sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010): A Maior Flor do Mundo

Saramago deixou-nos um conto susceptível de ser lido como história para crianças e que foi magnificamente ilustrado por João Caetano, num álbum publicado pela Editorial Caminho.

Na Galiza, produziu-se e realizou-se um belo filme de animação baseado neste conto.

Aí fica o link – modesta forma de homenagear o grande escritor português que hoje nos deixou.

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http://www.youtube.com/watch?v=HcDaT03y2no

domingo, 6 de junho de 2010

Malasartes 19 já em distribuição

Eis algumas perguntas que poderíamos fazer a pais de filhos pré-adolescentes e adolescentes:

Conhece Alice Vieira? Os seus filhos terão lido Rosa, Minha Irmã Rosa, Viagem à Roda do Meu Nome ou Um Fio de Fumo nos Confins do Mar? Conhecem Álvaro Magalhães? Terão lido O Último Grimm, Guardado no Coração ou O Limpa-Palavras e Outros Poemas? E Manuel António Pina? Conhecem Os Piratas? Já ouviram falar dos livros de Ana Saldanha (por exemplo, Para Maiores de Dezasseis) ou do Diário de Sofia e C.ª (aos 15 anos), de Luísa Ducla Soares? E de Uri Orlev? Terão lido A Ilha na Rua dos Pássaros? Terão ouvido referências a Katherine Paterson e ao seu romance Lídia? E a Agustín Fernández Paz e aos seus livros O Laboratório do Dr. Nogueira ou O Centro do Labirinto? Experimentaram ler a série «Harry Potter», de J. K. Rowling? Ou os livros de David Almond? Já agora, e falando de clássicos, conhecerão A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson ou As Aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain?

A lista poderia ser muito maior. Falamos, como é óbvio, da chamada literatura juvenil, livros de ficção para pré-adolescentes e adolescentes, que, não raro, tematizam questões e problemas que aos jovens se colocam. Livros, em suma, destinados àquela faixa etária que, muitas vezes, após um período de convívio gratificante com os livros – entre os 3 e o 10 anos –, abandonam a leitura. Ou, pelo menos, dela se desinteressam durante um certo tempo, dado o peso que diversos factores psicossociais e fisiológicos têm na vida dos adolescentes. Nem todos, porém, deixam de ler. Outros regressam mais tarde ao convívio com os livros, pois não chegaram a perder a noção da importância que a leitura pode ter nas suas vidas. Saltam então, de imediato, para a literatura «para adultos», o que é encorajador. E bem andaríamos, também, se os próprios pais perdessem (ou ganhassem?) algum tempo a ler estas obras para jovens, bem como os livros recomendados pela Escola.

Neste número de Malasartes, reserva-se algum espaço à literatura juvenil: à grande escritora sueca Maria Gripe – será mesmo um exemplo de literatura para jovens? –, a An Alfaya e Agustín Fernández Paz e a mais alguns autores considerados na secção de recensões críticas de livros galegos. E, pelo seu indesmentível sucesso editorial (reclamando, por isso, um olhar analítico), focaliza-se, também, a colecção «Profissão adolescente», de Maria Teresa Maia Gonzalez, pese embora alguma reserva com que a crítica por vezes a tem encarado.

Hoje sobretudo conhecido por adolescentes e adultos – quando lido – é o díptico Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho. Muitos acorreram já às salas de cinema, tentando não perder a recente recriação cinematográfica destas obras. Mas irão ler os textos de Lewis Carroll? Só por si esta questão reclama um olhar crítico sobre a Alice de Tim Burton – um dos destaques do presente número da revista.

Os perfis da ilustradora Inês Oliveira e da escritora Ana María Fernández, a literatura dramática de João Paulo Seara Cardoso e a poesia de Nicolás Guillén para crianças, a par das habituais secções de Práticas e de leitura crítica de obras portuguesas, galegas e brasileiras constituem outros motivos de interesse deste número.

domingo, 23 de maio de 2010

António Modesto: uma introdução (a propósito da exposição de originais patente na Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia)

Quantas vezes tem sido citada a célebre interrogação de Alice que precede a sua entrada no País das Maravilhas: «Para que é que serve um livro sem desenhos nem conversas?» (Carroll, 1970: 25, trad. minha)? Sempre que nela tropeçamos, a pergunta vem recordar que, já no século XIX, a questão era pertinente: pode um livro para crianças impor-se sem ilustração? 1

Antes ainda de aprenderem a ler, é pela imagem que as crianças têm o primeiro convívio com o livro. Em relação às que já lêem, um rápido folhear para observar as ilustrações antecipa-se à entrega ao texto; em simultâneo, e a partir desse elemento paratextual, vai surgindo a primeira formulação de hipóteses sobre o conteúdo da narrativa, se é o caso. Convirá, por outro lado, lembrar que a escrita nunca esteve dissociada da imagem, da qual descende. E, como se pode ler em La Littérature d’Enfance et de Jeunesse: État des lieux, de Denise Escarpit e M. Vagné-Lebas (1988), a imagem é uma expressão mais imediata que o escrito, bebendo directamente nas fontes da psique e do imaginário.

