sábado, 16 de janeiro de 2010

Maria Alberta Menéres e a poesia para a infância

Do incompreensível silêncio crítico que se abate, não poucas vezes, sobre os autores da literatura dita infantil tem sido também vítima Maria Alberta Menéres, depois de um período (décadas de 70 a 90 do século XX), em que a sua obra terá sido, porventura, mais bem amada do que hoje é. A sua editora actual celebra, em 2010, e bem, o Ano Maria Alberta Menéres, em homenagem à autora que comemora este ano o seu 80.º aniversário. Momento ideal, por isso, para assinalar aspectos de uma escrita que é um caso de indubitável presença do literário na narrativa, no texto dramático e sobretudo na poesia para crianças e jovens. Momento ideal, também, para recordar a certos adultos (um número a crescer assustadoramente, céus!) que a chamada literatura para a infância é muito mais do que imagens e design – pois (já tardava) parece ter-se invertido a intolerável situação de desvalorização da ilustração verificada há algumas décadas, em que o nome do ilustrador chegava a não figurar na capa nem na ficha técnica dos livros. Hoje, o que por vezes parece relegado para segundo plano é justamente a qualidade literária dos textos – o que, num país de iletrados e de estudantes do Ensino Superior que nunca leram um livro, seguramente não surpreende. Caso para dizer: nem oito, nem oitenta.

Em jeito de breve tributo, destaquemos pois alguns traços que singularizam a escrita de Maria Alberta Menéres, a qual, é sabido, se tem repartido por muitos e variados géneros: da poesia «para adultos» (cuja publicação iniciou em 1952 e viria a reunir, num primeiro momento antológico, nesse belo livro que é O Robot Sensível (Lisboa: Plátano, 1978) à organização de antologias fundamentais para um melhor conhecimento da nossa poesia contemporânea (referimo-nos às sucessivas edições e reformulações da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa até se chegar à Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977, trabalhos de relevância historico-literária, realizados em colaboração com Ernesto M. de Melo e Castro). Uma produção que passa também pelo conto, pela poesia e pelo teatro para crianças, a narrativa juvenil de mistério e indagação e ainda a adaptação de clássicos para a infância, para não falar da banda desenhada, do artigo e da crónica, da reflexão pedagógica, do livro escolar e da tradução.

Acerca da criação poética, Maria Alberta Menéres escreveu coisas simples, idealistas mas merecedoras de atenção como esta: «Poeta é o que olha as coisas e pensa sobre elas. As olha com uns olhos novos. O que não passa indiferentemente pelo sentido que julga conhecido, das coisas que julga conhecer.» (Menéres, 1980: 11). A poesia que a autora destinou aos mais jovens como que parte deste postulado, sem perder em comunicabilidade. Revela-se em 1968, com a publicação de Conversas com Versos (dezoito das vinte composições deste livro são integradas, nove anos mais tarde, numa outra obra: Um Peixe no Ar (Lisboa: Plátano, 1977)) e prossegue, em 1969, com a edição de Figuras Figuronas, começando então a impor a autora como uma das vozes a ter em conta no campo da poesia para a infância.

A escrita poética de Maria Alberta Menéres caracteriza-se pela diversidade temática e por alguma variedade ao nível das estruturas formais. Os sujeitos enunciadores assumem diferentes estatutos (quer infantis, quer adultos), registando-se tanto o recurso ao poema narrativo breve, como, noutras composições, uma atitude autenticamente lírica. Observa-se também um certo gosto pelo diálogo criativo com a tradição das «rimas infantis» (pensamos sobretudo na lengalenga e no trava-línguas) e da quadra popular (veja-se Quem Faz Hoje Anos?), a que vem juntar-se, aqui e acolá, a propensão para o nonsense, em especial nos primeiros títulos.

Notemos que, em alguns dos poemas de Um Peixe no Ar, a presença do sujeito poético como que passa despercebida, tal é a omnipresença da dimensão sensorial do significante, herdada da lengalenga, da fórmula encantatória, do trava-línguas e da canção de roda. Certos poemas como «Soca soca» e «A dança do B» confirmam esta impressão. Aliás, «Soca soca» (p. 24), repleto de neologismos e de jogos de aliterações e assonâncias, constitui, dir-se-ia, uma reminiscência de usos mágicos da linguagem, quando esta se nos apresenta como algo de misterioso e quase alucinatório, cujo acesso nos parece estar, por qualquer motivo, vedado:

Três cabaças de melaço

soca soca espadanaço

repolhudo formigueiro

toma toma pilriteiro

se por mim aqui voltares

vem por terra vem por mares

chuta chuta a bola aos pés

carripanas canapés

três cabaças de melaço

soca soca espadanaço

ora abales ora fiques

faz de conta tremeliques

.

«A criança» – escreve Jesualdo (1985: 187) – «joga com a linguagem» e fá-lo «desde o berço», experimentando um prazer muscular na pronúncia de sequências de sons análogos ou ligeiramente diferentes. Para a criança, acalantos, lengalengas, rimas de jogos e fórmulas de encantamento podem constituir uma extensão desse tipo de vivências. Ao reutilizarem, na sua poesia, estratégias discursivas que são próprias destas composições da tradição oral, os poetas como que regressam à infância, prolongando os seus jogos e confirmando, assim, as palavras de Gaston Bachelard (1988: 94), quando assinala «a permanência, na alma humana, de um núcleo de infância, uma infância imóvel mas sempre viva». Maria Alberta Menéres tem-se destacado, justamente, pelo modo como reedita, na sua poesia, vivências desse período inaugural da existência, designadamente as que se prendem com a relação lúdica e afectiva da criança com a língua. Leia-se «Carapuça» (p. 20), também de Um Peixe no Ar:

.

Carapuça carapuça

cava a couve no couval

Carapuça carapuça

conta a vaca no curral

Carapuça carapuça

parte a cana no canal

Carapuça carapuça

paga as favas no faval

Carapuça carapuça

esconde a cara no cortiço

Carapuça carapuça

cala a boca lá com isso

.

Recorde-se que uma das vertentes lúdicas mais significativas da poesia para crianças passa por aspectos como a «ordenação rítmica ou simétrica da linguagem», a acentuação pela rima e a assonância, situando-se menos frequentemente ao nível da sintaxe e do «disfarce deliberado do sentido», para usar uma expressão de J. Huizinga (1980: 141). Todavia, perante poemas como «O prato da menina» (interessante exemplo do jogo da mise en abîme incluído em Um Peixe no Ar, pp. 34-35), não é possível deixar de reconhecer a presença de várias dimensões do que poderíamos considerar a manifestação do espírito lúdico em poesia: a fonico-rítmica, a semântica e a sintáctica:

Se a menina não comia

não via o fundo do prato

que tinha lá dentro um pato

de penas cinzentas lisas,

nem via a outra menina

que era bem mais pequenina

e tinha na frente um prato

que tinha lá dentro um pato

um pato muito bonito

de penas cinzentas lisas

tão pequenas tão pequenas

que até parecia impossível

como a menina ainda via

e imaginava o desenho

até ao próprio infinito!

