensível (Lisboa: Plátano, 1978) à organização de antologias fundamentais para um melhor conhecimento da nossa poesia contemporânea (referimo-nos às sucessivas edições e reformulações da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa até se chegar à Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977, trabalhos de relevância historico-literária, realizados em colaboração com Ernesto M. de Melo e Castro). Uma produção que passa também pelo conto, pela poesia e pelo teatro para crianças, a narrativa juvenil de mistério e indagação e ainda a adaptação de clássicos para a infância, para não falar da banda desenhada, do artigo e da crónica, da reflexão pedagógica, do livro escolar e da tradução.

Acerca da criação poética, Maria Alberta Menéres escreveu coisas simples, idealistas mas merecedoras de atenção como esta: «Poeta é o que olha as coisas e pensa sobre elas. As olha com uns olhos novos. O que não passa indiferentemente pelo sentido que julga conhecido, das coisas que julga conhecer.» (Menéres, 1980: 11). A poesia que a autora destinou aos mais jovens como que parte deste postulado, sem perder em comunicabilidade. Revela-se em 1968, com a publicação de Conversas com Versos (dezoito das vinte composições deste livro são integradas, nove anos mais tarde, numa outra obra: Um Peixe no Ar (Lisboa: Plátano, 1977)) e prossegue, em 1969, com a edição de Figuras Figuronas, começando então a impor a autora como uma das vozes a ter em conta no campo da poesia para a infância.

A escrita poética de Maria Alberta Menéres caracteriza-se pela diversidade temática e por alguma variedade ao nível das estruturas formais. Os sujeitos enunciadores assumem diferentes estatutos (quer infantis, quer adultos), registando-se tanto o recurso ao poema narrativo breve, como, noutras composições, uma atitude autenticamente lírica. Observa-se também um certo gosto pelo diálogo criativo com a tradição das «rimas infantis» (pensamos sobretudo na lengalenga e no trava-línguas) e da quadra popular (veja-se Quem Faz Hoje Anos?), a que vem juntar-se, aqui e acolá, a propensão para o nonsense, em especial nos primeiros títulos.

Notemos que, em alguns dos poemas de Um Peixe no Ar, a presença do sujeito poético como que passa despercebida, tal é a omnipresença da dimensão sensorial do significante, herdada da lengalenga, da fórmula encantatória, do trava-línguas e da canção de roda. Certos poemas como «Soca soca» e «A dança do B» confirmam esta impressão. Aliás, «Soca soca» (p. 24), repleto de neologismos e de jogos de aliterações e assonâncias, constitui, dir-se-ia, uma reminiscência de usos mágicos da linguagem, quando esta se nos apresenta como algo de misterioso e quase alucinatório, cujo acesso nos parece estar, por qualquer motivo, vedado:

Três cabaças de melaço

soca soca espadanaço

repolhudo formigueiro

toma toma pilriteiro

se por mim aqui voltares

vem por terra vem por mares

chuta chuta a bola aos pés

carripanas canapés

três cabaças de melaço

soca soca espadanaço

ora abales ora fiques

faz de conta tremeliques

.

«A criança» – escreve Jesualdo (1985: 187) – «joga com a linguagem» e fá-lo «desde o berço», experimentando um prazer muscular na pronúncia de sequências de sons análogos ou ligeiramente diferentes. Para a criança, acalantos, lengalengas, rimas de jogos e fórmulas de encantamento podem constituir uma extensão desse tipo de vivências. Ao reutilizarem, na sua poesia, estratégias discursivas que são próprias destas composições da tradição oral, os poetas como que regressam à infância, prolongando os seus jogos e confirmando, assim, as palavras de Gaston Bachelard (1988: 94), quando assinala «a permanência, na alma humana, de um núcleo de infância, uma infância imóvel mas sempre viva». Maria Alberta Menéres tem-se destacado, justamente, pelo modo como reedita, na sua poesia, vivências desse período inaugural da existência, designadamente as que se prendem com a relação lúdica e afectiva da criança com a língua. Leia-se «Carapuça» (p. 20), também de Um Peixe no Ar:

.