Hoje, talvez mais do que no passado, existe uma consciência apurada de que as imagens de qualidade possuem o dom de despertar e desenvolver a sensibilidade estética dos mais novos. Em contacto com elas, a criança aprende a olhar, a familiarizar-se com as artes visuais e começa a educar o gosto. Por isso são tão importantes, também, as visitas guiadas a museus, desde as primeiras idades.

No panorama da ilustração portuguesa, António Modesto (n. Ponte do Abade, Aguiar da Beira, 1957) é, desde 1981, um dos artistas que mais têm contribuído para que tais objectivos se atinjam. É que as suas ilustrações não se limitam a «fazer sonhar o texto» – para utilizar uma velha expressão de Georges Jean; elas proporcionam à criança uma experiência criativa. Recorrendo a palavras de Denise Escarpit e M. Vagné-Lebas (1988: 162, trad. minha), poderia sintetizar tal experiência desta forma: «Se a imagem é um prolongamento do universo do artista, da sua personalidade, ela é também o prolongamento daquele que a olha, da sua própria cultura e sensibilidade. Não é só a criança que olha a obra; a própria obra olha-a, questiona-a. Entre elas, estabelece-se um verdadeiro diálogo.»

Fazendo o leitor imergir nesse universo muito próprio e inconfundível que é o seu, os objectos visuais de António Modesto que propiciam tal diálogo surgem em quase todos os livros que ilustrou, de O Ouriço-cacheiro Espreitou Três Vezes, de Maria Alberta Menéres (ASA, 1981, Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças – Ilustração, 1982) a Poesia de Fernando Pessoa para Todos (Porto Editora, 2008), passando pelo belíssimo Miguel, O Expositor (Afrontamento, 1983), de Ilse Losa, por O Retrato «em Escadinha» (Livros Horizonte, 1985), de Maria Alberta Menéres, O Homem que Não Queria Sonhar e Outras Histórias (ASA, 1988), de Álvaro Magalhães, O Homem que Tinha Uma Árvore na Cabeça (Porto Editora, 1991), de José Jorge Letria, O Macaco do Rabo Cortado (Civilização, 1992), de António Torrado, O Coração e o Livro (Ambar, 1993; 2.ª ed. com alteração das ilustrações, em 2003), Fábulas (Edinter, 1995), de La Fontaine, Bom Natal, Pai Natal! (Edinter, 1996), de José Jorge Letria, O Mistério da Floresta Mágica (Campo das Letras, 1999), de Arsénio Mota, Histórias Tradicionais Portuguesas (Ambar, 2000), organização de Ana Lourenço, Contos da Cidade das Pontes (Ambar, 2001), coordenação de José António Gomes, ou O Circo das Palavras Voadoras (ASA, 2001) e O Rapaz da Bicicleta Azul (Campo das Letras, 2004), ambos de Álvaro Magalhães, entre outros.

Muito fiel ao lápis de cor e à aguarela, mas com incursões também na coloração digital, tendo-se especializado na ilustração do conto, António Modesto – abra-se aqui um parêntesis necessário – viu o seu trabalho ser distinguido e premiado por diversas vezes. Destaquem-se o já referido Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças – Ilustração (ex-aequo), em 1982; a Menção do V Premi Internacional Catalònia de Il’lustració, Barcelona 1992; a circunstância de ter sido autor da mascote “Gil” da Expo’98 (com o escultor Artur Moreira) e vencedor do respectivo concurso (Lisboa 1993); as menções no The White Ravens, Internationale Jügend Bibliothek, de Munique, em 1994 e 1997; o Diploma de Honra do Prémio Iberoamericano de Ilustração, Sevilha 1994; a nomeação de um dos seus livros para a Lista de Honra do IBBY (International Board on Books for Young People), em 1998; e a nomeação como candidato português ao Prémio Hans Christian Andersen, 2002, pela APPLIJ (Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil).

Ao longo de cerca de 30 anos de ilustração, o trabalho de António Modesto foi evidenciando uma qualidade crescente, sempre marcada por um gosto seguro, por um extremo cuidado na composição e no uso da cor, e sustentada nessa arte do desenho que não poucos ilustradores actuais parecem ter esquecido (será mesmo esquecimento ou inépcia?). Pelo caminho têm ficado outros livros ilustrados que não mencionei, atractivas imagens para manuais escolares (que assim cumprem também a função de formar o gosto dos seus utilizadores) e «ilustrações» soltas – isto é, executadas sem haver um texto de base –, as quais, só por si, são histórias em potência, projectos a retomar, fragmentos de um cativante e muito pessoal universo de fantasia.