Mais subordinado a uma certa unidade, tanto do ponto de vista temático como no plano expressivo, Figuras Figuronas (Lisboa: Portugália, 1969) desenvolve-se a partir de uma espécie de epígrafe autoral, em forma interrogativa, que abre um conjunto de dezasseis sugestivos poemas baseados em figuras geométricas: «Quem me responde: / é fria a noite / da geometria, / que tudo esconde?» Em 1969, Figuras Figuronas ostentava belas ilustrações de João da Câmara Leme, a que se seguiria pelo menos uma reedição da Plátano e uma terceira edição da ASA (Porto: 2000) com imagens de Rui Truta, as quais dialogam com os poemas de modo adequado (pena que a ilustração da capa seja das menos interessantes). O conceito-base do livro, mais ou menos claro, confere unidade à colectânea: trata-se de explorar o poder de sugestão poética das figuras geométricas, como mais tarde sucederá com as cores, concretamente em O Livro das Sete Cores (Lisboa: Moraes, 1983; reedição recente pela Caminho), escrito em co-autoria com António Torrado. Nota-se nestes dois títulos e em No Coração do Trevo (Lisboa: Verbo, 1992) uma valorização da dimensão semantico-pragmática da poesia, muito embora estas obras revelem qualidades bem conhecidas em Maria Alberta Menéres no tocante à exploração dos aspectos fonico-rítmicos do verso, que em Um Peixe no Ar, como se disse, se sobrepunham claramente ao plano da significação.

«A poesia é a arte de ver através das palavras a outra face da realidade» – disse um dia Octavio Paz, frase que poderíamos citar com propriedade a propósito de Figuras Figuronas (e repare-se na ambígua classe gramatical do segundo termo do título). Com efeito, o mundo é encarado nestes versos como uma harmoniosa combinação de figuras geométricas que tanto se encontram na Natureza como nos artefactos concebidos pelo homem. Daí, a visualidade que emana dos textos e o modo como convidam a esse olhar renovado sobre as coisas de que falava Paz e que constitui uma das preocupações dominantes na poesia de Maria Alberta Menéres: «A chuva oblíqua / tomba inclinada / bate nos vidros / e não tem sombra. // Começa o ano / alguém se molha: / tem plano e curva, / oblíqua a folha» (2.ª ed., Lisboa: Plátano, 1977, pp. 46-47).

Continuando a destacar marcos significativos da obra poética da autora, registe-se que, em 1977, publica E Pronto!, além desse belo texto sobre a solidão e o companheirismo, perfeito para um picture story book, que é Lengalenga do Vento (Lisboa: Plátano) – continuando a explorar, nesta breve composição narrativa imbuída porém de lirismo, traços característicos de alguma poesia popular, tais como o paralelismo sintáctico e anafórico e a estrutura dialogal. Ainda no mesmo ano, é editada em livro uma composição em verso bastante mais longa do que as duas que acabamos de referir, texto que, na relação das obras de Maria Alberta contida em O Livro das Sete Cores, é designado como «narrativa poética». Trata-se de A Pedra Azul da Imaginação (Lisboa: Plátano, 1977), a história de Marcos, um jovem dotado de grande capacidade imaginativa, contada em verso livre, quase sempre branco. Parece tratar-se de uma obra com maior grau de exigência ao nível da compreensão, mais vocacionada portanto para um público juvenil.

Em 1978 sairá outro pequeno livro, Semana Sim, Semana Sim (Lisboa: Plátano), e novos títulos se sucedem nos anos seguintes, como o já citado Livro das Sete Cores, Quem Faz Hoje Anos? (Lisboa: Caminho, 1988) e Pintainho Corre Corre... (Lisboa: Plátano, s.d.), este último mais adequado a crianças em idade pré-escolar e à espera de quem lhe dê a verdadeira forma de um picture book. Entre os contos de Histórias do Tempo Vai Tempo Vem (Porto: Desabrochar, 1988), Maria Alberta inclui também alguns poemas.

Do conjunto, merece destaque O Livro das Sete Cores, obra de grande beleza literária e plástica, em que se destaca também a originalidade das ilustrações do pintor Jorge Martins, numa linha abstraccionista. Trata-se de um livro constituído por dez poemas sobre as cores que já muito pouco têm a ver com os esquemas da poesia popular, e nos quais se atinge, por vezes, grande intensidade lírica:

Dantes era azul

a cor dos sonhos

e a imensidão do mar

por navegar.

(...)

Há uma lua azul

à beira do silêncio,

quando de noite as neves

se azulam de tons leves.

(...)

Uma ave tão lenta

num azul tão sideral

– que planetas procura?

Que vida mais futura? (s.n.)

Maria Alberta Menéres impõe-se, deste modo, como autora de relevo na nossa poesia para a infância da segunda metade do século XX, pondo em prática enraizadas convicções sobre a necessidade de criar leitores de poesia, logo a partir dos bancos da escola, ideias que terá ocasião de expor nesse livro ainda actual que é O Poeta Faz-se aos 10 Anos (Lisboa: Assírio & Alvim, 1973; reed. Porto: ASA, 1999, com sucessivas reedições).

É de notar ainda que a forte atracção que o discurso poético exerce sobre a autora de Retrato em Escadinha a leva a integrar versos no meio de algumas narrativas ou a comentar, com pequenas canções, as narrativas de outros autores, como se pode constatar em Histórias e Canções em Quatro Estações. Numa iniciativa feliz, Maria Alberta logrou reunir, nesta série de quatro volumes, publicados originalmente pela Lisboa Editora, um repositório de contos de alguns dos principais escritores portugueses de literatura para crianças. Também em Dez Dedos Dez Segredos (Lisboa: Lisboa Editora, 1991), o verso e a prosa se conjugam em pequenas histórias que resultam de uma singular visão poética do real (pessoas, objectos, animais...). A particularidade destas breves narrativas é o facto de cada uma delas ser contada por um dos dedos das mãos, o que, na opinião da autora, «não é caso de causar admiração!». «Não é verdade?» – pergunta em texto prefacial – «que, quando se conta uma história, as mãos explicam à sua maneira o que se vai contando?» (p. 2).