Carapuça carapuça

cava a couve no couval

Carapuça carapuça

conta a vaca no curral

Carapuça carapuça

parte a cana no canal

Carapuça carapuça

paga as favas no faval

Carapuça carapuça

esconde a cara no cortiço

Carapuça carapuça

cala a boca lá com isso

.

Recorde-se que uma das vertentes lúdicas mais significativas da poesia para crianças passa por aspectos como a «ordenação rítmica ou simétrica da linguagem», a acentuação pela rima e a assonância, situando-se menos frequentemente ao nível da sintaxe e do «disfarce deliberado do sentido», para usar uma expressão de J. Huizinga (1980: 141). Todavia, perante poemas como «O prato da menina» (interessante exemplo do jogo da mise en abîme incluído em Um Peixe no Ar, pp. 34-35), não é possível deixar de reconhecer a presença de várias dimensões do que poderíamos considerar a manifestação do espírito lúdico em poesia: a fonico-rítmica, a semântica e a sintáctica:

Se a menina não comia

não via o fundo do prato

que tinha lá dentro um pato

de penas cinzentas lisas,

nem via a outra menina

que era bem mais pequenina

e tinha na frente um prato

que tinha lá dentro um pato

um pato muito bonito

de penas cinzentas lisas

tão pequenas tão pequenas

que até parecia impossível

como a menina ainda via

e imaginava o desenho

até ao próprio infinito!

Mais subordinado a uma certa unidade, tanto do ponto de vista temático como no plano expressivo, Figuras Figuronas (Lisboa: Portugália, 1969) desenvolve-se a partir de uma espécie de epígrafe autoral, em forma interrogativa, que abre um conjunto de dezasseis sugestivos poemas baseados em figuras geométricas: «Quem me responde: / é fria a noite / da geometria, / que tudo esconde?» Em 1969, Figuras Figuronas ostentava belas ilustrações de João da Câmara Leme, a que se seguiria pelo menos uma reedição da Plátano e uma terceira edição da ASA (Porto: 2000) com imagens de Rui Truta, as quais dialogam com os poemas de modo adequado (pena que a ilustração da capa seja das menos interessantes). O conceito-base do livro, mais ou menos claro, confere unidade à colectânea: trata-se de explorar o poder de sugestão poética das figuras geométricas, como mais tarde sucederá com as cores, concretamente em O Livro das Sete Cores (Lisboa: Moraes, 1983; reedição recente pela Caminho), escrito em co-autoria com António Torrado. Nota-se nestes dois títulos e em No Coração do Trevo (Lisboa: Verbo, 1992) uma valorização da dimensão semantico-pragmática da poesia, muito embora estas obras revelem qualidades bem conhecidas em Maria Alberta Menéres no tocante à exploração dos aspectos fonico-rítmicos do verso, que em Um Peixe no Ar, como se disse, se sobrepunham claramente ao plano da significação.

«A poesia é a arte de ver através das palavras a outra face da realidade» – disse um dia Octavio Paz, frase que poderíamos citar com propriedade a propósito de Figuras Figuronas (e repare-se na ambígua classe gramatical do segundo termo do título). Com efeito, o mundo é encarado nestes versos como uma harmoniosa combinação de figuras geométricas que tanto se encontram na Natureza como nos artefactos concebidos pelo homem. Daí, a visualidade que emana dos textos e o modo como convidam a esse olhar renovado sobre as coisas de que falava Paz e que constitui uma das preocupações dominantes na poesia de Maria Alberta Menéres: «A chuva oblíqua / tomba inclinada / bate nos vidros / e não tem sombra. // Começa o ano / alguém se molha: / tem plano e curva, / oblíqua a folha» (2.ª ed., Lisboa: Plátano, 1977, pp. 46-47).