Voltando às palavras de Escarpit e Vagné-Lebas, nas ilustrações de Modesto, o leitor não é olhado apenas pela personagem, mas também pelo cenário, por toda uma atmosfera que pulsa e atrai na sua intensa vibração cromática, no seu poder de construir um mundo próprio em que apetece mergulhar. Esse cenário, no entanto, denuncia quase sempre a presença do homem. A beleza dos espaços junta-se, assim, aos sinais do humano para proporcionar à criança visões de um mundo possível, e recriar, para o adulto, o tempo dos devaneios juvenis e do sonho. Quando expostas, isoladas dos contextos para os quais foram criadas, isto é, desligadas da sua função utilitária – iluminar textos –, as ilustrações de António Modesto readquirem autonomia e convidam-nos a revisitá-las com um novo olhar, mais demorado e disponível. Encontramos, assim, condições ideais para fruir a sua intensa poeticidade lírica – sobretudo nos livros que ilustrou até à década de 90 do século passado – e também irrecusáveis pretextos para inventar novas histórias.

Meridional, a ilustração de António Modesto, em especial nas obras dos anos 80 e 90, é muito marcada pela luz mediterrânica, os tons claros, a presença do mar e de nuvens brancas num céu radioso, muitas vezes azul, e pela recorrente comparência do elemento vegetal. As influências, visíveis nos seus primeiros livros ilustrados (sobretudo em O Ouriço-cacheiro Espreitou Três Vezes) são ainda as de João Machado, de Dario Alves e da arte pop, com recurso por vezes à colagem ou à ilusão da colagem. A dimensão discretamente eufórica cede lugar, em livros posteriores, a um universo aparentemente mais disfórico, em tons mais escuros, bem como ao interesse pelos espaços interiores e pelo pormenor (de vestuário, de decoração), a que se juntam um humor subtil e a crescente inclinação para a caricatura de figuras humanas – que foi sempre um dos pontos fortes desta ilustração. A paixão pela pintura também parece acentuar-se, merecendo, por isso, especial referência. Detectamo-la quer em Histórias Tradicionais Portuguesas quer em Poesia de Fernando Pessoa para Todos, onde abundam jogos de hetero e auto-citação e se observa a tendência para dialogar quer com a grande tradição pictórica europeia – no primeiro caso, a pintura flamenga do Renascimento e Velásquez, por exemplo – quer com as vanguardas das primeiras décadas do século XX – Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Eduardo Viana, um certo Kandinsky, na segunda obra citada, em sintonia com a própria inscrição periodológica da poesia de Pessoa e com as estéticas que seduziram os olhares da geração de Orpheu.

Não obstante estas derivas, próprias de quem muito viu e leu, de quem já estudou muita pintura e conheceu numerosas e diversas experiências de ilustração – em suma, próprias de um ilustrador culto, atento à mudança, mas sem os tiques e o frenesim pseudo-vanguardistas e as pequenas ânsias de reconhecimento precoce que caracterizam ilustradores mais jovens –, não obstante tudo isto, creio que António Modesto nunca deixou, por um lado, de patentear o necessário respeito pelos textos literários que ilustra e a atenção que eles lhe merecem (diria que Modesto é sempre, e em primeira instância, um bom leitor). Por outro lado, sempre teve em conta o que é um livro para crianças – sem dúvida um dos seus objectos de eleição além do design – e de considerar como arte aplicada, em parte ao serviço de um texto, a ilustração do conto infantil ou do poema – não me refiro, portanto, aqui ao caso particular do álbum nem ao livro apenas com imagens. Ou seja, Modesto não é dos que embarcam nesse equívoco – esse estafado cliché com mais de trinta anos – segundo o qual o texto é apenas pretexto para não importa que desvarios ilustrativos. Respeita o destinatário preferencial da obra – a criança ou o jovem – e o seu trabalho evidencia sempre a preocupação com a legibilidade total do livro; por isso, a maioria das suas produções mais recentes deveria ser estudada na sua globalidade, isto é, no modo como, em cada uma delas, interagem e se complementam o texto literário, enquanto objecto semantico-pragmático, a ilustração e o design gráfico (incluindo, neste caso, o próprio texto enquanto imagem, os pequenos elementos ilustrativos que por vezes o circundam, as opções tipográficas, etc.).