O apurado olhar sobre o mundo exterior e interior que é o do sujeito da enunciação na poesia de Maria Alberta Menéres – na verdade, um olhar que constrói com a palavra poética uma nova realidade – não se alheia da necessidade de pugnar por um mundo melhor, mais natural e equilibrado, mais protegido, como pode comprovar-se pela leitura do livro No Coração do Trevo. Trata-se de uma obra em que são mais visíveis do que em livros anteriores os sinais de uma atenção magoada ao mundo em que vivemos e à imperiosa necessidade da sua preservação. Adquire força um discurso de cariz ecológico que, procurando manter uma certa vitamina poética (para utilizar uma expressão de Georges Mounin), não cai na armadilha do planfetarismo fácil nem nos excessos de zelo moralizador. Pelo contrário: a um discurso de crescente actualidade social vem juntar-se uma observação comovida das mais pequenas manifestações de vitalidade vegetal e biológica. Subsistem, ademais, ecos da poesia oral que nos trazem à memória «rimas infantis» e romances, numa linha que desde cedo Maria Alberta explorou nas obras já citadas Conversas com Versos, Um Peixe no Ar ou Lengalenga do Vento.

É também no contexto de uma espécie de militância em prol da poesia dada a ler à infância, de algum modo inaugurada com O Poeta Faz-se aos Dez Anos, que deve ser entendida a insistência de Maria Alberta Menéres neste domínio da criação literária, oscilando, como se viu, entre a talentosa reinvenção de modelos populares (fórmulas encantatórias, lengalengas, trava-línguas, quadras, etc.), em Conversas com Versos, Um Peixe no Ar, Quem Faz Hoje Anos?, a pura expressão lírica em diversos títulos e ainda a incidência em temas relacionados com a preservação do ambiente (No Coração do Trevo) sem que, em algum momento, o bom gosto e a «temperatura» poética das composições se vejam postos em causa.

A sua obra narrativa e dramática caracteriza-se igualmente por esta peculiar atenção às pequenas grandes coisas da vida (aprendida, talvez, durante uma infância rica de vivências na sua Vila Nova de Gaia natal e no Ribatejo, para onde foi viver com sete anos) e por uma sensibilidade muito especial ao universo da infância e ao seu imaginário. Confirmem-se estas observações, lendo obras narrativas como Aventuras da Engrácia, O Retrato em Escadinha e O Ouriço-Cacheiro Espreitou 3 Vezes.

Maria Alberta não esquece nenhuma das faixas do público infanto-juvenil. Se é fácil encontrar na sua obra textos adequados, tanto no estilo como nos temas, a crianças muito pequenas ou que frequentam o 1.º ciclo da escolaridade básica, é igualmente possível descobrir histórias curtas (como algumas das que citámos) que constituem excelente leitura para a faixa dos 9-11 anos, bem como narrativas mais extensas, próprias para pré-adolescentes, como as pequenas novelas policiárias da colecção «Mil e Um Detectives» (escritas de parceria com Carlos Correia e Natércia Rocha), ou o popular Ulisses, adaptação, em texto relativamente breve, de partes da Odisseia, caso singular de sucesso junto do público que frequenta o 2.º ciclo do Ensino Básico.

Terminemos esta breve introdução à leitura de Maria Alberta citando um outro escritor das mesmas lides, António Torrado (1990: 29), que sobre ela escreveu: «A versatilidade criadora de Maria Alberta Menéres é inesgotável. Nos seus livros de poesia, de teatro, de ficção, nas suas obras de intervenção pedagógica, no seu livro O Poeta Faz-se aos Dez Anos, marco indispensável na assunção do acto pedagógico como acto poético, Maria Alberta não se poupa como escritora, não se resguarda de ser poeta. Poeta em dedicação exclusiva tem ela sido pelos diversos mesteres do seu incansável dinamismo. Sob a película, às vezes crispada, dos dias, a poesia intacta do seu ser fornece-lhe a substância vital com que resiste a adversidades e vence alheios prosaísmos.»

Merecem leitura e releitura os livros de Maria Alberta Menéres, e muito em especial os seus volumes de poesia. Que eles sejam também procurados pelos mais novos. Neles, as crianças e os jovens encontrarão, porventura, o suplemento de beleza e humanidade que o presente nem sempre tem sabido oferecer-lhes.

Referências bibliográficas

BACHELARD, Gaston (1988). A Poética do Devaneio, São Paulo: Martins Fontes.

HUIZINGA, Johan (1980). Homo Ludens, 2.ª ed., São Paulo, Perspectiva.

JESUALDO (1985). A Literatura Infantil, 3.ª ed., São Paulo: Cultrix.

MENÉRES, Maria Alberta (1980). «Ser professor», Palavras, 1, Setembro-Dezembro, Lisboa: Associação de Professores de Português, pp. 11-13.

TORRADO, António (1990). O Bosque Mínimo, Lisboa, IAC.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Duas notas sobre o Natal em Sophia

A Noite de Natal (1960), de Sophia de Mello Breyner Andresen (nas edições mais recentes, com ilustrações a aguarela de Júlio Resende), oferece-nos uma renovada imagem do maravilhoso cristão (e do ideal que o inspira), plena de significado social e individual. Várias das personagens infantis de Sophia apresentam-se, é certo, como crianças sem dificuldades materiais. Mas, além da solidão e de uma certa orfandade afectiva que por vezes as caracteriza, e que são também atributos da protagonista de A Noite de Natal, surge, neste conto para crianças, a orfandade social de Manuel, como uma reencarnação de Cristo, imagem que, no final, vem conferir sentido aos valores da amizade, da partilha, da parcimónia e da busca de uma união entre humano e sagrado.