Continuando a destacar marcos significativos da obra poética da autora, registe-se que, em 1977, publica E Pronto!, além desse belo texto sobre a solidão e o companheirismo, perfeito para um picture story book, que é Lengalenga do Vento (Lisboa: Plátano) – continuando a explorar, nesta breve composição narrativa imbuída porém de lirismo, traços característicos de alguma poesia popular, tais como o paralelismo sintáctico e anafórico e a estrutura dialogal. Ainda no mesmo ano, é editada em livro uma composição em verso bastante mais longa do que as duas que acabamos de referir, texto que, na relação das obras de Maria Alberta contida em O Livro das Sete Cores, é designado como «narrativa poética». Trata-se de A Pedra Azul da Imaginação (Lisboa: Plátano, 1977), a história de Marcos, um jovem dotado de grande capacidade imaginativa, contada em verso livre, quase sempre branco. Parece tratar-se de uma obra com maior grau de exigência ao nível da compreensão, mais vocacionada portanto para um público juvenil.

Em 1978 sairá outro pequeno livro, Semana Sim, Semana Sim (Lisboa: Plátano), e novos títulos se sucedem nos anos seguintes, como o já citado Livro das Sete Cores, Quem Faz Hoje Anos? (Lisboa: Caminho, 1988) e Pintainho Corre Corre... (Lisboa: Plátano, s.d.), este último mais adequado a crianças em idade pré-escolar e à espera de quem lhe dê a verdadeira forma de um picture book. Entre os contos de Histórias do Tempo Vai Tempo Vem (Porto: Desabrochar, 1988), Maria Alberta inclui também alguns poemas.

Do conjunto, merece destaque O Livro das Sete Cores, obra de grande beleza literária e plástica, em que se destaca também a originalidade das ilustrações do pintor Jorge Martins, numa linha abstraccionista. Trata-se de um livro constituído por dez poemas sobre as cores que já muito pouco têm a ver com os esquemas da poesia popular, e nos quais se atinge, por vezes, grande intensidade lírica:

Dantes era azul

a cor dos sonhos

e a imensidão do mar

por navegar.

(...)

Há uma lua azul

à beira do silêncio,

quando de noite as neves

se azulam de tons leves.

(...)

Uma ave tão lenta

num azul tão sideral

– que planetas procura?

Que vida mais futura? (s.n.)

Maria Alberta Menéres impõe-se, deste modo, como autora de relevo na nossa poesia para a infância da segunda metade do século XX, pondo em prática enraizadas convicções sobre a necessidade de criar leitores de poesia, logo a partir dos bancos da escola, ideias que terá ocasião de expor nesse livro ainda actual que é O Poeta Faz-se aos 10 Anos (Lisboa: Assírio & Alvim, 1973; reed. Porto: ASA, 1999, com sucessivas reedições).

É de notar ainda que a forte atracção que o discurso poético exerce sobre a autora de Retrato em Escadinha a leva a integrar versos no meio de algumas narrativas ou a comentar, com pequenas canções, as narrativas de outros autores, como se pode constatar em Histórias e Canções em Quatro Estações. Numa iniciativa feliz, Maria Alberta logrou reunir, nesta série de quatro volumes, publicados originalmente pela Lisboa Editora, um repositório de contos de alguns dos principais escritores portugueses de literatura para crianças. Também em Dez Dedos Dez Segredos (Lisboa: Lisboa Editora, 1991), o verso e a prosa se conjugam em pequenas histórias que resultam de uma singular visão poética do real (pessoas, objectos, animais...). A particularidade destas breves narrativas é o facto de cada uma delas ser contada por um dos dedos das mãos, o que, na opinião da autora, «não é caso de causar admiração!». «Não é verdade?» – pergunta em texto prefacial – «que, quando se conta uma história, as mãos explicam à sua maneira o que se vai contando?» (p. 2).

O apurado olhar sobre o mundo exterior e interior que é o do sujeito da enunciação na poesia de Maria Alberta Menéres – na verdade, um olhar que constrói com a palavra poética uma nova realidade – não se alheia da necessidade de pugnar por um mundo melhor, mais natural e equilibrado, mais protegido, como pode comprovar-se pela leitura do livro No Coração do Trevo. Trata-se de uma obra em que são mais visíveis do que em livros anteriores os sinais de uma atenção magoada ao mundo em que vivemos e à imperiosa necessidade da sua preservação. Adquire força um discurso de cariz ecológico que, procurando manter uma certa vitamina poética (para utilizar uma expressão de Georges Mounin), não cai na armadilha do planfetarismo fácil nem nos excessos de zelo moralizador. Pelo contrário: a um discurso de crescente actualidade social vem juntar-se uma observação comovida das mais pequenas manifestações de vitalidade vegetal e biológica. Subsistem, ademais, ecos da poesia oral que nos trazem à memória «rimas infantis» e romances, numa linha que desde cedo Maria Alberta explorou nas obras já citadas Conversas com Versos, Um Peixe no Ar ou Lengalenga do Vento.