António Modesto – recorde-se ainda – contribuiu para criar e impor o Prémio Nacional de Ilustração e deu a conhecer muitos jovens talentos, tendo apoiado com a sua palavra amiga, pedagógica e crítica – no sentido nobre do termo – o trabalho de muitos, vários deles seus antigos alunos. Em Portugal, foi pioneiro na criação, em licenciaturas, da disciplina de Ilustração e, enquanto professor associado, pioneiro também na orientação académica ou na arguição de mestrandos e doutorandos nas áreas do design e dos estudos de ilustração. Ousaria até afirmar que foi o primeiro e que não poucos estudantes de mestrado e de doutoramento recorreram ao seu apoio e saber.

Por tudo isto, pela direcção artística de colecções de prestígio (como a «Oficina dos sonhos», da Porto Editora) e, desde o ano de 1999, da primeira revista portuguesa de investigação e crítica de livros infantis, Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude, mas sobretudo pela superior qualidade do seu trabalho artístico, e pelo seu espírito independente, crítico mas sempre solidário, António Modesto é um mestre e bem merece, por isso, a homenagem que, em Maio de 2010, lhe é prestada pela Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, a cidade onde há muito vive e cria.

Nota

1 Retomo aqui, refundido e acrescentado, o texto, de minha autoria, «A escrita das imagens», publicado em Modesto (1992: [7]).

Referências bibliográficas

CARROLL, Lewis (1970). The Annotated Alice. Alice’s Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass by Lewis Carroll Illustrated by John Tenniel. London: Penguin Books (with an Introduction and Notes by Martin Gardner) (1.ª ed. de Alice’s Adventures in Wonderland, 1865).

ESCARPIT, Denise; VAGNÉ-LEBAS, M. et al. (1988). La Littérature d’Enfance et de Jeunesse: État des lieux. Paris: Hachette - Jeunesse.

MODESTO, António (1992). Ilustrações para Crianças. Porto: [Tipografia Arcanjo Ribeiro, Scra. & Filhos, Lda.].

Vila Nova de Gaia, 17 de Maio de 2010

José António Gomes

NELA – Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ilse Losa: breve perfil de uma autora a ler e reler

De origem alemã e ascendência judaica, Ilse Lieblich Losa nasceu em 1913, em Bauer, cidade próxima de Hanover. Tendo vivido a primeira infância com os avós paternos, frequentou o liceu em Osnabrük e Hildesheim e o Instituto Comercial em Hanover. Ao regressar à Alemanha, após um período em Londres tomando conta de crianças, vê-se obrigada a abandonar o país, dada a sua condição de judia. Escapa desse modo à perseguição nazi e, chegada a Portugal em 1934 (ano em que Hitler assume o poder na Alemanha), radica-se no Porto, casando com o arquitecto Arménio Losa e adquirindo a nacionalidade portuguesa.

Inicia, então, uma vasta obra escrita em português, a qual abrange romances inspirados, ou pelo menos enraizados, na sua experiência de vida – como O Mundo em que Vivi, 1949, Rio sem Ponte, 1952, Sob Céus Estranhos, 1962 (vívido retrato, também, do Porto dos anos trinta e quarenta) –, além de contos, crónicas, trabalhos de índole pedagógica (Nós e a Criança, 1954) e sobretudo literatura para crianças. Traduziu para português autores alemães, colaborou em diversos jornais e revistas e foi também uma divulgadora da literatura portuguesa na Alemanha. Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra para crianças e, em 1998, o Grande Prémio de Crónica, da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro À Flor do Tempo (1997).

Revelando permanente abertura à diversidade temática, de géneros e de perspectivas que deve caracterizar a produção literária para crianças, foi a partir de finais dos anos 40 do século XX que Ilse Losa contribuiu, com os seus contos, recontos de histórias tradicionais e peças de teatro (por exemplo A Adivinha: peça em quatro quadros, 1ª ed.: 1967; 2ª ed. refundida: 1979), para uma nova literatura portuguesa para crianças, enveredando muitas vezes por uma via «realista», de acentuada envolvência social, mesmo quando a voz que narra é a de um animal antropomorfizado, como sucede em Faísca Conta a Sua História (1949). Mas imbuiu também a ficção de dilemas morais e espírito crítico, sonho e sentido de esperança, numa escrita coloquial e despojada, pontuada contudo por expressivas comparações e prosopopeias e marcada por um uso rigoroso do adjectivo. Uma escrita que se abriu também ao maravilhoso, ao humor (v. Bonifácio, 1980) e a uma fantasia de cunho onírico (Viagem com Wish, 1984), sem nunca se esquivar a temas «problemáticos» como a guerra, a perseguição política e a tortura. Veja-se, a este propósito, o conto «Apesar de tudo», de A Minha Melhor História, ou ainda Silka, que é difícil não ler como uma parábola focada na questão da intolerância étnica e como uma dolorida meditação sobre o destino do povo judeu. De referir ainda que Ilse Losa dissertou sobre o livro para crianças em várias das suas crónicas jornalísticas, tendo sido pioneira no ensino da literatura para a infância no nosso país.