Obra de síntese, por seu lado, afirmando a vitória da inteireza moral e da abnegação sobre a vertigem e as forças da perversão, mais longa e complexa que os restantes livros infantis da autora, a narrativa O Cavaleiro da Dinamarca (1964) ilustra a grande viagem iniciática e probatória que – colocando o protagonista ante uma sucessão de figuras humanas, eventos e lugares míticos – tudo revela a esse cavaleiro impoluto: o perigo e as tentações, o valor da família, os exemplos de heroísmo, a paixão e a arte. Para não falar da tensão (não inteiramente resolvida) entre uma visão teocêntrica – que tem na glorificação do Natal o seu elemento de maior alcance simbólico – e um novo olhar antropocêntrico que emerge do Renascimento. Uma tensão, acrescente-se, que abre caminho para uma das zonas de interpretação mais estimulantes da obra. Pelo meio, é possível revisitar a Dinamarca, a Terra Santa, as cidades italianas do norte e a Flandres. Sente-se o fascínio pelo esplendor humanista (a acção desenrola-se no século XV) e pela grande aventura dos «descobridores» portugueses, no que é apresentado como «um tempo novo» para a Europa e o mundo, sem contudo se ignorarem as tensões decorrentes do (des)encontro de culturas e até de etnias – e, por isso, O Cavaleiro da Dinamarca é uma das primeiras narrativas portuguesas para crianças a colocar a questão da necessidade do diálogo intercultural. Tudo plasmado num encadeamento de narrativas modelizadoras encaixadas na história principal: a história de Vanina (quase uma versão de Romeu e Julieta, de final não deceptivo), as vidas de Giotto, de Dante, e as aventuras de um marinheiro flamengo e de um português, Pero Dias. Deste modo, a obra representa também uma apaixonada homenagem, quase sempre implícita, às narrativas da grande tradição cultural do Ocidente: a Bíblia, a Divina Comédia, o Deccameron, os livros de viagens, as crónicas navais...

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

sábado, 21 de novembro de 2009

Alice Vieira – 30 anos de livros e leituras (1979-2009)

Alice Vieira está a celebrar 30 anos de actividade literária. Neste longo percurso, iniciado em 1979 com a publicação de Rosa, minha irmã Rosa, obra distinguida com o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança, tem particular relevo a produção da autora dirigida preferencialmente ao universo infantil e juvenil, ainda que também tenha publicado obras para adultos.

Objecto de vários prémios, em Portugal e no estrangeiro (o mais recente, a Estrela de Prata do Prémio Peter Pan, acaba de ser atribuído à edição sueca de Flor de Mel), incluindo, em 1994, o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra, a autora foi mesmo finalista, em 1998, do Prémio Hans Christian Andersen para o qual foi nomeada duas vezes.

A sua produção reparte-se por diferentes géneros, dos quais se destaca a reescrita da tradição oral, em especial de contos populares – leiam-se os volumes da colecção “Histórias Tradicionais Portuguesas” (Caminho), mas também os textos insertos em Eu bem vi nascer o sol (1994), onde a autora agrupa um conjunto significativo de produções do património oral, desde as lengalengas aos trava-línguas, incluindo textos do romanceiro, cantigas populares e rimas infantis muito variadas; a edição de contos literários (colecção “Livros com Cheiro”; 2 Histórias de Natal (2002) e Contos e Lendas de Macau (2002)); e de teatro, com o livro Leandro, Rei da Helíria (1991), obra que se aproxima do texto shakespeareano King Lear, construída com base no conto tradicional A Comida sem Sal, que lhe serve de intertexto. No âmbito da poesia, para além da edição da antologia poética O meu primeiro álbum de poesia (2008), a autora deu à estampa A Charada da Bicharada (2008), obra que integra um conjunto de poemas-adivinhas, subordinados à temática animal. Neste especial bestiário poético, a dimensão lúdica dilui-se subtilmente no lirismo das composições poéticas, onde, através do olhar e da voz do sujeito poético, às vezes identificado com o próprio animal, é proposta uma revisitação particular, muitas vezes metafórica e simbólica, das várias espécies.

Contudo, é no âmbito da narrativa juvenil, incluindo novelas e romances, que Alice Vieira se assume como particularmente inovadora, constituindo uma referência incontornável no nosso país. Iniciada com a edição de um tríptico composto pelas narrativas Rosa, Minha Irmã Rosa (1979), Lote 12, 2º Frente (1980) e Chocolate à Chuva (1982), percorridas por uma certa unidade de concepção, a produção literária da autora é percorrida por um conjunto de eixos cuja assiduidade assegura a sua coesão ideotemática, configuradores de um macro-texto singular. Estruturadas em torno de problemáticas relevantes, reiteradamente perspectivadas a partir focalizações internas, capazes de recriar os dilemas existenciais de personagens adolescentes e os seus processos de crescimento, as narrativas e os conflitos que as enformam nunca são lineares ou apresentam unívocas possibilidades de leitura. O universo feminino, alvo de especial atenção, é recriado nas suas múltiplas e complexas dimensões. Diferentes gerações de mulheres, pertencendo a estratos sociais também diversificados, integram uma polifacetada galeria ficcional que acompanha a evolução da sociedade portuguesa nas últimas décadas, dando conta, simultaneamente, dos seus elementos estruturantes, assim como das suas tensões e fracturas, problematizando estereótipos e comportamentos tipificados, em obras como Águas de Verão (1985), Às Dez a Porta Fecha (1988), Úrsula, a Maior (1988), Caderno de Agosto (1995), Se Perguntarem por Mim Digam que Voei (1997) ou Um Fio de Fumo nos Confins do Mar (1999). Apesar de fortemente ancoradas no universo juvenil, a partir do qual são narradas, as intrigas não passam ao lado de um conjunto muito abrangente de preocupações de outros grupos etários, dando voz a outras personagens, recriando diálogos geracionais particularmente ricos e afectivamente produtivos. Situações traumáticas, como a perda, a negligência ou abandono afectivos, são alvo de tratamento frequente, permitindo a problematização de experiências e emoções. Leiam-se, nesta linha, textos como Paulina ao Piano (1985), Flor de Mel (1986), Os Olhos de Ana Marta (1990) e, mais recentemente, O Casamento da minha Mãe (2005).

Estruturas afectivas e sociais, como a família, são submetidas a intensos processos de análise e questionamento, revelando as suas falhas e forças. A questão da identidade, tanto em termos individuais como nacionais ou culturais, incluindo a relação com o passado e com a História, é outra das linhas de força da produção narrativa de Alice Vieira. Esta última questão, particularmente relevante, alvo de tratamento romanesco no díptico composto pelas obras A Espada do Rei Afonso (1981) e Este Rei que Eu Escolhi (1983), volta a surgir com particular relevância em Promontório da Lua: histórias (1991). Seguindo as tendências contemporâneas da moderna metaficção historiográfica (ver Linda Hutcheon (1988) ou Elisabeth Wesseling (1991)), é proposta uma perspectiva alternativa em relação ao discurso historiográfico oficial, dando voz a outros intervenientes. Esta tendência para questionar a escrita da História serve igualmente de mote a Vinte e Cinco a Sete Vozes (1999), onde sete personagens, de diferentes gerações, dão conta das suas perspectivas particulares sobre o 25 de Abril de 1974, submetendo-o ao seu crivo pessoal e subjectivo, forma de apropriação íntima da própria História.