É também no contexto de uma espécie de militância em prol da poesia dada a ler à infância, de algum modo inaugurada com O Poeta Faz-se aos Dez Anos, que deve ser entendida a insistência de Maria Alberta Menéres neste domínio da criação literária, oscilando, como se viu, entre a talentosa reinvenção de modelos populares (fórmulas encantatórias, lengalengas, trava-línguas, quadras, etc.), em Conversas com Versos, Um Peixe no Ar, Quem Faz Hoje Anos?, a pura expressão lírica em diversos títulos e ainda a incidência em temas relacionados com a preservação do ambiente (No Coração do Trevo) sem que, em algum momento, o bom gosto e a «temperatura» poética das composições se vejam postos em causa.

A sua obra narrativa e dramática caracteriza-se igualmente por esta peculiar atenção às pequenas grandes coisas da vida (aprendida, talvez, durante uma infância rica de vivências na sua Vila Nova de Gaia natal e no Ribatejo, para onde foi viver com sete anos) e por uma sensibilidade muito especial ao universo da infância e ao seu imaginário. Confirmem-se estas observações, lendo obras narrativas como Aventuras da Engrácia, O Retrato em Escadinha e O Ouriço-Cacheiro Espreitou 3 Vezes.

Maria Alberta não esquece nenhuma das faixas do público infanto-juvenil. Se é fácil encontrar na sua obra textos adequados, tanto no estilo como nos temas, a crianças muito pequenas ou que frequentam o 1.º ciclo da escolaridade básica, é igualmente possível descobrir histórias curtas (como algumas das que citámos) que constituem excelente leitura para a faixa dos 9-11 anos, bem como narrativas mais extensas, próprias para pré-adolescentes, como as pequenas novelas policiárias da colecção «Mil e Um Detectives» (escritas de parceria com Carlos Correia e Natércia Rocha), ou o popular Ulisses, adaptação, em texto relativamente breve, de partes da Odisseia, caso singular de sucesso junto do público que frequenta o 2.º ciclo do Ensino Básico.

Terminemos esta breve introdução à leitura de Maria Alberta citando um outro escritor das mesmas lides, António Torrado (1990: 29), que sobre ela escreveu: «A versatilidade criadora de Maria Alberta Menéres é inesgotável. Nos seus livros de poesia, de teatro, de ficção, nas suas obras de intervenção pedagógica, no seu livro O Poeta Faz-se aos Dez Anos, marco indispensável na assunção do acto pedagógico como acto poético, Maria Alberta não se poupa como escritora, não se resguarda de ser poeta. Poeta em dedicação exclusiva tem ela sido pelos diversos mesteres do seu incansável dinamismo. Sob a película, às vezes crispada, dos dias, a poesia intacta do seu ser fornece-lhe a substância vital com que resiste a adversidades e vence alheios prosaísmos.»

Merecem leitura e releitura os livros de Maria Alberta Menéres, e muito em especial os seus volumes de poesia. Que eles sejam também procurados pelos mais novos. Neles, as crianças e os jovens encontrarão, porventura, o suplemento de beleza e humanidade que o presente nem sempre tem sabido oferecer-lhes.

Referências bibliográficas

BACHELARD, Gaston (1988). A Poética do Devaneio, São Paulo: Martins Fontes.

HUIZINGA, Johan (1980). Homo Ludens, 2.ª ed., São Paulo, Perspectiva.

JESUALDO (1985). A Literatura Infantil, 3.ª ed., São Paulo: Cultrix.

MENÉRES, Maria Alberta (1980). «Ser professor», Palavras, 1, Setembro-Dezembro, Lisboa: Associação de Professores de Português, pp. 11-13.

TORRADO, António (1990). O Bosque Mínimo, Lisboa, IAC.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)