Beatriz e o Plátano (1976) (livro editado numa histórica e notável colecção de livros infantis que ela própria dirigiu – «ASA Juvenil» –, e que revelou muitos jovens autores, nas décadas de 70 e 80) é uma das primeiras narrativas portuguesas para crianças animadas do espírito do 25 de Abril, evidenciando também pioneiras preocupações ambientais e cívicas. Várias vezes reeditados até à sua morte, em 2006, livros de Ilse Losa como Faísca Conta a Sua História, Um Fidalgo de Pernas Curtas (1961), Um Artista Chamado Duque (1965), O Quadro Roubado (1977) (que não anda longe da estrutura do relato policial), a par de O Senhor Pechincha (a 1ª ed. de que temos conhecimento data de 1973, encontrando-se este conto incluído na 2ª ed. da colectânea Um Fidalgo de Pernas Curtas e Outras Histórias, com ilustrações de Júlio Resende) e ainda A Minha Melhor História (1979) e Silka (1984) constituem marcos na história da literatura portuguesa para a infância e juventude. O último original para crianças que publicou em vida, O Rei Rique e outras Histórias (1989; reeditado em 2006 pela Porto Editora), traz-nos cinco contos breves e divertidos, impregnados de fantasia, a que não falta uma crítica fina e actual a certos comportamentos sociais e até a respeitáveis instituições. Coloquial e discretamente desafiadora, a escrita de Ilse Losa irmana-se nesta última obra com as aguarelas e colagens de um grande pintor, Júlio Resende, que mais do que uma vez ilustrou os textos de Ilse e se afirmaria pela sua criatividade na ilustração de livros para crianças.

Hoje, esta escritora merece sobretudo que bibliotecas e escolas (designadamente as do Porto, cidade que a «adoptou») dêem destaque aos livros que nos deixou, à sua vida e escrita, encontrando modos de continuar a dar a ler tais livros aos mais novos, mantendo assim esta escrita viva e actuante. É que Ilse Losa foi, a vários títulos, uma voz inovadora e, a partir de 1949, concorreu, de maneira decisiva, para a renovação da literatura portuguesa dirigida aos mais pequenos, tendo sido, como se disse, uma das primeiras professoras (senão a primeira) de literatura para a infância na velha Escola do Magistério Primário do Porto. Foi, além do mais, uma assumida antifascista e democrata, que, dos anos 50 em diante, conviveu com uma notável plêiade de homens e mulheres que dinamizaram – com todas as dificuldades impostas pelo fascismo – a vida cultural, literária e cívica do Porto durante o terceiro quartel do século XX. Entre essas mulheres e homens, contam-se Óscar Lopes (que muito apreciava Ilse e sobre ela escreveu), Luísa Dacosta, Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, José Augusto Seabra, António Rebordão Navarro e tantos outros.

José António Gomes

NELA - Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto

sábado, 27 de março de 2010

Mensagem do 2 de Abril de 2010, Dia Internacional do Livro Infantil

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Mensagem do 2 de Abril de 2010, Dia Internacional do Livro Infantil

Um livro espera-te. Procura-o

Era uma vez

um barquinho pequenino,

que não sabia,

não podia

navegar.

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Passaram uma, duas, três,

quatro, cinco, seis semanas,

e aquele barquinho,

aquele barquinho

navegou.

Antes de se aprender a ler aprende-se a brincar. E a cantar. Eu e os meninos da minha terra entoávamos esta cantiga quando ainda não sabíamos ler. Juntávamo-nos na rua, fazendo uma roda e, ao despique com as vozes dos grilos no Verão, cantávamos uma e outra vez a impotência do barquinho que não sabia navegar.

Às vezes construíamos barquinhos de papel, íamos pô-los nos charcos e os barquinhos desfaziam-se sem conseguirem alcançar nenhuma costa.

Eu também era um barco pequeno fundeado nas ruas do meu bairro. Passava as tardes numa açoteia vendo o sol esconder-se à hora do poente, e pressentia na lonjura – não sabia ainda se nos longes do espaço, se nos longes do coração – um mundo maravilhoso que se estendia para lá do que a minha vista alcançava.

Por detrás de umas caixas, num armário da minha casa, também havia um livro pequenino que não podia navegar porque ninguém o lia. Quantas vezes passei por ele, sem me dar conta da sua existência! O barco de papel, encalhado na lama; o livro solitário, oculto na estante, atrás das caixas de cartão.

Um dia, a minha mão, à procura de alguma coisa, tocou na lombada do livro. Se eu fosse livro, contaria a coisa assim: «Certo dia, a mão de um menino roçou na minha capa e eu senti que as minhas velas se desdobravam e eu começava a navegar».