Do ponto de vista da organização narrativa, sublinhe-se o recurso a estruturas romanescas particularmente complexas, como acontece com o cruzamento de diversos fios narrativos, com o recurso ao monólogo interior ou ao discurso indirecto livre e, sobretudo, com a introdução de níveis diegéticos distintos através da técnica de encaixe. O tempo, alvo de várias manipulações, é também um elemento determinante para a construção de uma estrutura narrativa que foge a modelos lineares e sequenciais. Recorrendo a um estilo e uma linguagem muito pessoais, Alice Vieira cria um registo único, capaz de cruzar momentos de grande humor, em resultado da combinação de vários tipos de cómico que explora com singular mestria, com outros de forte tonalidade lírica e intensidade dramática e emocional. A vivacidade dos diálogos e a fluidez das descrições resultam, em grande medida, da forma como a autora explora todas as potencialidades da língua, criando expressivos jogos de palavras, tanto em termos sonoros, como morfológicos e sintácticos. O recurso assíduo à enumeração e à anáfora, a criação de paralelismos estruturais e a exploração das potencialidades simbólicas da adjectivação são responsáveis pela criação de um discurso simultaneamente acessível e cativante, também do ponto de vista rítmico e melódico.

Em conclusão, saliente-se, pois, o relevo de Alice Vieira no panorama literário e editorial português, autora de dezenas de obras cuja leitura não cabe, naturalmente, nos limites deste texto. Alvo de várias investigações de teor académico, em Portugal e no estrangeiro, para além dos estudos mais pontuais de Natércia Rocha, Álvaro Salema, Maria Lúcia Lepecki, José António Gomes, Natividades Pires, Isabel Vila-Maior, e outros, as suas novelas e romances juvenis determinam e ilustram uma mudança do paradigma literário, por altura do final dos anos 70, no que respeita à escrita para crianças e jovens, valorizando uma certa introspecção e complexidade temática e diegética em detrimento da tendência da narrativa de aventuras de estrutura mais ou menos codificada.

Ana Margarida Ramos (2009): «Alice Vieira – Trinta anos de livros e

leituras», JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, 1015,

26 de Agosto a 8 de Setembro, p. 12

sábado, 7 de novembro de 2009

Já saiu o número 18 da revista Malasartes

Destaques:

Violeta Figueiredo | Xosé Cobas | Álvaro Magalhães | colecção “Fora de Xogo”.

E ainda:

Bernardo Carvalho | Fina Casalderrey | Banda Desenhada | Maria Keil e Isabel César Anjo | Paula Carballeira | Agustín Fernández Paz | David Machado e muito mais.

sábado, 3 de outubro de 2009

Malasartes 18: quase a sair

A atenção de Malasartes está longe de se cingir ao eixo Galiza-Portugal e, por isso, na revista, colaboram articulistas do Brasil, poderão vir a colaborar autores de outras latitudes, além do que as matérias publicadas incidem, não raro, em obras estrangeiras, traduzidas ou não (neste número prestes a sair, inauguram-se, por exemplo, as abordagens à banda desenhada de recepção juvenil e adulta com um ensaio de Miguel Ramalhete Gomes). Contudo, o eixo mencionado começa a funcionar a níveis mais profundos. Pela primeira vez, é possível ler, no número 18, uma parelha autoral luso-galaica: Ana Margarida Ramos e Marta Neira Rodríguez propõem-nos uma leitura da obra da galega Paula Carballeira, contadora bem conhecida em Portugal e já com vários títulos traduzidos para a língua portuguesa. Ana Vasconcelos, por seu turno, escreve sobre o escritor galego Agustín Fernández Paz (que, uma vez mais, merece destaque na revista, em dois artigos) e confronta uma das suas obras com o primeiro livro do português David Machado.

Dir-se-á, no entanto, que uma temática de grande actualidade atravessa este novo número – questão, diga-se de passagem, para a qual os mediadores da leitura não se encontram ainda suficientemente sensibilizados. Referimo-nos à análise da ilustração e, consequentemente, ao problema do desenvolvimento da literacia visual, tão necessário como o desenvolvimento da literacia verbal e como a própria educação literária. Razões mais do que suficientes para a leitura de um trabalho centrado num picture story book só com imagens, de Bernardo Carvalho (importante ilustrador português da actualidade), estudo esse elaborado por outra jovem ilustradora e estudiosa da ilustração: Gabriela Sotto Mayor. A questão da leitura da imagem está, no entanto, presente noutros artigos, como o que Sara Reis da Silva e Miriam Reis dedicam a um conjunto de obras infantis de referência, da autoria de Maria Keil e Maria Isabel César Anjo, ou como a recensão crítica de um recente livro de Xosé Ballesteros e Juan Vidaurre que nos é proposta por José Maria Mesías Lema.

Também um dos perfis é desta vez dedicado a um dos mais relevantes ilustradores galegos dos dias de hoje, Xosé Cobas. O outro dá a conhecer, um pouco melhor, a escrita e a personalidade da portuguesa Violeta Figueiredo, cujos livros se destacam pela sua singularidade, por um estilo muito pessoal e por uma notável criatividade linguística a que não falta o sentido da comunicabilidade com os seus destinatários preferenciais, os mais jovens.

Nas secções Estudos (com um artigo sobre Álvaro Magalhães), Referências (em que se destaca a importante colecção juvenil galega «Fóra de Xogo») e Práticas, encontrarão os leitores outras matérias de interesse a que se juntam as habituais recensões críticas de obras publicadas em português e em língua galega.

Motivos de sobra, pensamos, para uma leitura proveitosa por parte dos mediadores da leitura e dos estudiosos e investigadores, ou seja, o público preferencial de Malasartes.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 13 de setembro de 2009

Poesia e humor sob a forma de conselhos de animais: “Dança quando chegares ao fim”, de Richard Zimler e Bernardo Carvalho

Livro de estreia de Richard Zimler, reconhecido e premiado romancista, no âmbito da literatura de potencial recepção infantil, Dança Quando Chegares ao Fim distingue-se pela eficácia comunicativa que o caracteriza, resultado de uma estreita cumplicidade estabelecida entre o texto do autor de origem norte-americana, já naturalizado português, e as imagens de Bernardo Carvalho.

O grande público, que se habituou a seguir a saga da família Zarco, desde O Último Cabalista de Lisboa (1999), passando por Meia-Noite ou O Princípio do Mundo (2003), Goa ou O Guardião da Aurora (2005) até, mais recentemente chegar ao volume A Sétima Porta (2007), ou a navegar hesitante, entre a realidade e a ficção em À Procura de Sana (2006), pode surpreender-se com esta incursão num universo tradicionalmente tido como menor ou mesmo marginal. E, contudo, o autor não só se revela extremamente hábil na mudança de registo como exprime, pela forma como manuseia a língua portuguesa e brinca com as suas sonoridades e sentidos, o encanto da descoberta da ludicidade das rimas em português, numa espécie de viagem tardia – talvez mesmo apócrifa – às memórias de infância.