Que surpresa quando, por fim, os meus olhos tiveram na frente aquele objecto! Era um pequeno livro de capa vermelha e marca-de-água dourada. Abri-o expectante como quem encontra um cofre e ansioso por conhecer o seu conteúdo. E não era para menos. Mal comecei a ler, compreendi que a aventura estava servida: a valentia do protagonista, as personagens bondosas, as malvadas, as ilustrações com frases em pé-de-página que observava uma e outra vez, o perigo, as surpresas…, tudo isso me transportou a um mundo apaixonante e desconhecido.

Desse modo descobri que para lá da minha casa havia um rio, e que atrás do rio havia um mar e que no mar, à espera de partir, havia um barco. O primeiro em que embarquei chamava-se Hispaniola, mas teria sido igual se se chamasse Nautilus, Rocinante, a embarcação de Sindbad ou a jangada de Huckleberry. Todos eles, por mais tempo que passe, estarão sempre à espera de que os olhos de um menino desamarrem as suas velas e os façam zarpar.

É por isso que… não esperes mais, estende a tua mão, pega num livro, abre-o, lê: descobrirás, como na cantiga da minha infância, que não há barco, por pequeno que seja, que em pouco tempo não aprenda a navegar.

ELIACER CANSINO

Tradução: José António Gomes

Eliacer Cansino Macías (Sevilha, 1954) é professor de Filosofia numa escola de Sevilha, desde 1980, e autor de romances para jovens e adultos. Em 1997, recebeu o Prémio Lazarillo por O Mistério Velázquez, recriação da vida do anão Nicolasillo Pertusato e da sua relação com Velázquez. Em 1992, foi-lhe outorgado o Prémio Internacional Infanta Elena pelo livro Eu, Robinsón Sánchez, tendo naufragado, obra que foi também finalista do Prémio Nacional de Literatura Infantil, de Espanha. Em 2009, recebeu o Prémio Anaya de Literatura Infantil e Juvenil por Um Quarto em Babel. O lápis que encontrou o seu nome (2005). Tem muitos outros títulos editados.

A Mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil é uma iniciativa do IBBY (International Board on Books for Young People), difundida em Portugal pela APPLIJ (Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil), Secção Portuguesa do IBBY.

domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Luísa Ducla Soares: notas em torno da sua obra e, em particular, de cinco dos seus livros

Luísa Ducla Soares acaba de publicar o seu 100.º livro. Só nas últimas semanas, ficámos a conhecer três: No Dia da Criança (APCC, Dezembro de 2009); Provérbios Ilustrados (Civilização, 2009), uma recolha de textos proverbiais portugueses, ilustrados por Luísa Beato, a que se segue, na parte final da obra, a explicação de cada um deles; e Comprar, Comprar, Comprar (Civilização, 2010), um novo texto da autora em torno da vertigem consumista e da sua superação.

Focar a escrita de Luísa Ducla Soares (nascida em Lisboa, em 20 de Julho de 1939) é dar visibilidade a uma das criadoras mais singulares da nossa literatura contemporânea para a infância e a juventude. Uma obra que se reparte pelos modos lírico, narrativo e dramático, e por géneros, subgéneros ou modalidades literárias tão diversos como, entre outros:

- o poema para crianças, nonsensical e cómico ou de carácter socialmente interventivo (leia-se Poemas da Mentira… e da Verdade (Horizonte, 1983));

- o álbum narrativo – veja-se, por exemplo, Os Ovos Misteriosos (Afrontamento, 1994), parceria feliz com a ilustradora Manuela Bacelar que vai conhecendo sucessivas reedições;

- o conto para a infância, com incursões até na ficção científica, como sucede em Três Histórias do Futuro (Afrontamento, 1982) e O Rapaz e o Robô (Terramar, 1995);

- a narrativa juvenil sob a forma de diário ficcionado, numa linha de «realismo» social e psicológico patente em Diário de Sofia & Cª (aos 15 anos) (Civilização, 1994);

- o texto dramático – veja-se As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift (Civilização, 2001), adaptação livre do conhecido clássico do século XVIII);

- a adaptação de textos clássicos da literatura portuguesa;

- a tradução – leia-se a conseguida versão de Histórias em Verso para Meninos Perversos, de Roald Dahl, editada, em 1989, pela Teorema.