Podendo incluir-se no âmbito do álbum, mesmo estando ausente a estruturação típica da narrativa, esta publicação reúne um conjunto de quase três dezenas de conselhos que, com recurso à rima e a uma estrutura próxima da poética, junta animais e humanos, apresentando os primeiros como conselheiros dos segundos. O subtítulo do livro – «bons conselhos de amigos animais» – esclarece acerca da autoria dos pareceres, ao mesmo tempo que colabora na identificação do género da obra.

Combinando a herança dos bestiários medievais com a da literatura sapiencial, patente nos livros de conselhos, contemporâneos dos primeiros, este volume que agora vem a lume funciona como uma espécie de paródia subversiva daqueles géneros literários, caracterizados pelo didactismo do seu discurso.

A presença do humor, em resultado dos jogos de linguagem, e também as associações imprevistas de animais, atenuam o carácter aparentemente moralista que define este género, identificado desde o subtítulo, sem deixarem de promover a reflexão pela mensagem que encerram. A construção do texto, seguindo a sequência de conselhos e a identificação dos respectivos autores, cria um ritmo particular, acentuado pela rima e pelos paralelismos sonoros e sintácticos. Caracterizado por uma certa hibridez genológica para a qual contribuem a combinação de características da poesia, como os efeitos sonoros e melódicos que o texto explora, como é o caso do ritmo binário que resulta da apresentação do texto em dísticos, com outras acentuadamente narrativas, permitindo identificar personagens, acções e até ambientes, o texto parece recuperar uma rotina particular e uma forma de organização do tempo – o dia-a-dia infantil –, sobretudo no final do livro, os momentos associados ao fim do dia, à noite e aos preparativos para o sono. Promovendo o reconto, possivelmente a leitura em família, o álbum associa-se a uma espécie de ritual que antecede o sono e os sonhos.

Implicitamente, a mensagem do livro aponta também no sentido de entender os animais (e a Natureza) como conselheiros e professores/educadores dos humanos, sugerindo que os primeiros vivem num estádio de perfeição e de desenvolvimento superior em relação aos segundos. Aconselhando, entre outras qualidades, prudência, ponderação, calma, curiosidade e espírito crítico, esperança e alegria, perseverança, reflexão, solidariedade e altruísmo, verdade, fidelidade aos sonhos e ideais, calma e tranquilidade, os animais seleccionados parecem oferecer a receita para uma vida feliz e descomprometida (mas intensamente vivida), capaz de conduzir a «sonhos tranquilos e felizes», como aconselham as sábias perdizes.

Particularmente diversificado e rico, o vasto bestiário aqui recriado inclui espécies conhecidas e próximas, facilmente identificáveis pelos leitores mais pequenos, a par de outras mais exóticas e mais estranhas, apelando à curiosidade e ao espírito de descoberta do público preferencial – mas não exclusivo – a que se destina. No primeiro grupo, incluem-se, entre outras, a leoa e o leão, o cão e a cadela, o lagarto, o ratinho e o gato, o ganso e a gansa ou os elefantes, enquanto, no segundo, podem contar-se o lama e o papa-figo, o pangolim e o guaxinim, o furão e o bico-agulha, ou as hienas e os chacais. Individualmente ou em pares, formando um casal da mesma espécie ou juntando rivais, os vários animais convocados desfilam pelas páginas como se se dirigissem a uma original Arca de Noé, também ela destinada a redimir os homens pelo conselho e pelo exemplo, devolvendo-os a uma espécie de paraíso perdido.

A assiduidade da temática animal no universo da literatura de potencial recepção infantil permite entendê-la como um eixo ideotemático semanticamente produtivo pelo reconhecimento imediato que permite e por todas as potencialidades simbólicas e imagéticas que evoca. Combinando e cruzando diferentes heranças – literárias, linguísticas, culturais e simbólicas – o autor reinventa a tradição, brincando com as palavras, promovendo associações invulgares e inusitadas, próximas do universo nonsensical.

As ilustrações de Bernardo Carvalho, como é seu hábito, acrescentam elementos significantes ao texto, dialogando com ele e completando-o. Com recurso a uma técnica simples e altamente eficaz, o ilustrador não só sugere os elementos centrais da narrativa, nomeadamente as personagens humanas e animais, como conota expressivamente as imagens, transmitindo emoções e sublinhando a vertente humorística do texto. No estilo que o caracteriza, o criador explora os jogos com as formas, os volumes e as cores potenciando impressões de movimento e de dinamismo que caracterizam as ilustrações, também em resultado de uma certa sugestão de traço ágil, vigoroso e quase espontâneo, como as pequenas manchas coloridas parecem revelar. A expressividade que delas sobressai é sublinhada pelos contrastes e variações cromáticas, com especial ênfase para a valorização das tonalidades mais escuras e pelo grande impacto resultante do recurso ao sinal contorno que assegura, em alguns casos, a separação das personagens do fundo colorido. Caracterizadas pela máxima eficiência que resulta do uso de um mínimo de recursos, as imagens, muito contidas, quase sempre de página simples, com uma outra ou outra excepção que permite que se estendam à dupla página, revelam, ainda, influências dos movimentos modernistas, como fica patente nas guardas, sobrepondo elementos e jogando com perspectivas, transparências e opacidades. Assegurando a coesão do livro e a articulação dos vários segmentos textuais, nomeadamente pela representação de uma mesma figura humana (ou várias com afinidades físicas entre si, vejam-se as riscas identificativas da camisola) em diferentes situações, posições e interacções, as imagens sugerem uma certa narratividade, completando e complementando um texto assumidamente contido e plurissignificativo. Ao nível do projecto gráfico, também da responsabilidade do ilustrador, destaque-se a opção por um papel mate de elevada gramagem capaz de fixar as cores e de apelar ao manuseio.

Combinando cuidado estético – artístico e literário – com ludicidade, da qual não está ausente uma dimensão formativa, a construção deste álbum assenta na exploração dos efeitos cómicos das associações sonoras e semânticas. Tendo, como elemento coesivo, o universo animal, inova ao propor que sejam aquelas espécies a aconselhar as crianças e, em última instância, os Homens, enumerando princípios básicos de comportamento e de actuação. Sabiamente matizada, sobretudo pelos jogos linguísticos e pelo humor, a componente moralizante dilui-se num volume que traz, para o panorama literário português, ecos das associações nonsensicais que caracterizam a literatura tradicional infantil anglo-saxónica, conciliando, num mesmo livro, influências e tradições literárias distintas.

Ana Margarida Ramos

Universidade de Aveiro; membro associado do NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

domingo, 30 de agosto de 2009

“O Zbiriguidófilo e Outras Histórias” ou um trampolim oferecido ao espírito de quem escuta

“Les mots, les images ne s’offrent que comme trem­plins à l’esprit de celui qui écoute.

André Breton, Manifeste du Surréalisme

O entendimento da literatura para crianças como arte que revela e desnuda o homem nas diferentes fases da sua vida, e não apenas num primeiro estádio vital, a infância, através da presença do cómico, do humor e do não sentido, é o que encontramos no livro O Zibiriguidófilo e Outras Histórias, escrito por Pitum Keil do Amaral e ilustrado por Luísa Brandão (Edições ASA, 1991). Uma obra que nos propomos aqui recordar pela sua singularidade.

O livro é composto por cinco contos: “O Senhor que Lia o Jornal” (pp. 3-6), “O Zbiri­gui­dó­filo” (pp. 7-11), “O Menino e o Touro” (pp. 12-20), “Uma História de Pinguins” (pp.21-24) e “Uma História de Pira­tas...” (pp. 25-28). O título do macrotexto é dado pela segunda história, “O Zbiriguidófilo”, inaugurando a entrada do leitor em narrativas inscritas no mundo do “faz-de-conta” e, algumas vezes, às avessas, um mundo construído ao contrário, invertido e renovador de estruturas e valores narrativos instituídos. É também por isso que se inicia a leitura por aquela que será a primeira história das “outras histórias” e não por aquela que empresta o seu título à colectânea.

A inversão e o riso, tão presentes na infância, são também duas das categorias que marcam a obra. A primeira inversão dá-se na história que abre o livro, e logo a começar pelo seu título, “O Homem que Lia o Jornal”, indicando-nos, à partida, e se seguirmos as indicações dadas e definidas pela tipologia dos títulos, que a personagem principal será esse “Homem”.

Assim, “O Homem que Lia o Jornal” recria a situação, comum nas sociedades modernas, da falta de disponibilidade dos pais em relação aos filhos. Num mundo assustadoramente empreendedor, o pai desta “criança”, depois de um dia de trabalho, tudo o que deseja é chegar a casa, sentar-se e poder ler tranquilamente o jornal. No entanto, essa tranquilidade não é conseguida, pois “O senhor tinha um filho que era pequenino” (p. 3) e, persistentemente, pedia ao pai que “lhe contasse uma história” (p. 3), iniciando-se assim o drama familiar: “Ó Ilda – chamava o pai –, leva daqui esta criança, que eu não consigo ler o jornal” (p.4). Como o adulto, apesar das súplicas, não atendia ao seu pedido, a “criança” resolveu destruir o objecto da atenção do pai transformando o jornal, de uma das vezes, num chapéu, de outra vez num avião, o que enervou seriamente o pai e o levou a ir para a rua ler o jornal, longe do filho. Tão absorto estava na leitura que “(...) uma vez, ele vinha a andar, assim... e vinha um candeeiro em sentido contrário, assim... E... BOOING!” (p. 5). Da “porção de luzes a acender e a apagar” (p.5) que viu, uma iluminou-o: percebeu então que devia fazer um esforço por dar atenção ao filho e “Ficou então combinado que o pai contava todos os dias uma história ao filho, antes de ler o jornal” (p. 5). O senhor só conhecia as histórias que lia na secção desportiva do jornal, e era essas que recontava, e “o menino ouvia tudo com a maior atenção” (p. 6), e até ajudava a acabar as histórias gritando “– Go­oooo­ooooo­ooooo­olo!)” (p. 6). A mãe, Ilda, comovida com a cena familiar, “ficava também tão contente que até limpava uma lágrima de alegria no pano da loiça (o que é uma porcaria, mas enfim, uma vez por outra, não tem problema...)” (p. 6).

Tomando como exemplo esta pequena narrativa, podemos facilmente perceber que a moralidade se dirige mais aos adultos do que às crianças. Neste caso, o adulto que lê a história à criança poderá rever-se na pequena narrati­va. No plano da linguagem, encontramos um certo coloquialismo na narração e sobretudo em algumas expressões, o que estimula uma maior proximidade e participação, por parte da criança, na constru­ção dos sentidos da narrativa, pela via do entendimento. De realçar ainda dois passos do texto que constituirão, por razões diferentes, motivo de riso para a criança e que surgem de duas formas. Uma prende-se com a inversão da ordem natural das coisas: o candeeiro que vinha em sentido contrário – ou seja, não foi o pai quem chocou com o candeeiro que estava erguido e imóvel no passeio, sabendo a criança que os candeeiros não andam. A outra tem que ver com a infracção de sentenças éticas, representada pela mãe a fazer uma “porcaria”, limpando a lágrima ao pano da louça, quebrando assim uma regra de higiene que a criança à partida já aprendera – e se não aprendera, actua então aqui a máxima latina do ridendo, castigat mores.

A segunda narrativa (pp. 7-11) é marcada pelo insólito, pelo absurdo, pelo fantástico para o qual o nome “Zbiriguidófilo” remete. Não se trata aqui de fazer uso de um processo linguístico que permite amalgamar dois significantes pertencentes ou não a um mesmo campo semântico num só, mas de construir um termo cujo primeiro elemento isolado não oferece qualquer significado para além de um sentido hipoteticamente onomatopaico. Assim, em “Zbiriguidófilo”, apenas reconhecemos o segundo termo, “philos”, que etimologicamente significa “amizade, amor”. Sabe-se que o Zbiriguidófilo é um animal especial e que foi oferecido a um menino por “um tio, que viajava muito” e “lhe trouxe um dia o zbiriguidófilo, das ilhas Sandwich na Polinésia, escondido numa lata de bolachas (pois, como sabem, é proibido trazer zbiriguidófilos de lá” (p. 7). Os apartes coloquiais, por vezes parentéticos, do narrador/contador são elementos que assumem grande importância na construção desta narrativa em particular, mas que se observam em todas as outras presentes no livro, pois não só asseguram certa cumplicidade com a criança/ouvinte – conduzindo, consequentemente, a um pacto entre as duas partes, pacto esse absolutamente indispensável para a aceitação do absurdo como realidade – mas também inscrevem o texto escrito numa tradição oral, até pelo recurso complementar a suspensões, interrogações e exclamações. Prosseguindo na construção deste mundo fantástico, a criatura vinda das ilhas Sandwich (de notar também a genialidade na escolha deste nome, visto levar a criança a pensar num referente imediato e familiar, a sande, e não no primitivo nome das ilhas do Havai ou nas Ilhas Sandwich do Sul), essa criatura, dizíamos, “tinha várias cores e, quando o punham ao sol, mudava as cores dumas para as outras (de maneira que ficava sempre com as mesmas, mas trocadas – não sei se estão a perceber: onde antes era amarelo, ficava verde, e onde era verde ficava amarelo...)” (p.7). Não se está a descrever um dos possíveis processos de mimetismo, mas uma transformação que não existe e que adquire sentido apenas pela explicação dada e que será perfeitamente inteligível pela criança. Para além dessa fantástica característica, o zbiriguidófilo tinha de ser lavado “com uma mistura de sumo de tomate e pó de talco” e secado “entre as folhas do caderno de matemática, pois é isso que faz os zbiriguidófilos felizes. Os zbiriguidófilos adoram papel quadriculado” (p.8).