Vale a pena começar por recordar aqui alguns elementos biográficos 1: o nascimento em Lisboa, uma educação quase bilingue em que a língua e a cultura inglesas marcaram forte presença (o que sem dúvida influenciou a poesia da autora dirigida à infância, em especial as composições em que são visíveis laços intertextuais com as nursery rhymes e as children’s rhymes), a licenciatura em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa – onde integrou o grupo de poetas conhecido como Poesia 61 – e o início da actividade profissional como tradutora, consultora literária e jornalista, tendo sido directora da revista de divulgação cultural Vida (1971-2). Luísa Ducla Soares colaborou em diversos jornais e revistas e estreou-se com um livro de poemas, Contrato, em 1970. Foi adjunta do Gabinete do Ministro da Educação (1976-78) e trabalhou, desde 1979, na Biblioteca Nacional. Aí organizou numerosas exposições e foi responsável pela Área de Informação Bibliográfica. Sócia fundadora do Instituto de Apoio à Criança, escreveu guiões televisivos e concebeu sites da Internet dirigidos a crianças, nomeadamente para a Presidência da República durante o mandato de Jorge Sampaio. Elaborou para o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, para o Ministério da Educação e para a Fundação Gulbenkian pequenas publicações de cunho critico-divulgativo e selectivo sobre literatura nacional e internacional para crianças, área em que o seu saber é reconhecido. De referir ainda que várias composições poéticas da autora foram musicadas, tendo sido editado, em 1999, um CD com textos de sua autoria musicados por Suzana Ralha. O CD intitulou-se 25, pelo facto de ser composto por 25 canções e de a sua edição se ter enquadrado na comemoração dos 25 anos da Revolução de 25 de Abril. Luísa Ducla Soares desenvolve acções de incentivo à leitura em escolas e bibliotecas e participa com frequência em colóquios e encontros, apresentando conferências e comunicações sobre tópicos relacionados com os jovens e a leitura e sobre literatura para a infância e a juventude. Recusou, por motivos políticos, o Grande Prémio de Literatura Infantil que o SNI (o Secretariado Nacional de Informação da ditadura salazarista-marcelista) pretendeu atribuir-lhe pelo livro História da Papoila (1972), em 1973 (aliás, já tinha conhecido a prisão política, tal como o seu marido, Mário Sottomayor Cardia); mas recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro do biénio 1984-5 por 6 Histórias de Encantar, tendo sido distinguida com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua obra em 1996. Em 2004, a Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil (Secção Portuguesa do IBBY) propôs Luísa Ducla Soares como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen. A propósito de 6 Histórias de Encantar (Areal, 1985) – reeditado, em 2003, com o título Seis Histórias às Avessas (Civilização) – registe-se o gosto da autora pela recriação pós-moderna e algo subversiva de certos códigos do conto de fadas tradicional, visível também em A Menina do Capuchinho Vermelho no Século XXI (Civilização, 2007).

Nos últimos anos, a reedição dos contos mais antigos de Luísa Ducla Soares, com novos formatos e ilustrações, revela uma escrita vocacionada para o álbum destinado aos 4-7 anos, a que apenas faltaram, nas primeiras edições, as condições de publicação ideais. É o caso de O Urso e a Formiga (Civilização, 2002; ilustrações de Paul Driver). Em linguagem ritmada e pontuada por rimas internas, introduz-se, na história de um urso-formigueiro devorador, uma velha figura da literatura oral tradicional – a formiga Rabiga –, revelando-se que a perspicácia e a coragem dos pequenos podem vencer os grandes. As imagens sublinham o humor do texto.

Outra das obras mais conhecidas de Luísa Ducla Soares é O Soldado João (Estúdios Cor, 1973; ilustrações de Zé Manel), conto apresentado em formato de picture story book cujo protagonista, um jovem camponês dotado de saudável e ingénua espontaneidade, inverte e subverte os códigos da guerra: cumprimenta os inimigos, põe os exércitos em confronto a dançar ao som do seu cornetim, serve café a todos e apara os calos aos comandantes dos dois exércitos. De forma quase natural, a sua actuação contribui assim para retirar sentido ao conflito bélico. Note-se que a obra data de 1973, ou seja, de uma época em que, na sociedade portuguesa, a oposição ao absurdo da Guerra Colonial atingira o seu pico, em especial no meio estudantil e nos próprios meios militares. Assinale-se, a este propósito, que, já depois do 25 de Abril, mais precisamente em 1981, um outro autor, Leonel Neves, utiliza também a caricatura e o humor para, na linha de Luísa Ducla Soares, ridicularizar certos aspectos da instituição castrense e da sua rigidez hierárquica em O Soldadinho e a Pomba (Horizonte, 1981), cujo ingénuo protagonista traz inevitavelmente à memória o Soldado João. Uma reedição desta obra de Luísa Ducla Soares surge em 2001, com a chancela da Civilização, mas com ilustrações que a desfiguram e claramente prejudicam.

Em Mãe, Querida Mãe (Terramar, 2000; ilustrações de Pedro Leitão), a autora dá-nos um livrinho que, pelo seu pequeno formato, qualquer criança em idade pré-escolar pode transportar consigo no bolso. Propõe-se um curto texto bem-humorado e de estrutura anafórica, sobre os diferentes tipos psicológicos de mãe: a mãe-formiga («que só pensa no trabalho»), a mãe-papagaio («que repete sempre a mesma cassete»), a mãe-galinha («que guarda os filhos debaixo da asa»), etc.. Servem de suporte a estas dezoito definições metafóricas, animalistas e caricaturais, os desenhos coloridos e humorísticos de Pedro Leitão. A experiência repetir-se-á em 2003 com o título Pai, Querido Pai, também com chancela da Terramar.

O ilustrador destas duas obras concebe ainda as imagens que acompanham O Maluquinho da Bola (Horizonte, 2005). Um texto muito breve, aliado a uma ilustração convencional mas bem-humorada, conta a vida de um rapaz que nasceu, por acidente, num jogo de futebol e cuja existência gira (é a palavra exacta) em torno da forma esférica: desde o jogo infantil com bolas de papel feitas com folhas de caderno até ao casamento «com uma rapariga redonda», passando pelo trabalho numa fábrica de berlindes. Um livro para os muito pequenos, a que não falta graça e uma ironia plena de actualidade.

Em A Cavalo no Tempo (Civilização, 2003), e com belas ilustrações de Teresa Lima (ilustração), a autora (que fora nomeada, no ano de publicação deste livro, candidata portuguesa ao Prémio Andersen 2004) oferece-nos um dos melhores títulos de versos para a infância publicados em 2003, conjunto de composições em que se opta, quase sempre, por esquemas métricos, estróficos e rimáticos tradicionalizantes, com destaque para o recurso ao verso de redondilha maior. Sempre irreverentes e críticas em relação ao mundo de hoje, as composições de Luísa Ducla Soares atraem pelo ritmo cantante (algumas, aliás, haviam sido musicadas por Suzana Ralha e gravadas pelo Bando dos Gambozinos, como já foi dito). Mas também cativam pelo humor e pelo modo como acompanham os solavancos do tempo. Uma forma desconcertante – ou talvez não – de abordar o desconcerto do mundo: guerra e discriminações, solidão e consumismo, e as habituais contradições do pensamento dominante. Veja-se um exemplo (o poema «Minas») do tipo de composições que é possível ler em A Cavalo no Tempo e aprecie-se o modo simples mas eficaz como a autora – em época de conflitos bélicos – tira partido do jogo linguístico (neste caso, em torno do signo «minas» e dos seus diferentes significados):

Nos meus sonhos de menina

havia sempre uma mina.

.

Uma mina, um tesouro,

com pedrinhas todas de ouro.

.

Uma mina de brilhantes,

turquesas e diamantes.

.

Uma mina, uma nascente

de água fresca transparente.

.

Hoje ainda sou menina,

mas já pisei uma mina.

.

Tenho o sonho em estilhaços:

fiquei sem pernas, sem braços.

Outro exemplo dos versos para crianças de Luísa Ducla Soares, desta feita extraído da colectânea de poesia Conto Estrelas em Ti (Campo das Letras), que eu mesmo organizei em 2000, é o poema «Dia de Natal»:

Hoje é dia de Natal

mas o Menino Jesus

nem sequer tem uma cama,

dorme na palha onde o pus.

.

Recebi cinco brinquedos

mais um casaco comprido.

Pobre Menino Jesus,

faz anos e está despido.

.

Comi bacalhau e bolos,

peru, pinhões e pudim.

Só ele não comeu nada

do que me deram a mim.

.

Os reis de longe lhe trazem

tesouros, incenso e mirra.

Se me dessem tais presentes,

Eu cá fazia uma birra.

.

Às escondidas de todos

vou pegar-lhe pela mão

e sentá-lo no meu colo

para ver televisão.

Um humor que chega a explorar dimensões escatológicas ou que se volta para o nonsense tirando por vezes partido de jogos linguísticos paronomásticos e outros; um apurado sentido crítico cujo alvo é a sociedade contemporânea, escalpelizando-se com pertinência e graça (que chega contudo a ser amarga) o materialismo exacerbado, o consumismo, o preconceito racial e as relações dos adultos com as crianças; a preocupação com os conflitos bélicos e com a convivência nas novas sociedades multiculturais (leia-se o já citado Os Ovos Misteriosos e também Há sempre uma Estrela no Natal (Civilização, 2006)) – eis, em suma, alguns dos traços presentes nestes livros e que tornam peculiar a escrita de Luísa Ducla Soares para crianças e jovens.

Nota

1 Consulte-se: http://www.app.pt/nte/luisads/bio.htm; http://www.boasleituras.com/luisa/bibliografia.asp e http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADsa_Ducla_Soares (20-3-2008), onde é possível colher a maioria dos elementos biográficos aqui reunidos.

José António Gomes

NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)