Depois de algumas peripécias engraçadas, o menino leva o seu animal de estimação para a escola e, “como era de esperar, fez um sucesso” (p. 11). Num acto instru­tivo, a professora resolve então procurar a entrada no dicionário para dar a definição correcta de zbiriguidófilo, como se estivesse certa da sua existência: “– Vou ler aos meni­nos o que diz aqui sobre os zbiriguidófilos... (...) ora... zbiriguidófilo... zbirigui­dó­filo... vem na letra Z... (...) – Não, não está na Z... Ah! Claro, vem na letra S... Sebiriguidófilo, evidente­mente...” (p. 11). Só a professora não compreendera, parafraseando Breton, que há palavras que não têm compromisso com a etimologia ou com o sentido do dicionário. As crianças, essas, despreocupadas com a dimensão normativa e reguladora do código linguístico, sabiam perfeitamente o que era um zbiriguidófilo e podem, por isso, seguir o conselho do narrador: “Agora, o melhor é irem para a cama, e sonharem com o zbiriguidófilo!” (p. 11).

A capacidade de estas histórias desconstruírem os esquemas da vivência, representados por conceitos e códigos rígidos, e, a partir do não sentido, e pela exploração da capacidade criadora e imaginativa das crianças, construírem mundos dentro do mundo é o aspecto mais marcante deste que foi o único livro de literatura para a infância escrito por Pitum Keil do Amaral – filho de Francisco Keil do Amaral e de Maria Keil, arquitecto de renome, actor ocasional, ilustrador também de alguns livros para crianças 1. E, contrariando observações feitas por António Manuel Couto Viana, em 1992 2, os outros textos, “O Menino e o Touro”, “Uma História de Pinguins” e “Uma História de Piratas...”, valem tanto quanto este a que o título confere destaque. E a não conclusão da última história não faz prova da não competência do autor, mas antes denuncia o seu conhecimento da arte da fantasia: o fechamento de um texto destinado à infância pode impor-se como censura e recusa ao direito de a criança, fechado o livro, poder dialogar com o onírico. Defender, portanto, tal posição é não aceitar que as narrativas para a infância, muitas vezes, “não se oferecem senão como trampolim ao espírito de quem escuta”.

Notas

1 Como, por exemplo, Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma (Porto: Figueirinhas, s.d.), dessa grande escritora que foi Irene Lisboa.

2 A. M. Couto Viana. Recensão de “O Zbiriguidófilo e Outras Histórias”, Rol de Livros, Fundação Calouste Gulbenkian, leitur@gulbenkian, http://www.leitura.gulbenkian.pt/index.php?area=rol&task=view&id=14098 (20/1/2008)

Ana Vasconcelos

(NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da Escola Superior de Educação do Porto)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

No aniversário (ontem) do seu assassinato, ler Lorca, que também escreveu para crianças

Federico García Lorca (1898-1936) nasceu em Fuentevaqueros, perto de Granada, e é considerado um dos maiores poetas europeus do século XX. A sua influência fez-se sentir em muitos poetas portugueses dos anos 30, 40 e 50, nomeadamente nos neo-realistas, em Eugénio de Andrade – que o traduziu admiravelmente –, mas também em Matilde Rosa Araújo, já nos anos 60.

Na muita e variada poesia de Lorca (Canciones, 1927, Romancero Gitano, 1928, Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, 1935, Poeta en Nueva York (1929-30), 1940, etc.), cruzam-se veios diversos: o simbolismo e os ritmos e temas tradicionais (designadamente de raiz popular e andaluza) mas também uma linguagem em que já são visíveis traços das poéticas de vanguarda das primeiras décadas do século XX (entre as quais se conta, por exemplo, o surrealismo, rótulo que todavia Lorca sempre rejeitou). Em boa verdade, a sua voz poética era verdadeiramente singular. Personalidade de grande encanto, simpatia e talento, Lorca era também músico e cantor, encenador, actor e desenhador, além de grande dramaturgo (exemplos: Bodas de Sangue; Yerma; A Casa de Bernarda Alba), tendo escrito alguns poemas para crianças como “Canção tonta”. Conheceu ou foi amigo de artistas como o realizador de cinema Luís Buñuel, o poeta chileno Pablo Neruda, o pintor Salvador Dali.

Refugiando-se em Granada para fugir ao ambiente de agitação que se vivia em Madrid, acaba por ser surpreendido pelo levantamento fascista do General Franco (início da Guerra Civil em Espanha). Os franquistas prendem-no na tarde de 16 de Agosto de 1936 e, na madrugada de 18 para 19, fuzilam-no num campo dos arredores de Granada. O seu corpo nunca foi encontrado. Esta trágica circunstância, aliada à memória da própria personalidade de Lorca, viria a contribuir para tornar este poeta uma figura mítica.

Muitos outros poetas o prantearam, em particular companheiros seus do chamado “Grupo de 27” (Alberti, Manoel Altolaguirre, Luís Cernuda, Vicente Aleixandre, etc.), alguns dos quais viriam, eles também, a ser encarcerados, a morrer precocemente ou então a exilar-se para fugir à perseguição franquista.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Para saber mais sobre o autor e ler poemas seus:

http://www.garcia-lorca.org/

http://www.terra.es/personal2/ortz74/Fgl/inicio.htm

CANÇÃO TONTA

Mamã.
Eu quero ser de prata.
.
Filho,
terás muito frio.
.
Mamã.
Eu quero ser de água.
.
Filho,
terás muito frio.
.
Mamã.
Borda-me em tua almofada.
.
Está bem!
Agora mesmo!
.

FEDERICO GARCÍA LORCA, Antologia Poética, Lisboa, Relógio d’Água, p. 37 (trad. de José Bento)